sexta-feira, julho 21, 2017

Chester Bennington

Foi a minha filha mais velha, então teenager, quem mo apresentou, e gostei daquele som que misturava metal e hip-hop, e da raiva. Tanta raiva, que não me surpreendeu saber que fora sexualmente violentado aos sete anos. Em 2005 escrevi três linhas a propósito.
  «O som e a fúria. Há nos Linkin Park uma autenticidade que não me deixa indiferente. Aquela ira, aquele mal-estar, aqueles sintomas da sujidade endémica do nosso quotidiano.» 
Bennington enforcou-se  este quinta-feira, em casa.

quinta-feira, julho 20, 2017

Altice: um aviso muito sério ao PS

Uma entidade que dá pelo bonito nome de Altice está a infernizar a vida de milhares de trabalhadores da PT e suas famílias, como tem sido mais ou menos veiculado pela imprensa (aqui ou aqui), com muito menos destaque, claro está, do que coisas importantíssimas como a preparação da próxima época pelos 'três grandes', as opiniões de Gentil Martins sobre o homossexuais, entre outras irrelevâncias, e até por assuntos verdadeiramente importantes como o populismo racista eleitoral do badameco de Loures. 
O que se está a passar é inadmissível, e não pode ser tolerado por um governo digno desse nome, e que se respeite
No meio do número de António Costa no Parlamento (que eu espero que tenha sido um aviso para bom entendedor...), das preocupações de Passos Coelho na defesa da Altice como vítima do bulliyng por parte do primeiro-ministro (é extraordinário...), e do inefável ex-ministro da Esmola, Pedro Mota Soares, que se prepara para ser o próximo presidente da Assembleia Municipal da minha terra (pobre terra...). No meio deste carnaval, PCP e Bloco, cumprem com o seu dever (já que o PS parece não o fazer) e levantam a voz.
Como disse José Soeiro, e bem, estas altices tentam operar em Portugal como se o país fosse uma república das bananas. Depois do triste mandato do governo subserviente de Passos Coelho, humilhante para o país, há que pôr todas as altices na ordem e mostrar-lhes que Portugal não é propriamente um 'mercado' em que os abutres vêm fazer gato-sapato dos trabalhadores.
Está, portanto, na altura de fazerem um aviso muito sério ao PS.

arquivo: «The Colonny Of Slippermen» (Genesis, 1974)

terça-feira, julho 18, 2017

50 discos: 25. MEUS CAROS AMIGOS (1976) - #5 «Vai Trabalhar Vagabundo»


porventura criminoso

Pode alegar-se que as declarações do médico Gentil Martins e do candidato do PSD-CDS à Câmara de Loures são do mesmo jaez? Sim e não.
Sim, porque a ambas subjaz um preconceito, que, à partida, configura a descriminação de um, vamos lá, grupo social. E não, por um cacharolete de razões.

Martins alia a condição de facultativo reputado e homem de ciência (ou seja: não é propriamente um manda-bocas) a uma convicção religiosa arreigada, que, em minha opinião, lhe tolhe o discernimento (estou, agora, a ser um preconceituoso ateu...). Mais do que isso: é um conservador católico. Por estranho que possa parecer, um católico conservador traz em si uma mundividência (para dizer o mínimo) que não se arranca como um adesivo, ao sabor das conveniências da moda, do politicamente correcto, da caça à popularidade e aos likes  do facebook ou duma qualquer candidatura, já que ele não é candidato a nada. Além disso, que eu saiba, ainda não é crime ser-se conservador. Talvez querer tolher a opinião de Gentil Martins aí sim, possa configurar um crime; e denunciá-lo à Ordem seja uma atitude persecutória -- não para Gentil Martins, que deve ser para o lado que dorme melhor, mas para quem tenha a ousadia de expressar opiniões idênticas (isto começa a cheirar mal).

Já o Ventura é uma personagem do mundo maravilhoso da televisão; quer votos, quer aparecer, quer dar nas vistas. Não é para levar a sério (outro preconceito...). No entanto, em vez de oferecer electrodomésticos ao eleitorado, canaliza-lhe os medos directamente para a urna, em boçal populismo, porventura criminoso (a Constituição proíbe; talvez seja motivo para proibir-lhe também a candidatura).

Não há ciganos (como não há negros, brancos ou imigrantes): há indivíduos, uns cumpridores e decentes, outros indecentes e socialmente prevaricadores. Apor o ónus de marginalidade numa comunidade inteira, além de configurar um delito racista, é deplorável. Tratando-se de um político, candidato a condicionar, para o melhor ou para o pior, a vida quotidiana dos munícipes, o seu destino já deveria estar traçado pelo TC.


segunda-feira, julho 17, 2017

arquivo: «A Bia da Mouraria» (Carminho, 2009)

Fernando Assis Pacheco, António Gentil Martins e a porcaria dos novos inquisidores

No último sábado li Walt, a noveleta do Fernando Assis Pacheco publicada em 1978. Nela são recorrentes expressões utilizadas pelo narrador-alferes -- um alter ego do próprio FAP --, como paneleirices ou fufas. Estou em crer que tivesse o FAP meditado escrever algo semelhante por este ano de 2017, se autosupliciaria, se autocensuraria, pois ao usar, num registo realista, palavras do nosso léxico como paneleirice ou fufa, pensaria três ou quatro vezes se estaria na disposição de aturar o fogo de artilharia pesada dos censores do costume, mais os patetas acoplados. E, extremamente fodido, provavelmente renunciaria a.


Parece que no último sábado o Expresso publicou uma entrevista a António Gentil Martins, cujos ecos só agora me chegaram. Tenho um familiar próximo cuja vida, ainda com meses, foi salva por ele. E assim com milhares de crianças. Não é por isso que deixarei de estar distante do médico, desde logo a começar pela religião. Deus sabe o quão ateu sou. Nasce-se homossexual, não se escolhe sê-lo. (Quem disser o contrário, não passa dum aldrabão.) Estando fora da norma, não deixa de ser um fenómeno natural (e não contranatura, como defendem os seus perseguidores) e, por isso, deve ser encarada com naturalidade nas sociedades civilizadas e evoluídas.

Ora, este senhor de 87 anos terá tido uma expressão bastante infeliz, qualquer coisa como "sou completamente contra os homossexuais". Talvez tivesse querido dizer que era contra a promoção da homossexualidade, e, aí, estaria bastante melhor, do meu ponto de vista.


