sábado, Agosto 30, 2014

Para o que der e vier

Até há pouco desconhecia a série Para o que Der e Vier (For Better Or For Worse), da canadiana Lynn Johnston, publicada entre 1979 e 2008. Foi uma aposta da Gradiva, que infelizmente não vingou entre nós. E infelizmente porque a autora cultivou um humor mais refinado e adulto, acompanhando o envelhecimento das personagens (o que, à época, não era muito vulgar) a par do seu próprio. A série tem aliás uma forte componente autobiográfica, 
A Balada da Máquina de Lavar (I've Got The One-More-Washload Blues, 1981) é o primeiro álbum da série e mostra-nos o dia-a-dia da família da classe média, os Patterson,  centrando-se na mãe, Elly, que decide ficar em casa a tomar conta dos filhos muito pequenos, enquanto o marido trabalha na sua clínica dentária. Muito bem conseguido o tratamento do tédio e da saturação, como o da felicidade e exaltação. 

estampa CLXXXII - Kees van Dongen


Retrato de Fernande (1906)
col. particular

quarta-feira, Agosto 27, 2014

tudo no lugar

Um McCartney típico, bem construído e esgalhado, cheio de alma e graça, com tudo no seu lugar: a linha do baixo, o fraseado da guitarra, o beat da bateria, as vozes desesperadamente roufenhas. E é divertido. Abre Rubber Soul (1965), um dos meus álbuns preferidos.


Bruce Springsteen: de Sam & Dave aos My Morning Jackett, passando por David Crosby

Grande admirador dos Stones e dos Clash, como performer o "Boss" elege a dupla Sam & Dave, e recorda um espectáculo a que assistiu em NJ, por 1973/74: "I felt like I was stood there witnessing a miracle. I actually cried -- it was from seeing the beautiful and visible effort of the guys that were trying to erntertain you." Nos concertos, Springsteen faz pôr música de várias épocas, de Woody Guthrie aos My Morning Jacket, banda que conheceu através do filho e lhe parece uma ponte que vem da cena mais psicadélica dos anos sessenta. Lembra, a propósito, um grande disco de David Crosby (Classic Rock #200, 8/2014)


terça-feira, Agosto 26, 2014

Ian Gillan, Little Richard e marcianos

Rock -- disse Ian Gillan, vocalista fundador dos Deep Purple à Classic Rock #200 (8/2014) -- "It's an explosively powerful thing that stays with you for life." E se o marciano descesse à Terra e quisesse saber do que se tratava, ele punha-o a ouvir Good Golly Miss Molly, de Little Richard.

domingo, Agosto 24, 2014

Padre Manuel Bernardes


Imagens da Obra do Padre Manuel Bernardes (Lisboa, Seara Nova, 1978), apresentada e organizada por Lucília Gonçalves Pires, destina-se principalmente a estudantes; mas à falta de edições acessíveis decentes (ou mesmo indecentes) dos nossos autores canónicos, acaba por ter o leitor comum interessado como destinatário. E creio que cumpre a função como introdução à obra do Padre Manuel Bernardes (1644-1710), um exímio cultor da língua, passe o lugar-comum.

Porque faz sentido ler Bernardes em 2014? Pela mesma razão que não nos dispensamos de  ver a pintura de Sequeira ou de ouvir as sonatas de Seixas. O grande estilo não prescreve, e, tratando-se de prosa edificante e religiosa, é irrelevante o sermos ateus, mesmo que o assunto seja Deus, o Diabo e a Virgem Maria, a salvação ou a condenação, Paraíso ou Inferno. Pelo contrário, se dotada de sincera profundidade, o supremo gozo do leitor é o de assistir à exímia arte da escrita desenrolar-se diante dos olhos, ao sábio dosear dos recursos de estilo, por forma a manipular o leitor ou o ouvinte. Atente-se neste exemplo retirado dos Exercícios Espirituais (1686), em que o autor procura definir Deus, terminando por admitir o aparente fracasso:
«[...] Deus é um supremo Senhor, de infinita majestade e perfeição, de infinita sabedoria, poder e santidade, o qual só de si mesmo é compreendido. É uma luz escuríssima por sua muita claridade, um abismo de perfeições, quanto mais conhecidas mais ignoradas, um ser eterno e incomutável, fonte de todo o ser criado. A Eternidade é o seu século, a Imensidade o seu trono, a Omnipotência o seu ceptro. Dentro de si, mora e vive uma vida felicíssima, sem princípio, sem fim, sem novidade, sem defeito, sem mudança. É Monarca independente, absoluto Senhor, Pai amoroso, de cuja bondade e glória comunicada estão cheios os Céus e a terra. Este é Deus, ou para dizer melhor, este não é Deus, porque Deus não é o que na palavra ou pensamento nem humano nem angélico pode caber. [...]»
Bernardes era também um grande narrador: os seus textos exemplares são construídos para prenderem o leitor/ouvinte, como se se tratasse duma obra de recreação profana e não aquilo que efectivamente pretendem ser: instrumentos para a salvação da alma.  

