sábado, Novembro 22, 2014

um blogger passeia-se

1. Creme de abóbora e salva  













2. Sketches from the beach IV  


3. Ars Poetica #9  

tenho saudades do Abelaira

«Nem grande escritor, nem filósofo, nem cientista, mas um desses homens que, embora sem génio criador, souberam perceber qual é a orientação dos ventos. Um jornalista de qualidade, diríamos hoje. E, neste sentido, talvez a expressão soube perceber também se revele incorrecta. Não terá percebido nem deixado de perceber. Tanto poderia afirmar que A é B como A não é B. Mas disse que A é B e acertou sem dar por isso porque a História também escolheu que A é B. Se quiserem: atirou uns tiros ao acaso e caiu um pato.»

Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso (1982)

sexta-feira, Novembro 21, 2014

ALL THAT YOU HAVE IS YOUR SOUL




a ameaça a aproximar-se

«Na sala, o homem sentado à mesa de vinhático levanta-se e verifica a janela: caixilhos de castanho, misagras de ferro antigo, sustentam as vidraças cheias de imperfeições (nódulos, bolhas, distorcem a visão), mas duma espessura sólida capaz de resistir.»

Carlos de Oliveira, Finisterra (1978)

terça-feira, Novembro 18, 2014

criador & criatura


V. T. Hamlin e Alley Oop (Brucutu)


segunda-feira, Novembro 17, 2014

tão rubro, tão jucundo

«E pelos rasgões do chambre, um seio branco, rechonchudo, com mais vergonha que se o próprio Santo António lhe publicasse os segredos, mostrava o mamilo, tão rubro, tão jucundo como o morango primeiro que pinta no morangal.»

Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

o meu LEFFEST 2014 (12)

Nuri Bilge Ceylan, Sono de Inverno, Turquia e França, 2014 ("Selecção Oficial -- Fora de competição").
                                                    ...ou Bergman na Anatólia.
Haluk Bilginer é um actor admirável.

domingo, Novembro 16, 2014

o meu LEFFEST 2014 (11)

Pedro Costa, Casa de Lava, Portugal, 1994 ("Escolhas de Nan Goldin")
A grande expectativa com que ia não se cumpriu, inesperadamente.

AND WHEN I DIE



o meu LEFFEST 2014 (10)

Ben & Joshua Safdie, Heaven Knows What, EUA, 2014 ("Selecção oficial -- Em competição"). 
Outra dupla de irmãos que vai dar que falar (ou já está a dar que falar). Este é um filme cru, passado entre sem-abrigo nova-iorquinos e protagonizado pelos próprios. Não sendo uma obra-prima, tem sequências muito boas.

sábado, Novembro 15, 2014

o meu LEFFEST 2014 (9)

Florian Henckel von Donnersmarck, A Vida dos Outros, Alemanha, 2006 ("Simpósio -- Ficção e Realidade para além do Big Brother").
Quando um agente integro da Stasi (a polícia política da ex-República Democrática Alemã), convicto da necessidade do seu trabalho de vigilância dos cidadãos para defesa do sistema socialista, do Partido e dos trabalhadores, se apercebe que o regime de que é um guardião e ajuda a manter mais não é do que uma fraude obscena e uma traição inominável a esses mesmo ideais, em que prosperam os apparatchiki e medram os oportunistas do costume. Um filme magnífico.

