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sábado, agosto 24, 2019

um elogio (e não é por causa do Salazar, embora também por isso o mereça) à Câmara de Santa Comba Dão

A pintura à esquerda integra um conjunto de seis grandes telas da autoria do enorme Columbano Bordalo Pinheiro, muitas vezes vislumbradas nos telejornais, pois está nos Passos Perdidos, na Assembleia da República, Da esquerda para a direita: Mouzinho da Silveira, Duque de Palmela, Duque de Saldanha e José da Silva Carvalho. Este, que também é natural de Santa Comba Dão, fundador do Sinédrio e um dos líderes políticos da Revolução de 1820, foi, em minha opinião, bastante mais importante para a História de Portugal do que Salazar. E a Câmara local está a celebrá-lo, culminando, no próximo ano com o bicentenário do vintismo, a mais transcendente revolução da nossa contemporaneidade, e de que o 25 de Abril representa uma espécie corolário. Um exemplo, pois, que deveria ser seguido -- o que talvez seja esperar demasiado dum país sem política cultural.

quinta-feira, agosto 22, 2019

que fazer com o Salazar? (com adenda)

O Salazar só me lembra coisas que detesto: primeiro, a manha da conservação do poder; depois: pobreza, pide, missas, bufos, censura, colonialismo e atraso, moral e mental, do povo, que ainda estamos a pagar. 
Museu sobre Salazar em Santa Comba Dão? Um museu tem critérios. Se eles se verificarem -- existem regulamentos para tal. Não faço ideia dos critérios da câmara do sítio, para além do centro interpretativo (palavras da moda, como curadoria e outras). Espero que haja massa crítica para que aquilo não seja um santuário, com venda de pagelas bentas do santinho, nem redunde na mostra do penico do Salazar numa caixa acrílica -- mas nunca se sabe.  Tem bom remédio, porém: vá à universidade, Coimbra, ali perto, ou outra, e se quer fazer coisa séria, convide-a para parceira no delinear de um projecto e coordenação, e com isso mata o assunto.
Goste-se ou não, o Salazar governou este país durante quarenta anos. Foi, portanto, um dos homens que mais o influenciou, em quase nove séculos, que é o tempo que já levamos disto. A sua terra lembrá-lo -- agora, ontem, daqui a vinte anos -- é uma inevitabilidade, e pode fazê-lo bem, criticamente, ou não. Mas nesse caso já não será um museu. O que sempre me irrita são os activistas do costume (ponho de lado os antigos presos políticos) disfarçados de historiadores e cientistas sociais (oh...) a descabelarem-se em abaixo-assinados no facebook, tudo tão pequeninamente miserável e reles...

Adenda: entretanto fiquei a saber - e já poderia sabê-lo se tivesse consultado o sítio da CM de Santa Comba Dão, que o projecto está a ser coordenado pelo Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da U. Coimbra, o que assegura toda a fiabilidade do projecto. Parabéns, pois, à CMSCD.

Adenda 2: esta conversa liga-se à "Questão dos Descobrimentos", em que mais uma vez se mostra  a farsa intelectual veiculada por ideólogos travestidos de historiadores e afins.

quarta-feira, março 13, 2019

Fernão de Magalhães, Cristiano Ronaldo, o «Bartoon» -- ou de como uma coisa é História e historiografia, outra a ideologia







O melhor comentário que vi sobre a falsa questão da viagem de Fernão de Magalhães foi o cartoon de Luís Afonso no Público de anteontem. O humor sempre foi a melhor forma de lidar com a estupidez. No entanto, mais do que estupidez, trata-se de uma contaminação ideológica de nacionalismo, sempre aldrabão, complexado e perigoso. Desta vez a aldrabice é nacionalista (tresanda a franquismo esta  españolidad ); outras vezes é alegadamente progressista, como sucedeu com o debate sobre os Descobrimentos, outra vigarice intelectualmente desonesta, como na altura caracterizei;
Ao contrário do que diz lugar-comum, a historiografia não é uma ciência, embora não dispense o recurso às ciências. Mas o facto de ser uma disciplina do domínio das humanidades, não significa que se possa  impunemente sacrificá-la às ideologias do momento; porque, repetindo-me, não se trata já da História, mas activismo, seja ele benéfico, como o combate ao racismo ou ao imperialismo, seja pernicioso, como sucede com os nacionalismos; e a História não se compadece com as paixões conjunturais; está lá sempre com o seu peso, para nos interpelar.

sábado, setembro 08, 2018

de novo os Descobrimentos, e acabando com a questão

Durante as minhas férias, Luís Filipe Thomaz publicou um artigo sobre a questão dos Descobrimentos. Como escrevera que era a sua visão do problema a que me interessava, deixo aqui o registo. 

