terça-feira, novembro 21, 2017

no LEFFest #8

Lou Reed's Berlin, de Julian Schnabel. (EUA, Reino Unido, 2007). «Retrospectiva Julian Schnabel». Concept album  de 1973, produzido pelo grande Bob Ezrin (Aerosmith, Alice Cooper, Kiss, Peter Gabriel, Pink Floyd, etc.), foi um flop comercial e também banda sonora da vida de Schnabel, que, amigo de Lou Reed, realizou este concerto. Tê-lo visto esta noite, já valeu o LEFFest. 

no LEFFest #7

Frost, de Sharuna Bartas (Lituânia, França, Ucrânia e Polónia, 2017). «Selecção oficial -- Em competição.» Mauzote, pretensioso e propagandístico, embora tente parecer que não o é. Sem surpresa, porém, dadas as 'entidades' envolvidas. Mas, acima de tudo, mauzote.

segunda-feira, novembro 20, 2017

no LEFFest #6

Um Homem Íntegro, de Mohamad Rasoulof (Irão, 2017). «Selecção oficial -- Em competição». Alguma coisa vai mudando lentamente no Irão para que se nos apresente com um filme tão subversivo como este. Da corrupção à religião, nada lhe escapa. Filme que vem de uma das cinematografias mais interessantes e estimulantes  com que tenho contactado. Tomara o pífio cinema português, que, com as honrosas excepções, oscila entre a alarvidade atávica e o onanismo especioso, acessoriamente masturbado pela imprensa arty e tontinha (vá, também com excepções) -- quem me dera que o pífio cinema português, repete-se, a séculos luz do cinema do Irão, pudesse aprender qualquer coisa com ele. 

no LEFFest #5

Lucky, de John Carroll Lynch (EUA, 2017). «Selecção oficial -- Em competição». "E diante do nada, que fazemos? Sorrimos..." Escrito a pensar em Harry Dean Stanton, que já não o viu.

no LEFFest #4

Western, de Valeska Grisebach (Alemanha, Áustria e Bulgária, 2017). «Selecção oficial -- Em competição.» Exercício interessante a propósito do choque de culturas e de mentalidade: o estrangeiro, outro, no seio aldeão, fechado e desconfiado.

domingo, novembro 19, 2017

no LEFFest #3

O Dia Seguinte, de Hong Sang-Soo (Coreia, 2017). «Selecção oficial -- Em competição». Ou Bergman no Extremo Oriente. Óptima direcção de actores e excelentes pormenores de realização.

no LEFFest #2

Loulou, de Maurice Pialat (França, 1980). «Homegam -- Isabelle Huppert». "Loulou" (Depardieu), apenas porque se tornou na vertigem de "Nelly" (Huppert, incandescente), personagem central deste filme.

no LEFFest #1

Noutro País, de Hong Sang-Soo (Coreia e França, 2012). «Homenagem -- Isabelle Huppert». Ideia bem sacada, mas nem nem Huppert, «actriz de mestria ilimitada», nas palavras de Susan Sontag, ou o final poético chegam para salvar um argumento que se enreda e tropeça, 

sábado, novembro 18, 2017

quinta-feira, novembro 16, 2017

estampa CCLXXI - [atribuído a] Leonardo da Vinci


Salvator Mundi (c. 1490-1519)
(colecção particular)

Arrematada ontem, em Nova Iorque, por 381,6 milhões de euros, esta cifra é para mim irrelevante: se de Leonardo, esta pintura não tem preço, por isso tanto monta dar por ela 381 euros ou 381 mil milhões; se de Leonardo, o seu valor não tem preço. Epítome do génio humano, Leonardo é um dentre as poucas centenas de verdadeiros imortais, dos biliões de seres humanos que já viveram, por isso, tudo quanto saiu das suas mãos e do seu espírito  será sempre de valor inapreensível ao mercadejar dos leilões e dos coleccionadores.

Não sei se é ou não de Leonardo, a autoria está sujeita a discussão.  Para mim, leigo em história da arte, há dois dados que me parecem seguros: em primeiro lugar, trata-se de uma obra a muitos títulos magnífica; depois, afigurasse-me quase incontroverso que este Salvator Mundi não pode deixar de ter saído da sua oficina, dele só ou com os aprendizes.

E se eu fosse bilionário, caprichoso no gosto e no luxo de ter um Leonardo para contemplar em minha casa e mostrá-lo aos outros? Impossível pôr-me nesse lugar (nem mil, quanto mais bil...); porém uma aquisição como esta só faria sentido partilhando-a com a comunidade, doando-a ao país, com as devidas salvaguardas quanto à sua integridade e garantias de nunca ela ser passível de alienação. É preciso ter um ego transviado para guardar isto só para si.

quarta-feira, novembro 15, 2017

criadores & criatura

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Tibet, A, P. Duchateau e Chick Bill 

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terça-feira, novembro 14, 2017

50 discos: 37. SNAKES AND LADDERS (1980) - #5 «Look At The Moon»



sentir-se bem em sua pele

Garret era um extraordinário bon vivant; nada do que respeitasse aos prazeres da vida lhe era alheio, o que não o inibiu de alcandorar-se em figura de primeira grandeza na vida pública e cultural do seu tempo. O legado político e literário confronta bem com as fraquezas, ou fortalezas -- depende do ponto de vista --, de João Baptista da Silva Leitão. E é isso que o capítulo inicial das Viagens evidencia em cada frase. Atente-se no sumário do capítulo I:
«De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas viagens. -- Parte para Santarém. -- Chega ao Terreira do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. A Dedução Cronológica e a Baixa de Lisboa. -- Lord Byron e um bom charuto. -- Travam-se de razões os íhavos e os bordas-d'água: -- os da calça larga levam a melhor.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra [1846], Mem Martins, Publicações Europa-América, 1976, p. 9.

