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quinta-feira, fevereiro 22, 2018

o Aborto Ortográfico?, só quando tiverem vergonha na cara

Talvez a pior atitude, ou pelo menos a mais lamentável em relação ao Aborto Ortográfico seja a do não quero saber, em especial quando evidenciada por quem faz da língua profissão: estou a pensar em alguns plumitivos à esquerda, que parece terem medo que lhes chamem conservadores, retrógrados ou reaccionários se disserem o que parecem pensar sobre este pântano em que se tornou a ortografia, mas, prudentemente defendem ser uma maçada este barulho constante. É preciso dizer que vários deles foram compelidos a escrever com as novas regras nos meios de comunicação em que trabalham, daí o desinteresse que aparentam manifestar sobre o assunto. Mas não têm grande sorte no disfarce, porque vê-se-lhes bem a cautela.

O PCP, com a seriedade prática que se lhe reconhece, propõe a desvinculação. ; o PSD considera a posição do PCP extemporânea, talvez esperando regressar ao governo para voltar a não fazer nada; o CDS diz que não, mas que também; o BE diz zero à esquerda; o PS, pior do que as inanidades que um tipo qualquer para lá vocalizou, como partido no poder, não quer agitar as águas.  

Com mais ou menos retórica, com mais ou menos convicções (ou falta delas), os quadros partidários ignoram olimpicamente os peticionários, como já haviam, a partir da sua pouca suficiência, ignorado Vitorino Magalhães Godinho, José Saramago, Vasco Graça Moura, para mencionar apenas pessoas que já morreram.

A actual situação da ortografia portuguesa encontra inúmeros paralelos na degradação do património histórico-cultural, ainda há pouco eloquentemente evidenciada por uma excelente reportagem da RTP (creio que no programa "Linha da Frente"). Essa peça jornalística mostra as fragilidades do país, com uma percentagem brutal de analfabetos (literais ou funcionais), que por sua vez é brutalizada por uma imprensa venal que serve à população o pasto que sabemos. Nesse aspecto, a Assembleia da República e os directórios partidários que lhe fornecem os quadros, são bem o espelho de um dos mais graves problemas estruturais que Portugal enfrenta: a falta de qualificações de grande parte da população, com evidentes reflexos na ausência de massa crítica nas chamadas elites, políticas e não só.

O Aborto Ortográfico não é politicamente mobilizador, não dá votos e está provavelmente capturado por interesses de algum sector editorial. Não é o AO, como não o é todo o património do país. Portanto, há que esperar por duas coisas: que os deputados do PS, PSD e CDS ganhem vergonha na cara e/ou mostrem que servem para alguma coisa para além deputismo de cu (levantar e sentar quando manda a direcção do grupo parlamentar); e, quanto ao BE, meter naquelas cabecinhas que cuidar da ortografia de uma língua não tem que ver com atitudes passadistas, conservadoras, reacionárias, mas antes com elementar bom senso. Aliás, a mítica lusofonia encobre, em muitos, casos, um neocolonialismo que certamente não subjaz à maioria dos que defendem a anulação do AO90, como é o meu caso.

em tempo: o artigo de Bagão Félix no Público deixa à mostra a mistela ortográfica que os parlamentares têm pejo em discutir

quinta-feira, fevereiro 09, 2017

os 'utentes' da língua e o Aborto Ortográfico

Sobre o aborto ortográfico e as suas consequências, está tudo dito. Meia dúzia de técnicos e burocratas da língua, do lado português, ajudaram a pari-lo, e o governo de Cavaco Silva, com Santana Lopes como secretário de estado da Cultura, deram-lhe o seguimento político.
Página negra na história da língua, como qualquer aborto é um nado morto, porque não há nem haverá nenhuma uniformização do português nos cinco cantos do mundo. Mais ano menos ano, este aviltamento da língua será insustentável, e os governos e as academias vão ter de introduzir alterações consequentes.
No entretanto prevalece o descaso dos decisores políticos e dos apparatchiks, o descaso com que tratam o património cultural português, que é coisa que não vivem nem sentem, a não ser que sintam o cheiro a votos pela manhã.
É uma generalização abusiva, dirão. É uma generalização, porventura injusta, porém nada abusiva, como testemunha o património histórico e cultural deste pobre país. Séculos de analfabetismo (meio milhão em 2017) pagam-se caro.
Repito o já escrito, por mais de uma vez: não há um único grande escritor português que não seja contra o aborto ortográfico. São os escritores os criativos da língua, os que quotidianamente a defrontam e desafiam. Desde que o problema se pôs, nem Saramago, Lobo Antunes, Mário de Carvalho, sancionaram este atentado. Vasco Graça Moura foi exemplar no seu combate cívico. O enorme Vitorino Magalhães Godinho, um dos historiadores de que Portugal se deve orgulhar, teve, contra o aborto ortográfico, o último combate da sua longa vida.
Nada que impressione ou incomode os 'utentes' da língua, como Vital Moreira, que escreve tão bem como qualquer notário, mistura alhos com bugalhos, não percebe que, antes de ser política, a questão da língua é um problema de cultura, em sentido amplo. É claro que para quem 'utiliza' a língua com a mesma displicência com que se serve da carreira 727 da Carris, estes assuntos são uma grande maçada. 