coisas suculentas


daqui

Hank Marvin: economia de meios

O maravilhoso Hank Marvin foi o primeiro guitar hero britânico, apesar da sua modéstia. À Classic Rock (#200, 8/2014) disse só se aperceber da influência junto de guitarristas mais novos já na década de 70, quando gente como Brian May, Mark Knopfler e Jeff Beck, inesperadamente, fizeram que se soubesse. E até tipos do metal, e até rapazes e raparigas do punk, que lhe apareciam nos espectáculos dos Shadows: "When we ask why they were there they replied: 'We love the economy of your music.It's like early punk.'"

Jimmy Page: da descoberta das raízes

Ainda na escola, Jimmy Page (Led Zeppelin) ouvia Elvis, Jerry Lee Lewis, The Rock And Roll Trio e Little Richard, a maior referência desses tempos: "I'm not the first one to say that hearing Little Richard was like, wow!" E depois de ouvi-los, perguntava-se. "'Who is Sleepy John Estes? Who is Arthur "Big Boy" Crudup?'" (da entrevista a Classic Rock #200, 8/2014). Rock And Roll, por exemplo, foi composto sob a influência desses tempos iniciais.

sábado, Agosto 23, 2014

do Hammill sei eu que é imortal

Mesmo tema, morte, imortalidade, etc. para Peter Hammill (Van der Graaf Generator). Limpinho e e peremptório sobre "vida depois da morte" e baboseiras similares: "I believe thet when we're done we're done. So make the best use of time while where here." Claro que isso é para nós, bípedes sem qualidades. Para ele, a música extraordinária garante-lhe, ah pois garante, a imortalidade possível.
Em baixo, All That Before, um tema sobre o envelhecer, VDGG reduzidos a trio, mas bons bons, como o vinho do Porto (ou Carcavelos, no meu caso).

sexta-feira, Agosto 22, 2014

BARDAMERDA!

Tanta aflição, justificada, com as vítimas civis em Gaza, incluindo mulheres e crianças, e não vejo preocupações e indignações similares em relação aos russos do leste da Ucrânia, incluindo mulheres e crianças, vítimas de tratamento similar, embora em menor grau.
E não vejo, porquê? Porque a porcaria da imprensa (jornais e televisões, principalmente; a Antena 1 é ainda um oásis de bom jornalismo) portuguesa, com honrosas excepções, é: 1.º, incrivelmente ignorante e incompetente; 2.º, ideologicamente determinada, pese a ignorância crassa e a incompetência ominosa de que dá mostras quotidianamente; 3.º, boa parte dos directores e chefias das redacções são criados, e isso determina tudo.

Joe Bonamassa: para além da morte

Morte e esquecimento, o tópico guardado pela Classic Rock (#200, 8/2014) para Joe Bonamassa: daqui a 50 anos, esperará ser lembrado? Sim, claro, mas nunca se sabe -- diz. Talvez The Ballad Of John Henry esteja esquecida ou continue a ser tocada, mas: "At the end of the day, whato do I care. I most probably won't be around in fifty years' time."

