Segunda-feira, Maio 19, 2008
Domingo, Maio 18, 2008
Antologia Improvável #308 - Augusto Casimiro
JOCONDA
Essa que deve ser silenciosa
Como um perfume embriagante e raro,
Doce -- como a tristeza vagarosa,
Alegre -- como o azul do céu mais claro...
Essa que é toda Amor, sendo incerteza,
Toda luz e mistério e graça e alma
-- Forma florida e vaga de Beleza,
Num sorriso divino, e triste e calma...
Essa que eu adivinho e, vaga, ondeia
pela minha emoção, na minha ideia,
No meu Amor, na minha arte e em mim;
Talvez seja -- quem sabe? -- a reflectida
Infinita saudade de outra Vida
Mais perfeita do que esta e de onde eu vim!

Primavera de Deus / Líricas Portuguesas - III Série
(edição de Cabral do Nascimento)
Essa que deve ser silenciosa
Como um perfume embriagante e raro,
Doce -- como a tristeza vagarosa,
Alegre -- como o azul do céu mais claro...
Essa que é toda Amor, sendo incerteza,
Toda luz e mistério e graça e alma
-- Forma florida e vaga de Beleza,
Num sorriso divino, e triste e calma...
Essa que eu adivinho e, vaga, ondeia
pela minha emoção, na minha ideia,
No meu Amor, na minha arte e em mim;
Talvez seja -- quem sabe? -- a reflectida
Infinita saudade de outra Vida
Mais perfeita do que esta e de onde eu vim!

Primavera de Deus / Líricas Portuguesas - III Série
(edição de Cabral do Nascimento)
Sábado, Maio 17, 2008
chuva
e havia
aquelas tardes de
outono quando
a chuva aparecia
sem avisar a praia
convidava ao puro
repouso sem outra
coisa em mente que
não o escorregar da
areia por entre os
dedos à cadência de
cada onda a
estatelar-se com
estrondo
ficávamos
por ali, indiferentes
à moinha, gratos
pelo que a vida
nos dava, sem
pedir nada em
troca
aquelas tardes de
outono quando
a chuva aparecia
sem avisar a praia
convidava ao puro
repouso sem outra
coisa em mente que
não o escorregar da
areia por entre os
dedos à cadência de
cada onda a
estatelar-se com
estrondo
ficávamos
por ali, indiferentes
à moinha, gratos
pelo que a vida
nos dava, sem
pedir nada em
troca
Sexta-feira, Maio 16, 2008
Caracteres móveis - Amos Oz
Quando o meu pai era criança, na Polónia, as ruas da Europa estavam cobertas de inscrições, tais como JUDEUS, VÃO PARA A PALESTINA!, e, às vezes, de outras menos amáveis: MALDITOS JUDEUS, VÃO PARA A PALESTINA! Quando o meu pai regressou à Europa, cinquenta anos depois, os muros estavam cobertos de incrições: JUDEUS, FORA DA PALESTINA!

