segunda-feira, fevereiro 11, 2008

caderninho



Da reputação e da memória deixadas pelo meu progenitor: a reserva e o carácter viril. Marco Aurélio
Pensamentos para Mim Próprio (tradução de José Botelho).

O Vale do Riff - Joe Williams & Orquestra de Count Basie, «Alright, Okay, You Win»

domingo, fevereiro 10, 2008

A casa de meu avô... / Nunca pensei que ela acabasse! / Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Manuel Bandeira

esta semana há John Lennon

e Squeeze, Emerson, Lake & Palmer, Mahalia Jackson & Dinah Shore, Joe Williams com Count Basie

hype, hype...

sábado, fevereiro 09, 2008

12

Pede-me a Ana Vidal 12 palavras favoritas. Acho que não tenho uma palavra preferida, tenho muito mais de 12. Aqui vão algumas:
acervo
azul
bife
colo
compaixão
estepe
estúrdia
flanar
prândio
sangue
tempestade
voo

acordes diurnos

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Figuras de estilo - M. Teixeira-Gomes

Hoje explica-se a «alma grega»! Nunca o homem foi tão insolente, mesquinho e desprezível como hoje!


«Agripina»,
Inventário de Junho

O Vale do Riff - Horace Silver, feat. Junior Cook & Blue Mitchell, «Señor Blues»

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Antologia Improvável #286 - Sebastião Alba

QUANDO NASCEMOS ENTRAMOS

Quando nascemos entramos
no nome pela voz dos pais:
-- Dinis Albano...
Íntima e sonora identidade.
Chamam-me e volto a cabeça, dissuadido.
Na voz duma mulher
os nomes são
interiores a nós.
(Na dum polícia, desprendem-se,
como se apenas
os envergássemos).
Um amigo dirige-se-nos,
e as letras do nome
-- tu?!... -- correm de doçura.
Um dia, o nome,
por capricho duma veia ou dum fonema,
ocultamente, esvai-nos.
E por detrás dele,
alheados dos ritos,
nem sabemos da sua
cessação.

Noite Dividida
(foto)

O Vale do Riff - Mark Knopfler, «Speedway At Nazareth»

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

caderninho


Os amigos não são muitos nem poucos, mas o número suficiente. Hugo von Hofmannsthal
Livro dos Amigos (tradução de José A. Palma Caetano)

Os anos do Imperador

Vieira visto por Portinari (daqui)

Li algures que o Padre António Vieira foi o grande modernizador da língua portuguesa, o que me parece certo. Muito antes de Garrett, aliás.
Lembro-me de, há anos, ter assistido à recitação de um dos seus sermões, na Igreja da Misericórdia de Cascais, feita por um actor, a partir do púlpito. É uma sensação extraordinária presenciar aquele encadeamento das palavras e do pensamento, cheio de plasticidade e de sedução para com o ouvinte.
Longa vida ao Imperador da nossa língua, como o qualificou o Pessoa, nos seus 400 anos!

O Vale do Riff - John Lee Hooker, «Boom Boom»

