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quinta-feira, maio 24, 2018

Descobrimentos Portugueses: o #metoo da historiografia

«Museu das Descobertas». A designação é obviamente simplória. Não pelas razões que aduzem aqueles que sacrificam ao politicamente correcto, como pela pobreza do conceito para caracterizar um complexo movimento político, social, económico, cultural, religioso, científico por detrás da expansão e dos descobrimentos portugueses. A ideia, aliás, inscrita em programa eleitoral, tem todos os contornos dum típico coelho tirado da cartola da politquice barata, para efeitos de pirotecnia de campanha, sem cuidar do como e do porquê.

Costumo dizer que graças aos Descobrimentos e à Expansão, os portugueses  garantiram a sua presença na história da Humanidade; somos uma espécie de fenícios dos tempos modernos, quando poderíamos ficar-nos pela dimensão duns quaisquer túrdulos da cultura castreja... Não vou, porém, falar da pertinência ou da oportunidade da criação de uma grande museu dos descobrimentos, quando o património cultural do país está na miséria que se sabe. Para já, interessa-me a questão levantada em torno do nome.

A discussão e o debate de ideias é sempre excelente, porém, quando, a coberto duma cientificidade de analfabetos se pretende distorcer a História, não me apetece ter grande contemplações para um texto  indigente, assinado por algumas figuras estimáveis. Felizmente, não tenho vocação de discípulo nem gosto de rebanhos. E, nessa perspectiva, também não me deixarei condicionar pelos arremedos autoritários, para não escrever 'totalitários', que lançam o labéu de fascistas ou fascizantes àqueles que deploram um embuste e um esquema mental que dá origem a idiotices como esta.

Em primeiro lugar, a haver um museu com esta temática, o seu interesse para a comunidade só se justifica se partir duma perspectiva portuguesa; caso contrário, é melhor tratar do merchadising com os americanos e pô-los a fazer uma espécie de Disneylândia inspirada nos tempos do Gama e do Albuquerque. Por que diabo um museu português não deveria ter uma perspectiva portuguesa, integrando numa visão planetária, essa mesma que contribuíram decisivamente para alcançar, gostemos ou não? Claro que uma abordagem objectiva e sem patriotinheirices, sem escamotear o horror, a pilhagem, o domínio, o tráfico de escravos -- actividade que nos distinguiu durante demasiado tempo. De resto, como é que depois de Vitorino Magalhães Godinho, de Luís de Albuquerque, de tantos historiadores, portugueses e estrangeiros, que se debruçaram sobre aqueles séculos de história portuguesa, se admite que doutra forma pudesse ser? Falamos de museu ou dum evento, entre os jogos-sem-fronteiras e o festival-da-canção?...

Ao contrário dos que escrevem os guardiões do moralismo anacrónico, a palavra não "cristaliza uma incorrecção histórica", pelo contrário. Houve, de facto, descoberta de territórios desabitados, desconhecidos de toda a Humanidade; tal como aconteceu o desvendar de rotas nunca por outros singradas; e o evidente descobrimento de um mundo mais amplo que rompia com uma percepção que remontava à Antiguidade. Se isto não é descobrimento é o quê, então? E não deve este pioneirismo ser conhecido da comunidade portuguesa, sem a basófia antihistórica dos manuais da República e do Estado Novo? 

É verdade que os outros povos não foram "descobertos", por isso se recorre, com razão, ao acoplamento da palavra "Expansão". Ao contrário dos "Descobrimentos",  que remontam à Idade Média (as "Navegações", em bom rigor, recuam ao Neolítico...), o movimento expansionista e imperial português tem uma data delimitada e uma ocorrência definida: 1415, ano da conquista de Ceuta (e mesmo assim com algumas raízes político-económicas que não há espaço para abordar). A partir daqui Expansão e Descobrimentos são duas faces duma mesma moeda. E nela está inscrita o colonialismo português, particularmente vil, cuja libertação se deveu aos povos colonizados e aos seus movimentos de libertação: PAIGC, MPLA, FRELIMO, movimentos tão de libertação que até contribuíram decisivamente para libertar os portugueses.

