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segunda-feira, setembro 17, 2018

um ajustamento e um acrescento lateral ao meu post e comentários sobre o caso Serena Williams

Mantendo a posição de princípio que aqui expus, gostaria de acrescentar o seguinte: A circunstância de ter uma bisavó brasileira mulata (logo, descendente de escravos), a avó Ida, sempre me divertiu e não perco ocasião para a propalar. Ainda ontem ao jantar, o meu pai, que já conta 87, me falava das suas bisavós, que ainda teve a sorte de conhecer, o que na sua geração não era comum. A uma, os bisnetos, todos miúdos, chamavam 'Avó Velha' (distinguindo-a, portanto da avó (mais) nova; quanto à outra bisavó, o meu pai, os irmãos e os primos recorriam dois nicks: ou 'Avó Pequenina', distinguindo-a da filha, que era muito alta, ou então 'Avó Preta' (viva a santa inocência das crianças!).


Este parágrafo memorialístico para significar que embora os traços genéticos dessas minhas boas antepassadas pouco se tenham manifestado visivelmente em mim, a não ser no cabelo encaracolado (o meu pai tem a pele claríssima e olhos azuis da mãe), e portanto nunca ter experimentado qualquer tipo de discriminação, sempre tive uma sensibilidade especial para essas questões, que, no entanto (convém esclarecer) não advém desse meu património histórico pessoal bastante acarinhado por mim, mas de uma consciência ética ao nível do mais básico senso-comum, em primeiro lugar, e depois pelo facto singelo da inexistência actual de raças humanas -- e digo actual, porque já existiu, de facto, uma outra raça de homem, morfologicamente diferente, o célebre Homem de Neanderthal, que, no entanto, permanece nos nossos genes (parece que em quantidades ínfimas, mas variáveis de indivíduo para indivíduo), por cruzamento com o Sapiens Sapiens, vingando estes e extinguindo-se os outros, menos adaptados aos desafios do meio envolvente. Além disso, sempre olhei para um racista no nosso tempo como um pobre diabo e atrasado mental, portanto sem categoria de cidade (já a xenofobia é um perigoso compósito de medo e pulhice egoísta).

Pondo-me na pele de um negro das Américas -- em princípio, menos difícil para mim do que para a loiríssima e parece que sacerdotiza J. K. Rowling, rapariga da minha idade --, concedo, compreendo e aceito que possa haver alguma amargura, atendendo aos terríveis antecedentes da escravatura. Mas também sei que qualquer homem ou mulher negros com discernimento e sem estarem gafados do tifo activista, estabelecem todas as diferenças entre um cartoon sobre uma protagonista global que se portou objectivamente mal e um propósito racista do cartoonista, embora também aceite que a forma como a oponente está representada, que na altura não valorizei, possa ser dúbia, e originar outra interpretação, embora, quanto a mim, já um pouco forçada

No entanto, trata-se sempre de questões -- quer a descriminação quer a liberdade --, demasiado importantes para que os tontinhos dos activismos vários fiquem sem contraditório.

(Ainda para o lado da Serena: no ténis, sou do Benfica, ou seja: não percebo nada da modalidade, nem quero perceber. Aliás, nunca pratiquei desporto, que é coisa que me aborrece. Mas se é verdade o que dizem sobre a existência de sexismo no ténis, então a fúria dela poderia ter razão de ser -- se o árbito não estivesse certo, como dizem que esteve --, o que não invalida, antes pelo contrário, a pertinência e o valor do cartoon do australiano Mark Knight.)



quarta-feira, setembro 12, 2018

Serena Williams, touradas, clima, folclore, patetices, o politicamente correcto

Ser anti-racista não significa ser estúpido. A caricatura vive da deformação propositada. Serena Williams parece ter tido um comportamento lamentável. O cartoonista australiano Mark Knight fez um desenho alusivo. Se a protagonista do episódio é negra, como querem que se faça a caricatura? Eliminando os traços fisionómicos negróides (lábio grosso, nariz achatado, carapinha)? Isso sim, seria racismo, particularmente boçal e doloso: o branqueamento do tipo étnico da atleta.
Mais censura e policiamento fascistóide. Não há diferença de natureza, apenas de grau, entre a 'indignação' destes talibãs ocidentais e, por exemplo, a selvajaria do caso dos cartoons do Maomé. 
 

Ocorrem-me agora outros dois casos recentes, que, por razões diferentes, me suscitam ora dúvida, ora perplexidade: o das touradas e o do colóquio na Universidade do Porto sobre o clima.
 

Sobre a tourada, teria muito a dizer, até porque estou entalado entre a minha posição de princípio desfavorável do ponto de vista ético (apesar de incoerente, porque bife com batatas fritas será sempre o meu prato favorito) e o inegável significado cultural e histórico das corridas -- ao qual não consigo ser insensível --, para já não falar da incrível beleza plástica da lide a cavalo ou a vertiginosa insanidade duma pega de caras.


A propósito da conferência do Porto, só tenho a minha ignorância a evidenciar e perguntas a fazer: estes tipos são cientistas e académicos que defendem uma posição minoritária, ou não passam de mercenários e prostitutos a soldo do lóbi das fósseis? Se são cientistas, como aceitar a pressão e os insultos que vieram a público e um protesto assinado por alguns cientistas portugueses eminentes?; se não passam de vigaristas, como nos é dado a entender, como pode a Universidade do Porto acolhê-los, ainda por cima com uma sua catedrática à cabeça da organização? A universidade é para debater inter pares;  se não são pares, não têm nada a fazer ali, arrendem uma sala num hotel para se entreterem; se o são, o que assistimos na semana passada precisa de ser analisado nos seus contornos políticos.