Recuo um sábado: estava em Évora, entro numa tabacaria para comprar o jornal e dou de caras com a capa duma revista com o nome duma parola que esganiça por essas bardatelevisões além, dois marmanjos em ósculo envolvente --  o triunfo do kitsch em todo o seu horror. O cúmulo da miséria moral é que certamente não existe, em quem empreende a folha de couve, a mínima intenção cívica e pedagógica de promoção da tolerância, mas tão-só o propósito de arrebanhar mais uns cobres. O mercenarismo de mãos dadas com o merceeirismo.

Mas isto é a minha sensibilidade, o meu gosto, a minha educação, a minha mundividência essencialmente conservadores e tradicionais a falar. Nunca me passaria pela cabeça escrever sobre o assunto, por duas razões: a homossexualidade pertence à esfera íntima de cada um; a exteriorização feérica dela, embora seja um dos avatares do mau gosto em que estamos imersos, não é suficientemente importante para que me dê ao trabalho. Há coisas muito mais sérias, graves e urgentes. Faço-o agora, só para dizer -- porque me apetece e por ser conflituoso --, que a homossexualidade, enquanto desvio do padrão, enquanto prática minoritária, está, objectivamente, fora da norma, é portanto, nesse sentido, uma anomalia -- como o ser-se albino ou, dizem, ter os olhos azuis.


É provável que Gentil Martins não esteja a ser apenas um técnico -- altamente qualificado, sublinhe-se, daqueles que são (deveriam ser) orgulho de uma comunidade --, e a sua afirmação esteja contaminada pelo vírus religioso. É uma maçada, mas é a sua opinião, não só legítima, como expressa no seio de uma sociedade liberal, incompatível, pois com atitudes de bufo, de reles denunciantes que foram apresentar queixa à Ordem dos Médicos, que por sua vez vai abrir um inquérito ou palhaçada semelhante.

Gentil Martins esteve também mal ao pessoalizar a questão das barrigas de aluguer. Podia referir-se-lhe sem trazer à colação o Cristiano Ronaldo, e da forma como o fez. Nunca me debrucei sobre o assunto, não tenho grande opinião, salvo uma rejeição instintiva, embora possa estar aberto a aceitar a prática em situações extremas, com as quais, felizmente, nunca fui confrontado. Mas há uma coisa que eu sei: uma criança não é uma coisa que se compre como quem vai à loja dos animais à procura dum bicho de estimação.


Tudo isto é controverso, e é natural que assim seja. O que não pode ser tolerado é a perseguição, fanática e pidesca, a quem exprime as suas opiniões, conservadoras, tradicionalistas e confessionais -- e com todo o direito a fazê-lo. 

sexta-feira, julho 14, 2017

Liu Xiaobo

É da natureza das ditaduras totalitárias não haver complacência para com a dissidência. Liu Xiabo, pelo pouco que dele sei -- e poderia, e deveria saber mais, pois há pelo menos um livro seu publicado entre nós: Não Tenho Inimigos, não Conheço o Ódio --, foi um preso de consciência na verdadeira acepção do termo: um pensador livre e pacifista. Uma voz ética e moral, a mais perigosa das subversões, portanto.

arquivo: «Back To Memphis» (Chuck Berry, 1967)

quinta-feira, julho 13, 2017

vamos admitir que o Lula é culpado

Convenientemente condenado a nove anos e meio de cadeia, depois da ópera-bufa que foi o afastamento de Dilma da presidência, provavelmente por não ser gatuna. Deixemos agora esse fétido festival da plutocracia brasileira em acção. Se o Lula apanha nove anos e meio, o Temer certamente será condenado a perpétua, com trabalhos forçados; e sua excelência o Cunha bandido, arrisca-se à forca. Isto para não falar no energúmeno do Collor, tão ladrão que até o sistema teve de correr com ele: após os nove anos e meio, o mínimo aceitável seria a reabertura do processo, e talvez uma condenação à fogueira, como nos velhos tempos. (Ah, não pode ser... já não há inquisição, e a igreja deixou de caçar bruxas e judeus para tocaiar meninos.)

P.S. - Não acompanho a política brasileira de perto, não tenho opinião sobre o juiz Moro. Só não gostei da chicoespertice do Carlos Carreiras, presidente da câmara da minha terra (e terra dos meus antepassados, já agora) -- ou de quem lhe fez o frete -- quando usou as Conferências do Estoril para juntar juízes de grande gabarito, como Antonio Di Pietro e Baltasar Garzón, com Carlos Alexandre e Sérgio Moro, ambos no centro de um furacão jurídico-político-mediático, com todas as interrogações que têm levantado.
Em tempo. Há, logo à partida, uma diferença qualitativa entre Lula e Dilma e os outros: aqueles foram resistentes (palavra que não diz nada aos patetas); tiveram perseguição, prisão e tortura. Têm , por isso, uma dimensão que não está ao alcance dessas porcarias engravatas que por aí mexem.

segunda-feira, julho 10, 2017

improbabilidades

Fora eu secretário de estado, ou coisa assim, e recebesse o convite da Galp para uma futebolada em que participasse a selecção portuguesa num campeonato europeu ou mundial, bilhetes pagos, viagens pagas (presumo), a primeira coisa que faria seria pedir à minha secretária para inquirir junto do gentil conselho de administração sobre o número de colaboradores (parece mal dizer 'trabalhadores' ou 'funcionários') -- quantos, portanto, colaboradores, a começar pelos gasolineiros e seus empregados, haviam sido gentilmente distinguidos com idêntica benesse. Claro que depois recusaria, agradecendo, pois é mesmo foleiro um membro do governo aproveitar-se destas migalhas de que, por interesses outros ou bajulações várias, os dinheirosos lançam mão.