Todo o tom é optimista, gozoso e sadio: o prazer da partida, a literatura, a paisagem, a política, mesmo quando adversa, as pessoas, a coloquialidade e a ironia, os pequenos prazeres, o humor -- acima de tudo. O tom de alguém que agarrou a vida com as duas mãos, dela sabendo retirar recompensa estética e sensorial, permitida ou conquistada. É um estilo de alguém que se sente muito bem na sua pele.
 

segunda-feira, novembro 13, 2017

estampa CCLXX - Géza Faragó


Mulher com Gato (1913)

um país sem futuro

 Esta historieta do Panteão é acima de tudo reveladora da indignidade dos círculos do poder (o passa-culpas grotesco governo-oposição);  é uma manifestação da desvergonha do nosso atraso e da nossa saloiice: qualquer  monumento, palácio, museu está sujeito a albergar um repasto, basta ter a carteira suficientemente recheada e gosto duvidoso.
"Web Summit", nada contra e, desde o início, nenhum interesse; os orgasmos analfabetos da imprensa, ainda me deixam a rosnar sozinho, mas cada vez ligo menos. (Qualquer dia desisto -- já estive mais longe --, e arranjo um Vale de Lobos à minha pobre medida.) Porém, em face dos deslumbramentos da semana passada -- alguns, certamente justificados -- lembrava-me da sala de concertos do Conservatório Nacional, entre outras coisas que não interessam a ninguém, nem sequer ao Menino Jesus, que renasce para o mês que vem: o património histórico ao abandono, dos castelos aos clássicos da nossa língua, que deveriam ter um programa em larga escala e competência editorial em edições acessíveis, a pensar em nós, portugueses, e naqueles a quem coube em sorte partilhar o nosso idioma. Nada, nada, nada -- zero.

Por falar em memória histórica, um programa excepcional de Fernando Rosas sobre o colonialismo português, é transmitido em horário envergonhado, na RTP2, à hora dos telejornais indigentes dos três canais. O desconhecimento da História não aproveita a ninguém; pelo contrário, é substituído pelo preconceito e pelas ideias feitas -- as mesmas que não nos permitiram assumir de frente a nossa história recente, deixando entregues a si próprios quantos combateram pelo "império" e serviram de carne para canhão, alimento de básicos interesses de dominação mascarados de nacionalismo transcendente. Uma vergonha nunca vem só.
Este alinhavar desencantado -- e exemplos não me faltam --, para dizer apenas a seguinte banalidade: um país que não valoriza a sua memória histórica, senão quando ela serve para propaganda e obtenção de votos, não é só um país indigno, é também um país sem futuro.

«Basta um Dia»

domingo, novembro 12, 2017

quinta-feira, novembro 09, 2017

uma carta de Ferreira de Castro

Parece que causou controvérsia a questão do adultério da protagonista de Terra Fria (1934) na então longínqua Padornelos. Ao contrário do que pode parecer, a paciência de Ferreira de Castro foi infinita, em face dos pundonores (provincianos) desgravados.
(aqui)

estampa CCLXVII - David Inshaw


Artista e Modelo (1994)

quarta-feira, novembro 08, 2017

terça-feira, novembro 07, 2017

50 discos: 36. MAKING MOVIES (1980) - #5 «Hand In Hand»



uma terra sem amos nem apparatchiks

Já não sei quantas vezes aqui escrevi que a melhor vacina que tive para a prevenção do bolchevismo e o comunismo soviético (há outros comunismos) foi a leitura, ainda muito jovem, do Soljenitsin. O Marc Ferro também ajudou, alguns anos depois; e a visão, ainda fresca, da Primavera de Praga -- os tanques do Pacto de Varsóvia contra o povo nas ruas de Praga (o Dubcek é outro dos meus heróis, também já o escrevi, mais de uma vez).
Acontecimento magno da história do século XX, quem o duvida? Revolução mais do que justificada numa autocracia? Igualmente (a execução vil de toda a família imperial não faz esquecer os crimes de Nicolau II e do seu círculo). Que sem ela, as condições de vida dos trabalhadores ocidentais teria sido outra? Parece mais do que evidente. Nunca saberemos que caminho seguiria a Rússia sem a Revolução de Outubro, com Nicolau II ou com Kerensky. Sabemos que Lénin e Trótski tomaram e consolidaram o poder que a Rússia Branca não estava disposta a permitir, tendo, em simultâneo desbaratado os anarquistas de Nestor Makno e outros, nada dispostos a deixarem-se manietar pelos comunistas autoritários, numa velha contenda que vinha do século anterior. E sabemos, também, que a União Soviética, criada em 1922, é uma configuração de Stálin após a eliminação interna dos inimigos, reais ou supostos. É Stálin que torna a Rússia uma superpotência e é com a sua morte, em 1953, que se inicia o declínio. Krushtchev é uma válvula de escape; Brejnev, a sedimentação do estado totalitário e um novo desenvolvimento do imperialismo soviético em taco-a-taco com o americano: Vietname, Iémen do Sul, Angola, Afeganistão, cada um usando(-se) (d)os seus peões. Depois da grotesca parada de senectude ao mais alto nível (Andropov, Tchernenko), Gorbachev foi o homem certo na altura (im)própria. A circunstância de a queda da União Soviética, desmoronando-se de podre, ter ocorrido praticamente sem baixas, é um milagre bem palpável que a Humanidade deve a Gorbachev. Ieltsin (um bebedolas, provavelmente comprado pelos americanos), e Putin, um político frio e superiormente inteligente (muito mais do que gostaria o imperialismo americano -- imperialismo de rapina, como é condição de todos os imperialismos) -- (Ieltisn e Putin) são já protagonistas de outra realidade, que nem por isso deixa de ser herdeira da finada URSS, tal como esta, quando necessário, foi buscar o substrato à alma da Mãe Rússia.       