Historiador, e não um sócio-coiso em estudos pós-coloniais -- não devo errar se disser tratar-se do maior historiador português vivo daquele período. Aliás, basta comparar o seu texto com a indigência pateta do abaixo-assinado, ou lá o que é, para ver a desproporção da qualidade e a diferente natureza de entre historiografia e activismo.

Repito que não me pronuncio sobre a pertinência de um museu (mas digo já que não sou a favor, e estou, neste particular, mais próximo da posição de João Paulo Oliveira e Costa), mas apenas sobre o acerto da palavra Descobrimentos, que remeto para aqui, verificando, com agrado, que temos posições semelhantes quanto ao fundo da questão, ressalvando as óbvias distâncias do cabedal de cada um no que respeita à História da Expansão e Descobrimentos Portugueses.

Mais do que o atrevimento da ignorância, irrita-me o sectarismo ideológico e pior, a glossolalia impostora, a vassalagem aos bonzos e o espírito de manada. 

segunda-feira, julho 16, 2018

ainda os Descobrimentos: os historiadores, os activistas e os outros

Só historiadores dum tempo relativamente longo e complexo, que compreende os séculos XIV, XV e XVI, estão habilitados a aspirar ver todo o quadro em que se processou a navegação e conquista dos portugueses, ou seja o que designamos por Descobrimentos e Expansão; são os que põem as mãos na massa dos arquivos, dos documentos, dos livros quem tem em cima da mesa as questões políticas, económicas, sociais, culturais, mentais, científicas, geopolíticas, e por aí fora. O resto é opinião.

Sobre a questão interessa-me saber o que pensa, por exemplo, Luís Filipe Thomaz (não sei se já se pronunciou sobre o assunto); já o que defende Fernando Rosas (que, aliás, fez um extraordinário programa sobre o colonialismo português, que elogiei aqui), é, para o caso, irrelevante.

Uma das tácticas dos activistas consiste em amalgamar os que se opõem ou manifestam reservas à eliminação da palavra Descobrimentos naquele período histórico como um conjunto de indivíduos que têm uma visão glorificadora da História. Daí à sugestão subliminar de nacionalismo ou protofascismo vai um passo. Ora bem, é preciso desmontar essa vigarice intelectual

A historiografia não se compadece com activismo, para o qual, o rigor é um detalhe. Por isso a embrulhada a que recorrem, uns propositadamente, outros por psitacismo, trazendo à liça o império colonial e outros anacronismos e distorções.

No fundo, trata-se de um debate desigual: por um lado, os que pensam a História; do outro, as palavras-de-ordem, a ideologia, as estruturas mentais semelhantes àqueles que procuram censurar ou reescrever os livros do Mark Twain, nos Estados Unidos, ou do Monteiro Lobato, no Brasil. Em suma, o politicamente correcto, designação que tanto os irrita.

(Acrescentando ao que já escrevi):

quinta-feira, maio 24, 2018

Descobrimentos Portugueses: o #metoo da historiografia

«Museu das Descobertas». A designação é obviamente simplória. Não pelas razões que aduzem aqueles que sacrificam ao politicamente correcto, como pela pobreza do conceito para caracterizar um complexo movimento político, social, económico, cultural, religioso, científico por detrás da expansão e dos descobrimentos portugueses. A ideia, aliás, inscrita em programa eleitoral, tem todos os contornos dum típico coelho tirado da cartola da politquice barata, para efeitos de pirotecnia de campanha, sem cuidar do como e do porquê.

Costumo dizer que graças aos Descobrimentos e à Expansão, os portugueses  garantiram a sua presença na história da Humanidade; somos uma espécie de fenícios dos tempos modernos, quando poderíamos ficar-nos pela dimensão duns quaisquer túrdulos da cultura castreja... Não vou, porém, falar da pertinência ou da oportunidade da criação de uma grande museu dos descobrimentos, quando o património cultural do país está na miséria que se sabe. Para já, interessa-me a questão levantada em torno do nome.