Estou já a ouvir a enxúndia opinativa dos mercenários de serviço: demagogia, pá!, demagogia. A conversa fiada e bem remunerada do costume. Direi, contudo, que este episódio canhestro, nada é, aparentemente, comparado com a gatunagem (outra palavra talvez demagógica) que tem assaltado o estado em governos tantos, e anda por aí, boa parte dela, a viver acima das nossas possibilidades.

sexta-feira, julho 07, 2017

Ah, porra, que bem me soube

ver os Deep Purple ( Made in Japan é um dos míticos álbuns ao vivo da minha geração). Gillan e Glover estupendos, ambos à beira dos 72 anos; o lendário Paice, com 69, em puro domínio de baquetas e pedais. Sem Blackmore, há muitos anos incompatibilizado, e John Lord, que morreu recentemente, Steve Morse e Don Airey estiveram mais do que à altura.

arquivo: «Ai meu amor se bastasse» (Aldina Duarte, 2004)

quinta-feira, julho 06, 2017

o siresp

A sigla é miserável, o carnaval político em torno é nauseabundo. O tal Siresp -- de que só se ouvira falar aquando da negociata em que foi engendrado por um obscuro ministro do PSD, vindo do universo BPN e para lá retornado quando cessou funções -- é um dos muitos exemplos da forma como a direita dos interesses pilha o estado e os cidadãos, ao mesmo tempo que lança mão de 'jornalistas' prostiputos e mercenários das agências de comunicação para demonizar os serviços públicos e as funções do estado.
Não que eu seja um entusiasta do estado como entidade política -- mas é o que temos. E entre serviços e agências públicas dirigidos ao universo de cidadãos e vulgares ladrões engravatados, organizados em sociedades lusas de negócios, acho que prefiro os primeiros. 
Este país só será higiénico quando os grupos privados de qualquer sector exerçam a sua actividade com rédea curta e sob chicote, se preciso for (é assim que se trata os predadores).
Sim, nacionalização dessa porcaria, mas, já agora, deixar correr as averiguações, sem pressa de marcar pontinhos políticos, em que o Bloco é useiro e vezeiro, para que fique claro que essa é a única decisão decente. Porque é preciso ser-se muito vigarista para defender que serviços da administração interna possam estar nas mãos de privados (se não for vigarista, é estúpido, o que não atenua).

P.S. para os apressados: repare-se que me refiro a grupos económicos e não à actividade privada na economia, que não é apenas natural como muitíssimo desejável.

quarta-feira, julho 05, 2017

segunda-feira, julho 03, 2017

sábado, julho 01, 2017

estampa CCLX - Jorge Afonso


Anunciação (c. 1510)
Nuseu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

sexta-feira, junho 30, 2017

50 discos: 23. BURNIN' (1973) - #5 «Put It On»


começar

Um Camilo é sempre um Camilo, mesmo quando participa da categoria de literatura alimentar, ou seja, da que o bruxo de Seide lançava mão para, profissional das letras, se sustentar. Por isso, O Judeu será sempre um romance de visita recomendável, também pelas leituras de época, António José da Silva, dito 'o Judeu', Cavaleiro de Oliveira, a quem A. Gonçalves Rodrigues chamou 'o protestante lusitano', ambos ardido no fogo da Santa Inquisição, um em carne e espírito, o outro em efígie.
Emigrantes é um dos textos históricos do romance português do século XX. A ficção mudou com ele. Neste incipit, Ferreira de Castro põe-nos no ponto de observação do protagonista, Manuel da Bouça, esse pobre de espírito que irá acabar mal, o que se perceberá aqui, e confirmará uns romances depois, em A Lã e a Neve (1947). 
O 'Antero' de A Calçada da Glória é uma caricatura, aliás impiedosa, de António Ferro, com quem Tomás Ribeiro Colaço -- um nome com pedigree  nas letras portuguesas -- ajusta contas nesta narrativa terminada em 1940, porém só publicada no exílio brasileiro anos mais tarde. Creio, aliás, que nunca teve edição portuguesa.
1866 - «Há um fenómeno moral, muitas vezes repetido, e todavia inexplicável: é a esquivança desamorosa de mãe a um filho excluído da ternura com que estremece os outros, filhos todos do mesmo abençoado amor e do mesmo pai que ela, em todo o tempo, amara com igual veemência.» Camilo Castelo Branco, O Judeu

1928 - «Preta e branca, preta e branca, preta e branca, o preto mui luzidio e muito níveo o branco, a pega, de cauda trémula, inquieta, saracoteava entre carumas e urgueiras, esconde aqui, surge ali, e por fim erguia voo até a copa alta do pinheiro, levando no bico ramo seco ou graveto.» Ferreira de Castro, Emigrantes

1947 - «Uma das coisas discutidas no Café Martinho era a virgindade de Antero.» Tomás Ribeiro Colaço, A Calçada da Glória

sexta-feira, junho 23, 2017

arquivo: «Walk All Over You» (AC/DC, 1979)

Sempre haverá o que se busque / embora o que se busque não se encontre.
Alexandre Dáskalos

quarta-feira, junho 21, 2017

JornaL

1. Como pode a política externa portuguesa estar à mercê dum qualquer juiz, que nem deve saber com que países Angola faz fronteira? Se houvesse noção do que andam a fazer, julgava-se o tal Orlando alegadamente corrupto e, sendo condenado, o estado português teria de fazer as suas diligências por via diplomática, aliás com outra segurança e um ganho de causa que, assim, nunca poderá ter. Ou seja: isto não vai servir para nada -- ou, melhor, servirá a quem está apostado em criar problemas com Angola, para gáudio dos idiotas-úteis do costume:   Vice-presidente de Angola e procurador Orlando Figueira vão a julgamento (Sic Notícias)

2. A "esquerda" borracha, ou caudilhismo do Terceiro Mundo: Procuradora-geral da Venezuela diz que vai "até onde a lei permitir" (Destak)

3. A proverbial estupidez da política externa americana, sempre acompanhada do vezo pirata, dá nisto: Austrália suspende missões na Síria após ameaça russa aos aviões da aliança (Observador)

4. Acho imensa piada ao Putin, principalmente quando manda os americanos baixar a bola: Caças russos interceptam aviões dos EUA no mar Báltico (Jornal do Brasil)

5. Civilização: Bicicletas partilhadas avançam em Lisboa (Jornal de Notícias)

segunda-feira, junho 19, 2017

cabaz da feira

Ao Encontro de Raul Brandão - Colóquio, Porto, UCP / Lello Editores, 2000.
Até Amanhã, Camaradas, Manuel Tiago (1974), 5ª ed.., Lisboa, Edições Avante!, 1989.
Crónica da Vida Lisboeta [Ana Paula (1938); Ansiedade (1940); O Caminho da Culpa (1944); Tons Verdes em Fundo Escuro (1946); Espelho de Três Faces (1950); A Corça Prisioneira (1956)], Lisboa, Guimarães, 2008-2009.
Guia para 50 Personagens de Ficção Portuguesa, Bruno Vieira Amaral, Lisboa, Guerra & Paz, 2013.
Francisco de Assis -- 1182-1982 -- Testemunhos Contemporâneos das Letras Portuguesas, Lisboa, IN-CM, 1982.
Novos Contos do Gin, Mário-Henrique Leiria, Lisboa, Editorial Estampa, 1973.

