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segunda-feira, novembro 11, 2019

do que eu gostei mesmo nas eleições espanholas

foi a ERC-Esquerda Republicana da Catalunha, cujo líder, Oriol Junqueras, está preso com uma condenação a treze anos de cadeia, ter obtido mais três deputados que o partido do patife do Rivera.

quarta-feira, outubro 23, 2019

um texto magnífico sobre o problema catalão

«[...] eu, que sou o produto de uma escola espanhola, na qual a cultura catalã, a língua catalã e a literatura catalã eram uma página em branco, e que fui criado sob o espírito das glórias do espanhol D. Pelágio, do Cid Campeador, do Império de Carlos V, dos Terços de Flandres e da Armada Invencível, “abduzido” pela grandeza de uma Espanha una e não plural, no entanto aqui escrevo constatando, tarde demais, a grandiosidade de uma Península Ibérica, diversa, tão peculiar, que poderia ter sido imensa. Portugal saiu a tempo, pois hoje corria o risco de se ver protelado no uso da sua língua, entre muitas outras coisas. /
 [...] defino-me como independentista à força, principalmente depois do 1 de Outubro e desta sentença. Explico: foi a Espanha que me expulsou, não fui eu que me quis ir embora.»

Um artigo de Pedro Ferré, professor da Universidade do Algarve, para ler todo aqui , e a partir daqui.

segunda-feira, outubro 21, 2019

diálogo sobre a questão catalã

Jaime Santos, cujas opiniões demoliberais prezo, pois não divergem muito das minhas,  comentou este post, levantando questões que me parecem úteis trazer para aqui, em vez de ficarem perdidas numa caixa de comentários. Para facilitar a leitura, intercalo as minhas observações com o seu comentário: o texto dele vai entre aspas e em itálico, o meu vai em redondo e a bold.

«Comparar, meu caro, Saddam, Assad ou o Estado Islâmico com o PSOE ou o PP é um bocadinho puxado, penso eu (mesma coisa a compará-los com Franco).»

Duas notas: 
1. Não estava a pensar em Saddam ou no Assad (duas personagens muito diferentes), mas simplesmente na Turquia e no PKK, cujo enfrentamento vai muito para além (e para trás) da era Erdogan. Aliás, o Saddam está aqui a mais, pois tratava-se de um psicopata; o Franco e o Assad são dois ditadores que mantêm o poder e a unidade territorial dos respectivos estados pela força que for precisa. Não sei por que razão quer há-de você ser benevolente para com o generalíssimo pela graça de deus...
2. Não se trata de uma questão de grau de repressão -- porque, gostemos ou não, a repressão, mais bárbara ou mais civilizada, está sempre presente --, mas do princípio elementar da autodeterminação dos povos, que aos catalães está vedada.
(Isto leva-me a falar na ignorância atrevida e crassa de muitos comentadores da questão: quando esta se levantou no ano passado, ouvi uma corifeia, a partir do palanque merdiático que detém, comparar o problema com uma eventual vontade de secessão do Porto ou coisa que o valha, para significar a absurdez da situação, no seu vesgo modo de ver. É não ter a mínima noção do que fala; mas como além de falta de noção também lhe mingua a vergonha, continua por aí a perorar, provavelmente não repetindo o dislate, pois alma caridosa provavelmente chamou-lhe a atenção para o disparate). Há dias, não um comentador mas um singelo director de informação, punha a questão secessionista ao nível do Açores e da Madeira, achando que podia comparar o incomparável, não percebendo nada (ou não querendo perceber), misturando autonomias  de natureza diferente). E o que ele devia perceber é que não há espanhóis; ou então: espanhóis somos todos, como lembrou D. João II aos Reis Católicos, os tipos que armaram este sarilho. Açorianos e madeirenses são tão portugueses como transmontanos e algarvios, e não se sentem outra coisa; a Espanha é uma entidade política artificial, imposta pela força das armas, ao longo dos séculos, uma unidade de que fizemos parte em várias situações e das quais saímos porque quisemos sair, ou não quisemos entrar, em várias ocasiões, sempre pela força das armas, em duas delas contra a legalidade, com D. Afonso Henriques e D. João IV (D. Afonso V também quis subjugar Castela e dela tornar-se soberano).

