Mostrar mensagens com a etiqueta Ruben A.. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ruben A.. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, novembro 08, 2019

"a possibilidade vocálica de Deus"

«Talvez a realidade possa ser apreendida na forma estranha da arte, mas eu, fincando em espaços divinos, lembro-me destas palavras: Floresta -- Dália -- Medusa -- Silvalde -- Maresia -- Saudade -- Sonho e cheiro do mar na onda da praia na concha da espuma quando também me lembro do cheiro misterioso em castanhos efeitos a sair da terra molhada. E... vejo o céu na nuvem passeante adormecida na cor sem forma de adeus. O ritmo de palavra é como se pode ver uma expressão musical -- quanto mais afinado está o ritmo harmónico mais sensível aparece o estado de alma dado em pormenor pelo som silábico. Os meus estudos imaginativos têm-me levado a estas novas possibilidades onde a alma consegue definir-se estaticamente, o verbo é a criação e o ritmo é a necessidade de agitação de sonho para o homem -- As palavras são essência da vibração como folhas de árvore são necessidade de vento. Toda a religiosidade da natureza é dada pela interpretação ritmada do verbo -- o verbo divino nada mais é do que a possibilidade vocálica de Deus!» Ruben A., Páginas I (1949)

segunda-feira, maio 20, 2019

vozes da biblioteca

«Eram lagartos enormes e tinham o pescoço enrugado como o do velho e os mesmos olhos miúdos e misteriosos.» José Eduardo Agualusa, «Dos perigos do riso», Fronteiras Perdidas (1999) 

«No ritmo do mundo nasceu a Perfídia envolvida pela volúpia.» Ruben A., «Sonho de imaginação», Páginas I (1949) / Antologia (2009)

«Uma poeirada medonha... tudo absolutamente seco, até mesmo a nossa pele velha e encortiçada.» Henrique Abranches, «Diálogo do Tempo Morto», Diálogo (1962)

sábado, abril 27, 2019

Da vantagem de um Presidente culto

Leio deleitoso, no último JL, o discurso do Presidente da República na sessão comemorativa do centenário de Fernando Namora, no dia 15 de Abril, na sua Casa-Museu em Condeixa -- evento que desafortunadamente foi ofuscado pela tragédia do incêndio de Notre-Dame. Não sei se o discurso teve mão fantasma, nem isso é muito importante, pois reconhece-se a caneta de Marcelo naquelas palavras, que além disso foram acrescentadas por vários improvisos do orador, reza a notícia; o que me interessa relevar é mesmo uma noção assaz nítida que o PR mostra do património literário português, parcela das mais relevantes do património cultural do país, no seu todo.
A propósito de Namora e da efeméride, o Presidente referiu-se a José Rodrigues Miguéis, Ruben A., Ferreira de Castro, Miguel Torga, Carlos de Oliveira e Vergílio Ferreira -- ou seja, cerca de um terço do cânone ficional português do século passado --, a que juntou os norte-americanos John Steinbeck e Erskine Caldwell, e Óscar Lopes, como referência de autoridade.
Não é um ensaio, que seria descabido, mas um discurso de circunstância. que não deixa de ser reconfortante em face do zero das elites políticas, com as honrosas e parcas excepções. E porquê reconfortante? Por se esperar que o Presidente não seja apenas a muralha contra o populismo de que falou Ferro Rodrigues, mas também contra a barbárie instalada que não conhece, e portanto não quer saber do património cultural em sentido lato, a não ser que o mesmo lhe possa dar umas medalhinhas da Unesco para trazer à lapela (que podiam ser essas como as do Guiness, tanto faz, desde que em estrangeiro).

domingo, abril 29, 2018

«Tais as palavras que de improviso vibram no ar sonoro, pronunciadas por um frade agostinho, cujas sandálias, ao acercar-se, não tinham despertado um sonido nos adobes do pavimento.» Henrique Lopes de Mendonça, «A truta», Capa e Espada (1922)

«Realizada a vida, subsistia a noite -- mas a crença nos problemas horríveis de génese social apontava uma missão evangélica -- urgente a cumprir.» Ruben A., «Sonho de imaginação», Páginas I (1949)

«Numa fracção de segundos -- como na morte súbita --, ela pensava à velocidade da luz.»  Sarah Adamopoulos, «A Marylin», A Vida Alcatifada (1997)

domingo, abril 22, 2018

«Na açoteia da torre de menagem, Fernão Rodrigues Pacheco, debruçado sobre uma aberta das ameias, medita.» Henrique Lopes de Mendonça, «A truta»Capa e Espada (1922)