uma carta de Manuel Laranjeira

...ou da franqueza e da lealdade nas relações e na escrita.

estampa CCLXV - Barend Cornelis Koekkoek


Retrato de Jovem (1846)

segunda-feira, novembro 06, 2017

ia-me esquecendo deste...


um filme de Étienne Comar (2017)

domingo, novembro 05, 2017

Catalunha: nacionalismos, internacionalismos, outras confusões e alguns farsantes

Sou um cosmopolita e aspiro a uma Europa confederal. Faço minhas as palavras do Mitterand, segundo o qual "o nacionalismo é a guerra". É, porém, evidente -- ou deveria sê-lo para quem se detivesse a pensar um pouco -- que este cosmopolitismo, ou mesmo um internacionalismo de qualquer espécie, só é aplicável a jusante da autodeterminação. Daí que sejam especialmente patetas as observações que pretendem condenar o independentismo catalão a pretexto de uma pretensa aversão aos nacionalismos, como ontem tive a infelicidade de ouvir a dois legumes. Seria como se condenássemos os nacionalistas angolanos, moçambicanos e guineenses, que pretendiam ver-se livres da tutela portuguesa, em nome de bonitos princípios.  Princípios de resto que estes indivíduos evocam conforme lhes apetece -- dando de barato, com alguma boa-vontade de que sabem do que falam, o que nem é certo.

E a propósito de princípios, gostaria que me demonstrassem de que modo alguém pode afirmar-se democrata, se endossa de bom grado ao poder vigente a possibilidade de impedir que um povo possa ser auscultado sobre a sua  autodeterminação. Não é claramente um democrata; não passa dum oportunista e dum farsante se se disser tal.

Mais: como pode alguém definir-se como liberal (um termo nobre, diga-se), liberal numa concepção de largo espectro, que pode ir dum certo conservadorismo não-reaccionário até ao liberalismo mais extremo, que é o anarquismo, como se pode definir esse alguém como liberal se pactua e aplaude o poder da força de um estado central? Será um liberal de acordo com as suas conveniências. É pouco, não serve, não interessa.

 (Curiosamente a luta pela autodeterminação catalã, não apenas lá, como cá, compreende um conjunto de defensores muito lato, precisamente do conservadorismo ao campo libertário. Do outro lado, por cá, descontando os que não sabem o que dizem, os autoritários, os argentários e suas derivações e uma categoria de criaturas que está comprometida com o poder, lesto em assinar por baixo as directivas de Rajoy.) 

estampa CCLXIV - Agda Holst


Vista do Meu Estúdio

sexta-feira, novembro 03, 2017

"Puigdemont no país de Hergé"

Tomás Serrano


Concentrar o foco no líder político Carles Puigdemont revela uma de duas coisas: ou uma pobreza analítica que confrange, como se a questão catalã pudesse ser reduzida a um homem -- um dentre muitos no seu próprio partido, o PDeCat, já não considerando a ERC, a CUP e principalmente aqueles que não têm partido...; ou mera caixa de ressonância, propositada ou involuntária, do espanholismo madridista, um pântano em que germinam os herdeiros políticos e judiciários do franquismo, e no qual vicejam e singram os interesses mais básicos* -- ai Deus do Céu, que radical e extremista me saí, pobre pai de família pequeno-burguês que acima de tudo quer que não o macem...  
Dito isto, denunciar a fuga de Puigdemont para Bruxelas como um abandonar de barco (aliás, os que o fazem de boa-fé, não manifestam mais do que uma convicção palpitante), é duma precipitação arriscada. Eu prefiro vê-la -- e até agora não tenho razões para crer no contrário -- como uma retirada estratégica de enorme inteligência e alcance de quantos estão à frente do processo independentista, como aliás se verifica pelos erros sobre erros que a facção madridista comete. Aliás a posição de Oriol Junqueras, o vice-presidente do governo catalão e dirigente da ERC, ominosamente preso em Madrid, indica de que é disso que se trata.   
(Ah, e viva Hergé!)


*(ler a entrevista do líder da associação patronal espanhola ao i de hoje, notável pelo que revela -- ainda não consegui o link).



Estúpido de seu natural, o franquismo vai mordendo os iscos

Sem prejuízo de análise mais fina, registo o enterranço do espanholismo, que se põe a si próprio numa posição insustentável: até 30 anos de cadeia?; quanto milhões de euros de fiança? Daria vontade de rir, se não fosse grave. Entretanto, o independentismo catalão quanto mais acossado, mais forte, neste jogo do gato e do rato, sem erros, com uma bem sucedida estratégia de internacionalização e ainda sem um morto, felizmente. O franquismo, estúpido de seu natural, a morder todos os iscos.

