quinta-feira, Julho 31, 2014

entre o couro e a carne

«Entre outros homens que naquela companhia se achavam eram nela mais acostumados [...]; um velho não muito rico, que tinha servido a um dos Grandes da Corte, com cujo galardão se reparara naquele lugar, homem de boa criação, e, além de bem entendido, notavelmente engraçado no que dizia, e muito natural de uma murmuração que ficasse entre o couro e a carne, sem dar ferida penetrante.»

Francisco Rodrigues Lobo, Corte na Aldeia (1619)

quarta-feira, Julho 30, 2014

Ozzy Osbourne e os Beatles

 Ozzy Osbourne (voz dos Black Sabbath) ia na rua pelos idos de '64 (ano em que eu nasci) quando ouviu pela primeira vez She Loves You, dos Beatles, no transístor que levava; e desde esses instante sentiu-se como que catapultado para uma dimensão da qual nunca mais saiu. Certa vez, o filho perguntou-lhe como era a onda, quando os Beatles estavam a a contecer, e Ozzy saiu-se com esta pepita: "The only thing I could say is that you go to bed today, then get up tomorrow morning and it's a completely better world."

(Num inquérito multitemático da Classic Rock #200, comemorativo desse número redondo, e do qual, nas próximas semanas, irei picar algumas resposta interessantes.)



godos moles

«Uma longa paz com as outras nações tinha convertido a antiga energia dos Godos em alimento das dissenções intestinas, e a guerra civil, gastando essa energia, havia posto em lugar dela o hábito das traições covardes, das vinganças mesquinhas, dos enredos infames e das abjecções ambiciosas. O povo, esmagado debaixo dos peso dos tributos, dilacerado pelas lutas dos bandos civis, prostituídos às paixões dos poderosos, esquecera completamente as virtudes guerreiras de seus avós.»

Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844)

terça-feira, Julho 29, 2014

"País 'civilixado'" é bestial.

Aqui.

cinco dias de pândega

«Calaram-se. Ficar sem féria seria perder a Feira. E a Feira era a verdadeira festa de despedida dos moços dos telhais. Cinco dias de pândega entre um Verão de canseiras que findava e um Inverno de miséria que surgia.»

Soeiro Pereira Gomes, Esteiros (1941)

segunda-feira, Julho 28, 2014

28 de Julho de 1914 -- a Grande Guerra começou há cem anos, e assombra-nos.

A pretexto de um assassínio político perpetrado um mês antes, há 100 anos a Áustria-Hungria declarava guerra à Sérvia. Não passou de mero pretexto, porém. A causa da Grande Guerra radica em vários factores, a saber: a disputa imperialista centrada no Velho Continente, através do sistema de alianças, mas com ramificações e palcos extra-europeus, em concorrências territoriais e de supremacia armamentista; e a inconsciência geral, quer do rápido desenvolvimento transnacional do conflito (num ápice a guerra tomou o freio nos dentes), quer dos custos humanos e económicos que iria acarretar -- o que justifica o acolhimento delirante e patético do anúncio do conflito por parte das opiniões públicas.
Conflito, aliás, que não terminaria em 1918, mas em 1945, pois Hitler (e até Stálin) são a um tempo consequência da vertigem ou da deliquescência imperiais e da ganância dos potentados económicos e financeiros.
Hoje, continuamos com um sistema de alianças, em recomposição, o imperialismo é norte-americano, russo, mas agora também chinês, e a cupidez mercantil e argentária está globalizada. Mas ninguém, em seu perfeito juízo, poderá vir para a rua simploriamente saltar e cantar, se... Um  se que nunca será de excluir, por mais absurdo, irracional e indigno, pois nada na animalidade dos homens o garante. Quem tiver dúvidas que olhe para o lado (ou para o espelho, se tiver coragem), e diga se gosta do que vê.



domingo, Julho 27, 2014

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar
Mário de Sá-carneiro

silêncio

«Na frente, um homem que prendia as rédeas debaixo do braço caminhava curvado dentro do capote, enrolando um cigarro. Atrás, Mateus baloiçava o tronco desajeitado. Em volta, seguia gente olhando para o fundo do carro, onde Adriano adivinhou o corpo do Doninha, coberto pela manta esburacada.»

Manuel da Fonseca, Cerromaior (1943)

sábado, Julho 26, 2014

L, de Romance


Quando é que percebemos que um romance é um grande romance? Quando ao fim das primeiras vinte ou trinta páginas verificamos duas coisas: o autor dando muito (ou tudo...) de si, dádiva que recebemos por vezes até com algum pudor; e quando o estilo é um profundo e honesto trabalho sobre a escrita, muitas vezes na corda bamba, pois a literatura com L tem de estar sempre  nesse patamar elevado em que o autor a si próprio se desafia. 
Vem isto a propósito do romance de João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas (1988), saga (ou anti-saga) duma família açoriana. Irmãos com infâncias fechadas e trabalhosas, tiranizadas pelas idiossincrasias paternas; a saída da ilha (uma fuga, no fundo), seminário e convento, guerra em África, emigração para a América, desenraizamento. Alguns triunfos com amargos de boca, na escrita ou na vida. A narrativa flui a várias vozes, a personagem principal, Nuno, seminarista expulso, depois professor e escritor; mas também alguns irmãos, cada um dando a sua perspectiva ao leitor; Nuno e Marta, depois, (ex-)marido e (ex-)mulher; e o duplo de Nuno, Rui Zinho, pseudónimo com que assina a obra literária.
É um dos grandes romances portugueses do século XX, de extrema poeticidade, elaborando sobre a passagem do tempo, onde, apesar das lágrimas, se vai à procura de alguma felicidade imaginada, construída para além dos traumas.

anoitecia

«O castelo do baliado principiava a assombrar-se  e a denegrir-se. O chiar dos carros e as vozes dos lavradores tinham cessado. Os cães da aldeia começavam a latir de espaço e as casas e arribanas, que rodeavam aqui e ali a fortaleza, emantilhavam-se no espesso fumo resinoso que lhes saía pelas fendas dos tectos palhiços e que a calma da atmosfera deixava estacionar sobre eles.»

Arnaldo Gama, O Balio de Leça (póstumo, 1872)

sexta-feira, Julho 25, 2014

O caso Espírito Santo, explicado às crianças e ao povo:

A ocasião faz o ladrão.

lastro aldeão

«O quarto, largo e branco, dava para um terraço, onde fios de roupa brilhavam ao sol; ; e um gralhar de galinhas que se ergueu não sei de onde lembrou-me sùbitamente os grandes silêncios da aldeia.»

Vergílio Ferreira, Aparição (1959)

quinta-feira, Julho 24, 2014

ao sabor da pena

«Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.»

Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

quarta-feira, Julho 23, 2014

Fender vs. Gibson: Francis Rossi e Tony Iommi



nova mas feia

«Ao pé da fogueira, uma velha sentada. Não me senti à vontade. Estava embaraçado, sem saber o que devia fazer, quando chegou uma senhora a procurar por mim. Era a professora, que, sabendo da minha chegada, vinha esperar-me. Nova mas feia. Contudo simpática e com um olhar de inteligência que a tornava atraente. Sem a menor hesitação resolveu logo o meu problema, como se aquilo fosse habitual.»

Branquinho da Fonseca, O Barão (1942)

terça-feira, Julho 22, 2014

criador & criatura

 Chester Gould e Dick Tracy