segunda-feira, abril 24, 2017

sobre A TORRE DA BARBELA (1964)

1) Talvez até então ninguém se tivesse atrevido a tratar assim a história de Portugal, mesmo sob o resguardo da ficção. Um tour de force romanesco e uma extraordinária e iconoclasta reflexão sobre o país. Tão mais interessante quanto o autor acumulava a arte de ficcionista com o trabalho rigoroso de historiador, sob o nome civil de Ruben Andresen Leitão, especialista do século XIX, estudioso do reinado de D. Pedro V, temas sobre os quais publicou vários trabalhos, sendo de sua lavra os verbetes correspondentes no Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão.

2) É possível que ao longo da relativamente extensa e densa narrativa (304 págs. na minha edição: Lisboa, Círculo de Leitores, 1988), Ruben nos faça perder o pé, mas a desenvoltura estilística é tal-- e sempre competentemente vigiada --, que cada página é uma alegria para quem, como eu, é um gourmet destas coisas.

3) Ruben A, (1920-1975), à medida que o tempo vai passando, afirma-se como um dos grandes da sua geração -- geração que tem, pelo menos, uma vintena de ficcionistas a considerar, e da qual fazem parte Fernando Namora, Jorge de Sena ou Sophia de Melo Breyner Andresen (todos nascidos em 1919), Carlos de Oliveira (1921) ou Agustina Bessa Luís (1922).  Ruben está a envelhecer bem. Melhor do qie outros.

4) Incipit «Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento.»

5) Repostagem (2013): Um país de mortos-vivos. Picaresco e fantástico, A Torre da Barbela, de Ruben A., tem uma originalidade que lhe dá um lugar único no panorama romanesco português, tanto quanto me é dado saber. Calculo que a reacção no ano em que foi publicado (1964) deva ter oscilado entre o estranhamento e a indiferença, que é o que sucede a tudo que esteja fora dos cânones. Nem era romance psicológico à presença, nem neo-realista e muito menos procurava imitar os franceses do nouveau roman. Embora não me pareça a obra-prima que alguns nela vêem, tem o atractivo de ser iconoclasta para com o romance português da época, e é-o com humor. E o autor, recorde-se, além de escritor desalinhado do mainstream, era também historiador circunspecto, nomeadamente do século XIX, sabendo muito bem o que estava a fazer -- literária e até, digamos, politicamente.
Absolutamente marcante, portanto. O que esperar de uma catrefa de personagens de várias épocas que coexistem no mesmo espaço e interagem entre si? 
O guia burgesso e comerciante para turista entreter e, se possível, enrolar, situa-nos no espaço e no tempo; mas logo aparece um Menino Sancho, ser misterioso e disforme, e o lendário Cavaleiro da Barbela: «De cada túmulo, de cada sarcófago ou fosso anónimo eles iam saindo, meio estonteados pelos séculos da História»...
Leio aqui o Portugal profundo de então: um país de mortos-vivos.


6) Informa Liberto Cruz, na minha rica edição, prefaciada por José Palla e Carmo, que A Torre da Barbela foi recusado pela maior parte das editoras. Pudera.

(continua)

50 discos: 6. MONEY JUNGLE (1962) - #5 «Wig Wise»


só uma música

«[...] / os activos das carteiras / deste fundo / e de outro mundo / o fundo investe en fundos / de fundos / do fundo / [...] ». Tem muito jogo esta música do Fausto. Não há muitos que pudessem meter duas línguas de pau numa canção e fazê-lo a um tempo com graça e verve. A música minha preferida de A Ópera Mágica do Cantor Maldito (2003).

quinta-feira, abril 20, 2017

Passas pássaro inflamado / duma luz tão tropical porém / que assusta as rochas da terra onde nasceste
José Carlos González

arquivo: «Good Vibrations» (The Beach Boys, 1966)

quarta-feira, abril 12, 2017

o início duma bela amizade


(de Raoul Peck, 2017)

Que mulheraça!