«Afinal o caso era banal, simples e puro como castidade de santo.» Ruben A., «Sonho de Imaginação», Páginas I (1949)

«Convencia-se de que ia ter um colapso cardíaco ou uma hemorragia cerebral e imaginava-se a cair e a ficar com a cabeça colada às embalagens dos panadinhos do Capitão Iglo.» Sarah Adamopoulos, «A Marylin», A Vida Alcatifada (1997)

terça-feira, abril 17, 2018

«Numa casa quadrada da alcáçova de Coimbra, junto dum lar montado sobre cachorros de pedra onde estalavam toros de castanho a arder, três figuras bárbaras de homem, debruçadas sobre uma arca enorme coberta de guadamecins vermelhos, jogavam em silêncio, comendo pedaços de nata com as mãos e movendo os trebelhos doirados sobre uma velha távola de xadrez.» Júlio Dantas, «Dom Cardeal», Pátria Portuguesa (1914)

«A criação de mundos epidémicos impelia-o à contínua busca de sensações imaginárias onde o espírito folgava nos cansaços da vida burguesa, de ritmo medonho e metricamente coerente.» Ruben A., «Sonho de imaginação», Páginas I (1949)

«Ela era como a Marylin e só queria ser maravilhosa.» Sarah Adamopoulos, «A Marylin», A Vida Alcatifada (1997)

sábado, março 10, 2018

«Se vivesse ainda com os pais, não haveria na sua expectativa lugar para dúvidas: receberia prenda única de aniversário, os afagos e as lamurientas falas da mãe, penitente do mal da pobreza: -- "Nem uma blusinha te posso dar, filha!"» Assis Esperança, Servidão (1946)

«Cresci com a ideia de que só os derrotados, os vagabundos e os infelizes não saíam de lá, pessoas que se confundiam com a paisagem, os candeeiros de globos partidos, as balizas ferrugentas do Arregaça, as paredes encardidas, os bancos lascados dos parques.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas (2015)

«Dava a impressão de que tudo degenerava; mesmo os turistas já só faziam perguntas à toa, alimentando o orgulho com que o caseiro da Barbela desfiava aquela lengalenga sem reparar no nariz pacóvio dos viajantes.» Ruben A., A Torre da Barbela (1964)

quinta-feira, setembro 14, 2017

outro parágrafo de Ruben A.

«À noite escravizado pelos relógios deitava-se na horizontalidade tranquila de colchões aquecidos pela dúvida; -- o mundo consciente esvaía-se num caos -- era a dúvida entre a vida e o sonho, era o subconsciente misturado com espíritos vagos de desejo num adormecer sexuado pelo zimbrar da união.»

«Sonho de imaginação», Páginas 1 (1949) 

terça-feira, setembro 12, 2017

um parágrafo de Ruben A.

«A história que o homem contava nada tinha de comum com a verdade. Era pura invenção de traz-no-bolso, lérias de almanaque recreativo para uso nos comboios do Minho. Dava a impressão de que tudo degenerava; mesmo os turistas já só faziam perguntas à toa, alimentando o orgulho com que o caseiro da Barbela desfiava aquela lengalenga sem reparar no nariz pacóvio dos viajantes.»
Ruben A., A Torre da Barbela (1964)

segunda-feira, maio 01, 2017

começar

Escolher um início de narrativa, esquecendo todo o livro que vem a seguir, é difícil, Nestes cinco livros há de tudo para mim: o excelente (As Primeiras Coisas) e o detestável (Aldeia das Águias); o indiferente (A Cidade das Flores), o desafiante (A Torre da Barbela) e o intrigante (A Voz dos Deuses). 
Se Ruben A. consegue levantar a sobrancelha, impelindo-nos à leitura interessada e Bruno Vieira Amaral introduz um problema individual, com todas as possibilidades em aberto, em oposição ao bocejar existencialista que se desenrolará em Abelaira, o de João Aguiar traz consigo uma ressonância trágica, seca e límpida, algo que os adjectivos de Guedes de Amorim são incapazes de emprestar àquele crepúsculo.
Não tivesse eu uma opinião formada sobra cada uma das obras e a minha escolha seria a mesma? talvez não.

em 1939: «Rápido, roxo e frio vinha o crepúsculo.» Guedes de Amorim, Aldeia das Águias

em 1959: «Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores

em 1964: «Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento.» Ruben A., A Torre da Barbela

em 1989:  «Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale.» João Aguiar, A Voz dos Deuses

em 2013: «Quando, em finais dos anos noventa, voltei costas ao Bairro Amélia, com os seus estendais de gente mórbida, a banda sonora incessante das suas misérias, nunca pensei que a vida me devolveria ao ponto de partida.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas

em tempo -- título preferido: Aldeia das Águias).