A discussão e o debate de ideias é sempre excelente, porém, quando, a coberto duma cientificidade de analfabetos se pretende distorcer a História, não me apetece ter grande contemplações para um texto  indigente, assinado por algumas figuras estimáveis. Felizmente, não tenho vocação de discípulo nem gosto de rebanhos. E, nessa perspectiva, também não me deixarei condicionar pelos arremedos autoritários, para não escrever 'totalitários', que lançam o labéu de fascistas ou fascizantes àqueles que deploram um embuste e um esquema mental que dá origem a idiotices como esta.

Em primeiro lugar, a haver um museu com esta temática, o seu interesse para a comunidade só se justifica se partir duma perspectiva portuguesa; caso contrário, é melhor tratar do merchadising com os americanos e pô-los a fazer uma espécie de Disneylândia inspirada nos tempos do Gama e do Albuquerque. Por que diabo um museu português não deveria ter uma perspectiva portuguesa, integrando numa visão planetária, essa mesma que contribuíram decisivamente para alcançar, gostemos ou não? Claro que uma abordagem objectiva e sem patriotinheirices, sem escamotear o horror, a pilhagem, o domínio, o tráfico de escravos -- actividade que nos distinguiu durante demasiado tempo. De resto, como é que depois de Vitorino Magalhães Godinho, de Luís de Albuquerque, de tantos historiadores, portugueses e estrangeiros, que se debruçaram sobre aqueles séculos de história portuguesa, se admite que doutra forma pudesse ser? Falamos de museu ou dum evento, entre os jogos-sem-fronteiras e o festival-da-canção?...

Ao contrário dos que escrevem os guardiões do moralismo anacrónico, a palavra não "cristaliza uma incorrecção histórica", pelo contrário. Houve, de facto, descoberta de territórios desabitados, desconhecidos de toda a Humanidade; tal como aconteceu o desvendar de rotas nunca por outros singradas; e o evidente descobrimento de um mundo mais amplo que rompia com uma percepção que remontava à Antiguidade. Se isto não é descobrimento é o quê, então? E não deve este pioneirismo ser conhecido da comunidade portuguesa, sem a basófia antihistórica dos manuais da República e do Estado Novo? 

É verdade que os outros povos não foram "descobertos", por isso se recorre, com razão, ao acoplamento da palavra "Expansão". Ao contrário dos "Descobrimentos",  que remontam à Idade Média (as "Navegações", em bom rigor, recuam ao Neolítico...), o movimento expansionista e imperial português tem uma data delimitada e uma ocorrência definida: 1415, ano da conquista de Ceuta (e mesmo assim com algumas raízes político-económicas que não há espaço para abordar). A partir daqui Expansão e Descobrimentos são duas faces duma mesma moeda. E nela está inscrita o colonialismo português, particularmente vil, cuja libertação se deveu aos povos colonizados e aos seus movimentos de libertação: PAIGC, MPLA, FRELIMO, movimentos tão de libertação que até contribuíram decisivamente para libertar os portugueses.

Obliterar a noção de descoberta não é só uma parvoíce, como a tentativa, de resto inglória, de rasurar da História um processo que nos identifica como comunidade, com um lastro cultural avassalador (como se lê e vê e sente nestes versos da Sophia de Mello Breyner Andresen e do António Pedro) ; uma espécie de #metoo da historiografia, em nome dos bons sentimentos. Ora, se a exclusividade dos bons sentimentos em arte borram a pintura, na historiografia ainda fazem pior, chama-se vigarice.

