quarta-feira, fevereiro 22, 2017

elogio Marine Le Pen

Nunca pensei algum dia vir a elogiar a líder da Frente Nacional. Esta força política representa (apesar de algum aggiornamento patínico pró liberal), tudo o que mais odeio: o racismo e o ultramontanismo católico, já para não falar em todo o lixo do antissemitismo, do colaboracionismo traidor com a Alemanha nazi e do colonialismo, que está ali representado.

Não esquecendo todas estas nódoas, de que ela se tornou a carinha laroca visualmente aceitável (ao contrário do boi do pai), não há que escamotear a dignidade, ainda por cima educada, com que recusou cobrir-se com um véu. A senhora estava ali, não como fiel, mas como líder política, representando uma fatia importante do eleitorado francês.

Sem deixar de reconhecer a fundamental importância cristã e católica na identidade nacional portuguesa, o iluminismo e as revoluções políticas puseram a Igreja no lugar que lhe pertence, o templo. Cumpra quem quiser, desde que não mace os outros. Sempre achei deplorável que um estado laico como o português ande com os padres atrás, de cada vez que há um acto oficial. Como foi ridículo, e afrontoso para muitos, assistir à beijoca do presidente da República na mão do papa, por muita simpatia que eu tenha por Francisco.

Voltando a Le Pen,  que não me merece a mínima confiança. Com o gesto de ontem, marcou pontos e deu um sinal correcto do que se espera de uma política ocidental. Para vergonhas, já por cá existem as criaturas do politicamente correcto, como esta triste ministra sueca que se diz feminista. 

No momento histórico actual vivemos uma guerra (palavras como 'conflito' ou 'crise' pecam por defeito) com várias trincheiras: a mais violenta é a que se trava com o financismo predador internacional, sem rosto, sem pátria, nem princípios; a outra, insidiosa e não menos perigosa trava-se com o integrismo religioso, hoje muçulmano (mas também hindu e budista -- não esqueçamos o que se passa na Birmânia, com a, pelo menos, passividade cúmplice da outrora heroína dos Direitos Humanos Aung San Suu Kyi), ontem cristão, quiçá amanhã renascido. Está na natureza das religiões, e contra elas nunca se pode baixar a guarda.

25 comentários:

Jaime Santos disse...

Lamento, mas a recusa de Le Pen é completamente previsível e portanto, por definição, não representa nenhuma informação. Só requereria coragem se ela se arriscasse a perder votos. Dadas as posições anti-muçulmanas da FN, Le Pen não perde um voto e até se arrisca a ganhar uns quantos. Como alguém disse, a defesa da laicidade por parte da FN faz-se apenas contra o Islão. E, se de facto foi Le Pen que requereu a audiência e conhecia as condições para ser recebida (http://expresso.sapo.pt/internacional/2017-02-21-Le-Pen-nao-tapou-a-cabeca-e-o-mufti-de-Beirute-recusou-recebe-la), a sua recusa não me parece mais que um 'great publicity stunt'. Enfim, seria cinismo do mais puro, como bem convém a tal personagem... Veremos se leva ou não a cabeça coberta quando for visitar o Papa (se este aceitar recebê-la)...

Ricardo António Alves disse...

Não lamente, ou lamente as feministas suecas. Claro que era previsível, porém havia já o precedente do reitor de Al-Azhar, a máxima autoridade religiosa sunita, que não fez exigência. Quando é a extrema-direita a dar bons exemplos...

Quanto ao papa, e não me passa pela cabeça que ela enquanto política se cubra; no caso de ser eleita, tal seria uma impossibilidade absoluta à França laicista que ela não terá coragem de afrontar, mesmo se o quisesse, e não sei se quererá.

Jaime Santos disse...