quinta-feira, novembro 02, 2017

uma carta de António Sérgio

Carta que espelha o ambiente das elites intelectuais no final da República: António Sérgio, elemento da Seara Nova, grupo que se situava na ala mais à esquerda de regime; António Sardinha, o membro mais destacado do Integralismo Lusitano, defensor da monarquia tradicional, cujo órgão era a Nação Portuguesa. No entanto, para além dos pólos opostos em que ambos os grupos se situavam no espectro político, por mais de uma vez convergiram na acção cultural, de que a revista Lusitânia foi um dos exemplos. Sérgio, escreverá o seu artigo polémico na Seara, mas já não obterá resposta de Sardinha, que entretanto falece. É muito interessante verificar que o jovem Castelo Branco Chaves (24 anos) é o mediador deste desentendimento, -- suscitado pelo livro de Manuel Múrias, O Seiscentismo em Portugal (1923) --, uma vez que fora monárquico integralista, sendo o seu primeiro ensaio, um livro sobre Fialho de Almeida, prefaciado por Sardinha. E como explica Luísa Ducla Soares, a editora desta correspondência, Sérgio, instigado pelo brilho do jovem intelectual, tomou a iniciativa de o conhecer, forjando-se uma amizade entre ambos que levaria Chaves para as fileiras da Seara Nova. (aqui)

50 discos: 35. REGATTA DE BLANC (1979) - #5 «Deathwish»



quarta-feira, novembro 01, 2017

caderninho

«Para o homem sábio toda a terra é utilizável, porque a pátria da alma excelente é todo o mundo».
Demócrito

segunda-feira, outubro 30, 2017

sábado, outubro 28, 2017

o enxovalho

Se Portugal defende o direito à auto-determinação dos povos, princípio basilar do direito democrático e da carta das Nações Unidas, não podia nem devia assobiar para o lado quando esse princípio está posto em causa, e há mil e uma maneira de fazê-lo diplomaticamente. Pelo contrário, a forma como os líderes políticos se têm referido ao assunto, para agradar a Madrid, é indecente e indigna. Indecente, porque dão a imagem de um país de rabo alçado; indigna, porque se fossem políticos com princípios, tinham obrigação de nutrir alguma empatia pela vontade de autodeterminação dos catalães, sabendo-se pôr no seu lugar. Porque, se 1640 tivesse corrido mal, como correu aos catalães, poderíamos estar em situação semelhante: depois de séculos de domínio e repressão, prisão e morte dos líderes independentistas, proibição da língua, teríamos hoje de ouvir um primeiro-ministro a dirigir-se-nos em castelhano, a partir de Madrid, a insultar-nos e ameaçar-nos, e toda uma classe política, dum franquista prático como o líder do Ciudadanos a uma nulidade como o secretário-geral do PSOE, a perorar sobre a nossa aspiração à liberdade. Pior: poderíamos estar agora, na eventualidade de a Catalunha, bem sucedida então na guerra de independência, aparecer com líderes simétricos aos nossos, com comentários acintosos, como os vergonhosos proferidos pelo ministro Santos Silva, pessoa que até agora me merecia respeito intelectual.
Neste momento, já nem é vergonha o que sinto pela atitude do governo  e do PR; sinto-me enxovalhado por, em nome de Portugal -- também em meu nome, portanto -- se apressarem a dar a Madrid uma solidariedade de que ela não é credora.
Se a situação vier a evoluir no sentido correcto, o da autodeterminação, graças à coragem e perseverança dos catalães, com eles estará a razão da ética e da História (aliás, estará sempre, mesmo em caso de derrota); e quanto a nós ficará a nódoa, que poderá ser remediada ou esquecida, mas nunca apagada.

AND I LOVE HER

Catalunha, 27 de Outubro de 2017

Podem arranjar os argumentos que quiserem: a constituição espanhola, a economia, a União Europeia; podem fazê-lo com a simplicidade de quem está de fora e não saiba avaliar o peso da História; podem fazê-lo com o cinismo e a desonestidade intelectual de quem pensa primeiro na bolsa, e depois na bolsa, e só depois na bolsa. Uma coisa é insofismável: esta é uma data histórica em que um povo, desapossado de um estado desde o século XV, se vê restaurado na sua dignidade -- independentemente do que aconteça amanhã. Os castelhanos podem vir por terra, mar e ar, podem sufocar a libertação pelo sangue (mas só pelo sangue). E mesmo que o absurdo prevaleça, mesmo que seja apenas mais uma etapa, nem assim conseguirão apagar este dia. 

quinta-feira, outubro 26, 2017

KONGUROI

o inverno é um balanço espesso / uma lama que cerca o coração
Manuel Afonso Costa

terça-feira, outubro 24, 2017

escrever sobre o cromo

Não, não vou gastar o meu latim com o cromo; já lhe caiu o céu em cima da cabeça, merecidamente. Sabe Nosso Senhor quão bem apetrechado doestos é o meu alfobre, e como me apazigua a eles recorrer; mas se passados uns anos aqui vier tropeçar, faço questão de nem saber a quê ou a quem estou agora a referir-me. 

domingo, outubro 22, 2017

1147 -- A Conquista de Lisboa na Rota da Segunda Cruzada, de Miguel Gomes Martins (Esfera dos Livros)
Até que as Pedras se Tornem Mais Leves que a Água, de António Lobo Antunes (Dom Quixote)
DesAparições, de Alexei Bueno (Exclamação)
A Revolução Russa, de Sheila Fitzpatrick (Tinta-da-China)
A Última Viúva de África, de Carlos Vale Ferraz (Porto Editora)







