domingo, abril 30, 2017

Yes sem Chris Squire

Formados em 1969, os Yes terão sido das bandas com a formação mais instável. Todos entraram, saíram, uns regressaram e voltaram a saír, alguns definitivamente. Todos menos o extraordinário baixista Chris Squire, falecido em 2015.
Este ano, aqui estão eles: Jon Anderson, o único fundador presente, na voz; Steve Howe, guitarras; Rick Wakeman, teclados; Alan White, bateria; Trevor Rabin, guitarra. No baixo, uma mão de vulto: Geddy Lee, baixo e voz dos Rush. 

50 discos: 9. OS AFROS SAMBAS (1966) - #5 - «Canto do Caboclo da Pedra Preta»


quinta-feira, abril 27, 2017

estante: A VOZ DOS DEUSES (1984)

Não tenho especial apetência pelo chamado romance histórico nem por qualquer outro género: sou leitor de romances tout court, o que não significa que grandes obras de ficção não se realizassem sob essa designação. Talvez quanto mais falsamente 'histórico', melhor o romance. Memórias de Adriano (1951), de Marguerite Yourcenar, por exemplo. Ou então, se saído da pena de um Alexandre Herculano, que escrevia em romance o que nas obras historiográficas não podia, à falta de suporte documental e material.

Vem isto a propósito de um saboroso romancinho que li quando se publicou (reparo agora que tenho a primeira edição): A Voz dos Deuses (1984), de João Aguiar. Coincidentemente, ou não, andava por essa altura mergulhado na parte lusitano-romana das Religiões da Lusitânia (1897-1913), do Leite de Vasconcelos, e a impressão que me ficou foi a de que João Aguiar (1943-2010) conseguiu realizar uma ficção meritória com o rigor exigível. Viriato foi uma fascinante figura fantasmática e primacial de antes-de-Portugal, chefe guerreiro dos irredutíveis lusitanos que defrontaram Roma -- a superpotência da Antiguidade. E fê-lo com um sentido táctico extraordinário. Não seria, na história da humanidade, o último pequeno povo a defrontar e provocar danos terríveis a um império dotado de uma máquina de guerra colossal.

O narrador é «um companheiro de armas de Viriato», Tongio, filho de um sacerdote e guardião do templo de Endovélico, divindade lusitana, personagem que dá testemunho de um mundo que finda, de devastação e bruma, circunstância que Aguiar apresenta muito bem no incipit do romance, o primeiro período do «Prólogo»: «Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale.» (p. 11) Notas tomadas em «tabuinhas de cera», posteriormente transcritas: «Além, naquele cofre reforçado com chapas de ferro, guardo o meu tesouro mais precioso, alguns rolos de papiro (o melhor papiro do Egipto) onde copiarei de forma definitiva os texto ensaiados na cera.» (p. 12)

Não é o génio de Yourcenar nem o bronze de Herculano, mas não envergonha.

arquivo: «It's A Man's Man's Man's World» (James Brown, 1966)

quarta-feira, abril 26, 2017

criador & criatura

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Jean Ache e Arabelle


estante: A CIDADE DAS FLORES (1959)

Compreende-se o entusiasmo dos leitores de 1959, quando se depararam com um romance que retratava um beco sem saída da juventude na Itália de Mussolini, mas que de facto reflectia o sufoco insuportável que experimentavam no Portugal de Salazar.

O romance de estreia de Augusto Abelaira (1926-2003) envelheceu mal, porém. Personagens problemáticas e palavrosas, narrador palavroso e problemático; atmosfera cinzenta, espelho do cinzentismo do país nos anos cinquenta. Portugal deveria ser então irrespirável para os jovens urbanos da classe média. Li-o sem um frémito. 

A modorra anuncia-se desde o incipit«Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses.»


