quarta-feira, Julho 23, 2014

de Branquinho da Fonseca:

«Ao pé da fogueira, uma velha sentada. Não me senti à vontade. Estava embaraçado, sem saber o que devia fazer, quando chegou uma senhora a procurar por mim. Era a professora, que, sabendo da minha chegada, vinha esperar-me. Nova mas feia. Contudo simpática e com um olhar de inteligência que a tornava atraente. Sem a menor hesitação resolveu logo o meu problema, como se aquilo fosse habitual.»

O Barão (1942)

terça-feira, Julho 22, 2014

criador & criatura

 Chester Gould e Dick Tracy

domingo, Julho 20, 2014

estampa CLXXIX - Canaletto

Auto-Retrato
col. particular, Cambridge

de Reinaldo Ferreira (Repórter X):

[um amanhã absolutamente amanhã]

«Hoje! Já! Mas eu sinto que não queria que fosse hoje! Queria que fosse amanhã, um amanhã indefinido, uma amanhã absolutamente amanhã -- daqueles que nunca chegam... e tanto assim -- que ontem, véspera de hoje, quando hoje era ainda um amanhã -- não me confrangia tanto a ideia do meu internamento -- da minha cura. Pelo contrário: bazofiava de animoso e, com pimponice de valente, afirmava a decisão enérgica de desenclavinhar da carne, do sangue, dos nervos, do espírito, as garras veludosas de quatro anos de morfinismo.»

Memórias de um Ex-Morfinómano (póstumo)

sexta-feira, Julho 18, 2014

de Carlos Vale Ferraz:

[com o lenço verde do regulamento]

«Os homens pararam. Alguns, mais cansados, sentaram-se imediatamente, outros ainda procuraram árvores para aproveitarem a sombra e o encosto dos troncos. Abriram os camuflados, aspirando o cheiro ácido de suor que saía do peito, para se refrescarem. Esqueceram os mil pormenores da instrução de comando, as forças não chegavam para tudo, mas a arma, essa ficou ali à mão de semear... Tiraram lentamente as mochilas de cima dos ombros e morderam os lábios com a dor dos músculos dormentes cortados pelas correias de lona. Esfregaram a cara e os cabelos molhados da  transpiração com o lenço verde do regulamento, ou mesmo com o quico camuflado, um bonezinho em feitio de canoa, de aba curta e quebra-nuca para proteger a cabeça dos ardores do sol.»

Nó Cego (1983)

quinta-feira, Julho 17, 2014

Johnny Winter (1944-2014)

[(muito) branco por fora, escuro por dentro)

quarta-feira, Julho 16, 2014

miopia israelita

O conflito entre Israel e a Palestina é demasiado antigo e complexo para tomadas de posição ligeiras e piedosas. A verdade é que este antagonismo radica na história secular, com um revivescer no último século, com a então toda-poderosa Europa arrogando-se a prerrogativa de inventar países e desenhar fronteiras.Não há inocentes políticos de parte a parte; e se só lamentamos as vítimas palestinas é porque Israel tem a capacidade militar do seu lado. Só por isso.
É evidente que isto não desculpa o estado israelita de sistematicamente boicotar a viabilidade do outro estado e de seguir com uma criminosa política de colonatos, jogando a política do facto consumado no longo prazo. O que políticos míopes como Netanyahu -- e todos quantos insistem do lado de Israel nessa política cega -- não vêem, é que o tempo joga contra o estado judaico. A força que este detém, como o viram Rabin e o próprio Sharon -- e como creio que será a posição de Livni --, deveria ser usada de forma mais inteligente e dialogante. Ao apostar no tudo ou nada, Israel só pode perder.

de Assis Esperança:

[o arrastão]

«Maria da Soledade considerara tão insòlitamente forçada mais esta das suas demandas do trabalho em pátrias alheias, que, prontamente, classificara de dinheiro bem gasto o de preferir, desta vez, o "sud-express" para paris, a carruagem-camas uma espécie de salvaguarda para as viagens de cambulhada e, muito mais, para as do arrastão, comboio de uma só classe, a segunda, sempre a abarrotar de emigrantes.»

Fronteiras (1973)

terça-feira, Julho 15, 2014

de Júlio Dinis:

«Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracíssima província começa já a ressentir-se, senão ainda nos vales e planuras, nos visos dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa Trás-os-Montes.»

A Morgadinha dos Canaviais (1868)

segunda-feira, Julho 14, 2014

a lad insane


O título, Aladdin Sane, "a lad insane", toda a música, do riff ao refrão, é estupenda. O início, cada interveniente como que se estuda, até o baixo e guitarra acompanhando-se e dando suporte ao "Whoooo, will love Aladdin sane?" O solo do piano de Mike Garson, jazzístico e vanguardista (com o sax de Ken Fordham intrometendo-se), dá o plus que desde sempre a mantém nos nossos ouvidos.

de Manuel Ferreira:

[...diziam os de São Nicolau]

«Era o veleiro mandado por Deus Nosso Senhor. Que levaria aquele povo à outra ilha distante e abençoada onde todos encontrariam abrigo e protecção. Lá não havia fome. Lá a catchupa chegava para os mais necessitados e perseguidos pela estiagem. Gente, São Vicente tinha Porto Grande, tinha navios de todas as partes do mundo trazendo trabalho e comida. Soncente tinha tropa que enchia a barriga a todos nós.»

Hora di Bai [1962]

sábado, Julho 12, 2014

Charlie Haden (1937-2014)

A Song For Che dedicada aos movimentos de libertação das colónia portuguesa em África, num Cascais Jazz, antes do 25-A, com detenção pela PIDE e posterior expulsão. O 80/81 no Parque Palmela, Cascais ainda.


sexta-feira, Julho 11, 2014

de Euclides da Cunha:

[que a seca espavoriu]

«Despontam vivendas pobres; algumas desertas pela retirada dos vaqueiros que a seca espavoriu; em ruínas, outras; agravando todas, no aspecto paupérrimo, o traço melancólico das paisagens...»

Os Sertões [1902]