50 discos: 20. SELLING ENGLAND BY THE POUND (1973) - #5 «The Battle Of Epping Forest»


domingo, junho 18, 2017

começar

Um dos mais justamente célebres começos da novelística portuguesa, em A Queda dum Anjo -- o arrivismo mantém-se; um proto-Ferreira de Castro sem grande interesse em O Drama da Sombra; uma esplêndida ideia com Batalhas do Caia -- remete para o projecto ficcional abortado de Eça de Queirós --, achando, quando o li, ter ficado aquém do propósito ambicioso. Talvez deva relê-lo.

1866 - «Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda da Agra de Freimas, tem hoje quarenta e nove anos, por ter nascido em 1815, na aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.» Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo
1926 - «Aquela mulher era ali, no Estoril elegante, a máxima fascinação, a serpente de olhos verdes de todos os veraneantes masculinos.» Ferreira de Castro, O Drama da Sombra
1995 - «E a bagagem, trazida por três carroças atulhadas, foi dispersa pelos aposentos de ambos os pisos, obedecendo à numeração que neles se fixara, baseada num código que me pareceu insolitamente arbitrário.» Mário Cláudio, Batalhas do Caia

terça-feira, junho 13, 2017

domingo, junho 11, 2017

começar

Camilo não desiludirá, o incipit promete violência e o leitor tê-la-á, num romance histórico, em que , como é bom de ver, não se aprende História, mas se goza o festim da linguagem camiliana. Ferreira de Castro também cumpre o anunciado: três à mesa, quer dizer triálogo, o que significa tensão psicológica, superiormente dada. Já Vasco Branco não promete nem cumpre, num onanismo autocomiserativo insuportável que, infelizmente, distrai de algumas qualidades de estilo (equivalentes aos defeitos) e de uma construção romanesca que poderia ter sido interessante,

1875 - «Ainda os membros dispersos do cadáver de Domingos Leite Pereira apodreciam nos postes, quando saiu uma procissão de triunfo a desempestar especialmente as Ruas dos Torneiros e da Fancaria.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida

1950 - «Encontravam-se os três à mesa de jantar e o velho relógio de pêndulo marcava onze horas menos um quarto.» Ferreira de Castro, A Curva da Estrada

1980 - «Janela aberta sobre o mundo.» Vasco Branco, Os Generosos Delírios da Burguesia

sábado, junho 10, 2017

arquivo: «Teenage Prostitute» (Frank Zappa, 1982)

começar

Deve dizer-se que o humor de Carlos Ceia já existe, em larga medida e altíssimo grau, cento e cinquenta anos antes no Camilo. Atente-se à advertência aos «Leitores! De hás verdade sobre a Terra, é o tpmace que eu tenho a honra de oferecer às vossas horas de desenfado.» Meio século mais tarde, um miúdo, que viria a ser o escritor Ferreira de Castro, alinhava, em plena Amazónia, o início dum romancinho... verde. Nada mal, na verdade. Aprendera a lição sabichona do bruxo de Seide, crismando o protagonista com a graça de Simão Rafael dos Anjos, procurando também ele cativar os leitores com um aviso nas capas dos fascículos que mandava imprimir em Belém do Pará, que vendia de porta em porta: «Sensacional romance -- expurgado de phantasia»...

1854 - «Em 1815, um dos mais abastados mercadores  de panos da Rua das Flores, na cidade do Porto, era o Sr. António José da Silva.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Arcediago

1916 - «Num lugar denominado Santo António, pertencente à freguesia de Ossela, moravam dois rapazes que, pela educação que receberam, distinguiam-se dos outros, rudes camponeses.» Ferreira de Castro, Criminoso por Ambição

2004 - «[2 de Fevereiro de 2003 (Está um dia cinzento.)] Querido Diário, / Se não acertar com a primeira frase do romance, vai-se o leitor embora e fico a sós com as minhas personagens, num delírio de duas centenas de páginas que enterro debaixo da minha imaginação inútil.» Carlos Ceia, O Professor Sentado

sexta-feira, junho 09, 2017

50 discos: 18. ATÉ AO PESCOÇO (1972) - #5 «Desarmados Até aos Dentes»


o Prémio Camões, pois claro

Se há obra que faça jus ao Prémio Camões, essa é a que integra dois livros absolutamente históricos, que são literatura e mais do que literatura, constituindo-se como um ponto de situação do país na época que foram escritos. Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967), de Manuel Alegre, procedem a uma sondagem de um tempo e de um modo de sentir colectivos. E nessa medida -- por muito que custe àqueles que se comprazem, com uma literatura vagal ou deliquescente (e à frente de toda a gente...) --, nessa medida, aquela poética emula e participa da do próprio Luís de Camões, como de Guerra Junqueiro, António Nobre e Fernando Pessoa.

terça-feira, junho 06, 2017

começar

O Camilo é o Camilo, e o começo de Eusébio Macário é precioso, pela simplicidade, contrastando com o glit muito anos vinte e desinteressantemente "loucos" de Frias & Castro, mesmo que o romance tenha o seu quê para lá do ouropel, e com o malaise do protagonista de Castilho, aliás um nome seguro. Por isso, viva Camilo.

1879: «Havia na botica um relógio de parede, nacional, datado de 1781, feito de grandes toros de carvalho e muita ferraria.» Camilo Castelo Branco, Eusébio Macário

1924: «Quem o diria, Berenice?...» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge 

1989: «Se quisesse definir a invisível peste que o acordar me toldava a existência, a palavra seria bruma.» Paulo Castilho, Fora de Horas

arquivo: «Sunday» (David Bowie, 2002)

criador & criatura

fonte

Hank Ketcham e Dennis The Menace / Dennis, o Pimentinha


domingo, junho 04, 2017

Toleramos o insuportável / com insuportáveis venenos.
Manuel de Freitas

arquivo: «Rio Largo De Profundis» (José Afonso, 1973)

começar

Quem conhece as três narrativas, sabe que coisas momentosas e formidandas se anunciam. Todas já contidas em cada começo.

1866 - Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartório das cadeias da relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a folhas 232, o seguinte:» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição
1931 - «Já não posso com estes tipos.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir
1991 - «"Em nome de Deus, amen.» Sérgio Luís de Carvalho, Anno Domini 1348

quinta-feira, junho 01, 2017

Armando Silva Carvalho [Poetas de qualidade, como ele, ficam para aí dois ou três, quatro ou cinco.]


