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sábado, setembro 22, 2018

«A pasta dos desenhos a mesa de uma única gaveta / cartas cordéis rasgadas fotografias.» João Miguel Fernandes Jorge, O Regresso dos Remadores (1982)

«Dentro de mim é Som: o eco longo / de uma nota sem fim e sem começo.» Sebastião da Gama, «Harpa», Serra-Mãe (1942)

«O poema nasce da atenção / ao esplendor / das ínfimas coisas: a porta / branca, um cântaro vermelho / a luz excessiva do estio.» Fernando Jorge Fabião, Nascente da Sede (2000)

quinta-feira, julho 26, 2018

«A corda tensa que eu sou, / o Senhor Deus é quem / a faz vibrar...» Sebastião da Gama, Serra-Mãe (1945

Por enquanto mais nada, senão / o torvo tinir dos talheres / no banquete da morte impossível.» Rui Knopfli, «Lírica para uma ave», O País dos Outros (1959)

«Uma rapariga tem sempre a sua música / leva o dinheiro apertado num saco bordado / o retrato da amada na outra mão.» João Miguel Fernandes Jorge, O Regresso dos Remadores (1982)

quinta-feira, maio 17, 2018

«Por vezes as cartas geográficas representam / uma aldeia marítima entre rochas / muros brancos / onde uma criança desenha um barco esconde / o mar.» João Miguel Fernandes Jorge, Alguns Círculos (1975)

«Depois, / com valados, elevações e planuras, e mais rios // entrecortando a savana, e árvores e caminhos, / aldeias, vilas e cidades com homens dentro, / a paisagem estendia-se a perder de vista / até ao capricho de uma linha imaginária.» Rui Knopfli, «Pátria», O Escriba Acocorado (1978)

«Quantos há que passaram entre as turbas, / Os felizes do mundo, as alegrias, / E ninguém os viu rir!» Gomes Leal, «Trevas», Antologia Poética (s.d.) (ed. Cecília Barreira)

terça-feira, maio 08, 2018

«Um salto de raposa sobre a estrada / último sol à beira da fronteira.» Helder Macedo, Viagem de Inverno (1994)

«Um mar assim / areia dividida deste fogo / desta luz ardendo no terraço / cada vez mais azul onde o azul clarece em azul / onde o sol vai do setembro saindo.» João Miguel Fernandes Jorge, Ternos Dizeres (1973)

«Nos mastros vibra o som do ar um vento forte vespertino» Luís de Miranda Rocha, Os Arredores do Mar, os Subúrbios da Noite (1993)

domingo, outubro 15, 2006

Antologia Improvável #170 - João Miguel Fernandes Jorge (2)

CASTELO DE SANTA MARIA DO BOURO

O claustro caiu há muito. O abade seguiu o partido
do Mestre, levou 600 homens para a defesa da fronteira.
Arcos de volta perfeita, as colunas
resistem.
Bernardo, peregrino, visita as casas de Cister.
Está sentado, ao fim
do dia de janeiro, numa das lajes
que ladeiam a levada. Os pés em balanceio no
fio dessa água que divide
a quadra antiga -- fetos
e avencas. O laranjal inscreve no granito um ritmo que se desdobra
no ocre da parede, na esquadria de ferro do tecto.
No extremo do longo corredor, Bernardo, o monge, o vencedor [do duque de Aquitânia
um dos seus dedos segue o rosto limpo, a ossatura de um
crânio, o azul de vazada órbita
os pêlos da barba a espaços
impresso o lábio vagaroso

a água percorre o rigor, outrora, do claustro -- e o fogo
lume de janeiro.

Castelos -- I a XXV

João Miguel Fernandes Jorge

sábado, fevereiro 18, 2006

Antologia Improvável #104 - João Miguel Fernandes Jorge

RETRATO DE DOM SEBASTIÃO

Ruíram portas. Os velhos muros desmoronaram.
A lua de agosto, temível artesanato de um gnomo astuto
esperava a surpresa das vítimas. E a própria
palavra da língua fez ouvir gritos desentoados

vindos da noite dos tempos. O verão desse ano,
máscara disforme, envergonhada. E o rei,
um rapaz, o reino ameaçava como se faz às crianças
que não querem adormecer.

Os olhos azuis, pisados, desaguam em fantasias.
Sofriam, no severo conjuro adolescente, o juízo
que Platão verteu sobre os efeitos malignos da
arte, da ilusão que causa na lama humana. Havia

sonho, imagem e fazenda a destruir nos afilados dedos
que traziam morte, filme de gelo sobre o derradeiro
verão dos rios da cidade, ó castelos
e o lebréu, fiel, o mais fiel dos súbditos,

dispõe-se a recolher o afundamento
de corpos, barcas e pátria.
E do rapaz, de dezasseis anos ao tempo do retrato,
areia de silêncio envolveu seus ossos. Inquietude,

ânimo, valor ferido.

Museu das Janelas Verdes / A Pequena Pátria