«Os meios devem ser ponderados à situação presente e a Espanha ainda não começou a meter pessoas indiscriminadamente na cadeia ou a torturá-las, ou o que seja (isso não impede as presentes condenações de serem exageradas e sobretudo injustas).»

Não, meu caro, as condenações não são exageradas; provavelmente as sentenças são impecáveis, porque de acordo com a legalidade do estado espanhol, mas profundamente ilegítimas, pois negam um direito básico de qualquer povo (daí a minha referência aos curdos), o tal da autodeterminação. E as leis mudam-se, é uma questão de bom senso, ou de força... 

«Quando alguém se levanta contra uma ordem constitucional (porque a presume ilegítima) deve estar preparado para sofrer as consequências. Nessa medida, Junqueras ou Forcadell merecem muito mais a minha admiração que Puigdemont. Escolhem como Gandhi (ou Mandela que mais tarde se converteu à solução política do conflito na África do Sul), sofrer pelas convicções.»

Sim, deve estar preparado, mas essas considerações implicam um julgamento que não só não adianta nada, como é bastante fácil de enunciar a partir do teclado. O exílio não deve ser um mar de rosas; em segundo lugar, não sabemos que articulação terá havido entre os protagonistas; e por fim, o Puigdemont serve a sua causa em Bruxelas, e não creio que haja catalão que não o apoie.
E, deixe-me que lhe diga, a conversa da constituição é uma treta, pois na transição todos queriam ver-se livres do regime e aceitaram todos os compromissos para acabar com o franquismo. Falar de constituição nesta altura do campeonato é de um grande cinismo (não seu, mas dos políticos de Madrid).

«Relativamente ainda à acção violenta, o insuspeito Camus disse um dia que entre a Justiça e a sua Mãe (que vivia na Argélia), ele escolheria a sua Mãe. Eu faria exactamente a mesma escolha...
E, chame-me cobarde ou reaccionário, não vou criticar nenhum Espanhol ou Catalão (Pied-Noir ou não) que faça também essa escolha. E cuidado com aqueles que a fizerem. O terror, como bem mostra a História, não é normalmente só a arma de um dos lados... A Guerra Civil de Espanha foi tudo menos um conflito entre os bonzinhos e os mauzinhos... Cuidado com o que se deseja...»

O Camus era um individualista, e bem; também eu me considero tal. As nossas opções são sempre sopesadas entre a ética e as convicções, por um lado, e os custos e danos por outro. Cada um deve ter a liberdade de agir em conformidade com a sua consciência, sem entrar no tropel da manada. Mas tenho a certeza de que faria suas as extraordinárias palavras do José Martí: «Si no luchas ten al menos la decencia de respetar a quien sí lo hace.»
O "terror". Chamar terroristas a quem pega em armas para defender-se é o que faz o Erdogan aos curdos do PKK e os que lutaram contra o Daesh, era o que o Salazar chamava aos movimentos de libertação das colónias. Não, meu caro, não faço esse favor aos opressores, mesmo que sejam opressores 'soft' ou 'light'. Se um comando catalão atacar pelas armas a sede da polícia espanhola, não serei eu quem levantará a voz para os condenar, era o que faltava. Embora, como escrevi, considere mais produtiva e inteligente um movimento de desobediência civil essencialmente pacífico e simbólico, mas eficaz. 
Terror é o que fez aquele islamita em Nice, que varreu dezenas de pessoas ao volante de um camião; ou os guerrilheiros da UPA, que massacraram colonos e indígenas, mulheres e crianças no norte de Angola, em 1961, ao contrário do MPLA, que assaltou uma cadeia onde estavam presos políticos nacionalistas / patriotas angolanos. Terror é condenar um líder político a 13 anos de cadeia.
Não, a Guerra Civil foi uma insurreição contra um governo democrático legítimo, chefiada por uma ratazana cujas ossadas vão ser despejadas daquele ignominioso Vale dos Caídos, o tipo que mandou fuzilar o Companys, presidente da Generalitat durante a II República. Não há mauzinhos nem bonzinhos; quando muito tipos do lado certo e outros do outro lado.


