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sábado, setembro 29, 2018

por falar em parolos

O conhecido Carrilho veio a terreiro aos gritinhos, a propósito do caso Mapplethorpe. Com desassombrada parvoíce -- "Serralves em perigo?"-- fala duma "visão parola e censória da arte". 

Sobre a questão da censura, não vale a pena perder mais tempo (aqui post e comentários); sobre a parolice, tem graça, vindo de um parolo que andou a negociar com a imprensa a reportagem fotográfica do seu casamento com uma apresentadora de televisão. O Carrilho porém é tão parolo que não se exime em pôr-se em biquinhos de pés, lembrando, linha sim linha não, o seu papel ministerial. Reconheço, com pena, que ele foi um muito bom ministro da Cultura, mesmo que em tempo de vacas obesas, o que também, sublinhe-se, nunca fez de si alguém especialmente potável.

Ainda a propósito de parolos, o último número de circo do cansativo Rui Moreira, aproveitando-se do caso. Bem fez Braga da Cruz, que é um tipo sólido e pouco impressionável e mandou Moreira dar sangue, não lhe aparando a politiquice. Eu percebo Rui Moreira: para ele é o prestígio internacional, que receia seja afectado, "a propósito da exposição do artista Robert Mapplethorpe".    O artista Robert Mapplethorpe... Faz-me lembrar uns indigentes a quem deram certa vez responsabilidade editorial. Um dia tiveram de legendar uma fotografia do Saramago, que ficou assim: "Escritor José Saramago" -- não fosse alguém pensar que o homem seria sapateiro.

Já agora: Pacheco Pereira pediu na "Quadratura do Círculo" que lhe fizessem uma entrevista sobre o caso, pois estava com "vontade de partir a loiça toda". Avisem-me quando isso acontecer.

quarta-feira, setembro 26, 2018

um serviço educativo para o fisting

Dizer que houve censura das fotografias do Mapplethorpe em Serralves, significa que não sabe o que é (e foi) a censura. Depois, condicionamentos de admissão a menores de dezoito anos, estão consagrados pela lei e pelo estado de direito, sem que ocorra a alguém vir esgrimir o argumento estafado, estafado.
Creio haver também um equívoco sobre a interpretação das restrições. Não se trata de pornografia, obviamente, mas, nalguns casos, de imagens bastante violentas. E se nem todas as imagens de sexo explícito são pornográficas, como toda a gente deveria saber, nem  tudo o que está classificado para maiores de dezoito anos tem que ver forçòsamente com pornografia, idem-aspas.
Mas talvez seja avisado haver alguma prevenção quando se expõem imagens de meio braço enfiado num ânus ou um tipo a urinar para a boca de outro. Além disso haverá, quem tenha preconceitos, haverá quem seja conservador, haverá quem seja moralista -- e com todo o direito a sê-lo; haverá ainda quem não tenha preconceitos nem seja moralista, mas considere (pobres retrógrados, coitados) que para crianças de dez anos (ou de oito, ou de treze) aquelas e outras imagens não sejam pròpriamente aconselháveis, como fàcilmente se perceberá. As razões atendíveis para condicionar o acesso são várias, o que deveria ter sido, aliás, previsto pelos vários intervenientes da coisa, poupando-nos à patetice da semana, que parece querer chegar ao Parlamento.
Claro que há imensos argumentos que podem aduzir-se, contra a imposição de uma idade mínima de visionamento de uma parte da exposição: desde o cínico 'ninguém é obrigado a ir' à monumental má-fé intelectual de Pedro Lapa: "hoje é por causa do sexo, amanhã é por causa da raça" -- sem perceber, ou não querendo perceber, que o silogismo se pode aplicar, por exemplo, à pedofilia, que há cem anos se mostrava alegremente por todos os salões de arte, e hoje seria o cabo dos trabalhos para o fazer -- mesmo com estas prevenções que alguns agora classificam como censórias. (Lembra-se, aliás benèvolamente,  da não existência de raças humanas. Todos percebemos o que ele quis dizer, mas rigor, que diabo!, rigor nas palavras.)
Censura? Nem por isso, apenas uma histeria grotesca de activismo kitsch e excitação de umas cabecinhas com uma razoável massa de esterco encefálico.


Fotos aqui, serviço público.


P.S. - Para quem tiver paciência, remeto para a leitura dum velho post de 2007, exactamente sobre este tema, mas então a propósito do Tintin no Congo (o debate também tem graça). A minha perspectiva era a mesma, o que não invalida a grande admiração pela obra do Hergé...