Eu lamento discordar de si, não lamento a atitude de Le Pen nem a tirada da Ministra Sueca, algo que nem sequer chamei à colação (mas, já agora, se o protocolo acordado entre a Suécia e o Irão é que as Ministras se devem cobrir, deve ser respeitado e admitido sem reservas ou desculpas estúpidas e insultuosas para as mulheres iranianas). Se concorda que alguém tenha uma atitude provocatória em relação a um clérigo que esclareceu as condições em que concederia uma audiência a essa pessoa, é consigo (se Le Pen conhecia a priori essas condições, então a atitude do Egípcio é perfeitamente irrelevante para esta discussão, e só serve para atirar areia aos olhos, ela estava farta de saber que iria dar com o nariz na porta e foi só lá para criar um facto político). Eu prefiro deixar as provocações para o Charlie Hebdo, sempre têm mais piada. Não tenho nenhuma simpatia pelo reacionarismo religioso muçulmano, mas não me deixo enganar por tiradas dirigidas contra uma confissão particular cujo objetivo é somente piscar o olho ao eleitorado racista francês e mostrar como Le Pen é supostamente uma defensora da laicidade (mas só contra os muçulmanos, pois, porque se há lugar para o ultramontanismo petanista é na FN, como você aliás bem referiu). Quanto à questão do Papa, obviamente só se colocaria se Le Pen lhe pedir uma audiência enquanto candidata e ele a concedesse, porque enquanto Presidente duvido que a Lei Francesa permitisse que ela alinhasse no beija-mão à Marcelo Rebelo de Sousa... Merkel, se não estou em erro, apresentou-se perante ele de cabeça bem descoberta, apesar do seu Partido se chamar CDU...

Ricardo António Alves disse...

Eu é que falei na ministra sueca, que se diz feminista, para contrastar com a da Le Pen. Duvido que haja algum protocolo como vocês diz. Aliás, não se se o percebi bem, mas o que é insultuoso para as mulheres iranianas é, entre muitas outras coisas a obrigatoriedade do uso do véu, que representa a sua menorização. Veja-se o caso das Nobel Shirin Ebad que recusa usá-lo, como aliás qualquer iraniana esclarecida e emancipada, no estrangeiro, é claro. Portanto, insultuosa foi a sueca, para as mulheres iranianas; e para as ocidentais, uma vergonha.

Sem querer dar o que quer que seja pela Le Pen, não faço ideia se ela foi procurar o escândalo. Se o fez, concordo consigo a 100%. No entanto, há que não desvalorizar o reitor de El-Azhar, cuja autoridade em todo o mundo sunita não é contestada, se esse mundo continua a ser como costumava. Seria (e talvez abusivamente mal comparando) como se um bispo viesse desdizer ou corrigir um papa.

Jaime Santos disse...

Percebeu-me mal. Eu acho que a graçola da Ministra sueca sobre o uso protocolar de chapéus foi completamente despropositada e insultuosa para as mulheres iranianas, que são obrigadas a usar o lenço sempre que estão num local público. Agora, normalmente os iranianos são bastante zelosos relativamente à obediência a um certo protocolo, o que levou Hollande, creio, a cancelar um banquete há uns tempos, porque os seus convidados se recusavam a que fosse servido vinho. O próprio Seixas da Costa substituiu em tempos um jantar por um pequeno almoço de trabalho em Portugal pelas mesmas razões. Se os suecos concordaram com este tipo de exigências, essa concordância deve ser assumida sem qualquer tipo de desculpas. A mim, essas exigências não me escandalizam. Nunca me passaria pela cabeça dar uma festa em honra de um hindu (e tenho um amigo que o é) e também servir carne de vaca, por exemplo. A questão não está nas exigências protocolares, está nas leis que obrigam as mulheres a cobrirem-se em situações que não são protocolares. Esse é que é o ponto.

Quanto a Le Pen, vejo que concordamos. Quanto ao reitor de El-Azhar, a sua autoridade teológica é de facto reconhecida, mas não me parece que o que faz determine de todo as exigências protocolares que poderão ser requeridas por outros clérigos, dado que o Islão não é uma religião sujeita a relações de hierarquia, como o Catolicismo, e se Le Pen não sabe isto, então vê-se mesmo que não está de todo preparada para ser Presidente de França.