Obliterar a noção de descoberta não é só uma parvoíce, como a tentativa, de resto inglória, de rasurar da História um processo que nos identifica como comunidade, com um lastro cultural avassalador (como se lê e vê e sente nestes versos da Sophia de Mello Breyner Andresen e do António Pedro) ; uma espécie de #metoo da historiografia, em nome dos bons sentimentos. Ora, se a exclusividade dos bons sentimentos em arte borram a pintura, na historiografia ainda fazem pior, chama-se vigarice.

quinta-feira, fevereiro 22, 2018

o Aborto Ortográfico?, só quando tiverem vergonha na cara

Talvez a pior atitude, ou pelo menos a mais lamentável em relação ao Aborto Ortográfico seja a do não quero saber, em especial quando evidenciada por quem faz da língua profissão: estou a pensar em alguns plumitivos à esquerda, que parece terem medo que lhes chamem conservadores, retrógrados ou reaccionários se disserem o que parecem pensar sobre este pântano em que se tornou a ortografia, mas, prudentemente defendem ser uma maçada este barulho constante. É preciso dizer que vários deles foram compelidos a escrever com as novas regras nos meios de comunicação em que trabalham, daí o desinteresse que aparentam manifestar sobre o assunto. Mas não têm grande sorte no disfarce, porque vê-se-lhes bem a cautela.

O PCP, com a seriedade prática que se lhe reconhece, propõe a desvinculação. ; o PSD considera a posição do PCP extemporânea, talvez esperando regressar ao governo para voltar a não fazer nada; o CDS diz que não, mas que também; o BE diz zero à esquerda; o PS, pior do que as inanidades que um tipo qualquer para lá vocalizou, como partido no poder, não quer agitar as águas.  

Com mais ou menos retórica, com mais ou menos convicções (ou falta delas), os quadros partidários ignoram olimpicamente os peticionários, como já haviam, a partir da sua pouca suficiência, ignorado Vitorino Magalhães Godinho, José Saramago, Vasco Graça Moura, para mencionar apenas pessoas que já morreram.

A actual situação da ortografia portuguesa encontra inúmeros paralelos na degradação do património histórico-cultural, ainda há pouco eloquentemente evidenciada por uma excelente reportagem da RTP (creio que no programa "Linha da Frente"). Essa peça jornalística mostra as fragilidades do país, com uma percentagem brutal de analfabetos (literais ou funcionais), que por sua vez é brutalizada por uma imprensa venal que serve à população o pasto que sabemos. Nesse aspecto, a Assembleia da República e os directórios partidários que lhe fornecem os quadros, são bem o espelho de um dos mais graves problemas estruturais que Portugal enfrenta: a falta de qualificações de grande parte da população, com evidentes reflexos na ausência de massa crítica nas chamadas elites, políticas e não só.

O Aborto Ortográfico não é politicamente mobilizador, não dá votos e está provavelmente capturado por interesses de algum sector editorial. Não é o AO, como não o é todo o património do país. Portanto, há que esperar por duas coisas: que os deputados do PS, PSD e CDS ganhem vergonha na cara e/ou mostrem que servem para alguma coisa para além deputismo de cu (levantar e sentar quando manda a direcção do grupo parlamentar); e, quanto ao BE, meter naquelas cabecinhas que cuidar da ortografia de uma língua não tem que ver com atitudes passadistas, conservadoras, reacionárias, mas antes com elementar bom senso. Aliás, a mítica lusofonia encobre, em muitos, casos, um neocolonialismo que certamente não subjaz à maioria dos que defendem a anulação do AO90, como é o meu caso.

em tempo: o artigo de Bagão Félix no Público deixa à mostra a mistela ortográfica que os parlamentares têm pejo em discutir

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

os 'utentes' da língua e o Aborto Ortográfico

Sobre o aborto ortográfico e as suas consequências, está tudo dito. Meia dúzia de técnicos e burocratas da língua, do lado português, ajudaram a pari-lo, e o governo de Cavaco Silva, com Santana Lopes como secretário de estado da Cultura, deram-lhe o seguimento político.
Página negra na história da língua, como qualquer aborto é um nado morto, porque não há nem haverá nenhuma uniformização do português nos cinco cantos do mundo. Mais ano menos ano, este aviltamento da língua será insustentável, e os governos e as academias vão ter de introduzir alterações consequentes.
No entretanto prevalece o descaso dos decisores políticos e dos apparatchiks, o descaso com que tratam o património cultural português, que é coisa que não vivem nem sentem, a não ser que sintam o cheiro a votos pela manhã.
É uma generalização abusiva, dirão. É uma generalização, porventura injusta, porém nada abusiva, como testemunha o património histórico e cultural deste pobre país. Séculos de analfabetismo (meio milhão em 2017) pagam-se caro.
Repito o já escrito, por mais de uma vez: não há um único grande escritor português que não seja contra o aborto ortográfico. São os escritores os criativos da língua, os que quotidianamente a defrontam e desafiam. Desde que o problema se pôs, nem Saramago, Lobo Antunes, Mário de Carvalho, sancionaram este atentado. Vasco Graça Moura foi exemplar no seu combate cívico. O enorme Vitorino Magalhães Godinho, um dos historiadores de que Portugal se deve orgulhar, teve, contra o aborto ortográfico, o último combate da sua longa vida.
Nada que impressione ou incomode os 'utentes' da língua, como Vital Moreira, que escreve tão bem como qualquer notário, mistura alhos com bugalhos, não percebe que, antes de ser política, a questão da língua é um problema de cultura, em sentido amplo. É claro que para quem 'utiliza' a língua com a mesma displicência com que se serve da carreira 727 da Carris, estes assuntos são uma grande maçada. 