terça-feira, abril 25, 2017

estante: A TORRE DA BARBELA (1964): entre 'adigestões' e Salazar

repostagem: Entre digestões e Salazar. Ainda a procissão ia no adro, ou melhor: ainda era de dia -- o período mais desinteressante na velha Torre da Barbela --, os poucos visitantes "do costume" iniciavam a ascensão dos seus 32 metros, e já o narrador pusera o caseiro-guia, muito despachado nas suas "lérias de almanaque", em "ascrições latinas", pedras de "prumitiba" ou mortes por "adigestão" para impressionar os excursionistas, que rapidamente se desvanecerão, sem outro interesse na narrativa que não fosse o de pontuar a vetustez e decorrente interesse patrimonial do edifício -- como seria de esperar dum grupo de de excursionistas.
O registo é cómico desde o início: a fila de visitantes a caminho do alto é comparada com uma espécie de lombriga subindo por um enorme tubo digestivo, o próprio monumento:
«A bicha dentro do esófago da Torre contava para si os martírios passados naquela ascensão; uns davam  as has de alívio, outros comparavam com a escadaria do Bom Jesus do Monte, com a Torre dos Clérigos e ainda recordavam a subida ao Santuário de Lamego.» (p.8)

Ao tom farsante, imagens do remanso bucólico do país: o rio Lima, «calão e adormecido», que «nem sabia de onde vinha»; «saudades da Índia à deriva num mar vegetal», Natureza «a queixar-se do reumático», quotidiano vegetativo.

"O dono actual, burgesso" deste "monumento nacional" deixava-o ao abandono: «E talvez fosse melhor assim. Não se industrializava nem se ofendia o sagrado das pedras, testemunhas de feitos extraordinários.» (p.10) O dono da Torre que evoca o Portugal da época -- vasta paisagem para lá de Lisboa -- e o dono dele, Salazar.

segunda-feira, abril 24, 2017

estante: A TORRE DA BARBELA (1964)

1) Talvez até então ninguém se tivesse atrevido a tratar assim a história de Portugal, mesmo sob o resguardo da ficção. Um tour de force romanesco e uma extraordinária e iconoclasta reflexão sobre o país. Tão mais interessante quanto o autor acumulava a arte de ficcionista com o trabalho rigoroso de historiador, sob o nome civil de Ruben Andresen Leitão, especialista do século XIX, estudioso do reinado de D. Pedro V, temas sobre os quais publicou vários trabalhos, sendo de sua lavra os verbetes correspondentes no Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão.

2) É possível que ao longo da relativamente extensa e densa narrativa (304 págs. na minha edição: Lisboa, Círculo de Leitores, 1988), Ruben nos faça perder o pé, mas a desenvoltura estilística é tal-- e sempre competentemente vigiada --, que cada página é uma alegria para quem, como eu, é um gourmet destas coisas.

3) Ruben A, (1920-1975), à medida que o tempo vai passando, afirma-se como um dos grandes da sua geração -- geração que tem, pelo menos, uma vintena de ficcionistas a considerar, e da qual fazem parte Fernando Namora, Jorge de Sena ou Sophia de Melo Breyner Andresen (todos nascidos em 1919), Carlos de Oliveira (1921) ou Agustina Bessa Luís (1922).  Ruben está a envelhecer bem. Melhor do qie outros.

4) Incipit «Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento.»

5) Repostagem (2013): Um país de mortos-vivos. Picaresco e fantástico, A Torre da Barbela, de Ruben A., tem uma originalidade que lhe dá um lugar único no panorama romanesco português, tanto quanto me é dado saber. Calculo que a reacção no ano em que foi publicado (1964) deva ter oscilado entre o estranhamento e a indiferença, que é o que sucede a tudo que esteja fora dos cânones. Nem era romance psicológico à presença, nem neo-realista e muito menos procurava imitar os franceses do nouveau roman. Embora não me pareça a obra-prima que alguns nela vêem, tem o atractivo de ser iconoclasta para com o romance português da época, e é-o com humor. E o autor, recorde-se, além de escritor desalinhado do mainstream, era também historiador circunspecto, nomeadamente do século XIX, sabendo muito bem o que estava a fazer -- literária e até, digamos, politicamente.
Absolutamente marcante, portanto. O que esperar de uma catrefa de personagens de várias épocas que coexistem no mesmo espaço e interagem entre si? 
O guia burgesso e comerciante para turista entreter e, se possível, enrolar, situa-nos no espaço e no tempo; mas logo aparece um Menino Sancho, ser misterioso e disforme, e o lendário Cavaleiro da Barbela: «De cada túmulo, de cada sarcófago ou fosso anónimo eles iam saindo, meio estonteados pelos séculos da História»...
Leio aqui o Portugal profundo de então: um país de mortos-vivos.


