segunda-feira, dezembro 22, 2014

Wye Oak, «Shriek»

na tempestade

«No momento seguinte, mares convulsos voltavam a erguer e a largar aquela segunda arca bíblica. Abriam-se medonhas crateras e o mar fendia-se para receber a quilha: uma indescritível chapada na água ensurdecia a noite de pedra -- e nunca Deus estivera tão distante como nos dias dessa solidão infinita.»

João de Melo, Gente Feliz com Lágrimas (1988)

GOD GIVE ME STRENGTH



domingo, dezembro 21, 2014

The Treatment, «Emergency»

música celestial

«Diante dele está a caixa registadora National e no vidrinho dos registos os números 4, 5 e 0. Quatro escudos, cinquenta centavos. Um sabonete. Elói acaba de comprar um sabonete. Detrás da caixa surge uma mão fina. Elói espreita. Está ali uma mulher que o faria feliz. Porque continua só no mundo? E enquanto as notas lhe passam para a mão, mergulha os olhos abstractos nos olhos da mulher. Manuela sorri. Uma moeda cai. É um momento. Tornou a apanhá-la. No dia seguinte volta. Volta muitos dias. Agora já ela o conhece. "O Sr. Elói deseja?..., o Sr. Elói precisa?..., como queira, Sr. Elói..." Não pode passar sem aquilo. É uma música celestial. Volta sempre, todos os dias.»

João Gaspar Simões, Elói ou Romance numa Cabeça (1932)

sábado, dezembro 20, 2014

The War On Drugs, «Burning»

Duke Ellington, «Across The Tracks Blues»

JornaL

Requisição civil. Pode um Governo contornar a Lei?

«Tudo isto é fado».  A BD de Nuno Saraiva que está a sair no Sol / tabu. Do melhor.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

JornaL

Obama. No segundo mandato, fez o que devia e o que podia em relação a Cuba, ao arrepio da diplomacia bronca dominante dos Estados Unidos (Fidel Castro foi por ela empurrado para o colo da então URSS). A abertura à ilha será muito mais eficaz na mudança do regime do que o isolamento imposto até agora.

«Guerra do petróleo».  Esplêndido artigo de Jorge Almeida Fernandes no Público, explica a estratégia saudita da baixa de preços do crude (concorrência de petróleo de xisto norte-americano, de extracção mais cara, e estrangulamento da economia do Irão, arqui-rival na região), bem como os efeitos imprevisíveis desta queda de preços na política russa, assunto muito sério.

Vítor Crespo. Mais um dos grandes e dos bons miltares de Abril que nos deixa.

Submarinos. Na Alemanha, condenou-se quem corrompeu em Portugal e na Grécia; na Grécia, prende-se ex-governante; por cá, arquiva-se o processo. Não será, por isso, constituído arguido Jacinto Leite Capelo Rego, militante ou simpatizante (em todo o caso, contribuidor líquido) do CDS.

Pena de morte. Primeira medida do governo paquistanês contra os talibãs suicidas.

Frase do dia. "Por muito conservador que se seja, nunca se está preparado para os ultrajes do capitalismo." (Miguel Esteves Cardoso, Público). 

EYE OF THE STORM



Connan Mockasin, «Do I Make You Feel Shy?»

à toa nas ruas desertas

«Percorri à toa as ruas desertas, envoltas num luar baço, tentando achar tranquilidade no pó e no calor de Janeiro.»

Graciliano Ramos, Caetés (1933)

quarta-feira, dezembro 17, 2014

BECAUSE THE NIGHT



JornaL

Linces. Gosto dos novos sinais de trânsito :)

Lata. A propósito do Syriza, leio no Diário de Notícias que Juncker "Não gostaria de ver forças extremistas chegar ao poder. Preferia ver caras conhecidas." Anda este estúpido com a extrema-direita antieuropeia e xenófoba a bater-lhe à porta, e autoriza-se dar opiniões sobre uma força política que até tem defendido a presença da Grécia na moeda única! Ainda por cima, vindo de um sujeito que perdeu a credibilidade para governar sequer a junta de freguesia lá do bairro dele...

Jacob e o Anjo. Gostava de estar em Vila do Conde no sábado,  para assistir à leitura encenada da peça do José Régio.

