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segunda-feira, junho 04, 2018

«A cama a voar telúrica, estilhaçada pelo ruído dos corpos.» Aal Aarão, «Namoro e pão com tâmaras», in Viola Delta vol. XLIII (edição de Fernando Grade, 2006)


«Este vento que, há muitas horas, clama, / Bem o sinto cá dentro: é por mim que ele chama...» Mário Beirão, «Peregrinação», Mar de Cristo (1957) / Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa (1960, edição de Ana Hatherly)


«Ouvir a música do instante que passa / E recolhê-la no coração, / Olhos fechados à dor e à desgraça, / Os ouvidos atentos à canção / Do instante que passa.» Luís Amaro, «Fuga», As Folhas de Poesia Távola Redonda (edição de António Manuel Couto Viana, 1988)

domingo, março 13, 2011

sexta-feira, setembro 29, 2006

Antologia Improvável #165 - Fernando Grade (2)

LIBERTATE

"Sinto-me um cientista a quem um admirador
remeteu uma carta que dizia: concordo consigo:
dois mais dois são cinco."
(Bertolt Brecht)

"Se não esperas o inesperado, nunca o alcançarás."
(Heraclito)

"Faço sempre outra coisa."
(o Autor, in "Museu das Formigas", 1980)


Para lá de todas as estradas de pó
percorridas pelo carro velho a caminho de
Montana onde os pistoleiros sempre estiveram escondidos
-- os dois jovens que fomos (eu e tu, Rebecca)
estavam à solta em todas as pradarias. Ao tempo,
Portugal fora fechado dentro de um dedo a corroer-se,
poço de vespas perversas.
Passámos por Indiana e os beijos não estavam doentes,
e em Chicago havia pistolas nos olhos de quem sorria.
Tive a liberdade de dançar contigo
o tango dos últimos bêbedos. Bêbedos cultos
apaixonados por licores ou vinhos desastrados quase música.
Em Pierre, conhecemos um jovem anoitecido por sustos
que era mestre a deitar fogo a bares.
Então soubemos d'outros que fugiam para o pé do mar
vinham montados num automóvel em pedaços
eram perseguidos por uma mentira redonda e
perfeita: os dois vão ser presos mas esfumam-se
porque o seu sangue é bom e ninguém sabe:
escondem-se assim para os lados das ondas e das ostras
procuram a salsugem -- o mar! E depois num povoado
perdido na noite, casas sem nome, descobrimos
a mãe da América fumava papoilas.
Não me lembro das tuas últimas lágrimas, mas
sei que choravas por um coração esvaziado por granadas.
O teu filho caíra na Ásia e não viera mais
-- desaparecera para sempre numa guerra errada.
Traiçoeiro como sempre esqueci (por momentos) Rebecca
e fui caçar outros olhos.
Por três tardes, luziu Herbie: passeava pelo seu corpo
eu atravessava-o como quem passeia pelas páginas de Balzac
como se as cidades bucólicas estivessem sitiadas.
E voltaram as labaredas altas a lamber os campos
regressei aos gestos fogosos de Rebecca
que ajudava as plantas a crescer,
não tinha medo delas. Faltava pouco para chegarmos
a Helena, onde os amigos tinham bons livros
à nossa espera. O ruído da seda a rasgar-se,
o jogo das pessoas brincadas, o ruído da água
o barulho sinistro que vem das chamas.
Era no chão o vestígio dos venenos.
Um Beethoven adulado por coiotes.
E os beijos à volta, os sôfregos beijos latinos
a crescerem: do pó em fúria até ao musgo.
Sempre tive um vinho muito ciumento.

Sempre Tive um Vinho Muito Ciumento

domingo, maio 21, 2006

Havia no ar um prazer de livro lido
Fernando Grade

domingo, setembro 11, 2005

Antologia Improvável #50 - Fernando Grade

OLÍMPICOS

(Ouvindo «A Tempestade», de van Beethoven)


Lá vão os sonhos nos braços do vento
lá vai o campeão a haver do mar das velas.

Dizem-me O moço vai ganhar
que (neste caso) aquele povo ali ao fundo da escada
quer sentir-se herói outra vez
e através do campeão à vela e ao mar.

Contudo
as brisas perversas têm a sua longa ronha
as velas de salsugem não duram sempre
têm a idade marcada na pele
assim como os músculos e o cheiro dos pêssegos
tal-qual o sangue bom que conseguiu voar
e um dia volta a ser toupeira.

O pano ruiu
abre-se uma fenda do tamanho de
um coração a arder
e o campeão que estava para ser
evaporou-se
e com ele morreram as quimeras
de muitos que só tinham esse caminho inventado
para morder os seios à Primavera.

Philosophus per Ignem