terça-feira, março 31, 2015

Falta-me extremamente a paciência para esta conversa do Agualusa

Num blogue duma amiga brasileira, leio um excerto duma crónica de Agualusa no Globo:
"A verdade é que ainda persiste em Portugal uma certa saudade imperial e, sobretudo, uma enorme ignorância no que diz respeito à história do próprio idioma. É sempre bom recordar que antes de Portugal colonizar a África, os africanos colonizaram a Península Ibérica durante oitocentos anos. A língua portuguesa deve muito ao árabe. A partir do século XVI, com a expansão portuguesa, a língua começa a enriquecer-se, incorporando vocábulos bantos e ameríndios, expressões e provérbios dessas línguas, etc.. A minha língua é esta criação coletiva de brasileiros, angolanos, portugueses, moçambicanos, caboverdianos, santomenses, guineenses e timorenses. A minha língua é uma mulata feliz, fértil, generosa, que namorou com o tupi e com o ioruba, e ainda hoje se entrega alegremente ao quimbundo, ao quicongo ou ao ronga, se deixando engravidar por todos esses idiomas.”
Passando ao largo da banalidade do texto (acredito que um leitor médio do Globo tenha uma noção desse percurso histórico da língua) e da literatice delicodoce ("A minha língua é uma mulata feliz", etc.), não só não me reconheci na prosa como me perguntei se seria o mesmo Agualusa que foi jornalista do Público, viveu muito anos em Portugal (onde creio que mantém residência), faz parte dos círculos literários portugueses, vai regularmente às televisões e às rádios -- ou se seria um outro Agualusa que nunca tivesse passado os limites do Huambo.

Fui ler a crónica aqui. Tem que ver com o Acordo Ortográfico, uma controvérsia que parece cansá-lo. Agualusa pega num exemplo de um desqualificado qualquer que há anos, num colóquio, gritou salazarentamente o impropério: "a língua é nossa", e a partir daqui lança-se ao alegado saudosimo colonial que "ainda persiste em Portugal". Um leitor brasileiro que pouco mais saiba de nós do que as anedotas de português e do bigode, estará autorizado a pensar que esse saudosismo identificado por Agualusa é um, digamos, sentimento que em Portugal tem expressão. Ora isso é tão estúpido como eu dizer que em Angola persiste um sentimento de inferioridade  de país colonizado -- é inconcebível.

Agualusa conhece muito bem Portugal para saber destrinçar a vox pop ignara das pessoas que usam, trabalham e estimam a língua. Sabe que a esmagadora maioria dos escritores e dos intelectuais portugueses é contra o "Aborto Ortográfico" não por saudosismo imperial, mas pelos danos que ele provoca à própria língua. José Saramago e Vitorino Magalhães Godinho eram contra o AO por nostalgia imperial? António Lobo Antunes ou José Pacheco Pereira são contra o AO por isso e também por "enorme ignorância no que diz respeito ao idioma? Os editorialistas do Jornal de Angola, lúcidos opositores do AO, fazem-no por mentalidade de colonizados?... 

Apontemos os defeitos todos, antigos colonizadores, ex-colonizados, mesmo com banalidades e kitsch tropical, mas não seria mau fazê-lo de boa-fé e com honestidade intelectual.

sexta-feira, abril 29, 2011

V.M.G.

Sobre esta sigla figuram os verbetes de Vitorino Magalhães Godinho no Dicionário de História de Portugal, creio que as primeiras coisas suas que li. A obra que deixou é magna, desde logo pelo manuseamento e edição das fontes. Racionalista puro e duro, rasurava com impiedosa eficácia as fantasias esotérico-mitográficas que são pasto para alucinados ou impostores. É claro que o que ganhava em consistência perdia em poética, mas de bom grado deixava aos poetas a poesia. Era uma figura e era tramado. Depois de Joel Serrão, Vitorino Magalhães Godinho: talvez os dois pilares da historiografia portuguesa da segunda metade do século XX.