Ou seja, se Le Pen sabia a priori que deveria cobrir a cabeça e foi lá na mesma pretendendo não o fazer, então ou é ignorante (o que eu não acredito), ou foi mesmo à procura do escândalo. E nesse caso, o que ela deu foi tudo menos um bom exemplo. Foi, isso sim, mais um pontapé nos dentes dos muçulmanos franceses e uma piscadela de olho ao seu eleitorado racista e fascista...

Ricardo António Alves disse...

Você dá essas exigência como certas; pode ser, ou pode também ter sido a vontade de agradar, em nome de qualquer contrato vantajoso.
Há exigências com as quais a concordância implica uma falta de respeito a si próprio e ao país que represente.
O caso do seu amigo hindu é pessoal, privado e não político, logo não está no mesmo patamar.

Meu caro, eu acho que ela não está preparada para ser presidente da França por ser xenófoba; creio que saber ou não que no sunismo não há uma hierarquia institucional não lhe acrescenta ou retira (in)competência política. Para isso, há assessores.
Quanto há hipótese que põe, eu diria que ela juntou o útil ao agradável, do seu ponto de vista. Quanto aos muçulmanos franceses, talvez tenha atingido os que subjugam as mulheres, a pretexto de um preceito religioso que não existe, o da obrigatoriedade da mulher se cobrir.

Jaime Santos disse...

A Suécia deu um bom exemplo aqui atrasado, citado pelo Miguel Sousa Tavares. Quando numa conferência na Arábia Saudita uma das suas ministras foi impedida de falar, eles cancelaram um vantajoso contrato de fornecimento ao dito País. Nessa matéria, não temos lições para lhes dar (logo o nosso País que tantas vezes baixou as calças a Angola, por exemplo).

Quanto a Le Pen, tanto faz que isso seja algo que faz parte da educação de cada político (na minha modesta opinião) ou que seja algo que só os assessores devem saber. Se assim era e não sabiam, ela está mal assessorada, e por melhores razões não deve ser Presidente. Mas eu tenho Le Pen por alguém inteligente e cínica e penso que com toda a probabilidade ela foi simplesmente à procura do escândalo.

E não, Le Pen não se limitou a atingir aqueles muçulmanos que defendem a subjugação das mulheres, se o que fez foi de facto uma provocação... Não se esqueça que o sentimento anti-islâmico da FN esconde uma coisa que não pode ser assumida, ou seja racismo...

Eu concordo consigo que a principal razão para temer Le Pen é a sua xenofobia, mas isso tem que ver com os valores dela, e não com a sua preparação. Poderia ser a política mais culta e bem preparada do mundo e continuaria a ser detestável. Nem todos os fascistas eram alarves como Hitler. Trump é horrível pela sua ignorância e falta de experiência política, mas sobretudo pelos valores que defende.

Finalmente, também discordamos relativamente ao protocolo. Eu entendo que quando se oferece um banquete, devemos olhar para quem é o homenageado. Se a questão fosse convidar os iranianos para uma receção, se não quiserem vir, o problema é deles, mas não é disso que se trata. Preocupa-me mais que os Países ocidentais estejam preparados para fechar os olhos às violações dos direitos humanos do que a uma suposta rendição a valores alheios em matérias protocolares...

Ricardo António Alves disse...

Sim, foi um bom exemplo, a ter-se verificado, o que não me custa acreditar. E sim, não temos lições a dar aos suecos.

Em relação a Angola, o caso fia mais fino, porque a esses ainda menos lições temos a dar. O que não os isenta de crítica.

A FN é um albergue francês de várias direitas extremas, Dela têm razões de queixa muçulmanos e judeus. Você acha que foi uma provocação, eu não acho nada, porque não sei.

Quanto à preparação, na minha frase não é para entender literalmente. Quem não tem humanismo, que não acolhe os valores dos direito do homem, não tem preparação para governar, desde logo do ponto de vista ético, por muito inteligente ou bem preparado, pois falta-lhe a competência maior.