YOUR SONG

sábado, outubro 21, 2017

Sócrates: isto está a ficar cómico

Correndo o risco de me chamarem socrático -- para o que, devo dizer em bom português, me estou a cagar --, a trágica semana que passou teve, pelo menos, dois afloramentos sobre Sócrates plantados nos noticiários, particularmente cómicos pelo que parecem revelar duma certa aflição do Ministério Público em fazer prova das acusações em que "acredita" (entre aspas, porque é um termo muito utilizado pelo jornalistas a quem têm sido servidas fatias do processo, ao longo dos último meses):~

a primeira que li por aí é que -- para responder à perplexidade de Sócrates ser acusado de corrupção nos casos Parque Escolar, PT, TGV e Vale do Lobo, enquanto os ministros das respectivas pastas saíram incólumes -- dava-se conhecimento à opinião pública de que os governantes foram manipulados, não tendo consciência do que estavam a despachar. Fui ver a composição dos governos, e verifiquei que nas pastas das Finanças, Ambiente, Economia, Educação e Obras Públicas, Transportes e Comunicações, estiveram: Campos e Cunha (o único que se pôs ao fresco), Teixeira dos Santos, Nunes Correia, Dulce Pássaro, Manuel Pinho, José Vieira da Silva, Maria de Lurdes Rodrigues, Isabel Alçada, Mário Lino e António Mendonça. É capaz de ser gente a mais a revelar-se tão ingénua e/ou impreparada. Enfim, parece-me difícil;

a segunda, típica campanha orquestrada, foi a de ontem: "Sócrates não é engenheiro", titularam todos os media, a partir de um esclarecimento difundido pela respectiva Ordem, vindo, obviamente,  confundir a opinião pública (ah, o curso...). Ora acontece que Sócrates é mesmo engenheiro por formação académica, um engenheiro que não exerce, como sucede a tanta gente: Fialho de Almeida era médico, médico era Jaime Cortesão, enquanto que o seu irmão, Armando Cortesão, foi engenheiro agrónomo, ou Jorge de Sena, engenheiro civil. Nada disto é extraordinário, mas percebe-se o objectivo, o que leva-me a perguntar: está o MP assim tão inseguro? E, já agora: giro, giro teria sido a distinta Ordem dos Engenheiros pronunciar-dr quando Sócrates era primeiro-ministro. Agora, presta-se ao pouco dignificante papel de vir ajudar a malhar em quem, com razões ou sem elas, está no chão. 

quarta-feira, outubro 18, 2017

O discurso do PR e outras coisas acessórias

Marcelo Rebelo de Sousa proferiu uma declaração política sem mácula para o momento que se vivia, justificando plenamente as funções que exerce e a existência do próprio cargo na forma como é moldado pela constituição. Talvez tenha de recuar ao mandato de Ramalho Eanes para encontrar momentos tão substantivos da actuação presidencial. Nem Soares nem Sampaio, que me recorde, tiveram um momento com estes contornos, pelo menos em público. (Nem vale apena falar de Cavaco, um indivíduo que nunca teria dimensão para ir além de secretário-de-estado, e cuja investidura como chefe de governo e do estado exibe a indigência das elites políticas.).

O governo de António Costa merece censura? Merece-a toda, neste particular. São dois anos de executivo, é inútil argumentar com a pesada herança de Passos, que, tendo governado contra os portugueses, não se lhe podem ser assacadas responsabilidades pela balbúrdia na Protecção Civil.

Merecendo ser censurado, a reprovação já foi feita pela opinião pública, que felizmente tem cada vez menos pachorra para deixar-se iludir. Daí que seja também com justificado asco que as pessoas olhem para o oportunismo político de uma Assunção Cristas, anterior ministra da Agricultura -- a tal que recorria à 'fé' para enfrentar a seca, fé certamente emponderada (para usar uma palavra horrível) com muitas orações e genuflexões. Portanto, não será por aqui que o governo cairá, só se o PCP e o BE não tiverem também eles pudor.

Finalmente, sem ter pretensões a conselheiros político, será bom que a escolha do próximo MAI recaia em alguém com arcaboiço político suficiente para enfrentar a matilha da direita parlamentar. Esta faz lembrar aqueles documentários do David Attenborough: os chacais rodeando a manada de búfalos, à espera que uma mãe se distraia com a cria ou que um indivíduo velho ou doente fique para trás, esgotando-o pela fadiga. Tentaram-no com os ministros das Finanças, da Economia e da Educação, que chegaram bem para eles, cada um com o seu estilo; estão-no a fazer com o da Defesa, que tem também cabedal, mas que talvez não consiga resistir à enxurrada. Isto não é para ministros sem experiência política (lembremo-nos do desastre da ministra de Passos, que, sabe-se lá porquê, foi buscá-la à Universidade de Coimbra e, apesar da fachada de màzona, saiu trucidada), não é para carne tenra, é para ursos como, por exemplo, Carlos César ou outros do mesmo tipo, com experiência e peso político. Aliás, se há coisa que me dá gosto ver é quando o líder parlamentar do PS, com a brutalidade, sempre necessária mas nunca vulgar, para os que não têm vergonha, deixa knockout a direita parlamentar. 

segunda-feira, outubro 16, 2017

a falência do Estado

Não me apetece nada escrever em cima do acontecimento, mas ver as imagens do centro e norte do país a arder, nas cidades, vilas e aldeias, nas autoestradas e vias férreas provocam uma angústia indizível.

Décadas de abandono do interior, envelhecimento populacional, regime de propriedade obsoleto não alterado por cobardia ou cálculo político, falta de civismo das populações (o analfabetismo e o atraso com que o país foi governado até ao 25 de Abril de 1974 pagam-se caro e reflectem-se na indigência das chamadas elites políticas deste país, de Norte a Sul).

Sim, pois, as alterações climáticas, ah, e os eucaliptos também. Há pouco ouvi o meu conterrâneo Eugénio Sequeira afirmar que temos dez vezes mais ignições do que o resto da Europa, e não será por sermos dez vezes mais estúpidos. Pois não, provavelmente será por sermos dez vezes menos qualificados, por termos uma administração miserável, sempre em reestruturações, com a criação de múltiplos centros de decisão intermédios, cargos de chefia e papelinhos a subir e a descer, em que aos bombeiros se veda a acção antes da decisão dos coordenadores da protecção civil, com as suas parvas boinas militares e as aldrabices nas habilitações de cursos tirados à pala das equivalências, uma das muitas burlas que grassa por este país, a somar à legislação imbecil parida uns tipos quaisquer a partir dos gabinetes para somar à pobreza e à velhice das populações rurais.