Tu tinhas esse lindíssimo timbre
das primas-donas espanholas.
Preparavas todas as manhãs o branco
da garganta com vários goles de vinho
e praguejavas alto para que os teus filhos
(cada um de seu pai)
te fossem por recados e merendas.
O teu ofício era vender pedras de cal
aos gordos fazendeiros
que te percorriam o ventre inchado
nas noites de dezembro
e iam mijar depois dentro das bilhas
de água.
Ainda não morreste no meu tempo
mulher de cal e mágoa.
Cada casa caiada é a pele do teu corpo.


(Alexandre Bissexto, 1983)



arquivo: «The Return Of The Giant Hogweed»

quarta-feira, maio 31, 2017

estampa CCXLVII - Nuno Gonçalves

Políptico de São Vicente (séc. XV)
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

arquivo: «Quizás, Quizás, Quizás» (Nat King Cole, 1958)


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Entre o estilo jocoso do Álvaro do Carvalhal e o tom épico de Ana Margarida de Carvalho, a escrita essencial do Raul Brandão, como só ele.

Em tempo: Título preferido: Que Importa (...), um verso de José Afonso.

1866 - «Disse a crítica pela boca de Boileau: / Rien n'est beau que le vraie, / e não tardou que as fábulas, arabescos exóticos e exageros, oriundos principalmente de tempos heróicos, perdessem toda a soberania dantes exercida na ampla esfera das boas-letras.» Álvaro do Carvalhal, Os Canibais

1906 - «Vem o Inverno e os montes pedregosos, as árvores despidas, a natureza inteira envolve-se numa grande nuvem húmida que tudo abala e penetra.» Raul Brandão, Os Pobres

2013 - «Tersa gente esta, de almas baldias, vontades torcidas pelo frio que aperta, amolecidas pelo sol que expande.» Ana Margarida de Carvalho, Que Importa a Fúria do Mar 

segunda-feira, maio 29, 2017

criador & criaturas


Carl Barks e os Irmãos Metralha / The Beagle Boys


50 discos: 16. OS SOBREVIVENTES (1971) - #5 «Que Bom que É»


começar

 A morte como obsessão, ponto de partida e de chegada. O início de um livro único, o Húmus, de Raul Brandão. Quanto a Em Demanda da Europa, de Filomena Cabral, deveremos preparar-nos para uma dissertação? O mesmo não se dirá, do início de O Retorno, de Dulce Maria Cardoso: qualquer coisa é expectável. Valerá a pena prosseguir?
O título: todos são bons, mas Húmus, sem artigo, transporta-nos para a essência mesma da obra.

1903: «[13 de Novembro.] Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste...» Raul Brandão, Húmus

1997: «Preparemo-nos, descalcemos as sandálias, lavemos o rosto, despojemo-nos, teremos de assistir, de coração limpo, a toda a encenação, participando no final, se estivermos todos de acordo.» Filomena Cabral, Em Demanda da Europa

2012: «Mas na Europa há cerejas.» Dulce Maria Cardoso, O Retorno

sexta-feira, maio 26, 2017

terça-feira, maio 23, 2017

o pior e o melhor na peregrinação do Trump (até agora)

O pior: na meca do terrorismo, e sem vergonha, ataca o Irão, que ao pé da Arábia Saudita é um baluarte da democracia.
O melhor: mulher e filha em cabelo, no reino de Salmão; o epíteto loosers, aplicado aos indigentes que se fazem explodir. Tem razão o Trump: chamar-lhes monstros, assassinos ou coisa parecida, são medalhas para eles; falhados quadra melhor com a natureza dejectória destas subcriaturas.  

domingo, maio 21, 2017

estampa CCXLVI - Dosso Dossi

Um Homem Abraçando uma Mulher (c.. 1524)
National Gallery, Londres

sábado, maio 20, 2017

arquivo: «The Old Country» (Nat Adderley, 1960)

esta nódoa da Suécia vai custar muito a sair

Parece que a Suécia voltou a dar-se ao respeito, desistindo da farsa judiciária que obriga Julian Assange a estar asilado na embaixada do Equador. Como, porém, a Inglaterra anda há muito entregue a atrasados mentais e criminosos, já se terá predisposto a continuar o trabalho sujo. Apesar de tudo, que nódoa para a Suécia.

quinta-feira, maio 18, 2017

quarta-feira, maio 17, 2017

arquivo: «Naima» (John Coltrane, 1959)

os censores de Gonçalo da Câmara Pereira

Tenho cá as minhas opiniões sobre Gonçalo da Câmara Pereira e aquilo que representa: basicamente um espécime etnográfico. 
Também vou tendo umas convicções sobre os polícias de costumes, e acho-lhes menos graça. Estão, aliás, a causar-me uma certa urticária. 

domingo, maio 14, 2017

canções da Eurovisão - Portugal

Palavras para quê? Só uma, para aquele piano gymnopédico.

canções da Eurovisão - Bélgica

Se tivesse votado, teria sido nesta. Blanche, que presença fantástica!

canções da Eurovisão - Grécia

O festival esteve cheio de mulheres giras. Demy foi uma das mais, e a certa altura parecia uma estátua grega em seu pedestal.

Canções da Eurovisão - Itália

De longe a mais divertida. O Gabbani é um ponto.

canções da Eurovisão - Noruega

De repente, olhei para o Jowst e foi como se tivesse visto o Breivik todo cool, saído da prisão e concorrente ao Festival. Coitado do Jowst. A música é gira, está bem esgalhada.

canções da Eurovisão - Croácia

Festivaleira até ao enjoo, mas aquele solo violino-violoncelo merece ser visto.

canções da Eurovisão - Azerbaijão

Gostei da Dihaj, e gostei muito do coro.

canções da Eurovisão - Hungria

Não percebi nada do que disse o Joci Pápai, mas que ele é bom, é. E cantou em húngaro, que é uma língua horrível, mas é a sua.

canções da Eurovisão - Holanda

OG3NE, Estas impressionaram-me pelo trabalho vocal soberbo. 3 grande cantos.


canções da Eurovisão - Arménia

Canção bem feita, muito bem cantada (em inglês, foi pena). A Arménia é um país que me fascina. 
(A Artsvik chorou depois de o Salvador Sobral cantar.)




sábado, maio 13, 2017

a grande procissão

parece que afinal é hoje no Marquês.