quinta-feira, fevereiro 22, 2018

o Massacre de Batepá e as culpas de Portugal

O Presidente da República esteve bem quando abominou o Massacre de Batepá, mas não teria ficado mal um pedido de desculpas aos sãotomenses. Não especificamente pela actuação de um escroque que era governador da então colónia, chamado Carlos Gorgulho, cujo nome só deve ser referido para se acompanhar da abjecção que merece. Este indivíduo exorbitou criminosamente  as suas funções, tentando, inclusivamente, enganar o poder de Lisboa, inventando uma intentona revolucionária quando a população se revoltava apenas contra a arbitrariedade mais chula e reles. Foi, curiosamente, a pide que, chamada à ilha, percebeu que a insurreição não tinha que ver com motivações políticas independentistas, como lhe havia sido vendido, mas com a simples autodefesa de quem era capturado para trabalhar forçadamente em obras públicas, para glória do Gorgulho. As desculpas são devidas pela actuação do nosso Salazar, que alertado pela dita pide para as reais motivações dos insurgentes, manda recambiar o vigarista; e creio, com o cinismo e filhadaputice que eram seu apanágio, chega a dar-lhe um louvor ou a condecorá-lo, já não me recordo com exactidão. E fê-lo, não por simpatizar com o homúnculo Gorgulho, mas para que o Estado não perdesse a face, no seu entender. É por isso que  teria ficado bem a Marcelo Rebelo de Sousa, enquanto presidente de Portugal um pedido de desculpas, já que um bandido é um bandido, e se enodoa o país, como sucedeu, o Estado tem de o sancionar. Como vimos, a penalização, bastante edulcorada, nem merece esse nome.

Ao contrário do que possam pensar alguns obtusos, um país e o seu povo só se honra se reconhecer e manifestar pesar pelos crimes que tenha cometido. Foi o que Soares fez, quando era PR, em Belmonte, pedindo desculpa aos judeus portugueses pelos crimes que o país cometera quinhentos anos atrás. Foi um gesto que nos enobreceu enquanto comunidade.

quinta-feira, dezembro 07, 2017

Cooperação Estruturada Permanente -- pescamos pouco disto, mas não devíamos

A PESCO, ou Cooperação Estruturada Permanente, em burocratês europeu. No descaso geral, e o que parece ser um amadorismo (ou leviandade) preocupante do governo e o voluntarismo do PR em fazer parte do pelotão da frente na constituição de um exército europeu em embrião, levanta as maiores dúvidas e preocupações.
Portugal -- que daqui a onze anos completará nove séculos de existência (Batalha de São Mamede, 1128) -- tem, no que respeita à política externa, três esteios a que não pode e/ou não deve fugir: a Geografia, a História e a Cultura.
Na Geografia, somos um país europeu de fachada atlântica e influência mediterrânica, e o estado no Velho Continente com as fronteiras definidas há mais tempo. As nossas prioridades e os nossos interesses geopolíticos permanentes (e aqui, à Geografia soma-se a História) serão sempre os nossos vizinhos: Espanha e Estados Unidos da América (e, por extensão, a Inglaterra), a Bacia do Mediterrâneo, em particular Marrocos, o Brasil e África de expressão portuguesa. Finalmente, por coerência cultural e opção civilizacional, pertencemos a um vasto complexo político e institucional que dá pelo nome de União Europeia, que tendo as suas implicações, não deve comprometer os vectores de política externa referidos.
Ora para quem como eu, foi e é, um defensor da União Europeia e do seu aprofundamento confederal, já não pode encarar com a mesma inocência de outrora, desde a crise das dívidas soberanas e do comportamento da Alemanha (pela acção) e da França ou da Itália (pela inacção), os riscos de construir mais uma vez pelo telhado um edifício de defesa comum sem garantias institucionais que têm de passar por patamares de poder e decisão de configuração confederal. 
A história recente tem mostrado que na política da UE  tem prevalecido a lei do mais forte, e por isso corremos o risco de sermos arrastados para conflitos em que os interesses não são os nossos, como sucedeu na Ucrânia, uma fraude arranjada pela Alemanha e amigos próximos, e na qual a Rússia mostrou não estar pelos ajustes -- e bem, do seu ponto de vista, e já agora do meu também.
Portugal, país europeu de dimensão média, tem, pois, a espessura de uma longa História e de uma forte identidade, e deve agir de acordo com ela. Que um assunto desta magnitude esteja a ser tratado politicamente em cima do joelho, isso sim, é um erro histórico.   

