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terça-feira, junho 12, 2018

«O quarto, sufocante e caótico, que servia ao mesmo tempo de quarto de dormir e de laboratório, mal começava a iluminar-se com o resplendor do amanhecer na janela aberta, mas bastava essa luz para reconhecer imediatamente a autoridade da morte.» Gabriel García Márquez, O Amor nos Tempos de Cólera (1985) (tradução de Margarida Santiago)

«Enquanto ele dormia pela tarde fora --  acabara o longo turno da noite às oito horas daquela manhã --, o Apollo  ancorara a meia milha da costa de Brooklyn, presumivelmente para a professora Summers e os membros científicos da expedição terem tempo de analisar a atmosfera.» J. G. Ballard, Olá, América! (1981) (tradução de Fernanda Pinto Rodrigues)

«Por entre as árvores corriam os escravos da cozinha , espavoridos e quase nus; as gazelas saltavam na relva balindo; era a hora do pôr-do-sol e o perfume dos limoeiros tornava ainda mais pesada a exalação de toda esta gente suada.» Gustave Flaubert, Salammbô (1862) (tradutor anónimo)

quarta-feira, junho 06, 2018

«Em frente, ao longo da parede, uma estantezita, sem dúvida obra de amador, também cheia de livros.» Mircea Eliade, Bosque Proibido (1955) (trad. Maria Leonor Carvalhão Buecu)

«Era um daqueles barretes compostos por elementos de boina de feltro, boné turco, chapéu redondo, gorro de peles e carapuça de algodão; uma coisa medíocre, enfim, daquelas cuja fealdade muda tem profundidades de expressão semelhantes às do rosto de um imbecil.» Gustave Flaubert, Madame Bovary (1857) (trad. Fernanda Ferreira Graça)

«A brancura do mundo exterior mistura-se com a penumbra sonolenta que impera dentro da cela, o silêncio dá-se bem com o sussurro dos numerosos relógios que ainda trabalham, enquanto outros, já sem corda, estão parados.»  Ivo Andrić, O Pátio Maldito (1954) (trad. Dejan e Lúcia Stanković)

domingo, janeiro 19, 2014

2 ou 3 epígrafes

1- Bob Dylan  Lonely? Ah yes / But is the flowers and the mirrors / Of flowers that now meet my / Loneliness / Anda mine shall be a strong loneliness / Dissolvin' deep / To the depths of my freedom / And that, then, shall / remain my song. (em Auto dos Danados, de António Lobo Antunes).

2- Byron  Não é na tempestade nem na luta / Que, inermes, ansiamos não mais ser, / Mas no silêncio após, na fímbria extrema, / Quando um sopro só nos resta de vida. (em O Trono e o Altar, de Maurice Baring).

3- Cervantes  Heles dado el nombre de ejemplares, y si bien lo miras no hay ninguna de quien no se pueda sacar un ejemplo (em Contos Exemplares, de Sophia de Mello Breyner Andresen).

4- Gil Vicente E mais as boas pessoas / são todas pobres a eito; / e eu por este respeito / nunca trato em cousas boas, / porque não trazem proveito. / Toda a glória de viver / das gentes é ter dinheiro, / e quem muito quiser ter / cumpre-lhe de ser primeiro / o mais roim que puder. (em Autos dos Danados, de António Lobo Antunes).

5- Gustave Flaubert  Quando se escreve a biografia de um amigo, deve-se fazê-lo como se nos estivéssemos a vingar por ele (em O Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes).

6- Sá de Miranda  Logo meus olhos ergui / à casa antiga e à Torre / e disse comigo assi: / 'Se Deus nos não val aqui, / perigoso imigo corre!' (em A Torre da Barbela, de Ruben A.).

sábado, agosto 06, 2005

Correspondências #8 - Jorge de Sena a Guilherme de Castilho

Penafiel, 15/8/42

Meu caro Castilho

Antes de mais nada, quero agradecer-lhe o gosto que tive, no domingo, em estar consigo e com os seus. Tenho pena que a minha saúde não me permitisse, então, estar tão disposto como queria e devia. Mas paciência, outra vez estarei melhor e saberei corresponder melhor às atenções que tiveram para comigo. Creia que, mais do que tudo, agradeço e não esqueço a confiança e a amizade.
Acabei de ler o Dostoievski. É realmente um livro admirável e, nele, talvez mais claro se vê o funcionameno do Gide. Não esquecerei certas aproximações que ele faz, nem conclusões que tira, embora seja demasiado hábil ao evitar concluir.
É este excesso de habilidade que permite ao Gide contradizer-se com coerência (ainda que não pareça) e, por outro lado, faz com que certas obras dele se desenvolvam paralelamente a si próprias.
Num respeito feito de distância constante e de intangibilidade procura ele, porém, pôr os problemas em contacto. O curioso está em os pôr em contacto uns com os outros apenas. Daí a diferença que há entre o criador perfeito e o mestre de consciências, digamos assim; a diferença entre um Flaubert e um Roman Rolland, por exemplo. De resto, por paradoxal que se julgue, Gide é muito mais mestre que este último, dado que o R. Rolland oscila entre ambos os pólos e não por escrúpulo mas por preocupação de nitidez. E pode perfeitamente ser-se ambas as maneiras de ser: é o caso de Thomas Mann quando não escreve os Buddenbrooks (não me lembro se V. conhece este livro).
Desculpe estas considerações que, há muito, eu andava «chocando» e vieram a lume agora e pelo que se vê.
Escreva. Dê notícias. Não sei se irei ao Porto na semana que vem; talvez não.
Cumprimentos aos seus. E um grande abraço do seu sempre muito amigo
Jorge de Sena
P. S. -- Fui reler esta carta e, subitamente, vi que faltava pensar cá fora uma coisa: a razão de ter posto Flaubert. É que não fiz distinção entre o corpo de ideias expressa e o corpo de ideias em que se apoia a expressão.
Mais uma vez um grande abraço do Jorge.
Até breve
Correspondência
(edição de Mécia de Sena)