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terça-feira, abril 24, 2018

«Alheios ao mundo em redor, não se transmitiam confidências mas partilhavam da mesma apreensão.» Joaquim Paço d'Arcos, Ana Paula (1938)

«Mas não tardou que argoladas fortes soassem à porta e Jesuíno, em tamancos, as calças presas no abdómen por um negalho, camisa de estopa deixando espreitar pelos bofes a pelúcia de cerdo à mistura com o alcobaça vermelho, cigarro nos beiços, toda a sua pachorra eclesiástica mais rabugenta que cão dormido, foi ver.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926) 

«Contudo, certo é que não há momento mais sério, mais grave que aquele em que prestamos contas ao Criador das coisas, daquilo que foram os nossos passos nesta vida breve deste breve mundo.» Sérgio Luís de Carvalho, Anno Domini 1348 (1990) 

domingo, junho 04, 2017

começar

Quem conhece as três narrativas, sabe que coisas momentosas e formidandas se anunciam. Todas já contidas em cada começo.

1862 - Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartório das cadeias da relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a folhas 232, o seguinte:» Camilo Castelo Branco, Amor de Perdição
1931 - «Já não posso com estes tipos.» Raul Brandão, O Pobre de Pedir
1991 - «"Em nome de Deus, amen.» Sérgio Luís de Carvalho, Anno Domini 1348

terça-feira, dezembro 15, 2015

Deus ou o Diabo

«Vinho branco, como branco é o nosso luto.
Vinho tinto como tinto é o nosso sangue.
Bagas negras, como negra é a foice da morte que cobrirá o chão da vila, como as parras e os cachos cobrem as cepas.
As vindimas que faríamos fa-la-ás tu, Senhor, e serás tu ou o demo quem beberá o seu sumo, e serás tu ou ele quem beberá a minha alma.
Tu ou o demo.»

Sérgio Luís de Carvalho, Anno Domini 1348 (1990)

sábado, fevereiro 28, 2015

o anúncio da morte

«E de novo senti a dor, a mesma dor, aquela que, como uma fiel irmã ou um velho amigo, nunca desde então mais me largou.»

Sérgio Luís de Carvalho, Anno Domini 1348 (1990)

terça-feira, janeiro 27, 2015

tocar no medo

«Uma dor forte, de punhal, por debaixo do tabardo que me agasalhava. E levei a mão ao ombro, e toquei na dor. Compreendi de novo. Parei, e assim fiquei algum tempo. Não sei se o que senti foi medo, desespero ou até alívio, sim, alívio, o mesmo alívio que sente a nossa alma quando encontra aquilo que era tanto esperado, ou tanto temido até.»

Sérgio Luís de Carvalho, Anno Domini 1348 (1990)

terça-feira, setembro 16, 2014

e Deus, onde está?

«Será este, Senhor, o dia do teu juízo, em que os cadáveres permanecerão insepultos; em que o céu se retira como um livro que se enrola; em que os anjos vaguearão nos ares e sete pragas lançarão; em que os selos serão quebrados; em que o fogo descerá sobre nós e em que os quatro cavaleiros, Senhor, os quatro cavaleiros do fim dos tempos, nos revelarão o estigma da nossa própria iniquidade? Onde estão, Senhor, os teus sinais? Os teus sinais, Senhor, que ninguém vê nunca, quando os julga ver em toda a parte?»

Sérgio Luís de Carvalho, Anno Domini 1348 (1990)