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sexta-feira, outubro 30, 2015

a possibilidade de viver

Há uns bons anos, em resposta a um comentário que a Maria Noronha (quando voltará ela a blogar?) fez a este excerto de Stig Dagerman:  «Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte, certa. Não me coube em herança um qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tão pouco me legaram o disfarçado furor do céptico, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso acusar os que só acreditam naquilo que duvido, nem os que fazem o culto da própria dúvida, como se não estivesse, também esta, rodeada de trevas. Seria eu, também, o acusado, pois de uma coisa estou certo: o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível de satisfazer.»
escrevi a minha via pessoal para tentar iludir o absurdo da existência, via que continuo a trilhar, tentando iludir-me
 
«É o nada que nos espera que torna a vida absurda. O Vergílio Ferreira diz num dos seus diários qualquer coisa como isto: uma hora de eternidade é igual a mil anos de eternidade; isto é: uma hora de nada é igual a mil anos de nada. Há para mim algo que pode dar um sentido à vida, e tal é a minha descendência, a única coisa perene que me vai sobreviver, pois não sou Miguel Ângelo, Beethoven, Camões ou sequer Napoleão. E mesmo esses... Por isso, também ouço muitas vezes o «Blackbird» & outras músicas; tornam a vida possível de ser vivida.»

*«Blackbird», música de Paul McCartney, nos Beatles.

quinta-feira, setembro 04, 2014

Beethoven

Da grande traição  que foi a surdez, a 5.ª alterna entre a revolta e a confiança. Este scherzo parece-me ser a transição entre os dois estados de espírito dessa grande força que foi Beethoven. A minha versão é a de von Karajan, talvez mais luminosa que a de Toscanini, que deixo em baixo.

quinta-feira, agosto 14, 2014

o som e a fúria

O segundo andamento do Concerto para piano #5 de Beethoven, «Imperador», louvor ainda da figura de Napoleão Bonaparte (como a Sinfonia #3), dedicatário fortemente renegado pelo compositor, quando o mito de libertador dos povos europeus, sob o lema da Revolução Francesa -- Liberdade, Igualdade, Fraternidade -- se revela um carrasco desses mesmos povos. É célebre a imagem da dedicatória furiosamente rasurada, o papel da partitura rasgado pelo furioso Ludwig, enquanto ouvia o troar dos canhões napoléonicos às portas de Viena.
Quanto à música, propriamente, o diálogo apaixonante entre o piano e a orquestra é duma beleza extraordinária.
A minha interpretação é a de Fleisher / Szell; ao vivo, escolho a magnificência de Arrau / Davis.

domingo, junho 15, 2014

o nada não me serve

Nas livrarias, passo sempre ao largo da secção "espiritualidades". No livro em apreço, singelas florinhas debruadas em tons suaves, numa colecção chamada "Talismã", fazem logo recear o pior.
Porque li, então, o Jiddu? Porque nas páginas da Renovação -- revista da década de 1920, publicada pela anarco-sindicalista Confederação Geral do Trabalho (CGT), Ferreira de Castro escreveu sobre este para-guru, dando nota da perspectiva crítica que era a sua. Peguei, então, neste livrinho (podia ter sido outro qualquer); e embora não fosse tão mau quanto temia, percebi bem as razões das reservas do futuro autor de Selva.
Krishnamurti recomenda a impassibilidade, o nada -- nada querer, a nada aspirar -- como forma de chegar à felicidade. Ora isto é profundamente problemático em sociedades radicalmente desiguais, como o são a generalidade das modernas comunidades humanas, a começar pela indiana, de onde o autor era originário, embora desde muito cedo se radicasse no Ocidente). O efeito prático das ideias de J.K., embora aliciantes em abstracto (quem não aspira a nada está receptivo a acolher tudo o que de bom ou substancial a vida pode dar...), acaba por ter um efeito perverso: quando o fraco não reage ao forte, agrupando-se, unindo forças, não passará da condição de capacho. É uma evidência que nenhuma fé na remissão por alegadas vidas futuras ou recompensas espirituais presentes poderá contrariar. Ferreira de Castro não podia, pois, caucionar estes conceitos de pura desistência e amorfismo -- pelo menos, na aparência.
O que extraio deste livrinho é, basicamente, isto: segundo Krishnamurti, o homem deverá forjar para si uma outra realidade, paralela à existente e por esta intocável. É evidente que o despojamento, numa sociedade de consumo, é uma atitude benéfica e inteligente; o combate ao egocentrismo, idem; o mesmo para a comunhão íntima com a Natureza. Castro subscreveu estas ideias ao longo da sua obra, mas a diferença fundamental é que ele sabe que nada é concedido e que a dignidade deve ser (re)conquistada -- pela força, se necessário, embora o seu idealismo almeje por uma mudança de mentalidades. Para Krishnamurti, a mudança interior auto-impõe-se, voluntariamente, portanto; mas ao recusar o conflito, em vez de criar um paraíso  terrestre, está a arregimentar legiões de escravos, de dependentes -- é impossível ser de outro modo.
"Feliz é o homem que é nada." -- acaba por ser a declaração que melhor ilustra o pensamento do autor. Ideia inaceitável. Inaceitável num mundo em que pontifica o bicho-homem; e também porque do nada nunca a humanidade teria usufruído de um Beethoven, por exemplo.
Jiddu Krishnamurti, Cartas a uma Jovem Amiga.

sexta-feira, maio 30, 2014

o primeiro da primeira

O primeiro da Primeira de Beethoven, Allegro molto. Allegro con brio. Ainda tão clássico, tão Haydn, os seu mestre, mas também já tão Beethoven, pujante, destemperado e romântico...




sexta-feira, maio 23, 2014

nunca totalmente

Concerto de 1805-1806, o Génio Romântico de Beethoven apaziguado, porém não totalmente, nunca totalmente. Zimerman e Bernstein em conjugação plena.


segunda-feira, maio 12, 2014

ou quando a vigília da Razão (com maiúscula, que é mesmo para chatear), engendra milagres

Se eu tivesse de escolher um único compositor para a ilha deserta, seria este -- o que mais me comove, o que mais admiro, tão tenso (veja-se como Peter Kuhar aborda o violino), tão patética, sublime e terrivelmente humano.
O 1.º andamento, Adagio sostenuto. Presto da Sonata #9 ("a Kreutzer"), é uma das muitas obras-primas que Beethoven, um milagre de humanidade, nos legou.
Peter Kuhar (violino) e Ivan Fercic (piano).