terça-feira, fevereiro 05, 2008

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Os demónios do Kosovo

Com a vitória do candidato «pró-europeu» à presidência da Sérvia, veremos em que moeda vão pagar aos sérvios quer a UE quer os Estados Unidos.
A vitória foi escassa, 130 mil votos, mas não deixa de aliviar aqueles que no Ocidente se preparam para sancionar uma das maiores vigarices da política internacional dos tempos actuais.
O Kosovo é, como se sabe, uma província histórica da Sérvia. O problema kosovar foi criado por Tito -- um croata -- que, com o propósito de minar a preponderância sérvia na federação iugoslava, tira da cartola a criação de duas regiões autónomas -- o Kosovo e a Voivodina, a sul e a norte, respectivamente, e a segunda com uma forte minoria húngara --, regiões essas que passaram a ter representação no conselho federal com peso igual ao das restantes repúblicas. Deste modo, pensava Tito, haveria um maior equilíbrio, cortando-se eventuais veleidades à concretização duma Grande Sérvia.
Daqui resultou que uma província que, pela sua localização geográfica fronteiriça, concentrara um grande número de albaneses se veja, com a fragmentação iugoslava, no centro dum conflito étnico, em que os sérvios se tornam minoritários numa parte do seu próprio país.
O resto é o que se sabe. Do ditador Tito, que retalha o país a seu talante (outra das suas grandes asneiras, de consequências nefastas, foi a concessão de um estatuto nacional aos sérvios e croatas muçulamanos da Bósnia-Herzegovina...), ao comunista-nacional-demagogo-populista Milosevic.
Não há dúvida de que a Sérvia -- tornada bode-expiatório da crise iugoslava -- tem de sofrer as consequências de se ter posto sob as ordens de Milosevic. Mas é inaceitável que tal seja feito à custa do bom senso mais elementar, que é o de conceder "independência" a um território que será um estado inviável, necessitando de tutela internacional sob pena de se tornar um cóio de ladrões, traficantes e terroristas (mais do que já é), à custa da humilhação de uma nação inteira.
Se a Europa sancionar esta solução, como parece querer a Alemanha, não estará a resolver nenhum problema, mas sim a adiar uma nova guerra nos Balcãs. Consequências dela? Nem ouso antecipar.

O Vale do Riff - Simple Minds, «Ghost Dancing»

domingo, fevereiro 03, 2008

esta semana há Mark Knopfler

e também John Lee Hooker, Horace Silver Dr. Feelgood, Simple Minds

Figuras de estilo - Pinharanda Gomes

Acaso a queda adâmica afectou a própria divindade? Deus sofreu com a queda original do homem que criara?


«Os 50 anos de A Missão de Ferreira de Castro»,
Imagens de Literatura e de Filosofia

acordes diurnos

hype, hype...

sábado, fevereiro 02, 2008

Antologia Improvável #285 - António Barahona (4)

MATRIMÓNIO DAS LUZES

XI

Que a vida chega ao fim, em qualquer momento,
não é novidade nenhuma nem sequer um susto,
mas apenas consciência do luto prévio
e previdente pano de fundo do meu trabalho

Que a vida chega ao fim, que pode ser princípio
e outras frases que tais que trazem água no bico,
não é novidade nenhuma para quem é um passarão
disposto a não morrer mesmo depois de morto

Que a vida não me chega e só o amor alcança
sem medir a distância e a duração do voo

Remédios, 30.X.90


Noite do Meu Inverno

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

estampa CXXVI

D. Carlos I, Sobreiro
Fundação da Casa de Bragança, Vila Viçosa

O rei ousou afrontar a politicalha monárquica, desviando-se do seu papel de moderador constitucional, ao impor João Franco como chefe do governo, em ditadura. Porque razão teve ele de o fazer, remete-se para o caos institucional em que o chamado rotativismo lançara o país. D. Carlos deixou aqui de obedecer à fórmula constitucional «o rei reina mas não governa», para assumir, por interposta pessoa, os escolhos da governação. Tal atrevimento não poderia ficar sem reacção: José Maria de Alpoim e o Visconde da Ribeira Brava (por ironia, antepassado directo da actual Duquesa de Bragança), membros destacados do Partido Progressista (do bacoco José Luciano de Castro, patrono do agora célebre Hospital de Anadia), que após o 5 de Outubro se passariam para o novo regime, estão implicados nesse acto bárbaro, perpetrado por um bando de fanáticos carbonários. Sabe-se hoje, depois do estudo sobre o regicídio levado a cabo por Miguel Sanches de Baena que as Winchester que atentaram contra as vidas do rei e dos príncipes foram compradas por Ribeira Brava, que a 1 de Fevereiro estava preso por participação no golpe de 28 de Janeiro. Alpoim, que conseguira escapar-se para Espanha, estava em Salamanca, com Unamuno, quando teve notícia do assassínio. «Mataram o cão!», disse o Alpoim ao grande mestre salamantino, que mais tarde o recordou, escrevendo a seguir: «Fiquei gelado»...
A fraqueza institucional do rei esteve em não ter o respaldo e a legitimidade do sufrágio universal. Mas esse era um problema do regime, não do homem. Este, um grande diplomata, um pintor de mérito, um oceanógrafo pioneiro, «abatido como um cão a uma esquina de Lisboa» -- como escreverá Raul Brandão nas suas Memórias --, foi assassinado pelas suas qualidades: a de não poder sancionar o regabofe da politicalha.
Dois anos depois, com mais ou menos retoques, mudavam as moscas.