«Mas depois, existe um pequeno problema, aparte a falta de coragem dos Partidos Espanhóis que não querem abrir a caixa de Pandora dos referendos e se preparam para abrir a do separatismo porventura violento.»

Não querem, porque a direita espanhola é profundamente reaccionária e franquista, do aldrabão do Alberto Rivera (filho de colonos andaluzes que o Franco mandou para lá, que cortou o 'o' do nome para parecer catalão) ao gajo do Vox, a extracção é toda a mesma: o PP, o partido nascido do franquismo.  Fui um pouco injusto com o PSOE, que quis de facto dar um salto a tempo para outro patamar político, mas sempre bloqueado pelos franquistas do PP. É a minha embirração com o Sanchez, de que me penitencio, em período eleitoral, embora não dê nada por ele, como político ou indivíduo (um tipo que plagiou a tese, não é?...).

«A maioria dos catalães votou, nas últimas eleições, em Partidos Unionistas, a maioria presente no Parlement deve-se a um sistema eleitoral não proporcional e o mesmo se passou na anterior eleição que deu o Parlement que declarou a independência. Fazer um referendo sem sequer se dispor de uma maioria parece-me um bocadinho forçado...»

Creio que está a incluir nessa alegada 'maioria' o Podem, que em bom rigor não é unionista nem separatista (o que faz a propaganda...) E se é como você diz, não percebo por que razão os 'arriba españa' não viabilizam o referendo, gozando do seu triunfo em todas as frentes, e passam pela vergonha de serem desprezados em países civilizados. Aliás, tem-se visto quem vem para a rua em Barcelona, a defender a integração: aqueles embuçados de braço levantado em saudação fascista. Não era preciso ver, já se sabia, mas assim é mais eloquente.

«Quanto à vida ser feita de crises, bom, eu contrariamente àquele escritor francês, prefiro o aborrecimento à barbárie. O aborrecimento tem futuro, a barbárie não tem nenhum...»

Ora, somos dois! Mil vezes o aborrecimento da vida burguesa e medíocre dentro dos carris. Mas, lá está, não irei criticar quem se revolta contra a indignidade. Viver de joelhos deve ser muito aborrecido, e por vezes também deve custar a olhar para o espelho. Li já há uns bons anos uma entrevista dum escritor catalão que se assumia como independentista, e lembrava, com indignação, de como no seu tempo de criança e jovem, estava proibido de aprender a sua língua na escola. É realmente desagradável andar agachado.
Deus queira você tenha razão nesse optimismo quanto à falta de futuro da barbárie. Mas, como tenho dito, os catalães é que sabem. E note que não tenho nenhum preconceito contra os castelhanos, muito pelo contrário; mas as coisas são como são.

segunda-feira, outubro 14, 2019

Catalunha, aí vamos nós

A Espanha é governada por uns consabidos merdas. O PSOE obviamente não ousa a acção política, mesmo em defesa da unidade do estado espanhol noutros moldes, mais confederais, pois teme que aquela o afaste por muitos e bons do governo, ao contrário do PODEMOS, parece, se ainda não mudou de posição. Não é de espantar a sentença a pesadas penas de prisão emanadas pelo flato do supremo castelhano. Percebe-se que a vontade  de partir tudo fale mais alto, diante da indignidade, e não serei eu que irei condenar qualquer forma de luta que a sociedade catalã pretenda assumir, incluindo a armada, desde que os alvos sejam legítimos. (Não se pode ser a favor dos curdos e assobiar para o lado quando se trata da Catalunha.) Mas o mais inteligente é mesmo uma resistência firme mas não-violenta, à Gandhi, desde que a sociedade catalã esteja mobilizada para o sacrifício que tal acarreta. Nesta fase, visto de fora e à margem, parece-me ser a maneira mais eficaz de desmascarar a unidade espanhola, imposta pelo sangue. Quanto à UE, não se pode esperar grande coisa; parece que política comum só em relação ao Brexit. Talvez o Tribunal Europeu obrigue Madrid a ter vergonha na cara, o que iria abrir uma crise sem precedentes com a UE, mas a vida é feita de crises. Só espero que nenhum país se manche em relação aos exilados políticos catalães que acolhe. 