Pop Galo. Grande ideia, esplêndida ideia de Joana Vasconcelos para as comemorações dos 450 anos do Rio de Janeiro: um Galo de Barcelos de 7 metros, iluminado à noite.O kitsch nem sempre é de deitar fora.

O Messi de Vizela. Rafinha, o Messi de Vizela.

THE BIRDS WILL STILL BE SINGING



negro de tutano

«Conforme acontecia todos os anos, o barracão fora entregue a Zé de Peixoto -- negro de tutano que os garimpeiros respeitavam.»

Herberto Sales, Cascalho (1944)

Reverend Horton Heat, «Let Me Teach You How To Eat»

terça-feira, dezembro 16, 2014

JornaL

No I

* No Porto, um taxista javardo agrediu a soco uma cliente que se despediu de uma amiga com um beijo na boca. É natural que o javardo seja despedido, é provável que vá a tribunal e seja condenado a uma pena menor qualquer. Sugiro trabalho comunitário numa organização lgbt.

* Na Bélgica, uma greve-geral a sério contra a austeridade: não houve jornais, televisões em serviços mínimos, grandes superfícies encerradas.

* Leio a mini-entrevista de Mário Tomé, a propósito dos 40 anos da UDP. Nada a dizer.

* Pelo contrário, uma grande e sensacional entrevista de Édouard Louis, jovem escritor e gay, oriundo das classes desfavorecidas francesas, em que medra o racismo, a xenofobia, a intolerância, sagazmente aproveitadas pela Frente Nacional. Louis, que publicou um romance-choque, Para Acabar com Eddy Bellegueule, em que vê de fora e à distância da sua formação universitária o lumpen  nacional de que é oriundo, e questiona a forma como a política institucional e a imprensa mainstream tratam esse segmento popular da sociedade, amedrontada não apenas com o outro mas também com o que lhe vai sendo retirado e que antes era tido como certo. Amedrontada e desorientada: as coordenadas das classes mais pobres e desinformadas devem ser semelhantes cá e em França: entretenimento boçal, pestilência mediática.

* Depois de Assange e Snowden, outro tipo excepcional: Antoine Deltour, 28 anos, o homem que primeiro revelou o miserável esquema fiscal dos LuxLeaks. Já tem a Justiça luxemburguesa na peugada. 

o silenciamento de José Sócrates

A recusa de autorização da entrevista pedida a José Sócrates pelo Expresso, por parte da D-G dos Serviços Prisionais, na sequência do parecer do juiz de instrução e do magistrado do MP, é gravíssima. Uma medida destas só seria aceitável tratando-se de um operacional terrorista ou um chefe de gangue mafioso. É gravíssima, porque em Portugal há liberdade de expressão, e é preciso ser-se muito estúpido para considerar que a supressão dessa liberdade pode ter a justificação, canhestramente burocrática, de eventual perturbação do processo.
Mas a proibição, que deverá ser ilegal à luz da Constituição da República, é ainda triplamente estúpida:
Primeiro, porque fortalece a posição de Sócrates. Que receiam os agentes da Justiça? Certamente terão provas fortes dos indícios de corrupção, já que se atreveram, antes de julgamento, mandar um ex-PM para a cadeia. Logo, qual é o receio?
Em segundo lugar, achar que podem calar Sócrates quando ele quiser falar, é pueril. 
Finalmente, porque lança a suspeição de que, como de costume, andam a apanhar bonés, o que os desprestigia ainda mais, e torna tudo ainda muito mais grave, até porque dá contornos políticos ao caso, justamente como disse Sócrates na primeira declaração escrita da cadeia.

Há duas coisas de que não me esqueço: a decapitação da então liderança do PS no caso Casa Pia, uma conspiração muito bem montada, em que magistrados & c.ª foram os idiotas úteis de serviço; e o alarme pateta e patético do atentado ao estado de direito, salvo erro aduzido por um procurador que é irmão da actual PGR, processo no qual a Justiça ficou na lama, com os episódios das escutas.
Ora bem, eu não voto em juízes nem em procuradores e não estou para aturar-lhes os palpites e os estados de alma. Mas votei uma vez em José Sócrates, e quero o meu voto respeitado. Por Sócrates e pelo pessoal da Justiça. Fizeram escutas, investigaram. Têm provas? Julguem e condenem, se for caso disso; mas não cedam à tentação de exorbitar.