sábado, novembro 26, 2016

os dois Fidéis

O Fidel Castro da revolução, o guerrilheiro da Sierra Maestra, o que se levantou contra os plutocratas que governavam o país, o que tinha vergonha na cara por Havana ser a casa de putas da máfia e dos magnatas americanos; o que teve políticas sociais incomparáveis que fazia com que, por exemplo, desde há décadas Cuba tivesse uma taxa de mortalidade infantil ao nível da da Suécia, enquanto que os salvadores, as honduras, as guatemalas, os haitis (!) eram (e são) esgotos a céu aberto por onde correm as dejecções de todos os somozas que os governam -- eis o Fidel interessante e que aprecio.
O Fidel demolhado pelo poder, paternalista, moralista, monarquista, ditatorial e sem habanos, esse não me interessa. 
A História irá absolvê-lo? O purgatório está-lhe certamente reservado; mas em comparação com muitos dos seus homólogos, ela, a História, talvez não deixe de pesar tudo isso a seu favor.
P.S. Fidel, no início, não era comunista; foi a crónica burrice dos americanos em mat´ria de política externa que o empurrou para os braços da União Soviética.

sexta-feira, agosto 12, 2016

A Pide antes da Pide

Esplêndida série documental de Jacinto Godinho, «A Pide antes da Pide», a passar na RTP3. Bem batidos os arquivos da televisão, pesquisa indispensável, pois quase toda a gente já morreu, Serviço público a sério.


sexta-feira, fevereiro 12, 2016

Aeroporto Humberto Delgado

Dizem que Humberto Delgado não era flor que se cheirasse. Autoritário, quezilento, quiçá megalómano. Parece, também, que era duma coragem a toda a prova.
Vem isto a propósito da justíssima homenagem, que só peca por tardia, de atribuir-se o seu nome ao Aeroporto "da Portela" (que raio, ainda ninguém pensara nisso? Eu confesso que não, pois evito andar de avião...)
Não faltará quem venha contestar este baptismo, alegando todos esses defeitos e mais alguns. A verdade é que Delgado foi um homem incomum; mas a questão nem é essa: "Humberto Delgado" passou a ser mais do que o homem que encarnou esse nome; tornou-se mito e símbolo do indivíduo que se levanta contra o poder ilegítimo e opressor, levando a nação com ele.
Está provado, pela amostragem que escapou à destruição dos boletins de voto, que Delgado ganhou essas eleições, e que foi portanto um Presidente da República que um governo ilegítimo e usurpador impediu que ascendesse à magistratura que o povo lhe confiara. E de tal maneira Salazar e o regime interiorizaram a derrota que trataram de fazer um revisão constitucional em que o Presidente da República deixou de ser eleito por sufrágio universal para passar a sê-lo por colégio eleitoral. Admissão mais límpida do embuste, não há.
Por justiça poética da História, o usurpador Américo Thomaz, o tal que fora "eleito" em 1958, virá a ser derrubado dezasseis anos mais tarde, a 25 de Abril de 1974.
Delgado foi assassinado cobardemente pelos hominídeos da Pide. Salazar, que pelo menos quis capturá-lo nessa cilada, decidiu pronunciar-se publicamente, encobrindo os sicários que o sustentavam no poder, pudera.
Portanto, Aeroporto Humberto Delgado!

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Somos todos Judeus!

E, na realidade, até somos muitos de origem judaica / cristã-nova. Portugal é, felizmente, o país mais miscigenado da Europa Ocidental: celtas, latinos, hebreus, germânicos e berberes -- só para mencionar os mais notórios ao longo dos dois milénios em que se escreveu a história deste território do extremo-ocidente europeu.
Portugal não foi o primeiro dos países na lista dos crimes contra a gente de nação. Esse triste galardão cabe à Inglaterra desse bandido chamado Ricardo Coração-de-Leão. Mas contribuímos larga e decisivamente para o opróbrio, com a expulsão no final do século XV, com as consequências nefastas que se sabem (esta terra foi sempre muito mal governada...)
Com este cadastro, de que tardámos a redimir-nos (à vergonha que foi a acção de Salazar para com os judeus portugueses na Holanda ou na Grécia, temos a nosso favor não apenas Aristides de Sousa Mendes, mas também Sampaio Garrido e Teixeira Branquinho); com este cadastro temos o dever enquanto país de  estar na primeira linha da comunidade internacional contra a vaga de atentados perpetrados pelos islamo-fascistas.
Nós e o resto da Europa, até para não deixarmos pasto para o criminoso Netanyahu, que, desde os ataques ao Charlie Hebdo, tem estado a manipular a tragédia para a sua estratégia suicida em Israel.
Eu sei que isto é esperar demasiado de um Governo sem política externa; mas um país não se faz só daqueles que transitoriamente o dirigem. 