terça-feira, fevereiro 12, 2019

presos políticos catalães julgados por 'rebelião', 'sedição' e 'devio de fundos'

Qualquer democrata deve demonstrar a sua repugnância pelo que se passa hoje em Madrid.  Não basta vociferar, e bem, contra as hungrias e as polónias; ou tomar parte das mal contadas histórias da Venezuela, sobre a qual muito haverá que falar. Se o governo português tem e deve conter-se, como sempre tenho defendido, nesta delicadíssima questão -- e 'conter-se' não significa arriar as calças, como por vezes sucede --, não se segue que a sociedade portuguesa, onde se incluem os partidos políticos, não tome posição, fazendo ver ao poder castelhano-espanholista-franquista (que este fim-de-semana juntou 45 mil infelizes em manif madrilena) que há limites para a indecência em sociedades civilizadas. Podiam aprender com outros países europeus e não fazer esta figura triste de politicamente subdesenvolvidos.

segunda-feira, março 26, 2018

Presos políticos e exilados na União Europeia

Hoje às 19 horas, junto ao consulado espanhol em Lisboa, concentração convocada pelo Comité de Defesa da República Catalã em Lisboa

Não são só os neo-fascistas húngaros e os xenófobos e ultramontanos polacos que merecem o repúdio das pessoas de bem; igualmente o vetero-franquismo castelhano-espanholista, que se permite perseguir os democratas catalães, encarcerá-los ou forçá-los ao exílio. Por cada hora que a situação se mantenha, perde a face a União Europeia e os estados que a compõem.



sexta-feira, dezembro 22, 2017

tudo mais interessante

Nas eleições mais participadas de sempre, maioria absoluta dos independentistas catalães, com os seus líderes no exílio e na prisão; pulverização do PP -- 3 deputados 3 --, com voto útil do espanholismo franquista no Ciudadanos, resultados medíocres de PS e Podem, com posições intermédias quanto à questão da soberania, e provavelmente divididos internamente.
A seguir: reacção de Madrid, Rajoy e Felipe VI, derrotados em toda a linha -- a tradição manda esperar o pior; movimentações de Puidgemont, o verdadeiro vencedor das eleições; e, em face das configurações do tabuleiro, a acção da UE, e, em particular de Portugal -- também aqui a tradição autoriza o pessimismo.

domingo, novembro 05, 2017

Catalunha: nacionalismos, internacionalismos, outras confusões e alguns farsantes

Sou um cosmopolita e aspiro a uma Europa confederal. Faço minhas as palavras do Mitterand, segundo o qual "o nacionalismo é a guerra". É, porém, evidente -- ou deveria sê-lo para quem se detivesse a pensar um pouco -- que este cosmopolitismo, ou mesmo um internacionalismo de qualquer espécie, só é aplicável a jusante da autodeterminação. Daí que sejam especialmente patetas as observações que pretendem condenar o independentismo catalão a pretexto de uma pretensa aversão aos nacionalismos, como ontem tive a infelicidade de ouvir a dois legumes. Seria como se condenássemos os nacionalistas angolanos, moçambicanos e guineenses, que pretendiam ver-se livres da tutela portuguesa, em nome de bonitos princípios.  Princípios de resto que estes indivíduos evocam conforme lhes apetece -- dando de barato, com alguma boa-vontade de que sabem do que falam, o que nem é certo.