A angústia existencial é dada, na mesma época, com outra desenvoltura e traquejo por Vergílio Ferreira (é o ano de Aparição, talvez também sobrevalorizado em face de outros, anteriores e posteriores, hei-de pensar nisso), dez anos mais velho. 


O Abelaira ironicamente problematizador e estimulante que conheço das crónicas, literárias («Ao Pé das Letras») e políticas («Escrever na Água»), não me apareceu, ao contrário do sucedido com outro livro seu, lido há muitos anos e a pedir novo encontro: O Bosque Harmonioso (1982). O posfácio à segunda edição, de 1961, é, aliás, exemplo dessa qualidade de Abelaira.

50 discos: 7. CONCERTO FOR ORCHESTRA - #5 «V. Finale»


terça-feira, abril 25, 2017

estante: A TORRE DA BARBELA (1964): entre 'adigestões' e Salazar

repostagem: Entre digestões e Salazar. Ainda a procissão ia no adro, ou melhor: ainda era de dia -- o período mais desinteressante na velha Torre da Barbela --, os poucos visitantes "do costume" iniciavam a ascensão dos seus 32 metros, e já o narrador pusera o caseiro-guia, muito despachado nas suas "lérias de almanaque", em "ascrições latinas", pedras de "prumitiba" ou mortes por "adigestão" para impressionar os excursionistas, que rapidamente se desvanecerão, sem outro interesse na narrativa que não fosse o de pontuar a vetustez e decorrente interesse patrimonial do edifício -- como seria de esperar dum grupo de de excursionistas.
O registo é cómico desde o início: a fila de visitantes a caminho do alto é comparada com uma espécie de lombriga subindo por um enorme tubo digestivo, o próprio monumento:
«A bicha dentro do esófago da Torre contava para si os martírios passados naquela ascensão; uns davam  as has de alívio, outros comparavam com a escadaria do Bom Jesus do Monte, com a Torre dos Clérigos e ainda recordavam a subida ao Santuário de Lamego.» (p.8)

Ao tom farsante, imagens do remanso bucólico do país: o rio Lima, «calão e adormecido», que «nem sabia de onde vinha»; «saudades da Índia à deriva num mar vegetal», Natureza «a queixar-se do reumático», quotidiano vegetativo.

"O dono actual, burgesso" deste "monumento nacional" deixava-o ao abandono: «E talvez fosse melhor assim. Não se industrializava nem se ofendia o sagrado das pedras, testemunhas de feitos extraordinários.» (p.10) O dono da Torre que evoca o Portugal da época -- vasta paisagem para lá de Lisboa -- e o dono dele, Salazar.

25 de Abril de 1974: 3s =2e

O 25 de Abril é-me, cada vez mais, uma fórmula com 3 esses que, combinados, originam 2 és: Salgueiro Maia, Sophia de Melo Breyner Andresen e Maria Helena Vieira da Silva -- ou seja: a ética e a estética.

foto: Alfredo Cunha


arquivo: «Highway To Hell» (AC/DC, 1979)

segunda-feira, abril 24, 2017

estante: A TORRE DA BARBELA (1964)

1) Talvez até então ninguém se tivesse atrevido a tratar assim a história de Portugal, mesmo sob o resguardo da ficção. Um tour de force romanesco e uma extraordinária e iconoclasta reflexão sobre o país. Tão mais interessante quanto o autor acumulava a arte de ficcionista com o trabalho rigoroso de historiador, sob o nome civil de Ruben Andresen Leitão, especialista do século XIX, estudioso do reinado de D. Pedro V, temas sobre os quais publicou vários trabalhos, sendo de sua lavra os verbetes correspondentes no Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão.

2) É possível que ao longo da relativamente extensa e densa narrativa (304 págs. na minha edição: Lisboa, Círculo de Leitores, 1988), Ruben nos faça perder o pé, mas a desenvoltura estilística é tal-- e sempre competentemente vigiada --, que cada página é uma alegria para quem, como eu, é um gourmet destas coisas.