O que espero do conselho de ministros especial de sábado é a extinção desta coisa da Protecção Civil e a criação para ontem de um novo organismo, aproveitando o que houver a aproveitar, a partir dos relatório dos peritos; é a eliminação das negociatas com os privados; é a reforma da propriedade rural, o fim do nanofúndio; é o fim da 'época de incêndios' com folha no calendário. E que essa comissão de peritos prossiga o trabalho, cooptando peritos em áreas não representadas, se for caso disso e reforme o Portugal rural. Aliás, o PR, pelo poder de influência política decisivo que possui, pode exercer um papel decisivo, se não se limitar a visitas de condolências, que também são precisas, mas não chegam.

a propósito dos livros de Sócrates

Não li nenhum dos livros de Sócrates porque não fazem parte das minhas prioridades; aliás, nem às minhas prioridades de leitura consigo dar vazão, quanto mais...

A história do ghost writer dos livros de Sócrates é outra das que me parece bastante, digamos, problemática. Sabemos que sujeitou versões dos livros a várias pessoas -- Vital Moreira assumiu ser uma delas --, o que nada tem de extraordinário: duvido que Sócrates tenha um estilo imaculado, pelo que o recurso a alguém que ponha em linguagem uma prosa eventualmente árida, parece-me normal; além disso, tratando-se de obra académica na sua génese, a submissão dos textos a professores universitários das suas relações é algo de trivial. (Por mim, pode até revelar uma excessiva prosternação pela Academia, mas isso será lá com ele). Por outro lado, até os inimigos mais viscerais lhe reconhecem inteligência e capacidade de trabalho, por isso as minhas perplexidades são:
 
1) precisava Sócrates de alguém que lhe escrevesse as obras? Por muito aldrabão que o homem possa ser, parece-me uma suspeita infantil de quem toma os revisores dos livros -- a título gratuito ou remunerado, é indiferente -- pelos seus autores;

2) o 'suspeito' destes cometimentos é um professor de Direito da Universidade de Lisboa, com um nome a defender, Domingos Farinho. Um ghost writer? Enfim, haverá gente para tudo...

3) leio nos jornais que o apresentador do último livro de Sócrates foi Pedro Bacelar de Vasconcelos, uma das figuras mais respeitáveis e respeitadas da vida pública portuguesa. Como Vasconcelos não é propriamente um boy partidário (e se o fosse, de certeza que não estaria ali, com medo de sair chamuscado), a sua intervenção tem um evidente significado, o primeiro dos quais é a de que tem o hábito de pensar pela sua cabeça, ao contrário, de resto, do jardim zoológico mediático.

Não sei o que move Vasconcelos; talvez seja como eu (embora em muito maior grau, dadas as suas  categoria e exposição pública): talvez prefira correr o risco de enganar-se ou ser enganado, a integrar as hordas de linchamento; e também não deve ser um videirinho da política, dos que estão quietos para não se comprometerem.

sábado, outubro 14, 2017

Piotr Riabov: historiador anarquista preso na Bielorrússia, em greve de fome


Historiador do movimento anarquista russo, Piotr Riabov, detido na Bielorrússia, entrou em greve de fome. Notícia aqui.

a entrevista de José Sócrates

Acabei de vê-la há pouco, depois de vir do cinema. Um filme que está aí a passar sobre o Django Reinhardt (um papelaço de Reda Kateb). Recomendo.

E então que vi eu? Um combate desigual, em que o animal feroz desfez o jornalista. Não deve ser fácil entrevistar Sócrates, mas também não estou a ver em televisão um profissional com suficiente arcaboiço para, com firme serenidade e correcção, não se deixar intimidar, nem por Sócrates nem pela opinião pública e pela opinião publicada. O nosso homem, com medo do que viessem a dizer dele cá fora, pôs-se com apartes e observações sonsas, que quase fez lembrar aquele pateta que uma vez o confrontou no Telejornal, no espaço de comentário que o antigo primeiro-ministro tinha, como se estivesse ali a debater de igual para igual. De qualquer modo, a RTP prestou um serviço público, e é para isso que ela serve.

Quanto à substância, dificilmente a entrevista poderia ter corrido melhor a Sócrates. Pelo que vi, e com os dados que tenho, que são os de toda a gente, desmontou praticamente tudo: do andar em Paris à questão do primo, a goldenshare da PT e o conluio com o BES, a história do tgv e a outra de Vale de Lobo. A história do quadro do Júlio Pomar foi cómica.E mesmo a questão mais bizarra dos empréstimos em numerário, desembaraçou-se bem da coisa, trazendo o amigo à liça. Cabe a este confirmar ou infirmar Sócrates. Se confirmar, como possivelmente o fará, depois como é? Ah, e se o melhor que têm é a declaração do gajo que está em Angola e que não podia vir a Portugal para não ser preso e afinal veio para fazer o jeito ao MP, esqueçam -- é a palavra de um contra a de outro. E não me parece que a palavra do tal Bataglia tenha uma cotação particularmente alta. (E por favor: não se diz 'Bataguelia', mas 'Batalhia').