O vale do Riff - Buddy Rich, «Time Check»

quinta-feira, janeiro 31, 2008

animais

animais, no silêncio com que comemos
animais, na marcação do território
e animais, quando desafiados por um olhar

O Vale do Riff - The Shadows, «F.B.I.»

quarta-feira, janeiro 30, 2008

caderninho

Importunamos os outros se lhes pedimos a respeito do que escrevemos a sua opinião; ofendemo-los se não lha pedimos. José Bacelar
Revisão 2 -- Anotações à Margem da Vida Quotidiana

O Vale do Riff - The Doors, «Break On Through»

terça-feira, janeiro 29, 2008

capismo

Armando Alves, capa de Noite de Fogo, de João de Araújo Correia
Editorial Inova, Porto, 1974

Caracteres móveis - Joseph Conrad

Dizem que um nativo não fala com um branco. Falso! Nenhum homem fala com o seu senhor; mas a um viajante e a um amigo, a quem não vem para ensinar nem governar, a quem nada pede e tudo aceita, dizem-se essas palavras junto às fogueiras dos acampamentos, na solidão partilhada pelos mares, em aldeias fluviais, em clareiras rodeadas de florestas, dizem-se palavras que não têm em conta a raça nem a cor. Um coração fala e outro escuta; e a terra, o mar, o céu, o vento que passa e a folha que treme ouvem também a insignificância da história do peso da vida.



«Karain: uma recordação»
Histórias Inquietas

(tradução de Carlos Leite)

O Vale do Riff - Carole King, «It's Too Late»

segunda-feira, janeiro 28, 2008

domingo, janeiro 27, 2008

Antologia Improvável #284 - João de Barros (7)

VIDA VITORIOSA

Foi uma vida vitoriosa, é certo,
A vida que vivi nesta jornada,
-- Não da vitória que se vê de perto,
E que se alcança, apenas desejada.

Não do triunfo que sorri, incerto,
E logo é fumo, e é pó, e é cinza, e é nada,
-- Mas doutra glória que ao meu peito aperto,
E só eu vejo, pura e recatada.

Porque em silêncio conquistei, lutando,
-- Quantas vezes perdido e miserando,
Quantas vezes vencendo a própria dor --

Esta alegria de passar na vida
Sendo uma força, que jamais duvida,
E uma voz clara como a voz do Amor!


Vida Vitoriosa

esta semana há Billie Holiday

William P. Gottlieb
(e também Carole King, Buddy Rich, Shadows & Doors)

quinta-feira, janeiro 24, 2008

caderninho


[..] o escritor mais não é do que alguém possuído pelo espírito da linguagem. Novalis
Fragmentos São Sementes (tradução de João Barrento)

são, sim senhora!