Contra o Fanatismo
(tradução de Henrique Tavares e Castro)
Quinta-feira, Maio 15, 2008
Quarta-feira, Maio 14, 2008
Antologia Improvável # 307 - António Botto (5)
Por ti, eu passo as noites meditando
Lá onde o mar
Cantarolando e crescendo
Vem tombar sobre o meu corpo
E mo afaga lambendo...
Por ti, vivo na chama dos amores
Mais perversos.
E acho alegria nas dores,
E morro de saudade nos meus versos.
Por ti, me arrasto
De vício em vício -- que vibrante romaria! --
Até que a morte se lembre
De me levar, -- um dia.
Canções
Lá onde o mar
Cantarolando e crescendo
Vem tombar sobre o meu corpo
E mo afaga lambendo...
Por ti, vivo na chama dos amores
Mais perversos.
E acho alegria nas dores,
E morro de saudade nos meus versos.
Por ti, me arrasto
De vício em vício -- que vibrante romaria! --
Até que a morte se lembre
De me levar, -- um dia.
Canções
6 palavras
Pedem-me a T, dos Dias que Voam e o Paulo Cunha Porto , de As Afinidades Efectivas, seis palavras que me definam, com uma imagem, de preferência, a ilustrar.O mar, instável, por vezes temperamental e desatento, outras vezes caloroso, sempre insubmisso, talvez ilustre o que em tempos fui. Hoje, contento-me, e como, em viver feliz entre os meus. Falta-me uma palavra, e essa pode ser «justiça». Ser justo, mesmo contra os meus impulsos e preconceitos, foi o que sempre tenho procurado, com mais ou menos êxito.
Agora acho que tenho de bater a cinco portas: Addiragram, Estrelícia Esse, Huckleberry Friend, Purpurina , Sofia . Não se esqueçam: seis palavras e uma imagem, se possível.
Terça-feira, Maio 13, 2008
Figuras de estilo - Ferreira de Castro
Três dias a navegar no mar de Bengala, com o Himalaia à esquerda e, à direita, lá ao começo do golfo esverdeado, a Ceilão de exuberantes florestas, o «Koroa» aponta, uma tarde, a nova terra. Divisa-se, primeiro, um alto farol e, mais adiante, cinzenta mancha à tona de água. É a Birmânia, país quase de lenda, cujas múltiplas expressões de vida ninguém, até hoje, conheceu integralmente.

A Volta ao Mundo
(foto: San-Payo)
Segunda-feira, Maio 12, 2008
Domingo, Maio 11, 2008
Antologia Improvável #306 - Maria Teresa Horta (5)
PERCA
Não há dor maior
que aquela de perder-te
nem na cor mais cor
que nos teus olhos
Nem na cidade
saudade que se invente
que seja mais saudade
que aquela de não ver-te
Jardim de Inverno / Poesia Completa - 1
Não há dor maior
que aquela de perder-te
nem na cor mais cor
que nos teus olhos
Nem na cidade
saudade que se invente
que seja mais saudade
que aquela de não ver-te
Jardim de Inverno / Poesia Completa - 1
Sábado, Maio 10, 2008
Sexta-feira, Maio 09, 2008
Quinta-feira, Maio 08, 2008
Blog da semana
O meu amigo João Villalobos não tem emenda. O Abencerragem é blog da semana no Corta-fitas. O blogue agradece e o site meter também...
E um abraço cá do administrador!
E um abraço cá do administrador!
Quarta-feira, Maio 07, 2008
Antologia Improvável # 305 - Alexandre O'Neill (8)
OLHO AZUL
Com modos práticos, mas finos,
vais tesourando às escondidas
esses canteiros femininos.
Mais corsário que jardineiro,
para o meio de muitas vidas
desejo impele o teu veleiro.
E exclamam elas, navegadas:
-- Esse olho azul é que é culpado!
Esse olho de azul transtornado
em nós, maternais, coitadas!...
E assim as tens, crucificadas
no teu celeste mau olhado...
Abandono Vigiado
Com modos práticos, mas finos,
vais tesourando às escondidas
esses canteiros femininos.
Mais corsário que jardineiro,
para o meio de muitas vidas
desejo impele o teu veleiro.
E exclamam elas, navegadas:
-- Esse olho azul é que é culpado!
Esse olho de azul transtornado
em nós, maternais, coitadas!...
E assim as tens, crucificadas
no teu celeste mau olhado...
Abandono Vigiado
Terça-feira, Maio 06, 2008
Segunda-feira, Maio 05, 2008
Domingo, Maio 04, 2008
Não deixo que mais ninguém dispute estas lágrimas
(José do Carmo Francisco sobre Sandy Denny -- aqui)
Antologia Improvável # 304 - Ângelo de Lima (2)
SONETO
Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento...
Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado...
Pára e fica e demora-se um momento.
Pára e fica na doida correria...
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria.
Um olhar de aço que essa noite explora...
Mas a espora da Dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

Líricas Portuguesas - 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)
Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento...
Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado...
Pára e fica e demora-se um momento.
Pára e fica na doida correria...
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria.
Um olhar de aço que essa noite explora...
Mas a espora da Dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