O jornalista estava mal preparado? Não, pelo contrário. Voltou-me a ideia fundamentada de que o trabalho do Ministério Público é uma borrada monumental. E se Sócrates, que não é jurista, conseguiu instalar pelo menos fortes dúvidas sobre o trabalho do MP, o que não farão as raposas velhas da barra dos tribunais?

quarta-feira, outubro 11, 2017

50 discos: 32. I CAN SEE YOUR HOUSE FROM HERE (1979) - #5 «Survival»



Sócrates acusado

Agora é que se vai ver, aqui ou em instâncias europeias não amancebadas com o tabloidismo.
A ser verdade aquilo a que a defesa de Sócrates já qualificou como romance, há que tirar o chapéu aos tomates dos agentes judiciários, apesar das evidentes práticas pouco católicas na observância da lei (é triste, não é?...). Se for uma obra de ficção, então há que assacar-lhes responsabilidades, porque não chega o depoimento de um qualquer arrependido; a coisa tem de ser mais substancial do que uma regurgitação dum vígaro das offshores. [Sou preconceituoso, e gosto.]
De qualquer modo, Sócrates (e o amigo) têm (terão...) algumas coisas para explicar, sem conversa fiada: as instruções sobre o apartamento de Paris, o alegado papel do primo, etc. Matéria para uns bons anos. No fim, cá estaremos, eventualmente. Até lá, não quero maçar-me mais com o assunto, que só estou interessado na Catalunha, sobre a qual muita tinta ainda correrá.

o terrorismo laboral na PT

Leio a notícia, sem espanto. A astúcia merceeira, a esperteza saloia, a vigarice nos interstícios legais,  uma necrofagia repugnante a erradicar das sociedades decentes, uma flora intestinal do financismo (que tão boa imagem tem dado de si na presente crise da Catalunha, mas isso é outra estória). É verdade, estes saprófitos existem e requerem desinfestação.

No entanto, não devemos deixar de fora os que conduziram a PT, dolosamente, até aqui, em especial os magos da gestão. Cadeia com eles, se deus quiser: e, já agora, não esquecer de execrar os palmas-cavalinhos que na imprensa lhes teciam loas, ou talvez mais. Neste particular, os panama-papers terão algo a revelar, informação que tarda, retida... pelos jornais.

terça-feira, outubro 10, 2017

um estralejar de cometa (Almeida Garrett)

«Qu'il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraître tout-à-coup dans le monde savant un livre de découvertes à la main, comme une comète inattendue étincelle dans l'espace!» O incipit da Viagem à Volta do Meu Quarto (1839), de Xavier de Maistre (1763-1852), servindo como epígrafe às Viagens na Minha Terra (1846). Tom paródico, mas também a noção de uma via que Garrett abre, um arejamento na prosa nacional, brisa que chega a este ano de 2017.

STRANGERS IN THE NIGHT

segunda-feira, outubro 09, 2017

Catalunha: para ler antes de amanhã

fonte
No meio do bruaá mediático, das opiniões apaixonadas de ambos o lados (com vociferações dos miguéis-de-vasconcelos indígenas), vale a pena ler o sereno depoimento de Jordi Savall, músico e historiador (aliás, de há muito anos um dos grandes nomes da cultura europeia), a que junto uma notável entrevista do jornalista José Antich a Nuno Ramos de Almeida, já com uns dias, mas ainda no ponto; e outra de David Fernàndez ao mesmo jornalista, publicada hoje, também. Fernàndez, antigo porta-voz da CUP, um dos tenebrosos das esquerdas radicais, como diria a rã que queria ser boi. 

sexta-feira, outubro 06, 2017

carnaval de disparates sobre a Catalunha



Os argumentos contra a autodeterminação da Catalunha variam entre os racionais e utilitários (alegadas consequências económicas e/ou geopolíticas) e um cacharolete de disparates, num misto ignorância espessa e despudorada má-fé.
Um dos mais hilariantes, na sua falta de compostura, é a de que a Catalunha nunca foi independente...
Jesus-Maria-José, anjos e santos, serafins e guaxinins, almas do purgatório -- dai-me o elixir da paciência.
Quer o principado da Catalunha, quer o reino de Aragão não foram entidades inventadas pela J. K. Rowling; tiveram existência secular e uma importância no concerto europeu que Portugal, por exemplo, nunca teve no mesmo período em ambos eram reinos independentes, até pela sua situação extremamente periférica.
Mas vamos supor que a Catalunha, com o seu povo, as suas instituições, a sua língua e cultura próprias, nunca houvesse sido uma nação independente, como o foi e com muito maior projecção que muitos povos da Europa que contam com o seu estado. Pergunto: que validade e que valor tem esse argumento, em face do direito de um povo à autodeterminação? Pois não tem nenhum.


em tempo: um editorial destes plumitivos da Economia, um dos campeões da austeridade do recentemente falecido ex-Primeiro: «Se calhar, terá chegado o momento, em Portugal, de levarmos mesmo a sério o que se está a passar em Espanha, uma crise de proporções históricas, a anunciada independência unilateral decretada por um governo sem qualquer legitimidade para o fazer, desde logo pela própria Constituição espanhola.» 'Ai, Jesus!, os bancos?!... Então o caso é mesmo sério!!!' A miragem estreita, ignorante e patet(ic)a  do porta-moedas.


quarta-feira, outubro 04, 2017

Felipe VI, e talvez o último

O rei de Espanha colou-se ao governo espanhol na sua alocução de ontem. Tinha alternativa? Não sei. O tempo de lidar com a questão que viria, inevitável, foi sempre protelado pelos dois principais partidos espanhóis, PP e PSOE. Quando este último avançou com a hipótese de um estado federado -- única e penúltima possibilidade de preservar uma entidade política artificial que só subsistiu pela força (o referendo de constitucional de 1978, foi um plebiscito à transição democrática)  --, já era demasiado tarde para travar os independentistas catalães.