A T, do Dias que Voam teve a gentileza de dizer ao mundo que este é um blog(ue) muito bom, gesto que me sensibilizou. O pior foi ter de escolher (só) cinco assim mesmo bons, daqueles mesmo bons... Ainda pensei nomear os meus outros três blogues: A Caverna de Éolo, o Ferreira de Castro e a sublime porta, muito tentador (se eu não for o primeiro a gostar dos meus blogues, quem gostará?...), pois passaria largos dias a brincar comigo mesmo, com nomeações e contra-nomeações, sem ter de me preocupar com postagens... :) Mas atenho-me disciplinadamente às regras e arrisco escolher cinco entre (pelo menos) 50 que poderiam aqui marcar presença. E são eles: Aldina Duarte, Atlântico Azul, Pastéis de Nada, Ofício Diário e There's Only 1 Alice. Agora, quem quiser que nomeie mais cinco.

O Vale do Riff - Caravan, «For Richard»




quarta-feira, janeiro 23, 2008

Antologia Improvável #283 - Alberto de Lacerda (6)

Os poemas de amor hão-de morrer
Hão-de morrer os teus cabelos
A tua maneira de baixar os olhos
A brisa que brilha às vezes
De encontro às tuas palavras

Pássaros de diáfano
Sangue
Luminoso
Os versos que pertencem
Nem a uma vida nem a outra morte


Oferenda II
(foto)

O Vale do Riff - Lee Konitz & WDR Big Band, «Lazy Afternoon»

segunda-feira, janeiro 21, 2008

domingo, janeiro 20, 2008

Caracteres móveis - Émile Zola

A tal escada ao fundo ainda era mais abominável do que as outras, os degraus todos empenados, as paredes viscosas, como que encharcadas por um suor de angústia. Em cada patamar os canos sopravam um hálito de peste, e de cada habitação saíam queixumes, questões, um horroroso nojo de miséria. Uma porta bateu, apareceu um homem, arrastando uma mulher pelos cabelos, enquanto três rapazes choravam. No andar superior, foi num quarto entrevista apenas a visão duma rapariga muito enfezada, a tossir, com a garganta já atacada, passeando violentamente uma criancinha de mama, para a fazer calar, desesperada por já não ter leite. Depois, foi ainda, num aposento ao lado, a vista pungente de três criaturas, meio vestidas de andrajos, sem sexo nem idade, que, no meio da nudez absoluta do quarto, comiam glutonamente, pela mesma tigela, uma mistela que os próprios cães teriam recusado. Mal levantaram a cabeça, rosnaram e não responderam às perguntas.


Paris
(tradução de Pandemónio)

esta semana há Caravan

uma semana do caraças com este alinhamento:
Benny Goodman (c/ Lionel Hampton & Mel Powell), Billy Joel & Elton John, Lee Konitz, Caravan e Sex Pistols

hype, hype...

Dead Confederate, Shadow The Walls ,
tirado daqui

sábado, janeiro 19, 2008

Antologia Improvável #282 - João de Barros (6)

Àqueles que sabem
e querem amar o
Futuro:

Foge o Presente, foge às mãos sequiosas
De cingi-lo, apertá-lo ao coração,
E as horas correm, tão vertiginosas,
Que mal as vemos, no seu turbilhão...

Umas dão sonho, noutras nascem rosas.
Sonhos e rosas -- porque nascerão?...
-- Como a volúpia incerta que tu gozas
Deixam saudades só, meu coração!

E é sempre esta saudade, esta agonia
De não viver a vida fugidia,
De ver fugir desejo, amor, verdade...

-- Mas o Futuro vela... E, fielmente,
Colhe as horas mais belas do Presente
E delas tece a nossa Eternidade!


Anteu

estampa CXXIV

Pierre-Auguste Renoir, Os Guarda-Chuvas
National Gallery, Londres

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Aqueles, que eu amei, não sei que vento / Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Antero de Quental

O Vale do Riff - Joe Lovano, George Mraz & Al Foster, «His Dreams»

Figuras de estilo - Alberto Ferreira

O ganir dum cão nos fundos agoirentos da noite, entre as hortaliças e os milhos, um estremecimento, uma fuga, uma vaga sensação de nojo, um gosto enjoativo, oriundo dos cheiros bestiais, mesclados de ranço e estearina, ervas secas e odor de mulher mal lavada. É assim o nosso interior medieval, à espera que um arrepio nos levante a espinha...