E a propósito de princípios, gostaria que me demonstrassem de que modo alguém pode afirmar-se democrata, se endossa de bom grado ao poder vigente a possibilidade de impedir que um povo possa ser auscultado sobre a sua  autodeterminação. Não é claramente um democrata; não passa dum oportunista e dum farsante se se disser tal.

Mais: como pode alguém definir-se como liberal (um termo nobre, diga-se), liberal numa concepção de largo espectro, que pode ir dum certo conservadorismo não-reaccionário até ao liberalismo mais extremo, que é o anarquismo, como se pode definir esse alguém como liberal se pactua e aplaude o poder da força de um estado central? Será um liberal de acordo com as suas conveniências. É pouco, não serve, não interessa.

 (Curiosamente a luta pela autodeterminação catalã, não apenas lá, como cá, compreende um conjunto de defensores muito lato, precisamente do conservadorismo ao campo libertário. Do outro lado, por cá, descontando os que não sabem o que dizem, os autoritários, os argentários e suas derivações e uma categoria de criaturas que está comprometida com o poder, lesto em assinar por baixo as directivas de Rajoy.) 

sexta-feira, novembro 03, 2017

"Puigdemont no país de Hergé"

Tomás Serrano


Concentrar o foco no líder político Carles Puigdemont revela uma de duas coisas: ou uma pobreza analítica que confrange, como se a questão catalã pudesse ser reduzida a um homem -- um dentre muitos no seu próprio partido, o PDeCat, já não considerando a ERC, a CUP e principalmente aqueles que não têm partido...; ou mera caixa de ressonância, propositada ou involuntária, do espanholismo madridista, um pântano em que germinam os herdeiros políticos e judiciários do franquismo, e no qual vicejam e singram os interesses mais básicos* -- ai Deus do Céu, que radical e extremista me saí, pobre pai de família pequeno-burguês que acima de tudo quer que não o macem...  
Dito isto, denunciar a fuga de Puigdemont para Bruxelas como um abandonar de barco (aliás, os que o fazem de boa-fé, não manifestam mais do que uma convicção palpitante), é duma precipitação arriscada. Eu prefiro vê-la -- e até agora não tenho razões para crer no contrário -- como uma retirada estratégica de enorme inteligência e alcance de quantos estão à frente do processo independentista, como aliás se verifica pelos erros sobre erros que a facção madridista comete. Aliás a posição de Oriol Junqueras, o vice-presidente do governo catalão e dirigente da ERC, ominosamente preso em Madrid, indica de que é disso que se trata.   
(Ah, e viva Hergé!)


*(ler a entrevista do líder da associação patronal espanhola ao i de hoje, notável pelo que revela -- ainda não consegui o link).



Estúpido de seu natural, o franquismo vai mordendo os iscos

Sem prejuízo de análise mais fina, registo o enterranço do espanholismo, que se põe a si próprio numa posição insustentável: até 30 anos de cadeia?; quanto milhões de euros de fiança? Daria vontade de rir, se não fosse grave. Entretanto, o independentismo catalão quanto mais acossado, mais forte, neste jogo do gato e do rato, sem erros, com uma bem sucedida estratégia de internacionalização e ainda sem um morto, felizmente. O franquismo, estúpido de seu natural, a morder todos os iscos.