Quanto aos países ocidentais, se se limitassem apenas a fechar os olhos...

Ricardo António Alves disse...

`'quem' não acolhe...

Jaime Santos disse...

Sim, nesse sentido de falta de ética, é evidente que Le Pen não tem preparação. O meu caro diz que não sabe se foi provocação ou não e dá o benefício da dúvida a Le Pen e elogia-lhe a atitude. Eu, em face do que foi noticiado não dou, dada até a reputação da FN em relação a todo o tipo de provocações no Passado. O verniz democrático introduzido por Marine em relação a Jean-Marie é só isso e ainda por cima é bem fino... Pelo menos os fascistas de antanho não tinham vergonha de assumir as suas convicções e sabíamos ao que vinham...

Ricardo António Alves disse...

De acordo, quanto ao cadastro da frente nacional. A ironia é termos chegado a um ponto em que,se os seus pressupostos estiverem errados, a atitude dela merecer ser elogiada, por muito que custe a quem é anti-racista como eu. Além disso, se pessoas decentes não estão ao abrigo de crítica, a inversa também se aplica aos menos decentes.

Jaime Santos disse...

Lamento discordar de novo mas, a não ser que aquilo que o Expresso noticia seja completamente falso, a única desculpa que Le Pen tem pela 'cenaça' é a da absoluta ignorância relativamente ao que é o Islão (coisa grave para quem quer estabelecer pontes, o que no caso dela sabemos bem ser uma grande treta). Ela pediu para ser recebida e sabia as condições em que poderia ser recebida (cobrindo a cabeça). Podia ter simplesmente decidido que não iria e até anunciado tal coisa, caso já tivesse publicitado a sua agenda. Até aí, nada a censurar. Mas decidiu ir à mesma, esperando (se acreditarmos nela, coisa que eu não faço e tenho boas razões para tal, como o meu caro reconhece) que o Mufti seguisse o exemplo do reitor da Universidade do Cairo e tergiversasse no seu protocolo (o protocolo do reitor é provavelmente distinto). Ele não o fez e fez muito bem, na minha modesta opinião. Defende ele a submissão das mulheres, algo que eu considero detestável? Com certeza, mas não abdica dos seus valores, coisa que eu jamais desejaria que os ocidentais fizessem em relação ao dito Islão (e não me refiro a essa coisa do protocolo). Nada nos obriga a fazer um 'reaching out' relativamente aos muçulmanos. Eu acho que é uma medida inteligente, tal como o é relativamente à Rússia, por exemplo, salvaguardas as diferenças e o respeito entre as partes e mantendo o realismo sobre o que pode ou não pode ser alcançado sem comprometer as posições irredutíveis dessas mesmas partes. Mas, se o fazemos (ou fazemos de conta que sim), não nos espantemos que tenha que ser segundo certas condições, ainda por cima na terra deles... Por isso, em qualquer dos casos, fossem as motivações de Le Pen mais ou menos benignas, a verdade é que não há mesmo nada pelo qual a possamos elogiar...

Ricardo António Alves disse...

Fui ler a notícia do Expresso, que dá a entender que o convite partiu do mufti: "O pedido para o uso do véu foi transmitido na segunda-feira mas ela fez saber que não o ia usar. O convite não foi anulado."

Bom, mas eu não quero estar a defender a Le Pen, era o que me faltava. Eu quero rejeitar o fundamentalismo religioso e a forma como ele é imposto entre nós, ofendendo os nossos valores civilizacionais de igualdade entre os sexos. Se, por convicção ou cálculo, a Le Pen empunhou essa bandeira, eu elogio. Além do fundamentalismo, também repudio o politicamente correcto, que, em muitos casos, é pura transigência, com efeitos nefastos para, por exemplo, mulheres muçulmanas a viver no ocidente. E o pior é que, nesta transigência, se combina cegueira ideológica de alguns sectores com oportunismo político do mais reles noutros sectores (basta lembrar o que representa em votos a comunidade islâmica em muitos municípios franceses, para percebermos a transigência criminosa de algumas mairies, incluindo socialistas. O caso de Lille é paradigmático.).