Adenda: que se passa com este país?: dois santos duma assentada, o tetra do Benfica e a vitória inédita no festival da Eurovisão a somar à ONU, ao CR7, à vitória do Euro, ao mundial de hóquei, à Geringonça... Depois da depressão da troika, não se aguenta tanta felicidade...

arquivo: «Mulheres de Atenas» (Chico Buarque, 1976)

sexta-feira, maio 12, 2017

começar

Qualquer dos três incipit é bom: Abel Botelho  faz com que queiramos saber de imediato de que  justeza se trata; Raul Brandão já nos sobressaltou antes de chegarmos ao segundo ponto de exclamação; por sua vez, Nuno Bragança deixa-nos logo com um sorriso, até porque já se sabe que a forma como ele pega nas palavras nunca mais nos dará descanso até ao fim do livro

1898: «[15 de Fevereiro de 1893.] É justo.» Abel Botelho, O Livro de Alda

1903: «-- Ai que ma levam!, ai que ma levam!» Raul Brandão, A Farsa

1970: «Criado embora entre hálitos de faisão, cedo me especializei na arte de estender os braços.» Nuno Bragança, A Noite e o Riso 

quinta-feira, maio 11, 2017

arquivo: «Mood Indigo» (Duke Ellington And His Famous Orchestra, 1930)

Sou donde estou e só sou português / por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez
Ruy Belo

terça-feira, maio 09, 2017

começar

Fica-se mais fatigado a ler o incipit  de Abel Botelho (aliás, um romance importante) do que o de António Lobo Antunes, uns furos abaixo do livro de estreia. António Alçada Baptista com um livro interessante, por uma vez (comparar este início com os anteriores). O vento de Filomena Marona Beja tresanda a Antiguidade.
O título: O Eléctrico 16.

1901: «-- Essa ceia está pronta? -- perguntou enfastiado o Serafim, cuja figura esgalgada e curva, rendo vencido o último degrau da escada, assomava oscilando à porta da cozinha.» Abel Botelho, Amanhã

1979: «O Hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar: de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquele Júpiter de sucessivas faces surgia-lhe à esquina da enfermaria de pasta de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante:» António Lobo Antunes, Memória de Elefante

1989: «Quando, há muitos anos, o Sr. Trocato me contou as razões por que não acreditava na história que corria sobre a morte do Dr. Júlio Fernandes da Silva e da mulher, eu não tive dúvida de que aquilo foi um crime porque me lembrei logo da minha tia Suzana.» António Alçada Baptista, Tia Suzana, Meu Amor

2013: «Ali, o vento emprenhava as éguas.» Filomena Marona Beja, O Eléctrico 16

segunda-feira, maio 08, 2017

50 discos: 12. CARAVAN (1968) - #5 «Cecil Rons»


Macron e a União Europeia

Um aspecto positivo da campanha de Macron foi o da defesa da União Europeia, sem vacilações, numa altura em que ser contra ela dá assinaláveis dividendos políticos. Positivo, porque o simples bom senso e a elementar racionalidade evidenciam que não há qualquer alternativa sensata e racional, para quem não for nacionalista, xenófobo ou albanês (corrente hoxista), mesmo com a crise profunda que a UE atravessa.
É claro que esta assunção elementar de racionalidade política de pouco servirá se Macron se limitar a seguir os passos dos antecessores. Se, pelo contrário, quiser salvar a União, tem todas as condições políticas para se impor à Alemanha e respectivos satélites, condições que decorrem da autoridade moral com que soube defender o projecto europeu dos ataques da extrema-direita, e mesmo da tendência hoxizante de alguma esquerda. A aparição pública diante dos apoiantes junto da Pirâmide do Louvre ao som do Hino à Alegria coroa, pelo simbolismo, essa linha europeísta e dá-lhe ainda mais força para defrontar, dentro da UE, aqueles que por cegueira, egoísmo ou inépcia a conduziram a um beco sem saída. Força, tem-na; é só querer e saber usá-la. Se o fará, veremos. 

arquivo: «La Fiesta» (Woody Herman, 1973)

domingo, maio 07, 2017

na vitória de Macron

Nos dois discursos de vitória, Macron falou na validade do projecto das Luzes para a Europa e, concomitantemente, enunciou a divisa da Revolução Francesa, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, o que foi bom. Nos tempos que correm, para mim é suficiente. O resto, o tempo o dirá.

começar

Da deliciosa simplicidade ingénua de Sarah Beirão, de que a narrativa não se desviará, à fábula onírica de Miguel Barbosa, passando pela literatura marie-claire de António Alçada Baptista. Um despojamento directo e seco num grande romance de António Lobo Antunes e, finalmente, aquele «uma velhice tão antiga» que é elemento perturbador e toque de grande arte do livro de Baptista-Bastos. Dos títulos, balanço entre Cão Velho Entre Flores e Auto dos Danados.

1952 [?]: «Vivia-se com muitas dificuldades naquela pequena aldeia da Beira Alta.» Sarah Beirão, Triunfo

1974: «Quem vem do palácio real e desce a calçada vê à direita um carvalho com as raízes expostas e uma velhice tão antiga que nem a Primavera rejuvenesce.» Baptista-Bastos, Cão Velho Entre Flores

1985: «Na segunda quarta-feira de Setembro de mil novecentos e setenta e cinco comecei a trabalhar às nove e dez.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados

1988: «Temos dificuldade em compreender nos outros aquilo que não somos capazes de viver.» António Alçada Baptista, Catarina ou o Sabor da Maçã

2008: «O rio, a árvore e o rouxinol tinham a razão de existir idêntica à do dia arrastado pelas metamorfoses sombrias da noite e pelo vento frio do norte.» Miguel Barbosa, Anatomia de um Sonho

sexta-feira, maio 05, 2017

50 discos: 11. CHEAP THRILLS (1968) - #5 «Turtle Blues»


começar

Em João Pedro de Andrade o interdito vela-se por detrás da frase anódina -- o título da novela, aliás excelente, põe-nos de sobreaviso.  Do livro de estreia, que não o primeiro, de António Lobo Antunes, uma torrente, contrário ao que pareceria desejável. A mestria é, porém, tanta, que é o longo incipit que nos fica à maneira de fim de rebuçado. Augusto Abelaira, em maré de XVIIª (1983), põe-nos a bordo de uma nau quinhentista. Não se trata, contudo, de um romance histórico, antes um afloramento da reconhecível faceta irónica e crítica do autor -- tanto quanto me lembro da leitura, com décadas. O incipit de António Alçada Baptista dá a medida do catolicismo light do romance, aliás intragável. Finalmente, o de Miguel Barbosa reitera um coloquialismo que em tempos deu frutos.

