sábado, Outubro 25, 2014

a sombra dum sorriso

«Não há dúvida: a Primavera chegou. os pessegueiros estão floridos, as glicínias se debruçam sobre o muro, o menino doente já mostra no rosto magro a sombra dum sorriso.»

Erico Veríssimo, Clarissa (1933)

sexta-feira, Outubro 24, 2014

estampa CLXXXIV - Alfredo Ambrosi


Retrato de Benito Mussolini Frente a uma Vista Sobre Roma (1930)
colecção particular

quinta-feira, Outubro 23, 2014

o plágio

Mil vezes preferiria escrever asneiras, a brilhar à custa de terceiros, ocultando a origem desse pretenso brilho. É mais do que uma questão de honestidade; é mesmo vaidade, amor-próprio, o que se quiser. Eu gosto de me olhar ao espelho a qualquer hora do dia, porra. 
Mal comparando é como a canção do bandido: um tipo que conquista uma mulher, fazendo-se passar por coitado, não passa disso mesmo: um coitado, um merdas. Assim com o plágio... 

ANOTHER GIRL, ANOTHER PLANET



AFTER MIDNIGHT



quarta-feira, Outubro 22, 2014

não havia necessidade

Eu até percebo que, por razões de civilidade e elegância, um deputado português, que não correligionário, aplaudisse o último discurso de Durão Barroso no Parlamento Europeu. Fazê-lo de pé, como sucedeu com Assis, é que, atendendo à personagem, me parece excessivo.

a responsabilidade do dom

Rui Chafes, Entre o Céu e a Terra (2013). O livro reúne duas intervenções do escultor, reflectindo sobre a Arte em geral, e a sua em particular. E executa-o com grande profundidade e uma solidez de escrita que encarreira ambos os textos para a categoria de obras literárias, que irrefutavelmente (também) são.
Em «A história da minha vida», Chafes concebe um escultor nascido na Francónia medieval do século XIII e que, sem limitações de tempo e de espaço, deambula entre o Norte e o Sul da Europa ao longo de mais de meio milénio, trabalhando e aprendendo com os mestres de cada época -- dos artistas das catedrais  francesas aos pré-românticos alemães. Trata-se de uma autobiografia estética, em que as inquietações e os desígnios de Chafes enquanto artista são equacionados. Como exercício estético, associo-o a Orlando, romance de Virginia Woolf e a A Arca Russa, filme de Alexander Sokurov.
O segundo texto, «O perfume das buganvíleas» é constituído por 46 fragmentos, cada um susceptível de comentário desenvolvido. Direi apenas que encontro uma marca estóica no encarar, no apreender e no justificar da morte ("A beleza é impossível sem as marcas da morte", p. 40); a consciência do dom e a responsabilidade ética que implica, acompanhada de nostalgia por uma pretensa época dourada, com o inevitável questionamento da desumanização da sociedade mercantilizada que nos coube viver, e em que o consumo se estende à arte. 
Prezo ainda a consequência que é retirada: a do artista (só não escrevo verdadeiro artista porque me lembra o Serafim Saudade) como elemento de resistência e sanidade em face da poluição mercantil que nos condiciona.  

segunda-feira, Outubro 20, 2014

sem que estivesse à espera

«Por um momento, o voo da ave de rapina é um traço negro na paisagem morena da planície. E só o homem, pela janela, vê o assalto. Tem uma pequena agitação, dá dois passos em direcção à rua, eleva instintivamente os braços como a querer seguir o rumo do pássaro no infinito e depois recolhe-se de novo ao fundo da casa.»

Antunes da Silva, Suão (1960)

ALL IS LONELINESS



sábado, Outubro 18, 2014

THE BIG LEBOWSKI / O GRANDE LEBOWSKI, Joel & Ethan Coen (1998)


Colecção de cromos; um divertimento. Jeff Bridges com interpretação extraterrestre.



sexta-feira, Outubro 17, 2014

a quadrilha da TDT -- "Então, ninguém vai preso?!..."

A minha ingenuidade, a minha boa-fé, a minha burrice continua a ser posta à prova com as sucessivas revelações da gatunagem que toma conta deste país. 
A reportagem do «Sexta às 9» de hoje, sobre a vigarice obscena da TDT perpetrada pela PT/MEO, com a incompetência e/ou a cumplicidade da Anacom, mostra que, ao contrário do que se passa na cosmopolita Lisboa, centro e periferia dos esquemas manhosos da Banca e das trapalhadas do Banco de Portugal e da CMVM, na província -- desertificada, pobre, idosa e com pouca instrução --, os vigaristas nem sequer se dão ao trabalho de disfarçar. 
Os aparelhos da TDT não funcionam, as pessoas são levadas a contratar serviços da tv por cabo, quem não o fez ou não tem televisão ou recebe as emissões com muitas deficiências. O programa mostra também o quanto as televisões portuguesas, em especial a RTP, pagam mais do que as suas congéneres estrangeiras. Mais ainda, o cúmulo da trafulhice neste caso de polícia: em Portugal, os utentes da TDT só têm acesso a quatro canais RTP 1 e 2, SIC e TVI; basta ir a Espanha e ver que a oferta é o dobro ou o triplo. Porque será?
Portugal continua a ser gerido, a vários níveis, por indivíduos pouco recomendáveis. O abuso, o roubo, a extorsão são tão grosseiros, a falta de respeito pelas pessoas é de tal forma dolosa que a tutela (o Governo, este e o que se lhe seguir) ficará gravemente comprometida se não investigar o esquema a pente fino, abrir inquéritos com vista a processos disciplinares e participação criminal dos quadros dirigentes da Anacom e da PT que duma forma inqualificavelmente reles ludibriaram uma parte da população. Não é só no caso dos submarinos, das ppp's, do BPN, dos BES que temos de perguntar: "Então ninguém vai preso?!..."
Bem podem falar do ditador da Guiné-Equatorial e do filho com tiques de proxeneta; ou da corrupção em Angola e dos generais mafiosos. É em episódios como este que se vê como Portugal está a saque, e que na classe dos gestores, públicos e privados, por muito engravatada que se apresente, prevalece o tipo sebento e mal acabado do burlão.
Nunca como hoje as palavras incisivas do fotógrafo espanhol García-Alix me pareceram tão bem ajustadas à elite (de pacotilha) que dirige país. 
E não se pode exterminá-los?

quinta-feira, Outubro 16, 2014

em cristianíssimo ripanço

«Tarde de infinita benignidade -- era nas vésperas de Nossa Senhora de Maio, quando ela de andor ao céu aberto avista tudo verde em redondo -- ali apetecia gozá-la com cristianíssimo ripanço ao passo moroso da digestão.»

Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1922)

quarta-feira, Outubro 15, 2014

auto-de-fé íntimo

«Ficou só um castelo de cinza crepitando mansamente, num silêncio de redoma. Como era doloroso ver arder uma carta: era como se ardesse também alguma coisa, ainda alguma coisa, de quem a mandara!»

Urbano Tavares Rodrigues, Bastardos do Sol (1959)