terça-feira, dezembro 27, 2016

microleituras

Cartas de Camilo, apresentação de Vasco Graça Moura, edição de José da Cruz Santos, gravuras de Alberto Péssimo, direcção gráfica de Armando Alves -- tudo para ser uma grande edição, e é-o.
E o é, pelo humor sardónico de Camilo, que, em quatro cartas, datadas de 1886, trata, com o destinatário delas, Adelino António das Neves e Melo, Filho, ex-comissário de polícia em Coimbra, e velho amigo, que este lhe arranje um burro, para passeio (recomendação médica).
O título, certamente de Graça Moura, é um achado, à altura da verve camiliana, sempre maldosa. Mas como no melhor pano cai a nódoa, a edição a respeito de questões editoriais essenciais, mesmo atendendo a este tipo de publicação, em que o objecto-livro é (boa) finalidade. A saber: trata-se de uma primeira transcrição?; e por quem?. Se não, de onde foram extraídas?... 

excerto duma carta:

«Meu presado Am.º
[...]
Os meus medicos, suspeitosos de que as m.as pernas vão paralysar, mandam-me dar passeios a cavallo. /  Eu tenho um, como recordação de bons tempos; mas já não me atrevo a montal-o. Aconselharam-me a equitação em burro, pacifico, sem manhas, nem erothismos mto violentos. É impossivel encontrar no Minho um burro em taes condiçoens; por que, alguns q ainda existem, são abbades. Mandaram-me procural-o no campo de Coimbra, onde permanece ainda a raça do burro espirituoso e meio academico da Mealhada e dos Fornos. [...]»


Camilo Castelo Branco, Um Animal de Quatro Cartas, Porto, Asa, 2000.
(também aqui)
)

quarta-feira, março 02, 2016

Aborto Ortográfico: aflorações recentes

Lembro-me de ouvir o saudoso Vasco Graça Moura, logo no início da questão, que uma das consequências da aplicação do Acordo Ortográfico seria a da progressiva e inevitável alteração no modo como se passaria a pronunciar certas palavras. Tive essa experiência, há dia, quando a minha filha mais nova estava a fazer os trabalhos de casa e me perguntou o que era um 'vetor', pronunciado com o e fechado. Não um vector, mas um vetor.
Outra consequência da bandalheira (expressão bem utilizada por Pacheco Pereira) que os poderes públicos não têm a coragem de defrontar (o único assunto em que António Costa me desapontou até agora; esperemos que a Geringonça, neste caso, continue a funcionar). Esta miséria induz em erro. Todos deveríamos saber que segunda as excepções abortivas do Aborto Ortográfico, caem as consoante mudas, e só essas. Pois acabo de ler esta lindeza no JL: "Aquela região era considerada infeta" A sério, 'infeta'?! Será infêta, ou infecta?... 
Outra, fresquinha, lida ontem: abruto... Para não terminar 'abrutamente', nem à bruta, sempre direi que de vez em quando leio umas coisas das luminárias que defendem este chavascal, em que lamentam a forma aguerrida, agressiva, até, com que os opositores ao Aborto Ortográfico se manifestam. Mas como é que alguém pode manter a compostura, quando tropeça nesta ortografia, digamos, 'infeta'?...

quinta-feira, maio 07, 2015

um dia de várias semanas

"Naquele momento, a edição das obras do Pessoa que me estava mais à mão era a péssima edição da Ática, aliás quase todas as antigas edições do Pessoa na Ática são péssimas, embora nenhuma bata em detestabilidade o tijolo que lá se fez das poesias do Camilo Pessanha, pensava eu cheio de preguiça resignada, porque não me apetecia subir ao escadote para pegar na única edição decente que existe do Alberto Caeiro, que é a que reproduz o manuscrito em facsímile e demonstra que o dia triunfal durou pelo menos várias semanas."