1942: «Desde o inverno que Jaime andava a falar na visita do seu sobrinho Luís.» João Pedro de Andrade, A Hora Secreta

1979: «Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do rinque de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.» António Lobo Antunes, Os Cus de Judas

1982: «Embarquei-me enfim com a minha fazenda numa nau que ia com muitos cavalos e pimenta em que era capitão Dias de Almeida, de alcunha o Tigre, filho do conde de Alcântara, o qual carregava a ossada do pai para Goa, donde seguiria para Coimbra, dando cumprimento a uma ordem de El-Rei Dom Manuel.» Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso

1994: «A letra de Deus nem sempre é decifrável e ninguém conhece a língua em que escreveu a alma humana.» António Alçada Baptista, O Riso de Deus

2010: «Eu tinha chupado a vida por uma palhinha e o que restava dela e de mim era um monte de ossos de algum sebo!» Rusty Brown (aliás, Miguel Barbosa), Os Crimes do Buraco da Fechadura

(o título: Os Cus de Judas)

quinta-feira, maio 04, 2017

o debate Macron-Le Pen, ou o deus-milhão e o campo de concentração

Assisti a quase todo o debate. Excessivamente agressivo de parte a parte, mas já se esperava. Le Pen a encostar Macron a financismo predatório, sem novidade; Macron a mostrar a verdadeira face de Le Pen, a do chauvinismo.


As coisas não são, porém, assim tão simples: reduzir Macron a homem de mão dos potentados financeiros e Le Pen a uma edição actualizada do pai, embora não seja totalmente falso, traduz-se num esquisso caricatural que serve para a indigência dos telejornais e para a fauna peticionária do facebook, mas que resulta num primarismo de análise que a complexidade do(s) problema(s) não sustenta.


Macron deixou Le Pen a patinar com a questão da saída da França do euro, neste sentido: numa economia integrada como a da Zona Euro, o abandono de um dos seus membros, neste caso a França, traria uma avalancha de custos que resultaria insustentável para o status quo, não apenas económico mas também político. Macron tem aqui toda a razão, mas  o que nenhum disse é que a saída da França do euro implicaria o fim da moeda única, e, nesse caso, o problema posto por Macron deixaria de existir. Não havendo moeda única, seria o regresso às moedas nacionais, e aí, a França, como uma das grandes economias mundiais, teria argumentos superiores a outros países, como, por exemplo, Portugal. Le Pen poderia ter explorado este caminho, no entanto, é possível que tenha querido evitar abordar (mais) um cenário de débacle, guardando possíveis argumentos para a sua proposta de referendo sobre a permanência da França na União Europeia.


Le Pen tomou a iniciativa e marcou pontos no tema do radicalismo islâmico. Fez orelhas moucas ou esquivou-se como pôde às farpas desferidas por Macron sobre o cadastro da Frente Nacional em matéria de racismo e xenofobia e revolveu, e bem, a chaga do laxismo da república em relação ao fundamentalismo islâmico, ao defender, e de novo bem, a dissolução de todas essas pretensas associações culturais e desportivas espalhadas de norte a sul da França, fachadas legais e veículos do fascismo islâmico, contando com a cumplicidade interesseira dos maires, da direita à esquerda, a troco duns milhares de votos para as respectivas reeleições. E tão bem sucedida foi nessa argumentação que, onde Le Pen dizia mata!, Macron jurava esfola!.


Acredito numa vitória de Macron, por poucos, no que será uma derrota para esta V República, que parece moribunda. Quanto a Le Pen, penso que terá uma grande votação, o que fará sempre dela uma vencedora, e, numa conjuntura semelhante, futura presidente.


Quanto aos democratas e pessoas de esquerda que dizem não votar em Macron, o único qualificativo que lhes assenta é o de tontinhos, pois se estamos em modo de caricatura, a escolha que se lhes apresenta é esta: o 'deus-milhão' ou o campo de concentração. Há dúvidas entre um e outro?...


criador & criatura


Charles M. Schulz e Charlie Brown



terça-feira, maio 02, 2017

O meu misticismo é não querer saber. É viver e não pensar nisso.
Fernando Pessoa / Alberto Caeiro

50 discos: 10. THE DOORS (1967) - #5 «Alabama Song (Whiskey Bar)»


segunda-feira, maio 01, 2017

começar

Escolher um início de narrativa, esquecendo todo o livro que vem a seguir, é difícil, Nestes cinco livros há de tudo para mim: o excelente (As Primeiras Coisas) e o detestável (Aldeia das Águias); o indiferente (A Cidade das Flores), o desafiante (A Torre da Barbela) e o intrigante (A Voz dos Deuses). 
Se Ruben A. consegue levantar a sobrancelha, impelindo-nos à leitura interessada e Bruno Vieira Amaral introduz um problema individual, com todas as possibilidades em aberto, em oposição ao bocejar existencialista que se desenrolará em Abelaira, o de João Aguiar traz consigo uma ressonância trágica, seca e límpida, algo que os adjectivos de Guedes de Amorim são incapazes de emprestar àquele crepúsculo.
Não tivesse eu uma opinião formada sobra cada uma das obras e a minha escolha seria a mesma? talvez não.

em 1939: «Rápido, roxo e frio vinha o crepúsculo.» Guedes de Amorim, Aldeia das Águias

em 1959: «Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses.» Augusto Abelaira, A Cidade das Flores

em 1964: «Sempre que do portão se avizinhava mero turista ou descobridor de mistérios e o sino ficava longo tempo a retinir pela ribeira, ouviam-se pesados bate-lajedos de caseiro em movimento.» Ruben A., A Torre da Barbela

em 1989:  «Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale.» João Aguiar, A Voz dos Deuses

em 2013: «Quando, em finais dos anos noventa, voltei costas ao Bairro Amélia, com os seus estendais de gente mórbida, a banda sonora incessante das suas misérias, nunca pensei que a vida me devolveria ao ponto de partida.» Bruno Vieira Amaral, As Primeiras Coisas

em tempo -- título preferido: Aldeia das Águias).

arquivo: «The Jive Samba» (Cannonball Adderley Sextet, 1962)

domingo, abril 30, 2017

Yes sem Chris Squire

Formados em 1969, os Yes terão sido das bandas com a formação mais instável. Todos entraram, saíram, uns regressaram e voltaram a saír, alguns definitivamente. Todos menos o extraordinário baixista Chris Squire, falecido em 2015.
Este ano, aqui estão eles: Jon Anderson, o único fundador presente, na voz; Steve Howe, guitarras; Rick Wakeman, teclados; Alan White, bateria; Trevor Rabin, guitarra. No baixo, uma mão de vulto: Geddy Lee, baixo e voz dos Rush. 