Deambular ao Lusco-Fusco

terça-feira, janeiro 15, 2008

Antologia Improvável #281 - Saul Dias (5)

TARDES

Tardes de outrora
tão macias, quietas
como nuvens de algodão azul!...
(mas, lá no fundo,
escondendo setas
que me ferem ainda...)

tardes de hoje,
tratai as minhas feridas
com pensos de algodão azul...

Obra Poética
(edição de Luiz Adriano Carlos)

O Vale do Riff - Joe Jackson, «It's Different For Girls»

segunda-feira, janeiro 14, 2008

domingo, janeiro 13, 2008

Mal temos tempo de envelhecer um pouco, e eis que o nosso passado se torna história, que a nossa história individual pertence à história. [...] A história corre-nos atrás dos calcanhares. Segue-nos como a nossa sombra, como a morte.


Não-Lugares
(tradução de Miguel Serras Pereira)

esta semana há Ruts

hype, hype...


Dropkick Murphys, I'm Shipping Up To Boston

sábado, janeiro 12, 2008

estampa CXXVIII

Mário Eloy, A Velha

Antologia Improvável #280 - José Tolentino Mendonça (4)

O FIO DE UM CABELO

Abandono a casa o horto o lugar à mesa
o casaco de que gostava, sobre o leito dobrado
esta verdade quase banal
que toda a vida fui

Não abro a porta quando batem
(às vezes batiam só por engano)
não avalio o balanço das certezas
o que separa uma forma da outra
sempre me escapou

Ontem começava a clarear
o ar frio que vinha dos campos
julguei-o de passagem e afinal
era um segredo que meu corpo
de uma vez por todas contava
ao meu corpo

Mas quando tombei sobre a terra
perdido como um fio de cabelo
(aqueles que primeiro caem
da cabeça de um rapaz
e por não serem notados
são mais perdidos ainda)
estavas junto de mim

Lançaste ao fogo cidades
afogaste os exércitos
no vermelho mar da sua ira
hipotecaste terras tão preciosas
para estares junto de mim


De Igual para Igual

sexta-feira, janeiro 11, 2008

capismo

capa de Bernardo Marques para
O Voo nas Trevas, de Ferreira de Castro
Porto, Livraria Civilização, 1927

acordes nocturnos


O Vale do Riff - Rush, «The Spirit Of Radio»

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Viva Chávez (pelo menos por hoje)!

Excelente notícia a libertação das reféns colombianas das FARC!
Não me importa agora o que de calculismo político e limpeza de imagem -- após a humilhação que lhe foi infligida por Juan Carlos e o desaire no referendo -- possam, eventualmente, ser a razão desta felicíssima iniciativa. Espero que ele use a sua influência para libertar Ingrid Betancourt e todos os outros reféns, especialmente os americanos. Era bonito.

O Vale do Riff - Duke Ellington, «It Don't Mean A Thing (If It Ain't Got That Swing)»

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Figuras de estilo - Ferreira de Castro

Faltava-lhe o ar, como se no quarto o bafo ardente dum forno lhe crestasse a garganta e lhe pusesse murmúrios nos ouvidos. Vestiu-se apressadamente e saiu para o corredor, logo para a saleta desbotada da hospedaria, com o sofá desconjuntado, rota a palha das cadeiras e na parede dois calendários da «Booth Line» -- dois navios empenachados de fumo.