Vasco Graça Moura, Naufrágio de Sepúlveda (1988)

terça-feira, fevereiro 03, 2015

da identidade nacional

«E era esta a abordagem mais recente do problema, porque a mais antiga talvez fosse a transcrita nas 'Chroncias dos Senhores Reis de Portugal', de Christovão Rodrigues Acenheiro, sim, a edição da Academia diz mesmo diplomaticamente 'Chroncias', e de repente, quando reflectina no que o Mattoso dizia, dei-me conta de que já o D. Afonso IV procurava, no seu modo brusco e medieval, circunscrever por inteiro a identidade nacional, quando escrevia brutalmente ao rei de Castela, seu genro: 'E sem dúvida sabei que os Portugueses nunca deixaram de usar três cousas, a saber, lutar, pelejar com Castelhanos , e demandar com boa vontade mulheres.'.»

Vasco Graça Moura, Naufrágio de Sepúlveda (1988)

sábado, setembro 13, 2014

nas dobras da ventania

«O caudal da chuva parecia ter aumentado, a avaliar pelo som contínuo e crescente que se ouvia num trepidar rufado para lá dos vidros, mas trespassava-o a sereia de uma ambulância a desenrolar-se desesperadamente nas dobras da ventania.»

Vasco Graça Moura, Naufrágio de Sepúlveda (1988)

sábado, maio 31, 2014

um acontecimento editorial: A EXPERIÊNCIA, de Ferreira de Castro (hoje, na Feira do Livro)

Durante sessenta anos (desde 1954, data da primeira edição), A Experiência ficou escondida, no mesmo livro, entre a novela A Missão e o conto O Senhor dos Navegantes. A primeira, objecto também de edições à parte -- foi um dos volumes inaugurais da histórica colecção "Livros de Bolso Europa-América", e da própria editora original, a Guimarães, quando escolhido como um dos livros de leitura curriculares do então ensino unificado, na década de 1970. O Senhor dos Navegantes, em tempos gravado e dito por Ferreira de Castro, num disco editado pela Orfeu, em 1998, através da direcção avisada e culta de Vasco Graça Moura e António Mega Ferreira, foi também objecto de uma edição em separado, na colecção da Expo "'98 Mares".

E A Experiência, no meio da boa fortuna das outras duas narrativas, o único romance que integrava o volume A Missão?; essa história incrível de duas crianças de asilo, Januário e Clarinda, evoluindo para a marginalidade como se uma nuvem negra que sobre eles pairasse não lhes oferecesse outra saída?; essa narrativa modelar, moderna na sua estrutura, com vários planos espácio-temporais, mostrando que, como qualquer grande escritor, Ferreira de Castro não queria dormir à sombra dos louros conquistados, procurando superar-se de livro para livro?...

Foi preciso um editor culto, percebendo que tinha em mãos um romance notável, de grande mestria (um dos meus preferidos), para que A Experiência pudesse  sair da obscuridade a que não tinha direito. Sai, infelizmente, num tempo em que o detrito literário domina os escaparates, e o lixo quotidiano nos empesta a vida. Mas, ao contrário do que queria Ferreira de Castro, a grande literatura, aquela que experimenta e questiona, sempre esteve ao alcance de poucos. Podia ser outra coisa? Podia. Mas então Portugal não seria Portugal, mas outra coisa, menos rústica, menos suburbana.

A edição é cuidada, com referências bibliográficas diversificadas. Deixo duas, de conspícuos ensaístas e críticos, ideologicamente nos antípodas (Ferreira de Castro tem esse atributo dos grandes: seja qual for a nossa mundividência, encontramos sempre nos seus livros algo que nos emociona e faz sentido):

Óscar Lopes: «Ferreira de Castro foi o primeiro grande romancista português deste século [XX] que se determinou por problemas objectivos e não apenas por impulsos íntimos.»
e
Pinharanda Gomes: «Todas as situações são pontos limite, agonísticos, neste romance onde as personagens [...] bebem o cálice até à inverosímil agrura e, todavia, tudo é verosímil e, cotejado com a vida, é crível.»

Uma última palavra para Susana Villar, autora das capas dos livros de Ferreira de Castro na Cavalo de Ferro. Num autor que foi visitado pelos maiores capistas, de Stuart Carvalhais a Bernardo Marques, e até pelos maiores pintores, nas edições ilustradas de Portinari a Pomar, o óptimo trabalho de Susana Villar tem feito jus a também a esse legado.