Líricas Portuguesas - 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)
Sábado, Maio 03, 2008
Quinta-feira, Maio 01, 2008
Quarta-feira, Abril 30, 2008
caderninho
O poeta representa a imaginação por meio de imagens da vida e das situações e personagens humanos, põe-nas em movimento e deixa a cargo do leitor a tarefa de permitir que essas imagens ocupem os seus pensamentos, na medida em que os seus poderes mentais lho permitem. Por isso é capaz de dotar os homens das mais diversas capacidades, quer se trate de tolos, quer de sábios. O filósofo, por outro lado, representa não a vida em si mesma mas os pensamentos acabados que dela abstraiu e exige ao leitor que pense precisamente como ele e precisamente tanto como ele. Por isso o seu público é tão pequeno. O poeta poderá, desta forma, ser comparado a alguém que oferece flores; o filósofo com alguém que oferece a essência delas. Arthur Schopenhauer Terça-feira, Abril 29, 2008
Segunda-feira, Abril 28, 2008
Domingo, Abril 27, 2008
Sábado, Abril 26, 2008
caderninho
Há uma espécie de indulgência que é a indulgência do desinteresse. Uma indulgência mil vezes nefasta -- porque igualiza tudo e todos. José Bacelar
Revisão 2 -- Anotações à Margem da Vida Quotidiana
Sexta-feira, Abril 25, 2008
Antologia Improvável #302 - Carlos Nejar (5)
RESTRIÇÕES
Uma parte de minha liberdade
bicada pelos pássaros,
e outra, na vidraça,
foi levada pela chuva.
Alguma parte dela
abandonei na rua
e outra o amor a consumiu
fazendo sua.
Outra o Estado a sorveu,
gota por gota,
por ser eu cidadão
tendo em conta leis,
pendões, brasões.
E o mais não sei.
Alguma réstia dela, alguma grei
dei aos pobres
por modéstia cristã,
que eles mastigarão
os ossos da solidão.
E outra esqueci entre as páginas
de um livro
com as borboletas de arquivo.
Que me fica da liberdade?
Como vou defendê-la em mim
se nenhum bocado me respira
ou busca cidadela na colina?
Defenderei então
a possibilidade,
as verbenas
que no seu lugar nascem
ou, quem sabe,
terei a humildade
para recolhê-la
de colmeia em colmeia.
Defenderei
alguma sobra dela,
a memória,
a vestidura,
a sela.
Defenderei os corolários,
o teorema de Pitágoras,
qualquer ideia
que a faça retornar,
embora velha.
Para ela
sempre haverá espera,
arreios e bala.
O Poço do Calabouço / Antologia Poética
(edição de António Osório)
Quinta-feira, Abril 24, 2008
Caracteres móveis - Thomas Mann
Lembrou-se da impressão que fizera sobre ele a catástrofe do ano de 1866, e chamou à memória as sensações indizivelmente tormentosas que então o haviam empolgado. Perdera grande quantidade de dinheiro... ah, isso não fora o mais insuportável! Mas pela primeira vez tivera de experimentar em toda a sua extensão e no próprio corpo, a brutalidade cruel da vida comercial, onde todos os sentimentos bondosos, suaves e amáveis desaparecem perante o único instinto rude, cru e impiedoso da conservação e onde uma desgraça sofrida não provoca participação e compaixão entre os amigos, os mais íntimos amigos, mas sim desconfiança, apenas desconfiança fria e negativa. E ele não o sabia? Que direito tinha de admirar-se destas coisas? Mais tarde, em horas melhores, de maior energia, quanto não se envergonhara de, naquelas noites de insónia, se haver revoltado, rebelando-se, cheio de nojo, e mortalmente ferido, contra a dureza feia e descarada da vida!

Os Buddenbrook
(tradução de Herbért Caro)
retrato por Johannes Lindner

The Doughboys, Out Of The Night 





Gnarls Barkley, Who's Gonna Save My Soul?













Shelley Short, Silver & Gold