A Selva

O Vale do Riff - Terry Gibbs & Buddy De Franco, «Love For Sale»

terça-feira, janeiro 08, 2008

Antologia Improvável #279 - João Candeias

SENTIDOS

Parou, recolheu a areia entre os dedos
que deixou escorrer como cascata breve.
O horizonte ardia-lhe nos olhos à distância
de focagem dos oásis, quando o sol destila miragens
no desespero do poema.
Ergueu-se, navegou os sentidos pelas dunas
pelos répteis que se refugiavam
nas sombras mínimas da rebentação da luz.
Teve sede, espremeu o cantil.
A última gota de água escorreu-lhe pelo peito
numa estranha agitação de nascente.
Retomou os passos dos negreiros, pensou nos
passos dos negreiros, longas caravanas como
chicotes sinuosos. O passado estalava sobre
os corpos doridos e sedentos. Não sabe
se caiu se o arrastaram delirando.
Agora o poema põe-no sob tamareiras
onde Deus dá guarida aos profetas.
Bebe água fresca de sombra nos riachos.
Come tâmaras maduras. Os beduínos
de bronze encaminham-no à terra
da promissão

Voltei à Casa Pequena

O vale do Riff - The Beatles, «Yesterday»

domingo, janeiro 06, 2008

Afasto-me, para muito longe / e deixo-te nenhum rancor.
Li Bai / António Graça de Abreu

hype, hype, hurrah


Alex Gopher, Brain Leech
Topei-o no The Hype Machine

esta semana há Duke Ellington

(foto de Gordon Parks)

sábado, janeiro 05, 2008

Antologia Improvável #278 - Olga Savary

CERNE

Nada a ver com a fonte
mas com a sede

Nada a ver com o repasto
mas com a fome

Nada a ver com o plantio
mas com a semente


In Antologia da Novíssima Poesia Brasileira
(edição de Gramiro de Matos e Manuel de Seabra)

Figuras de estilo - Carlos Malheiro Dias

Conhecia a corte, o que havia a esperar de um príncipe educado entre frades, em coros de convento e sacristias de igreja, e a quem causava náuseas uma hemorragia de nariz. Vira-o melancólico e doente, acometido de vertigens, com as pernas inchadas, refugiado na câmara a solfejar cantochão ou entretido em conciliábulos de piedade e intriga com o guarda-roupa Lobato. Sem aspirações de rei, medrara nos paços da Bemposta, de Queluz e de Mafra como uma planta frágil, para ser um infante bondoso e inútil. Não o fadara Deus, nessa era de guerra universal, com têmpera aguerrida e rixosa. Em redor dele gravitava uma nobreza ambiciosa e intrigante, esgotadora do erário, exasperada de predomínio, absorvendo todos os cargos lucrativos e decidida a sacrificar o regente à sua gula de poder e de oiro. Os políticos eram criaturas omnipotentes e despóticas, formalistas e néscias, ocupadas em construir fortunas pessoais e a drenar o tesoiro em proveito das famílias. Nenhum grande vulto dominava os conselhos da coroa. Portugal podia ser dizimado. Os ministros encolhiam os ombros. Os seus latrocínios igualavam a sua indiferença.



Paixão de Maria do Céu

Caricatura de Arnaldo Ressano

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Antologia Improvável #277 - Manuel de Freitas (4)

GOULD, 1981

Deixo-vos isto
em morte.
Dedos como nunca mais,
o que demasiado sabemos
-- por falta de saber,
por nada.

Mostrei, com extremo vagar,
o inventor de Deus,
um homem como eu.

Não, não é bem assim.
Não há homens como eu.
Prefiro a noite
de que sou feito
e fujo.
Canadiano, morto,
quase posso jurar que existi.
Büchlein für Johann Sebastian Bach

Outros tons - Maria Bethânia, «Adeus»

acordes diurnos


terça-feira, janeiro 01, 2008

Caracteres móveis - O. Henry

A alma do homem mostrou-se de repente como uma cara sinistra à janela de uma casa honrada.


Os Caminhos que Tomamos
(tradução de Fernando Pessoa)

Outros tons - José Afonso, «A Morte Saiu à Rua»

estampa CXXVII

Marc Chagall, Por Cima da Cidade
Galeria Tretiakov, Moscovo