6) Informa Liberto Cruz, na minha rica edição, prefaciada por José Palla e Carmo, que A Torre da Barbela foi recusado pela maior parte das editoras. Pudera.

(continua)

domingo, julho 12, 2015

figuras de estilo


«A dúvida deste monólogo obrigou-o a sentar-se, pegar na caneta e escrever: "É preciso pensar, é preciso ver os desenhos no ar quando os pássaros estão a voar. Ai! Como são precisas novas palavras para estas formas --, umas são slaules, outras são flenes e ainda outras pioupes. Agarrar com as mãos cravadas as unhas até à chama do fogo e dizer: o passado está aqui, a saudade acabou, o mórbido desapareceu -- uma filosofia baseada no sacrifício e na bondade. Musicalidade adormecida pelo sonho de sons contínuo; embriagantes, loucurentos...»


Ruben A., «Sonho de Imaginação», Páginas I (1949)

quarta-feira, abril 22, 2015

terça-feira, janeiro 20, 2015

Inverno duro o da pátria do Norte.

«Sobranceira, a serra de Arga deitava agulhas fortes contra o céu e descia em lombadas aptas a uma discussão mais calma com outras montanhas. Nada de grandezas álpicas ou congéneres. Arga, lobos, montanha, romaria e São Lourenço a queixar-se do reumático. Inverno duro o da pátria do Norte.»

Ruben A., A Torre da Barbela (1964)

quinta-feira, junho 19, 2014

lérias

«A história que o homem contava nada tinha de comum com a verdade. Era pura invenção de traz-no-bolso, lérias de almanaque recreativo para uso dos comboios no Minho.»
Ruben A., A Torre da Barbela (1964)

quarta-feira, maio 21, 2014

um texto limpíssimo

Nota de uma peregrinação à capela de S. João d'Arga, por ocasião das festas anuais em intenção do orago, publicada em Páginas V (1965), contemporânea, pois, do romance A Torre da Barbela (1964), para a memória do qual nos remete irresistivelmente este relato de ascensão devocional, lembrando o improvisado guia conduzindo turistas indiferenciados ao cimo da barbacã medieval.

Aqui, não se trata de turismo, mas sim tradição milenar, religiosa e profana, que Ruben nos participa como uma espécie de repórter, entre o divertido e o cúmplice com esta multidão minhota que, anualmente, sobe e desce, cumprindo promessas ("patas são quatro, sobe-se de gatas, voltar atrás é perder o equilíbrio"), com as provações exigidas pela crença arreigada ("Estão na Idade Média. Todos os anos o 28 de Agosto é corrido a carpir e a borgar naquelas alturas.").


O texto é limpíssimo de precisão, de quem se sente parte daquele habitat, apesar de fazer vida por Porto e Lisboa, praias da Granja e  Cascais, como lhe proporcionava o estatuto familiar de bem-nascido, e mais franças e araganças, como lhe exigiam as funções diplomáticas e universitárias. Prosa aliciante, recurso a efeitos de estilo como a repetição, transmitindo uma viva noção das dificuldades daquele custoso passeio ("[...] começa o planalto de pedras, pedras sempre pedras, pedras desde o princípio do mundo, pedras poemas, sabendo que são pedras, pedras sim."; "Cá vamos subindo, sempre subindo, subindo de cabeça baixa [...]"). Vencidas as dificuldades e cumpridos os preceitos que as promessas ao santo exigem, é tempo de folguedo, de borga.


O incipit«S. João d'Arga - 28 de Agosto.»
Um parágrafo: «Pusemos arraial na encosta, pedra ao pé de pedra. Lá fomos entre o formigueiro. A capela é mesmo viva pelas coisas de pedra colorida e pela situação escondida do altar-mor. Tem uma estátua do Santo Miguel a cutilar o Senhor Diabo que é uma maravilha. Todos entre Lima e Minho têm respeito ao Senhor Diabo para ele estar quietinho. Nada de obras do Diabo! O Senhor Diabo merece toda a consideração. Deitei lá umas cinco coroas para não ter nada com as iras e más disposições do Senhor Diabo.»
Ruben A., Antologia, organização de Liberto Cruz e Madalena Carretero Cruz, Lisboa, Roma Editora, 2009, pp. 89-94.

domingo, janeiro 19, 2014

2 ou 3 epígrafes

1- Bob Dylan  Lonely? Ah yes / But is the flowers and the mirrors / Of flowers that now meet my / Loneliness / Anda mine shall be a strong loneliness / Dissolvin' deep / To the depths of my freedom / And that, then, shall / remain my song. (em Auto dos Danados, de António Lobo Antunes).