Saffyah Khan diante dum primata racista (notícia aqui).

terça-feira, abril 11, 2017

arquivo: «Fleurette Africaine» (Duke Ellington, Charles Mingus & Max Roach, 1962)

um pensamento para os muçulmanos ultrajados

Impressionou-me ver ontem, após os ataques hediondos às igrejas no Egipto, uma velha muçulmana a gritar 'morte ao Daesh', cheia de raiva e indignação, e com ela muitos outros, Quem não for fanático ou autómato de cérebro lavado por aqueles fascistas, sabe que não há fronteiras nem etnias para o mal e o sofrimento. 
A velha muçulmana, digníssima na reacção ao ultraje que todos os seres humanos sofrem ao ver esta série de matanças, lembrou-me outra reacção extraordinária ocorrida já há algum tempo numa capital escandinava: depois de atentados a judeus: jovens muçulmanos radicados nesse país (já não me recordo qual) fizeram um cordão humano em torno da sinagoga da cidade, assegurando protecção a quem a frequentava.

domingo, abril 09, 2017

as linhas vermelhas de Obama, a falta de linha de Trump, do sr. Bernardo Pires de Lima e do sr. José Cutileiro

Estou convencido de que a inacção de Barack Obama relativamente ao ataque químico ocorrido na Síria há uns anos se deveu às fundadas dúvidas sobre a autoria dessas acções, como qualquer pessoa intelectualmente decente e honesta, que não esteja directa ou indirectamente no teatro de guerra. E o mesmo se passa agora, como diz Tulsi Gabbard, mulher aliás admirável
Trump, que não é decente nem honesto e, intelectualmente, é duvidoso que seja alguma coisa, ensaiou a fita dos últimos dia na Síria. Está no papel dele, assim como Putin no seu. 
Nada disto é estranho; pelo contrário, é velho e revelho, e perigoso na medida em que pode haver sempre algo que corra mal nesta aparente encenação bélica.

Agora, insuportável, insuportável é ler e ouvir alguns especialistas, como me tem sucedido (ainda há pouco na rádio) a darem os ataques químicos como realizados pelo lado de Assad, quando não têm nenhuma prova, nem sequer a evidência, de que tenha sido assim. 
É o caso de Bernardo Pires de Lima, uma Hillary Clinton de trazer (cá) por casa, ou do aposentado embaixador José Cutileiro, com uma posição anti-russa que parece patológica. 
Todos podemos ter as nossas opiniões, preocupações, simpatias e antipatias -- o que não é admissível é que comentadores apresentados com o selo de garantia académica, como Lima, não passem de câmara de eco do bruaá mediático-propagandístico. 

No programa «Visão Global», da Antena 1, diz este senhor qualquer coisa como: 'O ataque químico perpetrado pelo presidente Assad'..., etc.; assim como o de há cerca de três anos, que originou as tais linhas vermelhas de Obama. Como raio sabe ele? Pois não sabe!, porque os únicos a sabê-lo são os beligerantes. Lima tem a obrigação de saber que nestes conflitos as partes chegam a provocar ataques no seu lado, para comprometer o inimigo. É maquiavélico, mas é vulgar. Se não sabe, é incompetente para ser comentador na rádio pública; como não acredito que o não saiba, é pior.

quarta-feira, abril 05, 2017

as armas química na Síria

São os russos capazes de usar armas químicas? Claro. E as tropas do governo sírio? É evidente. Até nós, portugueses, somo capazes disso -- pois se esturricámos com napalm na Guerra Colonial, o que é isso para nós?...
A pergunta é, sempre: a quem serve?
Portanto, mais uma valente treta para enganar os incautos, e, de preferência, acicatar americanos e russos, como se vê. 
No meio destes filhos da puta, os desgraçados do costume, os civis -- eles, mas podemos ser nós.

arquivo: «Eye Of The Storm» (Camel, 1979)

terça-feira, abril 04, 2017

só uma música

De Islands (1977) dos The Band, um alternative take de «Georgia On My Mind», standard absoluto de Hoagy Carmichael. O canto de Richard Manuel deixa-me sem palavras.

segunda-feira, abril 03, 2017

50 discos: 3. AHMAD'S BLUES (1958) - #5 «Stompin' At The Savoy»


«São Jorge»


O reajustamento da Troika, o lumpen a que o poder vai buscar mão, para manter o equilíbrio social, os que ficaram com a corda na garganta, um tipo com escrúpulos. Um bom filme. Aliás, o cinema que me interessa, com coisas a dizer e filmado com mestria.
Não é costume, entre comédias idiotas, onanismos imberbes e dramas pós-balzaquianas neuróticas.

arquivo: «Down Under» (Men At Work, 1981)

criadores & criatura



fonte

Elliot Caplin, John Cullen Murphy e Big Ben Bolt

fonte