terça-feira, outubro 28, 2014

a História pateta e adocicada que nos foi ensinada

A propósito deste correctíssimo post, escrevi o seguinte comentário:

Continuamos a ensinar ums história distorcida, ocultando as sombras.
Por essa razão, ficámos muito admirados quando os indianos não acharam graça nenhuma a termos querido comemorar com eles a descoberta do caminho marítimo para a Índia, pois, para eles, o Gama significa, pilhagem e morte.
O mesmo se passou com os 500 anos da viagem de Cabral e a questão dos indígenas.
E foi confrangedor assistir ao pasmo e ao choque dos nossos responsáveis políticos de então, também eles embaladados pela mesma lenga-lenga.
Não é apenas defeito nosso, o que não justifica essa ocultação, que nos deixa não só ignorantes como "desarmados" quando nos são atirados à cara os actos hediondos que também praticámos.

quinta-feira, outubro 02, 2014

os presidentes usurpadores e o antifascismo pateta

Parece que o Parlamento vai homenagear a República com uma exposição de bustos de todos os presidentes das ditas (I, II e III Repúblicas). A II República, mais conhecida por Estado Novo, deu três para o ramalhete. Três usurpadores, diga-se, pois a participação em simulacros eleitorais que mais não foram do que acções políticas fraudulentas, retirou a Carmona, Craveiro Lopes e Thomaz qualquer legitimidade para o exercício da chefia do Estado.
O caso de Américo Thomaz é especialmente gritante e criminoso. Felipe II (I de Portugal) teve mais legitimidade como chefe do Estado do que Thomaz, que não teve nenhuma. De tal forma, que o cagaço de Salazar com o Humberto Delgado suscitou(-lhe) uma revisão constitucional, em que o PR deixou de ser eleito por sufrágio universal para passar a sê-lo por colégio eleitoral.
Dito isto: expõem-se cem anos de República. O que se faz com presidentes usurpadores e ilegítimos? Varrem-se para debaixo do tapete da História? Não conheço o teor da exposição, mas duvido que seja glorificadora, caso contrário não é uma exposição mas uma acção (canhestra) de propaganda.

Uma ressalva, em tempo: é claro que não me refiro aos resistentes, quando falo em patetice, gente que me merece o maior respeito, mas a certos pinto-calçudos, quase de calções ainda hoje, bradando...

segunda-feira, julho 28, 2014

28 de Julho de 1914 -- a Grande Guerra começou há cem anos, e assombra-nos.

A pretexto de um assassínio político perpetrado um mês antes, há 100 anos a Áustria-Hungria declarava guerra à Sérvia. Não passou de mero pretexto, porém. A causa da Grande Guerra radica em vários factores, a saber: a disputa imperialista centrada no Velho Continente, através do sistema de alianças, mas com ramificações e palcos extra-europeus, em concorrências territoriais e de supremacia armamentista; e a inconsciência geral, quer do rápido desenvolvimento transnacional do conflito (num ápice a guerra tomou o freio nos dentes), quer dos custos humanos e económicos que iria acarretar -- o que justifica o acolhimento delirante e patético do anúncio do conflito por parte das opiniões públicas.
Conflito, aliás, que não terminaria em 1918, mas em 1945, pois Hitler (e até Stálin) são a um tempo consequência da vertigem ou da deliquescência imperiais e da ganância dos potentados económicos e financeiros.
Hoje, continuamos com um sistema de alianças, em recomposição, o imperialismo é norte-americano, russo, mas agora também chinês, e a cupidez mercantil e argentária está globalizada. Mas ninguém, em seu perfeito juízo, poderá vir para a rua simploriamente saltar e cantar, se... Um  se que nunca será de excluir, por mais absurdo, irracional e indigno, pois nada na animalidade dos homens o garante. Quem tiver dúvidas que olhe para o lado (ou para o espelho, se tiver coragem), e diga se gosta do que vê.



sexta-feira, junho 06, 2014

6.VI.1944

O Desembarque na Normandia foi uma das batalhas mais cruas e decisivas da história da humanidade. O heroísmo dos Aliados impressiona e comove (aqui, um conjunto sensacional de fotografias).