3) Ruben A, (1920-1975), à medida que o tempo vai passando, afirma-se como um dos grandes da sua geração -- geração que tem, pelo menos, uma vintena de ficcionistas a considerar, e da qual fazem parte Fernando Namora, Jorge de Sena ou Sophia de Melo Breyner Andresen (todos nascidos em 1919), Carlos de Oliveira (1921) ou Agustina Bessa Luís (1922).  Ruben está a envelhecer bem. Melhor do qie outros.

4) Incipit «Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento.»

5) Repostagem (2013): Um país de mortos-vivos. Picaresco e fantástico, A Torre da Barbela, de Ruben A., tem uma originalidade que lhe dá um lugar único no panorama romanesco português, tanto quanto me é dado saber. Calculo que a reacção no ano em que foi publicado (1964) deva ter oscilado entre o estranhamento e a indiferença, que é o que sucede a tudo que esteja fora dos cânones. Nem era romance psicológico à presença, nem neo-realista e muito menos procurava imitar os franceses do nouveau roman. Embora não me pareça a obra-prima que alguns nela vêem, tem o atractivo de ser iconoclasta para com o romance português da época, e é-o com humor. E o autor, recorde-se, além de escritor desalinhado do mainstream, era também historiador circunspecto, nomeadamente do século XIX, sabendo muito bem o que estava a fazer -- literária e até, digamos, politicamente.
Absolutamente marcante, portanto. O que esperar de uma catrefa de personagens de várias épocas que coexistem no mesmo espaço e interagem entre si? 
O guia burgesso e comerciante para turista entreter e, se possível, enrolar, situa-nos no espaço e no tempo; mas logo aparece um Menino Sancho, ser misterioso e disforme, e o lendário Cavaleiro da Barbela: «De cada túmulo, de cada sarcófago ou fosso anónimo eles iam saindo, meio estonteados pelos séculos da História»...
Leio aqui o Portugal profundo de então: um país de mortos-vivos.


6) Informa Liberto Cruz, na minha rica edição, prefaciada por José Palla e Carmo, que A Torre da Barbela foi recusado pela maior parte das editoras. Pudera.

(continua)

50 discos: 6. MONEY JUNGLE (1962) - #5 «Wig Wise»


só uma música

«[...] / os activos das carteiras / deste fundo / e de outro mundo / o fundo investe en fundos / de fundos / do fundo / [...] ». Tem muito jogo esta música do Fausto. Não há muitos que pudessem meter duas línguas de pau numa canção e fazê-lo a um tempo com graça e verve. A música minha preferida de A Ópera Mágica do Cantor Maldito (2003).

quinta-feira, abril 20, 2017

Passas pássaro inflamado / duma luz tão tropical porém / que assusta as rochas da terra onde nasceste
José Carlos González

arquivo: «Good Vibrations» (The Beach Boys, 1966)

quarta-feira, abril 12, 2017

o início duma bela amizade


(de Raoul Peck, 2017)

Que mulheraça!


Saffyah Khan diante dum primata racista (notícia aqui).

terça-feira, abril 11, 2017

arquivo: «Fleurette Africaine» (Duke Ellington, Charles Mingus & Max Roach, 1962)

um pensamento para os muçulmanos ultrajados

Impressionou-me ver ontem, após os ataques hediondos às igrejas no Egipto, uma velha muçulmana a gritar 'morte ao Daesh', cheia de raiva e indignação, e com ela muitos outros, Quem não for fanático ou autómato de cérebro lavado por aqueles fascistas, sabe que não há fronteiras nem etnias para o mal e o sofrimento. 
A velha muçulmana, digníssima na reacção ao ultraje que todos os seres humanos sofrem ao ver esta série de matanças, lembrou-me outra reacção extraordinária ocorrida já há algum tempo numa capital escandinava: depois de atentados a judeus: jovens muçulmanos radicados nesse país (já não me recordo qual) fizeram um cordão humano em torno da sinagoga da cidade, assegurando protecção a quem a frequentava.