Hoje, na Feira do Livro de Lisboa, Miguel Real falará sobre.

domingo, abril 27, 2014

Vasco Graça Moura

Portugal perdeu hoje um dos seus maiores. Como poeta, foi um dos mais significativos do seu tempo, cujo estro era suficientemente intenso para impedir que a cultura vasta e sólida afogasse a poética em eruditismo estéril. Será sempre um autor a ter em conta em qualquer antologia do tempo que lhe coube. Enquanto crítico e ensaísta, ombreia com os grandes, sendo também um respeitadíssimo camonista. Acresce uma contínua actividade de tradutor, aclamado pelas versões que realizou de Shakespeare e Dante, entre muitas outras.
Do maior relevo, dentre as muitas funções públicas que desempenhou, foram a direcção editorial exemplar da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, e o brilho com que presidiu à Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Num e noutro lugar, o seu desempenho foi reconhecido e louvado por todos os quadrantes politico-ideológicos, e a acção que aí realizou deixou frutos, prolongando-se pelo tempo futuro. E foi, como se sabe, o mais combativo adversário do famigerado Acordo Ortográfico, contra o qual se bateu inteligente e denodadamente, sem que o tolhesse a pesada e desesperante inércia duma sociedade que passava tranquilamente ao largo das preocupações e dos interesses duma vida: a literatura e a história de Portugal. 

quinta-feira, março 28, 2013

tá bem, também digo qualquer coisa sobre o Sócrates

Para encurtar: o primarismo do culto (e anticulto) de personalidade dos que o apoiam e dos que se lhe opõem, como se política fosse esta pobreza de "gosto dele" e "não gosto dele". Um prós & contras em relação a José Sócrates, que só mostra como este país de futebóis e parapornografia dita cor-se-rosa é indigente. Que vergonha, que vergonha... Mas quando um programa de variedades como o do Marcelo Rebelo de Sousa tem a influência que tem, está tudo dito.
No entanto, é sempre útil voltar a ouvir a verdadeira história do chumbo do PEC4, orquestrada por Passos Coelho e seus mentores (Relvas e Marco António, "gente do piorio", como se lhes referiu Miguel Veiga no "Expresso" desta semana), condicionando os coitados do PC e do BE, a quem o PSD e o CDS devem agradecer; a merecida e justificada cacetada em Cavaco, mesmo assim respeitosa; o ter explicado que ser governante não é vir com cara de zombie anunciar 19% de desemprego para os próximos anos. Esta parte criou-me expectativa para os comentários políticos que vão seguir-se. Mas, interessa-me mais falar do carnaval desta semana, a propósito do caso: 


Um pirilau qualquer da JSD veio protestar. Que pateta, que pateta...

O presidente da mesa não sei do quê do CDS, o partido dos submarinos e dos sobreiros, disse parvoíces, o que não é de admirar;
Morais Sarmento, que foi braço direito de Durão Barroso (e de Santana Lopes), foi grosseiro, o que não é de admirar;
Vasco Graça Moura, autor que admiro e a quem estou grato pela luta contra o aborto ortográfico, em reflexo pavloviano, disse que a vinda de Sócrates iria baixar o nível do comentário, esquecendo-se dessa nulidade de vocabulário reduzido que dá pelo nome de Marques Mendes.

domingo, agosto 14, 2011

sexta-feira, novembro 03, 2006

Antologia Improvável #175 - Vasco Graça Moura (2)

SONETO DO JAZZBAND

era noite, era noite, marcámos de mãos dadas
um ritmo interior dos corações, saía
do trombone em surdina quase uma voz humana,
uma voz rouca em scat, ah!, pulsações do banjo,

trompete, clarinete, estrídulo woody allen,
puro prazer do ritmo, convite a dançar blues,
e em tantos contrapontos eu só sabia amar-te,
na sombra a tua face vibrava repentina,

e o piano e os drums e o contrabaixo, e aquelas
batidas do swing, o jazzband em pleno,
luzinhas na plateia e os beijos que te dei,

na onda esfuziavas e eu vi-me nos teus olhos
e ouvimos dixieland, e ouvimos new orleans
e eu amo-te, i love you, eu amo-te for ever.

in JL, n. 938,
13 de Setembro de 2006

Vasco Graça Moura

quinta-feira, setembro 08, 2005

Antologia Improvável #49 - Vasco Graça Moura

princípio do prazer

à sua volta os pombos cor de lava
nos arabescos pretos do basalto
e gente, muita gente que passava
e se detinha a olhá-la em sobressalto

no seu olhar havia uma promessa
nos seus quadris dançava um desafio
num relance de barco mas sem pressa
que fosse ao sol-poente pelo rio

trazia nos cabelos um perfume
a derramar-se em praias de alabastro
e um brilho mais sombrio quase lume
de fogo-fátuo a coroar um mastro

seu porte altivo punha à vista o puro
princípio do prazer que caminhava
carnal e nobre e lúcido e seguro
com qualquer coisa de uma orquídea brava

e nas ruas da baixa pombalina
sua blusa encarnada era a bandeira
e o grito da revolta na retina
de quem fosse atrás dela a vida inteira.

Antologia dos Sessenta Anos

VGM

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