Urban Voodoo Machine feat. Wilco Johnson, «Heroin»

segunda-feira, dezembro 15, 2014

encantamentos escuros, castelos roqueiros, cavaleiros namorados, gigantes soberbos, escudeiros discretos e donzelas vagabundas

«[...] não tendes razão contra Píndaro, que, cada vez que o ouço, me parece um livro de cavalarias. Se ele tivera encantamentos escuros, castelos roqueiros, cavaleiros namorados, gigantes soberbos, escudeiros discretos e donzelas vagabundas, como tem palavras sonoras, razões concertadas, trocados galantes e períodos que levam todo o fôlego, pudera pôr a um canto o Amadis, Palmeirim, Clarimundo e ainda o mais pintado de todos os que nesta matéria escreveram; e já estivem em o persuadir que se metesse em uma empresa semelhante, porém receio que se me ensoberbeça com a altiveza de seu estilo e despreze aos amigos.»

Francisco Rodrigues Lobo, Corte na Aldeia (1619)

Raghu Dixit, «Lokada Kalaji»

JornaL

Hoje passei pelo Público:

* Juntos Podemos quer transformar-se em partido político. Patético.
* Entrevista de João Semedo: não aprendeu nada.
* Obama cede aos republicanos e revoga proibição de (algumas) práticas manhosas e particularmente danosas dos mercados financeiros. Fê-lo, talvez, para preservar a sua reforma da saúde. O descalabro segue dentro de momentos.
* Dez mil pessoas numa manif anti-islâmica em Dresden. E isto é só o princípio. Bem pode o editorialista proclamar o choque e a estupefacção pelo crescente número de cidadãos que isto concita. Não vale a pena chamar-lhes nazis. Já tenho escrito que é uma questão de tempo até as coisas ficarem incontroláveis. Responsabilidades: os oportunistas políticos do costume, que querem caçar votos no eleitorado islâmico sujeitando-se a caprichos anti-cívicos e idiotas; os próprios líderes moderados dessas comunidades, que não quiseram ou souberam extirpar o cancro do fundamentalismo do seu seio. E, indirectamente, editoriais pios como os do Público, que não percebe -- ou faz que não percebe -- as causas deste descalabro.
* A reavaliação  de Duchamp como homicida da pintura, a propósito da exposição patente no Centro Pompidou, que serve obras das décadas de 1910 a 1960. Não é isto a Arte, reavaliação sobre reavaliação?
* João Carlos Espada amalgama o Cunhal antiliberal e totalitário da entrevista a Oriana Falacci, nos idos de '75, ao Siryza e ao Podemos. Sabe muito, o Espada?
* Grande texto de Madalena Homem Cardoso: «CPLP: à mesa dos canibais». Crónica duma decepção profunda. O âmago é Xanana, em tempos herói.

domingo, dezembro 14, 2014

económicas em 1949

«Era para aquilo que se tirava um curso quase tão comprido como o de Medicina! O máximo horizonte desses doutores em "partidas-dobradas" era afinal o postigo envidraçado de um reles banco da Baixa!»

Francisco Costa, Cárcere Invisível (1949)

sábado, dezembro 13, 2014

, de Vinhós e até de Fornelos,

«Uma vez estabelecido, vira logo aumentar a sua clientela de mês para mês. Lá de muito longe, de Vinhós e até de Fornelos, paróquias servidas pelas vilas próximas, vinham novos fregueses, atraídos pela fama do seu corte, não de barateza, que este era engodo que o solerte alfaiate não costumava oferecer a ninguém.»

Guedes de Amorim, Aldeia das Águias (1939)

do esvaziar

«O beijo de despedida, que pertencera ao ritual familiar, perdera continuidade nos últimos tempos (como muitas outras coisas), sem que, aliás, tivesse havido um motivo para que o hábito se alterasse. Um esquecimento hoje, uma emenda tardia amanhã -- os hábitos criam-se e perdem-se as mais das vezes sem se saber porquê. Ou então esvaziam-se. E será beijo o enjoado resvalar da boca por uma face?»

Fernando Namora, O Rio Triste (1982)