sábado, outubro 28, 2017

o enxovalho

Se Portugal defende o direito à auto-determinação dos povos, princípio basilar do direito democrático e da carta das Nações Unidas, não podia nem devia assobiar para o lado quando esse princípio está posto em causa, e há mil e uma maneira de fazê-lo diplomaticamente. Pelo contrário, a forma como os líderes políticos se têm referido ao assunto, para agradar a Madrid, é indecente e indigna. Indecente, porque dão a imagem de um país de rabo alçado; indigna, porque se fossem políticos com princípios, tinham obrigação de nutrir alguma empatia pela vontade de autodeterminação dos catalães, sabendo-se pôr no seu lugar. Porque, se 1640 tivesse corrido mal, como correu aos catalães, poderíamos estar em situação semelhante: depois de séculos de domínio e repressão, prisão e morte dos líderes independentistas, proibição da língua, teríamos hoje de ouvir um primeiro-ministro a dirigir-se-nos em castelhano, a partir de Madrid, a insultar-nos e ameaçar-nos, e toda uma classe política, dum franquista prático como o líder do Ciudadanos a uma nulidade como o secretário-geral do PSOE, a perorar sobre a nossa aspiração à liberdade. Pior: poderíamos estar agora, na eventualidade de a Catalunha, bem sucedida então na guerra de independência, aparecer com líderes simétricos aos nossos, com comentários acintosos, como os vergonhosos proferidos pelo ministro Santos Silva, pessoa que até agora me merecia respeito intelectual.
Neste momento, já nem é vergonha o que sinto pela atitude do governo  e do PR; sinto-me enxovalhado por, em nome de Portugal -- também em meu nome, portanto -- se apressarem a dar a Madrid uma solidariedade de que ela não é credora.
Se a situação vier a evoluir no sentido correcto, o da autodeterminação, graças à coragem e perseverança dos catalães, com eles estará a razão da ética e da História (aliás, estará sempre, mesmo em caso de derrota); e quanto a nós ficará a nódoa, que poderá ser remediada ou esquecida, mas nunca apagada.

Catalunha, 27 de Outubro de 2017

Podem arranjar os argumentos que quiserem: a constituição espanhola, a economia, a União Europeia; podem fazê-lo com a simplicidade de quem está de fora e não saiba avaliar o peso da História; podem fazê-lo com o cinismo e a desonestidade intelectual de quem pensa primeiro na bolsa, e depois na bolsa, e só depois na bolsa. Uma coisa é insofismável: esta é uma data histórica em que um povo, desapossado de um estado desde o século XV, se vê restaurado na sua dignidade -- independentemente do que aconteça amanhã. Os castelhanos podem vir por terra, mar e ar, podem sufocar a libertação pelo sangue (mas só pelo sangue). E mesmo que o absurdo prevaleça, mesmo que seja apenas mais uma etapa, nem assim conseguirão apagar este dia. 

quarta-feira, outubro 11, 2017

Sócrates acusado

Agora é que se vai ver, aqui ou em instâncias europeias não amancebadas com o tabloidismo.
A ser verdade aquilo a que a defesa de Sócrates já qualificou como romance, há que tirar o chapéu aos tomates dos agentes judiciários, apesar das evidentes práticas pouco católicas na observância da lei (é triste, não é?...). Se for uma obra de ficção, então há que assacar-lhes responsabilidades, porque não chega o depoimento de um qualquer arrependido; a coisa tem de ser mais substancial do que uma regurgitação dum vígaro das offshores. [Sou preconceituoso, e gosto.]
De qualquer modo, Sócrates (e o amigo) têm (terão...) algumas coisas para explicar, sem conversa fiada: as instruções sobre o apartamento de Paris, o alegado papel do primo, etc. Matéria para uns bons anos. No fim, cá estaremos, eventualmente. Até lá, não quero maçar-me mais com o assunto, que só estou interessado na Catalunha, sobre a qual muita tinta ainda correrá.

o terrorismo laboral na PT

Leio a notícia, sem espanto. A astúcia merceeira, a esperteza saloia, a vigarice nos interstícios legais,  uma necrofagia repugnante a erradicar das sociedades decentes, uma flora intestinal do financismo (que tão boa imagem tem dado de si na presente crise da Catalunha, mas isso é outra estória). É verdade, estes saprófitos existem e requerem desinfestação.