sexta-feira, Novembro 14, 2014

ÇA FAIT D'EXCELLENTS FRANÇAIS



prolegómenos cristãos à terceira via

Carl Schmitt, Catolicismo Romano e Forma Política. Carl Schmitt (1888-1985) é um autor de referência do pensamento contra-revolucionário, antiliberal e antidemocrático. Dizer só isto, aliás, é dizer pouco. Schmitt foi um nazi desde cedo; e apesar de algumas divergências, traduzidas em ataques de sectores do nacional-socialismo (em nazismo não se pode dizer "mais radicais"...), a verdade é que o autor leccionou na Universidade de Berlim entre 1933 e 1945 -- ou seja, em todo o período em que o führer e os seus sicários estiveram no poder. 
Este ensaio de 1925 pretende reagir ao ataque à Igreja Católica, que ele então denunciava, definindo-a como efectiva representação de Cristo no Mundo: «Ela representa a civitas humana, ela apresenta a cada instante a união histórica entre o devir humano e o sacrifício de Cristo na cruz, ela representa o próprio Cristo pessoalmente, o Deus que se tornou homem na realidade histórica. No representativo assenta a sua supremacia sobre uma época de pensar económico.» (p. 33) E, como seria de esperar, põe nos antípodas duma sociedade regida pela política e pelo direito (oh, ironia...), tanto capitalismo como bolchevismo, alegadamente pólos opostos duma mesma mundivisão: «O grande patrão não tem nenhum outro ideal senão o de Lenine: o de uma "terra electrificada".» (p. 28)
Schmitt oferece, portanto, a referência de um elemento não racional -- a divindade representada pela Igreja Católica -- em oposição a um sistema que não o pode contemplar -- a perspectiva demo-liberal: de um lado, como de costume, os vectores deletérios: a "técnica" e a "economia"; do outro, o institucionalismo da política estribada no direito, com as dicotomias do costume: matéria-espírito, pragmatismo-idealismo, revolução-tradição. 
Da visão da Igreja como figuração  de Deus, não posso deixar de extrapolar para uma ideia de Estado à imagem daquela, logo do "chefe" desse Estado como equiparado, senão ao próprio Deus, pelo menos soberano dessa mesma Igreja, o vigário do Deus. Daí ao endeusamento do chefe (do führer a haver), vai um pequeno passo.
Interessante como leitura e exercício, é ideologicamente intragável. 

quinta-feira, Novembro 13, 2014

ACROSS THE LINES




CAN'T FIND MY WAY HOME




o meu LEFFEST 2014 (8)

Liv Ullmann, Miss Julie, Noruega e Reino Unido, 2014 ("Selecção Oficial -- Fora de competição"). A grande peça de Strindberg filmada por Liv Ullmann.
É impressionante a dissecação impiedosa da estratificação social exposta pelo dramaturgo sueco, a todos os níveis: entre senhor e servo não há apenas uma barreira intransponível pelo nascimento; esta é também fautora duma mundividência que difere radicalmente da aristocracia para o povo -- no vestir e no falar, certamente; mas também no entendimentos do amor ou da religião, da vida e da morte. Só que, não obstante espesuras diversas, do verniz ou de porcaria, consoante o caso, todos são feitos da mesma massa, e é aí que tudo se complica, como Strindberg sabia muito bem.
E Jessica Chastain, no papel da Menina Júlia, que actriz!...

o meu LEFFEST 2014 (7)

Teresa Villaverde, Três Irmãos, Portugal, 1994 ("Homenagem -- Maria de Medeiros").
Uma sordidez com participação de alguns descendentes das personagens de Abel Botelho. No meio dessa lama, por vezes uma flor viceja. A flor é Maria, papel de Maria de Medeiros, para cuja interpretação me faltam palavras.

quarta-feira, Novembro 12, 2014

BACKWATER BLUES



um blogger passeia-se

1. O último prisioneiro da Guerra Fria

2. Hommage à Hergé et Spielberg 2.

o meu LEFFEST 2014 (6)

Lisandro Alonso, Jauja, Argentina, Dinamarca e + 8 (!), 2014 ("Selecção oficial -- Em competição")
Uma história de procura. Viggo Mortensen interpeta o papel do capitão-engenheiro dinamarquês Gunnar Dinesen (o apelido é curioso), deslocado para a Patagónia para trabalhar com o exército argentino. Com ele levou a filha de quinze anos, única mulher naquele território em que os indígenas haviam sido praticamente exterminados. Tendo aquela fugido com um jovem militar, Dinesen empreende uma busca em que a desolação da paisagem alegoriza a devastação étnica. Ainda estou a digerir a evolução onírica da narrativa.. E atenção à música de... Viggo Mortensen.