2- Byron  Não é na tempestade nem na luta / Que, inermes, ansiamos não mais ser, / Mas no silêncio após, na fímbria extrema, / Quando um sopro só nos resta de vida. (em O Trono e o Altar, de Maurice Baring).

3- Cervantes  Heles dado el nombre de ejemplares, y si bien lo miras no hay ninguna de quien no se pueda sacar un ejemplo (em Contos Exemplares, de Sophia de Mello Breyner Andresen).

4- Gil Vicente E mais as boas pessoas / são todas pobres a eito; / e eu por este respeito / nunca trato em cousas boas, / porque não trazem proveito. / Toda a glória de viver / das gentes é ter dinheiro, / e quem muito quiser ter / cumpre-lhe de ser primeiro / o mais roim que puder. (em Autos dos Danados, de António Lobo Antunes).

5- Gustave Flaubert  Quando se escreve a biografia de um amigo, deve-se fazê-lo como se nos estivéssemos a vingar por ele (em O Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes).

6- Sá de Miranda  Logo meus olhos ergui / à casa antiga e à Torre / e disse comigo assi: / 'Se Deus nos não val aqui, / perigoso imigo corre!' (em A Torre da Barbela, de Ruben A.).

segunda-feira, setembro 02, 2013

sinestesia minhota: Ruben A., A TORRE DA BARBELA (1964) #4

E depois há o estilo, preciso, límpido e contido do paisagista Ruben A., como neste parágrafo magistral, em que o narrador se posta ao cimo da torre triangular, pondo-nos diante dos olhos um horizonte minhoto, e cuja sinestesia passámos a compartilhar com os turistas domésticos:

«Respirava-se um ar vivaz que nos poros mais fechados entrava, descarado, à procura de infiltrações para uma dilatação alegre. Defronte, a serra de Arga desdobrava-se em matizes que deixavam ver lugarejos a deitar fumos pelas frinchas de telhados com remendos, e raro em raro, navegava um barquito de viagem a Ponte de Lima e aos Arcos, ajoujado de pipas, sacos de batatas, caixotes de sabão em barra e vassouras empalhadas.» (p. 11)

Um estilo que, neste particular, me lembra muito o de Ferreira de Castro.

edição: Círculo de Leitores, Lisboa, 1988

sexta-feira, agosto 30, 2013

entre digestões e Salazar: Ruben A., A TORRE DA BARBELA (1964) #3

Ainda a procissão ia no adro, ou melhor: ainda era de dia -- o período mais desinteressante na velha Torre da Barbela --, os poucos visitantes "do costume" iniciavam a ascenção dos seus 32 metros, e já o narrador pusera o caseiro-guia, muito despachado nas suas "lérias de almanaque", em "ascrições latinas", pedras de "prumitiba" ou mortes por "adigestão" para impressionar os excursionistas, que rapidamente se desvanecerão, sem outro interesse na narrativa que não fosse o de pontuar a vetustez e decorrente interesse patrimonial do edifício -- como seria de esperar dum grupo de de excursionistas.
O registo é cómico desde o início: a fila de visitantes a caminho do alto é comparada com uma espécie de lombriga subindo por um enorme tubo digestivo, o próprio monumento:
«A bicha dentro do esófago da Torre contava para si os martírios passados naquela ascensão; uns davam  as has de alívio, outros comparavam com a escadaria do Bom Jesus do Monte, com a Torre dos Clérigos e ainda recordavam a subida ao Santuário de Lamego.» (p.8)
Ao tom farsante, imagens do remanso bucólico do país: o rio Lima, «calão e adormecido», que «nem sabia de onde vinha»; «saudades da Índia à deriva num mar vegetal», Natureza «a queixar-se do reumático», quotidiano vegetativo.
"O dono actual, burgesso" deste "monumento nacional" deixava-o ao abandono: «E talvez fosse melhor assim. Não se industrializava nem se ofendia o sagrado das pedras, testemunhas de feitos extraordinários.» (p.10) O dono da Torre que evoca o Portugal da época -- vasta paisagem para lá de Lisboa -- e o dono dele, Salazar.

edição: Lisboa, Círculo de Leitores, 1988