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quarta-feira, outubro 31, 2018

vozes da biblioteca


«O poeta aceita a sua morte como o Estio aceita a chegada do Outono ou o dia aceita a chegada da noite.» Guilherme de Castilho, «Alberto Caeiro -- Ensaio de compreensão poética», (1936), Presença do Espírito (1989)

«Persuado-me também que à posteridade pouco se dará que eu tenha nascido em Vila de Frades, no largo da Misericórdia, numa casinha de taipa construída por pedreiros da minha gente, e que haja sido meu pai, mestre-escola da terra, e tipo de santo austero numa alma de sonhador sempre calado, que protegesse e dirigisse os rudimentos da minha educação.» Fialho de Almeida, «Eu», A Esquina (1903)

«Sílvia entra do fundo com um braçado de flores. Começa a dispô-las nas jarras, cantarolando baixinho» João Pedro de AndradeO Diabo e o Frade (1963)

segunda-feira, outubro 15, 2018

«Atmosfera pesada, nuvens cor de chumbo em barras pelo céu; e cada lufada de vento que sopra sem um suspiro sequer nas folhas do arvoredo cresta-me a cara como o hálito dum forno, e longamente parece rarefazer, no ar, o oxigénio indispensável à função dos meus pulmões.» Fialho de Almeida, «Alexandre Herculano», Figuras de Destaque (póstumo, 1923)

«Assim como o tempo passa / já posso ser o que sou / breve chuvisco de tarde / nublado pela manhã / sol em neve declinado / seco mar fresca aridez» António Franco Alexandre, «Poema simples», Uma Fábula (2001)

«Outubro cantava, em surdina a sua canção marinha.», Augusto de Castro, «Mestre Outono, pintor»,  Mestre Outono, Pintor (1957)

quinta-feira, novembro 02, 2017

uma carta de António Sérgio

Carta que espelha o ambiente das elites intelectuais no final da República: António Sérgio, elemento da Seara Nova, grupo que se situava na ala mais à esquerda de regime; António Sardinha, o membro mais destacado do Integralismo Lusitano, defensor da monarquia tradicional, cujo órgão era a Nação Portuguesa. No entanto, para além dos pólos opostos em que ambos os grupos se situavam no espectro político, por mais de uma vez convergiram na acção cultural, de que a revista Lusitânia foi um dos exemplos. Sérgio, escreverá o seu artigo polémico na Seara, mas já não obterá resposta de Sardinha, que entretanto falece. É muito interessante verificar que o jovem Castelo Branco Chaves (24 anos) é o mediador deste desentendimento, -- suscitado pelo livro de Manuel Múrias, O Seiscentismo em Portugal (1923) --, uma vez que fora monárquico integralista, sendo o seu primeiro ensaio, um livro sobre Fialho de Almeida, prefaciado por Sardinha. E como explica Luísa Ducla Soares, a editora desta correspondência, Sérgio, instigado pelo brilho do jovem intelectual, tomou a iniciativa de o conhecer, forjando-se uma amizade entre ambos que levaria Chaves para as fileiras da Seara Nova. (aqui)

segunda-feira, março 28, 2016

microleituras

Um estudo datado de 1908 do grande Fialho sobre o castelo de Alvito, vila alentejana nas cercanias da Vila de Frades, que o viu nascer e Cuba, onde morreu. Verdadeira dissertação em torno da arquitectura tardo-medieval, em que o autor d'Os Gatos meteu as mãos na massa dos arquivos, muito referidos em nota. E se é de Fialho de Almeida, não é de um curioso qualquer, mas de um dos maiores escritores da nossa língua. Por exemplo: um parágrafo, a propósito do despojamento dessa fortificação dos Lobos da Silveira, barões e depois marqueses de Alvito:
«A nudez das paredes caiadas e sem silhares ou lambrises de faiança ou de madeira; as janelas de poialitos toscos deladeando o portal côncavo, os pisos de adobe das câmaras e os seus toscos fogões desmoldurados, a escadaria de acesso, quase rústica, o torrejamento hirsuto e os carrancudos crenéis, tudo isto avança para nós de viseira caída, como a dizer que os Lobos daquela matilha não podiam ser senão golpeadores de espanhóis, monteiros de feras, capitães ferozes da Índia ou bandeirantes da estopa brasilenha
E o gozo que não dá ler-lhe a verrina intratável, no meio da erudição! O tipo gastou-se, tratou-se mal.
Faz parte do livro póstumo Estâncias de Arte e Saudade (1921).

incipit: «O castelo de Alvito fica numa das pontas da vila, em terreno não acidentado, e é na sua projecção horizontal um quadrilátero, com quatro torres redondas nas esquinas.»

 Fialho de Almeida,  Em Alvito o Castelo (C.M. Alvito, 1999)
(também aqui)

quinta-feira, março 24, 2016

microleituras

A partir do livro póstumo de Eça de Queirós, O Egipto -- Notas de Viagem, e de dispersos vários sobre o o país dos faraós e das pirâmides, procurei perceber as razões dessa viagem, feita em 1869, a propósito da inauguração desse prodígio da engenharia que foi o Canal do Suez, motivação que espero ter mostrado que ia muito para além duma experiência mundanal forte; insiro o querido Eça na sua linhagem orientalista; anoto as descrições de Alexandria e do Cairo; e procuro contextualizar as ténues relações Portugal-Egipto nesse período. Foi um dos estudos que mais prazer me deu realizar, e talvez merecesse ser conhecido por cá.

incipitEça de Queirós chegou a Lisboa, "bacharel e ocioso! -- como escreveu Fialho d'Almeida (Fialho d'Almeida, 1969, p. 105) -- com 21 anos, saído das pugnas políticas e estéticas de Coimbra, da contestação ao reitor da Universidade, Basílio de Sousa Pinto, atravessando a Questão Coimbrã -- que foi, só, a grande fractura literária do século.»

 Ricardo António Alves, Eça do Egipto, separata de Taíra - Revue du Centre de Recherche et d'Etudes Lusophones et Intertropicales, n.º 11.
(também aqui)