"A terra deles", no Líbano, tem o que se lhe diga: é terra "deles" e dos outros, a começar pelos cristãos maronitas; cristãos, que em boa parte do mundo islâmico são perseguidos, como sabe. O Ocidente não deve pagar na mesma moeda, como é óbvio, mas a contemporização só tem servido a agenda dos fundamentalistas e ajudado a oprimir os que nessas comunidades estão sujeitos aos ditames desses tontinhos exaltados.

Jaime Santos disse...

As versões da FN e dos libaneses são distintas. Ambos reconhecem que Le Pen estava informada, mas a entourage de Le Pen garante que ela disse que não se cobriria e que a reunião não foi cancelada pela outra parte. Os libaneses dizem que caberia a Le Pen cancelar a dita reunião: http://www.lemonde.fr/politique/article/2017/02/21/au-liban-marine-le-pen-s-offre-une-polemique-sur-le-voile_5083029_823448.html e http://www.lexpress.fr/actualite/politique/elections/deplacement-au-liban-refusant-de-porter-le-voile-marine-le-pen-annule-une-visite_1881218.html (vale a pena sempre ir ler o original). Tenho que dar a mão à palmatória e admitir que há margem para pensar que Le Pen agiu de boa fé, porventura fruto de um mal-entendido (foi só pena que a FN se tivesse logo aproveitado da sua atitude, como mostra o twitter de Philippot, o que não abona em favor deles, como se ela tivesse feito uma grande coisa). Agora, tendo em conta que a reunião teria lugar numa Mesquita, não me parece estranho que o protocolo exista. Aliás, se alguém do sexo feminino quiser visitar a Mesquita de Lisboa, terá igualmente que se cobrir, imagino eu. E eu daria a razão inteira ao Líder da Comunidade Muçulmana em Portugal nesse caso. Dentro de um espaço religioso as regras são distintas e só lá entra quem quer. E sim, a terra é deles e também dos outros, mas não me parece que as ditas regras constituam uma violação dos direitos das cristãs marronitas, ou das muçulmanas seculares, ou de quem quer que seja, elas aplicam-se naquele local apenas. Os líderes masculinos ocidentais cobrem com frequência a cabeça quando participam em cerimónias religiosas judaicas e nunca vi ninguém descrever isso como um ataque à laicidade... Esta tendência só existe relativamente ao Islão porque a aceitação de certos usos e costumes pelos ocidentais é vista como uma concessão ao fundamentalismo, quando é simplesmente uma concessão às tradições num contexto (muito) particular... Não vejo pois como uma atitude como a de Le Pen possa ser vista como um empunhar de bandeira contra o fundamentalismo, seja por convicção ou cálculo político. Será fundamentalista uma mulher que se cobre perante o Papa (concorde-se ou não com isso)? Convém perceber que as pessoas religiosas não vão a lado nenhum nas sociedades ocidentais, sejam elas cristãs, judias ou muçulmanas. Cabe ao Estado reconhecer-lhes a existência e a sua contribuição, quando positiva, para a sociedade, exigindo-lhes claro o cumprimento da Lei Laica, que é igual para todos. O ato de as hostilizar sem razão, tomando-as automaticamente por tacanhas só porque seguem livremente certas tradições (quando inofensivas, não falo obviamente da excisão feminina), só contribui para, aí sim, as lançar nos braços dos fundamentalistas... Parece-lhe correção política? Olhe, se for, paciência...

Ricardo António Alves disse...

Mas lá está, voltamos ao princípio, ela foi lá como líder e candidata, e estes não têm sexo.
Não sou pela hostilização gratuita, não só porque é contrapruducente como injusta para muitas pessoas. Sou pela hostilização em questões fundamentais.

