quinta-feira, Setembro 18, 2014

A voz que se ergue no ermo / Dá uma torre às coisas
Vitorino Nemésio

quarta-feira, Setembro 17, 2014

anões velhos

«As palmeiras de pouco porte incharam tanto que fazem pensar em anões velhos, doentes, com as suas cabeleiras, as suas folhas emaranhadas, caindo em arco até ao chão.»

Carlos de Oliveira, Finisterra (1978)

é dizer ao Sr. Putin que me agarrem ou vou-me a ele, ok?


Isto, quem o escreve, é o embaixador José Cutileiro -- homem culto, porém largamente obtuso --, a propósito de Putin.  A estes transportes belicistas, a esta diplomacia galharda e pundonorosa, a este entendimento macho das relações internacionais, prefiro a não menos culta, porém sagaz, opinião de Jaime Nogueira Pinto, que percebe o que está em causa.

mais um Woody Allen


Allen gosta de gozar com tudo o que gira à volta dos espiritismos e demais temas mediúnicos; quase tanto quanto troça dos enfatuados. O encontro entre uma charlatã engraçada e inofensiva e um cromo presunçoso mas simpático são motivo que baste para uma comédia, sempre agradável quando se trata de um filme seu. Colin Firth e Emma Stone, esplêndidos.

taciturnos

«Seguiam sem pressa, um pouco vergados sobre as próprias figuras, olhando mais o piso da estrada do que os amplos horizontes à sua volta. Grave preocupação os prendia, diferente das que lhes atribuiria quem por noivos enleados erradamente os tomasse.»

Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

terça-feira, Setembro 16, 2014

a vida, um milagre incompreensível

A categoria "romance histórico" está de tal modo gasta e desacreditada, que classificar como tal A Ponte Sobre o Drina (1945), de Ivo Andrić, constituiria um afunilar sem sentido de um grande romance -- um daqueles livros que enformam a cultura europeia e a civilização ocidental.  "Como, ocidental?", perguntarão os mais apressados que saibam do que se trata, -- "como, se o pano de fundo é a Bósnia, durante séculos otomana, tornada austríaca já muito dentro do século XIX, iugoslava, finalmente, após a Grande Guerra?"
"Ocidental, pois", digo eu, porque se desenrola numa zona de fronteira, em que se entrecruzam e convivem as três religiões do Livro, e porque desde o conceito do limes romano a Europa sempre se construiu no confronto-entendimento com o outro tornado próprio (os chamados bárbaros germânicos são disso a melhor ilustração).
Existe essa ponte (hoje, património da Unesco), mandada construir por Mehemed-Paxá, um antigo janízaro (tropa de elite de infantaria do sultão, recrutada coercivamente por entre as crianças cristãs); um sérvio que se alcandorou a grão-vizir (primeiro-ministro) do Império Otomano, cargo que ocupou durante catorze anos (1565-1579), até à sua morte, e durante a época de ouro imperial turca. Mehemed-Paxá era natural duma aldeia nas cercanias de Višegrad (hoje integrante da República Sérvia da Bósnia), e a ponte edificada torna-se via obrigatória de circulação entre Oriente e Ocidente. Sob a sua égide se desenrola este romance, abrangendo cerca de quatro séculos e uma multiplicidade de histórias de vida: «Muitos, muitíssimos de nós sentámo-nos ali, pousados sobre esta pedra bem talhada e polida, e, perante eternos jogos de luz nas montanhas e das nuvens do céu, desenredámos os fios dos anónimos destinos das gentes da cidade, eternamente os mesmos, mas eternamente emaranhados de uma nova maneira.»  
 A Ponte Sobre o Drina, ao longo da suas 380 páginas, faz-nos reflectir também sobre a acção do tempo, tão corrosiva no que respeita a sistemas de governo e a ideologias e tão lenta no transformar da essência humana, sabiamente reflectida naquilo que o escritor nos dá como «a filosofia inconsciente da cidade: a vida é um milagre incompreensível, porque se consome e dilui sem cessar, todavia continua rija e sólida "como a ponte sobre o Drina".» Andrić (Prémio Nobel de 1961) é um escritor fino, inteligente e brilhante;  

e Deus, onde está?

«Será este, Senhor, o dia do teu juízo, em que os cadáveres permanecerão insepultos; em que o céu se retira como um livro que se enrola; em que os anjos vaguearão nos ares e sete pragas lançarão; em que os selos serão quebrados; em que o fogo descerá sobre nós e em que os quatro cavaleiros, Senhor, os quatro cavaleiros do fim dos tempos, nos revelarão o estigma da nossa própria iniquidade? Onde estão, Senhor, os teus sinais? Os teus sinais, Senhor, que ninguém vê nunca, quando os julga ver em toda a parte?»