foto: Wikipedia

quinta-feira, dezembro 05, 2013

Nelson Mandela

Poucos homens na história da humanidade conseguiram, pela acção, tornar o mundo melhor. Nelson Mandela foi um desses raros.


terça-feira, dezembro 03, 2013

mansos, mas perigosos

Na excelente entrevista que deu ao Expresso, Rui Nunes disse que o impressionava "a mansidão" dos portugueses, acrescentando: "Este povo foge, não enfrenta."
Trata-se de uma meia verdade. Nem vale a pena irmos aos Lusitanos, esse beirões bárbaros, para lembrarmos como foi dura a conquista romana ("não se governam nem se deixam governar", não é?). Este país fez-se à estalada, e os quase nove séculos que leva de existência ininterrupta (a união filipina foi isso mesmo, a junção, e não a fusão de duas coroas), não permitem que nos possamos caracterizar como bons de assoar. É Manuel Alegre quem costuma dizer que a história dos brandos costumes é uma treta. Basta lembrarmo-nos da sangrenta guerra civil ou, anos antes, das invasões napoleónicas, em que francês capturado era francês grelhado ou crucificado como um cristo numa superfície de madeira mais à mão, até apodrecer; e também não foi com suavidade que sustentaram uma guerra colonial em três frentes durante treze anos; como não tinham sido gentis no Índico, uns séculos antes, passando a fio de espada populações autóctones ou pondo a tormento os comandantes de barcos inimigos, antes de os incendiarem e afundarem, com as tripulações lá dentro...
Os portugueses serão mansos, até se sentirem acossados. Nessa altura mostram a sua natureza de animais ferozes, gente que joga à bola com as cabeças decepadas dos inimigos, que amputa os seios às mulheres, que fabrica cristos de carne e osso.

quarta-feira, janeiro 09, 2013

dois ou três lugares-comuns, a propósito duma obra maior


Primeira banalidade: a ficção realista é sempre ultrapassada pela realidade, trate-se de um ambiente concentracionário na floresta amazónica (A Selva, de Ferreira de Castro), uma migração colectiva na América da Grande Depressão (As Vinhas da Ira, de John Steinbeck) ou uma exploração mineira em França (Germinal, de Émile Zola).
Se Isto É um Homem, de 1947, é um relato verídico de um sobrevivente, escrito ao longo de mais de um ano, tão intensamente vivo como profundamente meditado. E, por isso, o horror pôde ser descrito com objectividade, a benefício da narrativa, que não se deixa seduzir pela magnitude do tema (a vivência do próprio autor no infame campo de Auschwitz, até à libertação pelas tropas soviéticas, em Janeiro de 1944), conduzindo a narrativa porventura com uma grandiloquência que só a prejudicaria. Como Levi é um grande escritor, serve o texto com absoluta mestria, num estilo contido e recurso frequente a frases curtas, remates de períodos que nos deixam k.o.
Se Isto É um Homem: a condição simultaneamente trágica e patética do bicho-homem que conhecemos de nós próprios, mas que aqui outrém -- o autor -- revela. E, embora revelando-se, apenas o faz parcialmente, pois o autor/narrador fala de um eu que só em determinados e ocasionais momentos o é, porque do que se trata é a confirmação à outrance, e pelos meios conhecidos, do desiderato dos alemães nesta perseguição insana: a de retirar os judeus da humanidade -- não apenas exterminando-os, mas, naqueles que não eram desde logo executados, esvaziando-os dessa mesma humanidade, como que para comprovar teorias rácicas tão dementes quanto extraordinariamente estúpidas (um racista biológico, quando não for um doido varrido, será sempre um cretino, ignorante e por vezes perigoso).
    

à margem, mas a propósito

Outro lugar-comum, que por o ser não é menos verdadeiro, é o da natureza excepcionalmente maligna do feixe de ideias imbecil e mal cozinhado que foi o nacional socialismo, pior do que o estalinismo, na medida em que este, entre outras coisas, pintava o despotismo com as cores do humanismo (como embuste, talvez nada lhe leve a palma); o nazismo, pelo contrário, não ocultou a sua natureza degeneradamente maligna: a da suposta e absurda existência de uma raça superior, doutras inferiores, e até de uma categoria que estava abaixo da humanidade e que havia que exterminar, não sem  antes ser sugada, metodicamente, pelo trabalho até à exaustão, com rigor e cultura germânicos.