Digo penúltima, porque a única maneira de preservar a Espanha será permitir que as suas nacionalidades referendem a integração, sem truques: isto é: são os catalães que devem decidir do seu destino e não os castelhanos, os bascos ou os galegos. Não sendo constitucionalista, afigura-se-me um processo complexo e moroso, uma vez que teria de apurar-se de que falamos quando falamos em nacionalidades. Catalunha, Galiza e País Basco, claro. E a Comunidade Valenciana? e Navarra? e as Astúrias? A desaceleração do processo implicaria o compromisso solene do poder central, a começar pelo rei, de que respeitariam os resultados dessas consultas populares.

Promessas que já não se me afiguram suficientes nesta fase. Que o processo catalão já não voltará atrás, a não ser que os tanques invadam Barcelona, parece-me evidente. Como os tanques não invadirão Barcelona, suponho (Espanha é um país da União Europeia, apesar de tudo), a desagregação será inevitável. Os bascos, que já punham a cabeça em água aos romanos, esperam.

Felipe VI não parece, portanto, ter saída, mesmo que o quisesse; qualquer rasgo será muito difícil para a sobrevivência do trono. O monarca corre o risco de ser o sétimo Bourbon (Borbón) a abdicar ou deposto ou -- entrando no domínio da fantasia -- a mudar a chapa para Felipe I de Castela.

terça-feira, outubro 03, 2017

segunda-feira, outubro 02, 2017

o franquista Rajoy lembrou-me o salazarista Franco Nogueira

* Franco Nogueira, ministro dos Negócios Estrangeiros e futuro biógrafo de Salazar, era um tipo culto e sagaz, mas, por vezes, dava-lhe para ser chico-esperto. Sei do que falo, pois fui seu aluno, e um dia entalei-o numa aula, quando pretendia aldrabar os alunos a propósito  de um artigo da Constituição de 1933, a propósito da eleição do Presidente da República. Dizia o antigo embaixador que o documento fundamental do Estado Novo consagrava a eleição colegial do PR pela Assembleia Nacional, tendo eu de lembrar-lhe, para seu desconforto, que até 1958 (recorde-se ano da fraude que impediu a vitória de Humberto Delgado), a eleição era feita por sufrágio universal. Após o terrorismo de estado exercido pelo poder, que garantiu o roubo eleitoral, o cagaço foi tão grande, que o regime se apressou a fazer uma revisão constitucional para evitar futuras e semelhantes surpresas.
Uma das finuras chicoespertas de Franco Nogueira quando tinha de enfrentar a comunidade internacional na ONU, por causa da vil Guerra Colonial, era uma linha de argumentação que defendia Portugal ser também um país africano (sic), pois até a Constituição consagrava aqueles territórios como "províncias ultramarinas"...
Ao ouvir ontem o franquista Rajoy a encher a boca de "democracia", "lei" e "constituição", que naquela boca e naquelas circunstâncias soam sempre a vitupério, lembrei-me do velho embaixador das causas perdidas.


* Ada Colau, presidente do município de Barcelona, qualificou ontem o primeiro-ministro espanhol como um cobarde. Poucas vezes um tal doesto assentou tão bem a uma criatura política que não hesitou em esconder-se por detrás do álibi constitucional para reprimir ilegitimamente um povo que quer autodeterminar-se. Cobarde e estúpido, como se vê, pela grande incentivo que deu à causa independentista. 
Já a comportamento da União Europeia, através do lamentável Junker vinhateiro, foi abaixo de miserável. Salvaram-se o  primeiro-ministro belga, Charles Michel, e o esloveno Miro Cerar, ao deplorarem a violência de estado. E vindo de onde veio, Bélgica e Eslovénia, este reparo tem um assinalável significado político, pese a pequena dimensão e peso dos dois países no contexto europeu.
Felizmente, com todos os seus defeitos, a UE serve de escudo para proteger os catalães de acções mais repressivas -- assim o creio e espero, veremos.


* Detestei a nota do governo português. Poderia ter manifestado o desejo de que o estado espanhol resolvesse os seus problemas internos, sem tirar o tapete aos catalães, com a conversa do respeito pela constituição negociada de 1978, objectivamente pondo-se ao lado do governo de Madrid. Vindo de Portugal, é particularmente triste e vergonhoso. Eu tive vergonha.


* Uma notícula para alguns comentadores: todos são livres para opinar e defender o que do seu ponto vista parecer mais justo e avisado. Têm até o direito de exibirem publicamente os seus preconceitos ou falta de preparação, não tendo noção do que estão a dizer. Argumentar com aldrabices, como certa indivídua cujo nome omito por pena, mas sem respeito nenhum, que a reivindicação catalã de autodeterminação seria equivalente a uma acção semelhante que, por absurdo, partisse do Porto, é de tal modo um insulto à inteligência, que me pergunto se a criatura, além de tonta, não será mesmo desprovida de um mínimo de cabedal para exercer o comentário. 

sexta-feira, setembro 29, 2017

livros que me apetecem


Agosto, de Rubem Fonseca (RTP/Leya)
Antologia de Poesia Erótica, de Manuel Maria Barbosa du Bocage (Dom Quixote)
Baixo Contínuo, de Rui Nunes (Relógio d'Água)
Ébano, de Ryszard Kapuscinsky (Sextante)
A Margem de um Livro, de Rui Nunes (Cosmorama)
O Mistério da Rua Saraiva de Carvalho, de Reinaldo Ferreira (Repórter X) (Pim! Edições)
Octaedro, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
O Quarto Azul, de Georges Simenon (Relógio d'Água)
Reflexões Sobre o Nazismo, de Saul Friedlander (Sextante)
As Últimas Testemunhas, de Svetlana Alexievich (Elsinore)