50 discos: 9. OS AFROS SAMBAS (1966) - #5 - «Canto do Caboclo da Pedra Preta»


quinta-feira, abril 27, 2017

estante: A VOZ DOS DEUSES (1984)

Não tenho especial apetência pelo chamado romance histórico nem por qualquer outro género: sou leitor de romances tout court, o que não significa que grandes obras de ficção não se realizassem sob essa designação. Talvez quanto mais falsamente 'histórico', melhor o romance. Memórias de Adriano (1951), de Marguerite Yourcenar, por exemplo. Ou então, se saído da pena de um Alexandre Herculano, que escrevia em romance o que nas obras historiográficas não podia, à falta de suporte documental e material.

Vem isto a propósito de um saboroso romancinho que li quando se publicou (reparo agora que tenho a primeira edição): A Voz dos Deuses (1984), de João Aguiar. Coincidentemente, ou não, andava por essa altura mergulhado na parte lusitano-romana das Religiões da Lusitânia (1897-1913), do Leite de Vasconcelos, e a impressão que me ficou foi a de que João Aguiar (1943-2010) conseguiu realizar uma ficção meritória com o rigor exigível. Viriato foi uma fascinante figura fantasmática e primacial de antes-de-Portugal, chefe guerreiro dos irredutíveis lusitanos que defrontaram Roma -- a superpotência da Antiguidade. E fê-lo com um sentido táctico extraordinário. Não seria, na história da humanidade, o último pequeno povo a defrontar e provocar danos terríveis a um império dotado de uma máquina de guerra colossal.

O narrador é «um companheiro de armas de Viriato», Tongio, filho de um sacerdote e guardião do templo de Endovélico, divindade lusitana, personagem que dá testemunho de um mundo que finda, de devastação e bruma, circunstância que Aguiar apresenta muito bem no incipit do romance, o primeiro período do «Prólogo»: «Arcóbriga e Meríbriga são cidades mortas desde que os habitantes foram obrigados a descer para o vale.» (p. 11) Notas tomadas em «tabuinhas de cera», posteriormente transcritas: «Além, naquele cofre reforçado com chapas de ferro, guardo o meu tesouro mais precioso, alguns rolos de papiro (o melhor papiro do Egipto) onde copiarei de forma definitiva os texto ensaiados na cera.» (p. 12)

Não é o génio de Yourcenar nem o bronze de Herculano, mas não envergonha.

arquivo: «It's A Man's Man's Man's World» (James Brown, 1966)

quarta-feira, abril 26, 2017

criador & criatura

fonte

Jean Ache e Arabelle


estante: A CIDADE DAS FLORES (1959)

Compreende-se o entusiasmo dos leitores de 1959, quando se depararam com um romance que retratava um beco sem saída da juventude na Itália de Mussolini, mas que de facto reflectia o sufoco insuportável que experimentavam no Portugal de Salazar.

O romance de estreia de Augusto Abelaira (1926-2003) envelheceu mal, porém. Personagens problemáticas e palavrosas, narrador palavroso e problemático; atmosfera cinzenta, espelho do cinzentismo do país nos anos cinquenta. Portugal deveria ser então irrespirável para os jovens urbanos da classe média. Li-o sem um frémito. 

A modorra anuncia-se desde o incipit«Sentado, as pernas cruzadas, uma das mãos no bolso e a outra a brincar com o lápis, Giovanni Fazio observava os passos, para diante e para trás, dum casal de ingleses.»


A angústia existencial é dada, na mesma época, com outra desenvoltura e traquejo por Vergílio Ferreira (é o ano de Aparição, talvez também sobrevalorizado em face de outros, anteriores e posteriores, hei-de pensar nisso), dez anos mais velho. 


O Abelaira ironicamente problematizador e estimulante que conheço das crónicas, literárias («Ao Pé das Letras») e políticas («Escrever na Água»), não me apareceu, ao contrário do sucedido com outro livro seu, lido há muitos anos e a pedir novo encontro: O Bosque Harmonioso (1982). O posfácio à segunda edição, de 1961, é, aliás, exemplo dessa qualidade de Abelaira.

50 discos: 7. CONCERTO FOR ORCHESTRA - #5 «V. Finale»


terça-feira, abril 25, 2017

estante: A TORRE DA BARBELA (1964): entre 'adigestões' e Salazar

repostagem: Entre digestões e Salazar. Ainda a procissão ia no adro, ou melhor: ainda era de dia -- o período mais desinteressante na velha Torre da Barbela --, os poucos visitantes "do costume" iniciavam a ascensão dos seus 32 metros, e já o narrador pusera o caseiro-guia, muito despachado nas suas "lérias de almanaque", em "ascrições latinas", pedras de "prumitiba" ou mortes por "adigestão" para impressionar os excursionistas, que rapidamente se desvanecerão, sem outro interesse na narrativa que não fosse o de pontuar a vetustez e decorrente interesse patrimonial do edifício -- como seria de esperar dum grupo de de excursionistas.
O registo é cómico desde o início: a fila de visitantes a caminho do alto é comparada com uma espécie de lombriga subindo por um enorme tubo digestivo, o próprio monumento:
«A bicha dentro do esófago da Torre contava para si os martírios passados naquela ascensão; uns davam  as has de alívio, outros comparavam com a escadaria do Bom Jesus do Monte, com a Torre dos Clérigos e ainda recordavam a subida ao Santuário de Lamego.» (p.8)

Ao tom farsante, imagens do remanso bucólico do país: o rio Lima, «calão e adormecido», que «nem sabia de onde vinha»; «saudades da Índia à deriva num mar vegetal», Natureza «a queixar-se do reumático», quotidiano vegetativo.

"O dono actual, burgesso" deste "monumento nacional" deixava-o ao abandono: «E talvez fosse melhor assim. Não se industrializava nem se ofendia o sagrado das pedras, testemunhas de feitos extraordinários.» (p.10) O dono da Torre que evoca o Portugal da época -- vasta paisagem para lá de Lisboa -- e o dono dele, Salazar.