Jaime Santos disse...

Pois, mas esta não é uma questão fundamental para a autoridade secular, é uma questão protocolar. Claro que a utilização do lenço na presença de uma autoridade religiosa (masculina) implica que esta olha para as mulheres e para os homens de modo distinto e que coloca a condição de género da pessoa à frente da sua condição de líder do Partido FN e de candidata presidencial. Mas o Islão é assim, assim como o Cristianismo e o Judaísmo, só que nestas confissões tais questões assumiram um carácter mais ou menos irrelevante, pelo menos no que diz respeito às relações com pessoas de outras confissões, ou sem confissão (há claramente discriminação de género dentro da maioria das denominações cristãs e também no Judaísmo, tirando no mais liberal). Para todas essas religiões, a condição de líder político é de somenos perante a obrigação da pessoa de respeitar um espaço, chamemos-lhe assim, sagrado. Agora, representa essa discriminação no interior desse espaço uma obrigação para quem quer que seja? Só lá entra quem quer. O meu caro quer colocar o poder temporal ao mesmo nível do poder espiritual dentro do próprio templo. Francamente, acho que isto já é pedir demais. O que o poder temporal pode, isso sim, é exigir às diferentes religiões que respeitem a liberdade de crença de todos os demais e aos seus fiéis que se submetam à Lei Temporal. Le Pen, assumindo que agiu de boa fé, tem toda a liberdade para não se cobrir e recusar a reunião, mas se o tivesse feito, isso não representaria qualquer submissão da sua Pessoa ou do Partido que representa ao Islão, significaria apenas deferência (no sentido apenas da boa educação) com a tradição religiosa. E, devo dizê-lo, isso sim, teria requerido coragem... É aliás pela mesma razão que a mim não me faz qualquer espécie que um ateu como Costa participe numa cerimónia religiosa. Mesmo o beijo-mão do Presidente Marcelo é algo que não me afeta particularmente, porque ele é um mero servidor do Estado e não a sua personificação, e alguém não pode deixar de ser Católico só porque foi eleito PR...

Ricardo António Alves disse...

Eu acho que a condição da mulher é uma questão fundamental com a qual não se deve contemporizar, a não ser por necessidade, por táctica.
Realmente, não sei que raio lá foi ela fazer, a não ser que tenha sido convidada. Se não foi, tenho de rever a minha posição...

Discordo quanto ao Marcelo, embora não me faça particularmente grande comichão. Estudei num colégio religioso, idem os meus filhos, por isso já vê... E no Natal até se monta o presépio cá em casa :|

Jaime Santos disse...

A condição da mulher é fundamental, mas na sua dimensão secular. O Cristianismo e o Judaísmo também consideram as mulheres inferiores, até porque estas não podem ser sacerdotes (já o vão sendo em certas igrejas protestantes progressistas e no judaísmo liberal). Não podemos impor às religiões que mudem a sua doutrina para nela consagrar a igualdade homem-mulher. Podemos esperar que como noutras questões, essas doutrinas se adaptem ao longo do tempo, como aconteceu em larga medida com o Cristianismo. As posições conservadoras ou mesmo reacionárias têm um lugar a ocupar na cidade, por muito que as achemos detestáveis. De outro modo, arriscamos uma reação na forma de um Trump. Agora, o que o poder secular pode impor sem quaisquer tergiversações é que a Lei é igual para todos, a Mulher tem Direito à sua integridade física e auto-determinação, etc. Já regular o poder dentro das religiões parece-me pouco democrático. Se uma mulher desejar submeter-se ao marido voluntariamente por convicção religiosa, p.e., desde que este não viole a Lei, não me parece que haja muito que o Estado possa fazer... A maioria das mulheres brancas votou nos EUA num alarve que as quer segurar pela 'gatinha' (há traduções melhores mas mais brejeiras ;-) ). Eu acho isto horrível, mas tenho que aceitar a sua escolha... P.S. Le Pen é considerada demasiado à Esquerda pela AfD, pelos vistos, presumo que pela sua política económica e também pela sua atitude em relação ao Islão (que remédio, os muçulmanos representam aí uns 10% da população de França). Era só o que me faltava ser agora eu a defendê-la, mas sou suficientemente honesto para reconhecer que ela está a milhas de um Wilders, por exemplo ;-) ...

