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terça-feira, novembro 13, 2018

vozes da biblioteca

«Isto no Ribatejo, e principalmente na Borda d'Água, o ter feito frente a um toiro é de muito mais estimação que ter fidalgo ou doutor na família.»  Alves Redol, Fanga (1943)

«O acaso / não os favorece»  Adília Lopes, «Os namorados pobres», Dobra (2009) / Resumo -- A Poesia em 2009 (2010)

«Os banhos de mar, que a Medicina empiricamente me aconselha, estorvam-me o maior número de outras ocupações: -- verdade é, que das mais gratas ao coração, já tenho cedido a beneplácito de uma espécie de sezão moral que me apoquenta.»  Camilo Castelo Branco, carta a José Barbosa e Silva, 10 de Julho de 1849, Alexandre Cabral, Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbpsa e Silva, vol. I (1984) 


segunda-feira, fevereiro 22, 2016

microleituras

Sidónio Muralha é um dos nomes inaugurais da poesia neo-realista(Beco, 1941), autor do «Novo Cancioneiro» (Passagem de Nível, 1942),celebrado autor de muitos e bons livros para crianças, entre os quais Bichos, Bichinhos e Bicharocos (1950), Todas as Crianças da Terra (1978) e O Rouxinol e a Sua Namorada, 1983 -- maravilhosamente ilustrados por Júlio Pomar, o primeiro, e Fernando Lemos. Na década de 1950 sai do país e vai, na companhia de Alexandre Cabral, o futuro grande camilianista, para o então Congo Belga, emigrando mais tarde para o Brasil, onde virá a falecer, em Curitiba.
Os poemas mais interessantes desta colectânea são os que abordam a mágoa da longa ausência deste poeta lisboeta nascido na Madragoa e que soube ser um autor para todas as crianças da terra, tendo no Brasil um país que enquanto tal também o adoptou.

Deixo um dos meus preferidos, o primeiro dos «Dois Sonetos do Difícil Retorno»

Se fores a Portugal um dia, se
pisares aquele chão, diz-lhe que aguarde
o difícil retorno deste que
nunca pensou voltar assim tão tarde.

Mas houve temporais e lutas e
se a batalha foi ganha sem alarde,
nunca foi sem alarde a raiva de
um inimigo oculto, hostil, cobarde.

Atravessei os mares e os continentes,
conheci outras línguas, outras gentes,
mas a minha poesia é lá que vive.

É lá que sou poeta e na verdade
a minha volta é só formalidade.

-- Voltar não voltarei. Sempre lá estive.

ficha:
título: 26 Sonetos
autor: Sidónio Muralha
colecção: «Horizonte Poesia» #7
editora: Livros Horizonte
local: Lisboa
ano:1979
texto contracapa: José Manuel Mendes
págs.: 30
impressão: Tip. Minerva do Comércio, Lisboa

(também aqui)

Para um Dicionário de Ferreira de Castro

Já de há muito que acalento a possibilidade de elaborar um Dicionário de Ferreira de Castro. Obviamente que esse seria um trabalho de uma vida, à maneira de Alexandre Cabral (outro castriano, por sinal), e eu já me daria por satisfeito se lograsse uma espécie de abc sobre o escritor. Por isso, defendo-me e tento fintar a sensação de esmagamento diante de tarefa tão extenuante, lançando cá para fora verbetes com texto mínimo, ficando os microensaios para as calendas…. Além do mais, um verdadeiro dicionário de Ferreira de Castro teria de ser um trabalho colectivo e com alguma especialização, havendo, felizmente, para as principais áreas temáticas, gente que poderá falar com conhecimento e acerto. Talvez mais à frente, isso possa ser concretizado. Para já, fiquem-se com estas pedras ao poço.
(também aqui)

quarta-feira, maio 22, 2013

sobre a fortaleza de seiva

Desde 1955 que o leitor pode percorrer, como um prefácio, um dos grandes texto memorialísticos de Ferreira de Castro: a «Pequena História de "A Selva"». O romance já tinha a sua lenda, passados 25 anos sobre a primeira edição, na Livraria Civilização: nunca houvera nada assim no romance português, e muito menos na difusão internacional que ele conseguira; facto inédito na história da nossa cultura, e ainda hoje sabe deus, quando o escritor não se apelida Saramago ou Antunes, nem é um espectro como Camões ou um ícone póstumo como Pessoa. Pois Ferreira de Castro irá contar a génese deste livro único, na que seria a sua terceira edição ilustrada (desta vez, pelo magnífico Portinari) -- a terceira de cinco, ao todo e até hoje -- sem falar em adaptações destinadas a um público juvenil...
Não sendo uma autobiografia, há um pano de fundo em A Selva que o é: desde logo o espaço físico em que decorre a acção, o seringal "Paraíso", no rio Madeira, Amazónia; e é-o também, não tenhamos dúvidas, tudo, ou quase, o que escapa à circunstância da personagem principal -- Alberto, um jovem universitário monárquico exilado após a revolta de Monsanto (1919) --: as impressões e as depressões, pois que há também aqui uma boa dose de catarse.
À distância de quase 40 anos, Castro evoca essa uma hora da madrugada de 28 de Outubro de 1914, em que deixa para sempre o seringal, onde estivera desde 1911, com um manuscrito na bagagem. Não era ainda A Selva, que essa, só numa transversal à Avenida de Berna, em Lisboa, de 9 de Abril a 29 de Novembro de 1929, o autor se atreveria a pegar-lhe, não obstante ensaios recorrentes ao longo dos anos, conforme genealogia do texto estabelecida muito mais tarde por Alexandre Cabral.
E texto denso, tão denso quanto o pode ser uma escrita que tem como objecto a própria floresta, a dominar a narrativa, impondo-se logo no título, como a fortaleza de seiva se impusera aos pobres homens que lá se entregavam à extracção do látex.

quinta-feira, março 14, 2013

Alexandre Cabral: "tosca prosa prolixa"


[Exm.º Sr. ...]

     Não tem esta por fim dirigir a V. Ex.ª palavras aduladoras que o v/ espírito consistente e desempoeirado rejeita, nem tão-pouco patentear-lhe novamente a minha admiração pelo vosso talento, que no citado artiguelho em tosca prosa prolixa ficou bem impressa.

[a Ferreira de Castro,  Lisboa, 30 de Novembro de 1936, 
enviando um artigo sobre a sua obra]

Cartas de Alexandre Cabral para Ferreira de Castro, separata de Vária Escrita #6, Sintra, Câmara Municipal, 1999.
editor: Ricardo António Alves