quarta-feira, maio 27, 2015

além de imbecil, o Acordo Ortográfico passou a perturbar-me, mais

A ler o Machado de Assis, em puro gozo impúdico, como só o Eça e algum Camilo, nestes particulares de génio aliado à perfídia.
Estava, pois, a salivar em grande literatura numa boa edição brasileira de 1978, com a ortografia deles, e aquilo que antes me passava ao lado (cresci, como milhões de crianças portuguesas, com as revistas da Editora Abril, da Ebal, da Rio Gráfica), agora enerva-me, não por causa da ortografia que é naturalmente a brasileira, mas pela desfaçatez do Poder, que se arrogou a prerrogativa de torpedear a língua, minando-a ao serviço da estratégia da geopolítica dos fracos.
Não vou perorar: todos os que não são burocratas da língua, os que não lhe são indiferentes (no fundo, uma minoria de nós) e os que não têm complexos de esquerda festiva, que aceita pavlovianamente mudança bem ataviada de retórica -- esses poucos, convenhamos, sabem que não há acordo que alterem sintaxes em divergência ou uniformizem verosimilhança / verossimilhança ou dezasseis /dezesseis -- duas palavras com que tropecei no meu Dom Casmurro e que (malditos acordistas, malditos abortistas!) imperdoavelmente me desviaram a atenção do silencioso enleio Bentinho / Capitu.

domingo, maio 24, 2015

P de Patinhas

Patinhas, Tio - Carl Barks; Don Rosa; eu, muito pequeno e até agora.

Carl Barks

V de Vinte e Cinco de Abril

Vinte e Cinco de Abril - Dez anos surpreendidos.

sexta-feira, maio 22, 2015

B de beijo

Beijo - primeiro preliminar.

quinta-feira, maio 21, 2015

os dias cheios

«Da cidade acenam aos camponeses uma vida de outro tamanho, onde há uma amostra de leis que os defende, e eles, que não gostavam de aventuras, abalam à procura de pão e carinho para terras de maior proveito. Por via destes enredos, vai-se estiolando o amor pela terra na alma dos homens do Sul. E em seu lugar desabrocha o tédio, uma grande mágoa, ou uma raiva explosiva, que lhes enche os dias de solidão.»

Antunes da Silva, Suão (1960)

I de ira

Ira (ou I.R.A.) - libertação.

quarta-feira, maio 20, 2015

caça ao homem

Sim, o polícia que bateu no pai à frente dos filhos menores e socou o avô.
Merece censura e sanção adequada, como é evidente. Mesmo que tenha perdido a cabeça com alegados insultos proferidos pelo cidadão em causa (e é visível que o homem estava muito agitado). Um agente armado não pode perder a cabeça. Prossigo: se se provar que o agente falseou factos no seu relatório, isso é para mim ainda mais grave, e o castigo, nesse caso, deverá ser da maior severidade.
Nada disto, porém, tem que ver com os ecos que me têm chegado da sanha degradante das turbamultas dos facebooks, os instintos mais baixos que ali se vazam, a ralé sem freio.

terça-feira, maio 19, 2015

mesmo a luz mais cruel do dia mais claro

«O viajante atento notará que nenhum deles retira a protecção senão para colocar diante da vista outras lentes, as lentes das máquinas fotográficas que constantemente apontam para o mar e uns aos outros. Ao verdadeiro viajante não lhe agradarão os óculos escuros porque prefere receber puros todos os tipos de luz -- mesmo a luz mais cruel do dia mais claro, que é tão verdadeira como a de todos os outros dias; para ele, fotografar não é guardar um lugar no espírito, é pouco mais do que guardar um lugar na película fotográfica.»

Paulo Tiago Bento, Outras Terras -- A Europa Viajada a Leste (1998)

microleituras: Theodor W. Adorno, POESIA LÍRICA E SOCIEDADE (1957)

Tal como o apoliticismo é profundamente político, a recusa do tangível em poesia acaba por ser, por oposição, uma atitude que reflecte o social. E que poesia rejeita Adorno (1903-1969)? A poesia mercantilizada, a dos prémios literários, a dos suplementos dos jornais, exaltando, pelo contrário, a estesia pura de comunicar o mundo sem porquê, reduzir as palavras ao essencial e não ao funcional. Ou, para citar um poema do norte-americano A. R. Ammons que ainda ontem me passou pelos olhos e pelas mãos: «Desistir das palavras com palavras.» (Limiar #4, 1994). 
Há aqui um nojo, que compreendo bem (estamos em 1957, mas, por outras razões, poderia ser 2015), compreendo, mas ao qual, provavelmente por romantismo, espero-o bem, não consigo aderir. Pôr a mão na massa, para mim, ainda pode ser das acções mais poéticas que uma caneta (!) poderá praticar, pelo risco, pelo despojamento. Sinto-me, aliás, confortado com o que ele escreve a propósito de Brecht, cujo nome se afirma «como o do poeta a quem foi dada a integridade da linguagem sem ter de pagar tributo ao esoterismo.» 
Antes de me ficar, uma nota para a edição, que comprei há dez anos numa Feira do Livro (a 6,16€, preço da dita -- ai o mercado...), cujo colofão, o mais bonito colofão que já li, reza assim: «Este primeiro volume da colecção Marfim acabou de se imprimir na Artipol -- Águeda, no dia 12 de Março de 2003, 48 anos após a morte de Charlie Parker.»  Caraças!, assim também eu queria ser editor.

o incipit: «O anúncio de uma conferência sobre poesia lírica e sociedade irá trazer um certo mal-estar a muitos de vós.»

ficha
   
tradução: Maria Antónia Amarante (e João Barrento para os poemas)
«Colecção Marfim» #1
editora: Angelus Novus
local: Coimbra
ano: 2003
capa: Francisco Romão
impressão: Artipol, Águeda
págs.: 29

o sorriso vadio do demónio

«E José pousou o copo vazio no balcão, e junto à sua pele, sob a luz, sob as palavras, instantâneo, materializou-se o sorriso vadio do demónio. Sorria. Era o único que não trazia a pele escura do sol, trazia camisa e calças passadas e vincadas, cabelo penteado entre a boina e as saliências dos cornos. Era o único que sorria. Dois copos de tinto, pediu sorrateiramente. José não precisou de o olhar. Em silêncio, esperou os copos cheios até à gota que lhes faltou para que transbordassem.»

José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)

segunda-feira, maio 18, 2015

I de Iznogoud

Iznogoud - infância; uma outra Bagdade; "califa no lugar do califa"; a mais divertida expressão da maldade.

Goscinny & Tabary

POLEDNICE