Ricardo António Alves disse...

Não me parece que devam ter um lugar na cidade, mas dentro do templo. Por exemplo, as questões dentro da Igreja Católica, não aquecem nem arrefecem. É-me indiferente que digam a missa em latim, a situação da mulher lá dentro, se são contra ou a favor da eutanásia ou do aborto. Só não acho tolerável virem-nos impor os seus dogmas.
Quanto à Le Pen, você dá-me novidades.

Jaime Santos disse...

Bom, não podemos deixar que os crentes transformem as suas convicções em programa político, penso eu. Podemos claro denunciar isso mesmo. O que é a Democracia Cristã senão a transposição da doutrina social da Igreja para o campo político (isto é um pouco diferente num País como a Alemanha, onde a CDU também vai beber ao protestantismo luterano)? O mesmo se poderia passar com um Partido Islâmico em França, parece-me. Quanto a Le Pen, veja: http://www.leparisien.fr/politique/marine-le-pen-trop-socialiste-pour-les-populistes-allemands-21-01-2017-6597552.php

Ricardo António Alves disse...

O problema é que não há separação entre estado e religião. Na Turquia parece ou parecia ser possível, mas os resultados não são animadores.

Fui ver. Qualquer dia estão como a extrema esquerda...

Jaime Santos disse...

Eu queria dizer 'não podemos impedir' em vez de 'não podemos deixar' acima. De facto, não existe tradição de separação entre o Estado e a Religião em Países de maioria muçulmana. Mas essa separação não existe formalmente nas Monarquias do Norte da Europa, a começar pelo RU, e falamos dos países mais democráticos do mundo. É algo que se adquire com o tempo. Na Turquia, Erdogan começou por criar um Partido pró-europeu que parecia alinhar pela via 'democrata-muçulmana', uma espécie de CDU islâmica, se quiser. Quando a Europa lhe bateu com a porta na cara, ele foi buscar inspiração às vias autocráticas de Países como a Hungria ou a Rússia, que têm qualquer coisa de Repúblicas confessionais (mesmo se só o são por oportunismo de Orbán e Putin). Quanto a Le Pen, reconheça-se o esforço por tornar a FN mais apresentável e reconheça-se a crítica ao neoliberalismo. Mas o Partido permanece um Partido racista e tenho sérias dúvidas sobre a sinceridade e integridade dela (ela aparentemente fez no PE algo semelhante ao que Fillon fez no parlamento francês, mesmo se não tão escandalosamente nepotista)...

Ricardo António Alves disse...

Há países como Marrocos e a Jordânia (posso estar a dizer uma asneira, pois é uma mera impressão), que estão (ou parecem estar) a fazer o seu caminho, já para não falar na Tunísia. A envolvente externa é, porém, muito instável.
O Erdogan parece-me mais um caso característico de um político corrompido pelo poder quase absoluto.
Le Pen e Fillon, sim, vigarices, mas a deste insustentável.

Jaime Santos disse...

O caso da Tunísia é talvez o mais emblemático, porque uma coligação de sindicatos, advogados e outros membros da sociedade civil parece ter convencido as forças islamistas, maioritárias, a aceitarem uma Constituição não religiosa. Quanto a Marrocos e à Jordânia, sim tenho a mesma impressão, apesar das interferências do poder real, mas não tenho seguido com precisão o que se passa lá (nem na Tunísia, aliás). Agora, como diz, o que se irá passar no mundo muçulmano não depende do que acontecer nesses Países, assim como o que acontece na Europa não depende do sucesso da nossa Geringonça...

Ricardo António Alves disse...

Oh, a Europa -- é só desgostos.