No entanto, não devemos deixar de fora os que conduziram a PT, dolosamente, até aqui, em especial os magos da gestão. Cadeia com eles, se deus quiser: e, já agora, não esquecer de execrar os palmas-cavalinhos que na imprensa lhes teciam loas, ou talvez mais. Neste particular, os panama-papers terão algo a revelar, informação que tarda, retida... pelos jornais.

segunda-feira, outubro 09, 2017

Catalunha: para ler antes de amanhã

fonte
No meio do bruaá mediático, das opiniões apaixonadas de ambos o lados (com vociferações dos miguéis-de-vasconcelos indígenas), vale a pena ler o sereno depoimento de Jordi Savall, músico e historiador (aliás, de há muito anos um dos grandes nomes da cultura europeia), a que junto uma notável entrevista do jornalista José Antich a Nuno Ramos de Almeida, já com uns dias, mas ainda no ponto; e outra de David Fernàndez ao mesmo jornalista, publicada hoje, também. Fernàndez, antigo porta-voz da CUP, um dos tenebrosos das esquerdas radicais, como diria a rã que queria ser boi. 

sexta-feira, outubro 06, 2017

carnaval de disparates sobre a Catalunha



Os argumentos contra a autodeterminação da Catalunha variam entre os racionais e utilitários (alegadas consequências económicas e/ou geopolíticas) e um cacharolete de disparates, num misto ignorância espessa e despudorada má-fé.
Um dos mais hilariantes, na sua falta de compostura, é a de que a Catalunha nunca foi independente...
Jesus-Maria-José, anjos e santos, serafins e guaxinins, almas do purgatório -- dai-me o elixir da paciência.
Quer o principado da Catalunha, quer o reino de Aragão não foram entidades inventadas pela J. K. Rowling; tiveram existência secular e uma importância no concerto europeu que Portugal, por exemplo, nunca teve no mesmo período em ambos eram reinos independentes, até pela sua situação extremamente periférica.
Mas vamos supor que a Catalunha, com o seu povo, as suas instituições, a sua língua e cultura próprias, nunca houvesse sido uma nação independente, como o foi e com muito maior projecção que muitos povos da Europa que contam com o seu estado. Pergunto: que validade e que valor tem esse argumento, em face do direito de um povo à autodeterminação? Pois não tem nenhum.


em tempo: um editorial destes plumitivos da Economia, um dos campeões da austeridade do recentemente falecido ex-Primeiro: «Se calhar, terá chegado o momento, em Portugal, de levarmos mesmo a sério o que se está a passar em Espanha, uma crise de proporções históricas, a anunciada independência unilateral decretada por um governo sem qualquer legitimidade para o fazer, desde logo pela própria Constituição espanhola.» 'Ai, Jesus!, os bancos?!... Então o caso é mesmo sério!!!' A miragem estreita, ignorante e patet(ic)a  do porta-moedas.


quarta-feira, outubro 04, 2017

Felipe VI, e talvez o último

O rei de Espanha colou-se ao governo espanhol na sua alocução de ontem. Tinha alternativa? Não sei. O tempo de lidar com a questão que viria, inevitável, foi sempre protelado pelos dois principais partidos espanhóis, PP e PSOE. Quando este último avançou com a hipótese de um estado federado -- única e penúltima possibilidade de preservar uma entidade política artificial que só subsistiu pela força (o referendo de constitucional de 1978, foi um plebiscito à transição democrática)  --, já era demasiado tarde para travar os independentistas catalães.

Digo penúltima, porque a única maneira de preservar a Espanha será permitir que as suas nacionalidades referendem a integração, sem truques: isto é: são os catalães que devem decidir do seu destino e não os castelhanos, os bascos ou os galegos. Não sendo constitucionalista, afigura-se-me um processo complexo e moroso, uma vez que teria de apurar-se de que falamos quando falamos em nacionalidades. Catalunha, Galiza e País Basco, claro. E a Comunidade Valenciana? e Navarra? e as Astúrias? A desaceleração do processo implicaria o compromisso solene do poder central, a começar pelo rei, de que respeitariam os resultados dessas consultas populares.

Promessas que já não se me afiguram suficientes nesta fase. Que o processo catalão já não voltará atrás, a não ser que os tanques invadam Barcelona, parece-me evidente. Como os tanques não invadirão Barcelona, suponho (Espanha é um país da União Europeia, apesar de tudo), a desagregação será inevitável. Os bascos, que já punham a cabeça em água aos romanos, esperam.