quinta-feira, Agosto 21, 2014

preconceito, abuso de poder & salamaleques numa BD (subversiva) de Spirou

Em O Feiticeiro de Talmourol (Il y A un Sorcier à Champignac, 1950), Spirou e Fantásio planeiam fazer campismo numa aldeia, cujo titular, o Conde, Pacómio Hegésipo Adelardo Ladislau, em primeira aparição, será personagem de importância crescente, até hoje. As intervenções iniciais serão, porém, do cabotino presidente da Câmara, também em estreia, e de uma família cigana, por ele escorraçada, por antecipação de pilhagalinhagem.
O factor de comicidade é introduzido pelos novos semáforos que o maire manda instalar numa recta -- sem trânsito, mas isso só seria visto pelos inimigos políticos e do progresso, porque ele é que era o presidente da Câmara... A família cigana, de caravana, com o homem a pé, é admoestada por passar o sinal vermelho; para o conde, que transgride em sua dona-elvira, uma acentuada vénia, embora com fúria; dois ciclocampistas ajoujados com as pesadas mochilas pejadas -- Spirou e Fantásio --, esses sim, o edil vê neles a oportunidade de tirar desforço pelo atrevimento do desrespeito pelas regras de trânsito: "Alto! Seus garotos! Não vêem o sinal vermelho?!"

Franquin e Jean Darc (Henri Gillain), Spirou -- O Feiticeiro de Talmourol, tradução de Ricardo Alberty, Lisboa, Editorial publica, 1981, pranchas 1-2.

quarta-feira, Agosto 20, 2014

Robert Wyatt: "música de intervenção"

Apesar de gravada pouco antes por Elvis Costello, Robert Wyatt (baterista fundador dos Soft Machine), decidiu fazer uma versão de Shipbuilding, logo após o fim da Guerra das Falkland, considerando -- em entrevista à Classic Rock (#200, 8/2014) -- que ambos, Wyatt e Costello, ainda hoje sentem necessidade de cantá-la.
Sobre a música de intervenção política e social escrita nos anos 60, o músico britânico distingue Masters Of War, de Bob Dylan, Universal Soldier, de Buffy Sainte-Marie, e, acima de todos, o verdadeiro catalisador, A Change Is Gonna Come, de Sam Cooke: "That set the tone for musicians taking a critical look at the establishment."

trailers #6 - PLANET OF THE APES, de Franklin J. Schaffner (1968)

Fábula pessimista, sobreviveu mal ao tempo. Uma curiosidade.


terça-feira, Agosto 19, 2014

aprender a ler

O autor não é apenas professor de Literatura (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), como tem a particularidade de gostar dela, a Literatura -- o que nem sempre sucede --, e, o que é mais, sabe transmitir pedagogicamente essa paixão.
Estas Notas de Rodapé serão tal, na sua designação humilde, se nos reportarmos ao seu objecto: a grande literatura -- brasileira, principalmente, mas também portuguesa e de além-língua. Borges, Calvino e Eco, por exemplo, são abundantemente citados ao longo do livro, muitas vezes em epígrafes. Acontece que estas crónicas, publicadas na imprensa, foram escritas com o gosto de comunicar com os alunos e todos quantos pretendem aventurar-se no bosque da ficção. E, nesse aspecto, é excelente para aqueles leitores menos experientes, perdidos nos labirintos do mercado, nivelando ou soterrando os clássicos de ontem e de hoje na avalanche da subliteratura parida a esmo pela indústria editorial.
"Devaneios de um leitor solitário", subtitula Tôrres Freire o seu livro, desta forma despretensiosa e aparentemente leve, fazendo pontes para a História ou o Cinema, conduzindo sabiamente e dando ferramentas ao leitor interessado em distinguir o trigo do joio. Quase todos os Grandes brasileiros estão lá; e enquanto leitor português apreciei os textos consagrados a Fernando Pessoa, Ferreira de Castro, José Saramago e António Lobo Antunes. 

 José Alonso Tôrres Freire,  Notas de Rodapé -- Devaneios de um Leitor Solitário, Campo Grande, 2014.

David Crosby: os Byrds e Pete Seeger

Para Crosby, Pete Seeger foi o músico mais político com quem trabalhou, disse-o à Classic Rock #200 (8/2014). Os Byrds nutriam grande admiração por ele, homenageando-o com uma versão de Turn! Turn! Turn! (1959) -- o que motivou uma carta do já então músico veterano:
"They used to do everything but burn crosses on my lawn for being a communist. Now they come around and ask for my autograph. You boys are wonderful!".
Em baixo, os mesmos Byrds, em 1965; e Seeger, em 2010, então com 89 anos.