Sérgio Luís de Carvalho, Anno Domini 1348 (1990)

segunda-feira, Setembro 15, 2014

A Escócia e os escroques do costume


À medida que quinta-feira se aproxima com toda a sua incerteza, cresce a pressão dos rapinantes do costume. Companhias e bancos ameaçam abandonar a Escócia, se ganhar o 'sim' à separação do Reino Unido. Como se um país com população semelhante em número à da Irlanda republicana, com as reservas petrolíferas que detém e com uma cultura universalmente reconhecível e admirada pudesse estar sujeita aos caprichos dos mercenários da finança e dos mercados...
Mesmo que vença o 'não', será, tudo o indica, uma vitória tangencial, o que significará que metade do eleitorado, a que se junta, no lado unionista, uma percentagem inquantificável que votará 'não' por desígnio político e não meramente utilitário -- significará que mais de metade dos escoceses  responderá com o devido desprezo aos argentários a soldo, gente de má fama.

P.S. A postura da rainha tem sido politicamente sábia -- além disso, a questão do regime, de momento, não está em causa. Obviamente, ela é contra a secessão; mas também sabe que a legitimidade histórica da sua dinastia não é inglesa, mas escocesa, pois Isabel II é uma Stuart. Questão politicamente complexa, simbolicamente nem por isso.

o segredo

«Foi justamente você quem no começo deste ano me revelou um segredo de que eu nunca tinha chegado a suspeitar. E me confiou mesmo a fórmula de certas circunstâncias indispensáveis à existência de um "amor feliz":
"Uma pessoa casada... só com outra pessoa casada."»

David Mourão-Ferreira,Um Amor Feliz (1986) 

sábado, Setembro 13, 2014

estampa CLXXXIII - Willem de Kooning


Duas Mulheres no Campo (1954)
Hirshhorn Museu and Sculpture Garden, Washington

nas dobras da ventania

«O caudal da chuva parecia ter aumentado, a avaliar pelo som contínuo e crescente que se ouvia num trepidar rufado para lá dos vidros, mas trespassava-o a sereia de uma ambulância a desenrolar-se desesperadamente nas dobras da ventania.»

Vasco Graça Moura, Naufrágio de Sepúlveda (1988)

sexta-feira, Setembro 12, 2014

o Alfa Romeo num saco de plástico

«O engenheiro reagia como se tudo ali no prédio lhe pertencesse, desde a porteira às caixas do correio e ao guarda-nocturno. A sua tirania abrangia os decibéis de quem regulasse o aparelho de rádio ou a TV para ouvir uma orquestra mais puxada à barulhaça. Todo fanicos, o tipo. Mas tinha um Alfa Romeo  de se lhe tirar o chapéu, que protegia metodicamente dos orvalhos com um resguardo de plástico. Enquanto os vizinhos se mofam, de manhã, para espevitar os motores, ele, triunfante e sarcástico, punha aquilo a estrondear ao primeiro contacto.»

Fernando Namora, O Rio Triste (1982)

quarta-feira, Setembro 10, 2014

o nosso íntimo pessoal

«O nosso íntimo pessoal é de ordem humana, estética e sagrada. Serve apenas o próprio. É o seu único caminho. O melhor que se pode fazer em favor de qualquer é ajudá-lo a entregar-se a si mesmo. Com o seu íntimo pessoal cada um poderá estar em toda a parte, sejam quais forem as condições sociais, as mais favoráveis e as mais adversas. Sem ele, nem para fazer número se aproveita ninguém.»

Almada Negreiros, Nome de Guerra (1938)

terça-feira, Setembro 09, 2014

dois fora-de-série

Dois fora-de-série, dois geniais, Chico Buarque e Gilberto Gil (vi ambos no Coliseu, com uns trinta anos de intervalo...). A autoria está repartida, embora me pareça que a letra é claramente buarquiana quanto ao fundo, mas também pela forma exímia da rima interna. A música é limpidamente de Gil, com uma alegria e um balanço inconfundíveis.
Do álbum Chico Buarque (1989).



Fender vs. Gibson: Rick Parfitt e Andy Powell



domingo, Setembro 07, 2014

sábado, Setembro 06, 2014

Mistérios a pouco e pouco vão morrendo
Edmundo de Bettencourt