domingo, abril 09, 2017

as linhas vermelhas de Obama, a falta de linha de Trump, do sr. Bernardo Pires de Lima e do sr. José Cutileiro

Estou convencido de que a inacção de Barack Obama relativamente ao ataque químico ocorrido na Síria há uns anos se deveu às fundadas dúvidas sobre a autoria dessas acções, como qualquer pessoa intelectualmente decente e honesta, que não esteja directa ou indirectamente no teatro de guerra. E o mesmo se passa agora, como diz Tulsi Gabbard, mulher aliás admirável
Trump, que não é decente nem honesto e, intelectualmente, é duvidoso que seja alguma coisa, ensaiou a fita dos últimos dia na Síria. Está no papel dele, assim como Putin no seu. 
Nada disto é estranho; pelo contrário, é velho e revelho, e perigoso na medida em que pode haver sempre algo que corra mal nesta aparente encenação bélica.

Agora, insuportável, insuportável é ler e ouvir alguns especialistas, como me tem sucedido (ainda há pouco na rádio) a darem os ataques químicos como realizados pelo lado de Assad, quando não têm nenhuma prova, nem sequer a evidência, de que tenha sido assim. 
É o caso de Bernardo Pires de Lima, uma Hillary Clinton de trazer (cá) por casa, ou do aposentado embaixador José Cutileiro, com uma posição anti-russa que parece patológica. 
Todos podemos ter as nossas opiniões, preocupações, simpatias e antipatias -- o que não é admissível é que comentadores apresentados com o selo de garantia académica, como Lima, não passem de câmara de eco do bruaá mediático-propagandístico. 

No programa «Visão Global», da Antena 1, diz este senhor qualquer coisa como: 'O ataque químico perpetrado pelo presidente Assad'..., etc.; assim como o de há cerca de três anos, que originou as tais linhas vermelhas de Obama. Como raio sabe ele? Pois não sabe!, porque os únicos a sabê-lo são os beligerantes. Lima tem a obrigação de saber que nestes conflitos as partes chegam a provocar ataques no seu lado, para comprometer o inimigo. É maquiavélico, mas é vulgar. Se não sabe, é incompetente para ser comentador na rádio pública; como não acredito que o não saiba, é pior.

quarta-feira, abril 05, 2017

as armas química na Síria

São os russos capazes de usar armas químicas? Claro. E as tropas do governo sírio? É evidente. Até nós, portugueses, somo capazes disso -- pois se esturricámos com napalm na Guerra Colonial, o que é isso para nós?...
A pergunta é, sempre: a quem serve?
Portanto, mais uma valente treta para enganar os incautos, e, de preferência, acicatar americanos e russos, como se vê. 
No meio destes filhos da puta, os desgraçados do costume, os civis -- eles, mas podemos ser nós.

arquivo: «Eye Of The Storm» (Camel, 1979)

terça-feira, abril 04, 2017

só uma música

De Islands (1977) dos The Band, um alternative take de «Georgia On My Mind», standard absoluto de Hoagy Carmichael. O canto de Richard Manuel deixa-me sem palavras.

segunda-feira, abril 03, 2017

50 discos: 3. AHMAD'S BLUES (1958) - #5 «Stompin' At The Savoy»


«São Jorge»


O reajustamento da Troika, o lumpen a que o poder vai buscar mão, para manter o equilíbrio social, os que ficaram com a corda na garganta, um tipo com escrúpulos. Um bom filme. Aliás, o cinema que me interessa, com coisas a dizer e filmado com mestria.
Não é costume, entre comédias idiotas, onanismos imberbes e dramas pós-balzaquianas neuróticas.

arquivo: «Down Under» (Men At Work, 1981)

criadores & criatura



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Elliot Caplin, John Cullen Murphy e Big Ben Bolt

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