Felipe VI não parece, portanto, ter saída, mesmo que o quisesse; qualquer rasgo será muito difícil para a sobrevivência do trono. O monarca corre o risco de ser o sétimo Bourbon (Borbón) a abdicar ou deposto ou -- entrando no domínio da fantasia -- a mudar a chapa para Felipe I de Castela.

segunda-feira, outubro 02, 2017

o franquista Rajoy lembrou-me o salazarista Franco Nogueira

* Franco Nogueira, ministro dos Negócios Estrangeiros e futuro biógrafo de Salazar, era um tipo culto e sagaz, mas, por vezes, dava-lhe para ser chico-esperto. Sei do que falo, pois fui seu aluno, e um dia entalei-o numa aula, quando pretendia aldrabar os alunos a propósito  de um artigo da Constituição de 1933, a propósito da eleição do Presidente da República. Dizia o antigo embaixador que o documento fundamental do Estado Novo consagrava a eleição colegial do PR pela Assembleia Nacional, tendo eu de lembrar-lhe, para seu desconforto, que até 1958 (recorde-se ano da fraude que impediu a vitória de Humberto Delgado), a eleição era feita por sufrágio universal. Após o terrorismo de estado exercido pelo poder, que garantiu o roubo eleitoral, o cagaço foi tão grande, que o regime se apressou a fazer uma revisão constitucional para evitar futuras e semelhantes surpresas.
Uma das finuras chicoespertas de Franco Nogueira quando tinha de enfrentar a comunidade internacional na ONU, por causa da vil Guerra Colonial, era uma linha de argumentação que defendia Portugal ser também um país africano (sic), pois até a Constituição consagrava aqueles territórios como "províncias ultramarinas"...
Ao ouvir ontem o franquista Rajoy a encher a boca de "democracia", "lei" e "constituição", que naquela boca e naquelas circunstâncias soam sempre a vitupério, lembrei-me do velho embaixador das causas perdidas.


* Ada Colau, presidente do município de Barcelona, qualificou ontem o primeiro-ministro espanhol como um cobarde. Poucas vezes um tal doesto assentou tão bem a uma criatura política que não hesitou em esconder-se por detrás do álibi constitucional para reprimir ilegitimamente um povo que quer autodeterminar-se. Cobarde e estúpido, como se vê, pela grande incentivo que deu à causa independentista. 
Já a comportamento da União Europeia, através do lamentável Junker vinhateiro, foi abaixo de miserável. Salvaram-se o  primeiro-ministro belga, Charles Michel, e o esloveno Miro Cerar, ao deplorarem a violência de estado. E vindo de onde veio, Bélgica e Eslovénia, este reparo tem um assinalável significado político, pese a pequena dimensão e peso dos dois países no contexto europeu.
Felizmente, com todos os seus defeitos, a UE serve de escudo para proteger os catalães de acções mais repressivas -- assim o creio e espero, veremos.


* Detestei a nota do governo português. Poderia ter manifestado o desejo de que o estado espanhol resolvesse os seus problemas internos, sem tirar o tapete aos catalães, com a conversa do respeito pela constituição negociada de 1978, objectivamente pondo-se ao lado do governo de Madrid. Vindo de Portugal, é particularmente triste e vergonhoso. Eu tive vergonha.


* Uma notícula para alguns comentadores: todos são livres para opinar e defender o que do seu ponto vista parecer mais justo e avisado. Têm até o direito de exibirem publicamente os seus preconceitos ou falta de preparação, não tendo noção do que estão a dizer. Argumentar com aldrabices, como certa indivídua cujo nome omito por pena, mas sem respeito nenhum, que a reivindicação catalã de autodeterminação seria equivalente a uma acção semelhante que, por absurdo, partisse do Porto, é de tal modo um insulto à inteligência, que me pergunto se a criatura, além de tonta, não será mesmo desprovida de um mínimo de cabedal para exercer o comentário.