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domingo, outubro 28, 2018

vozes da biblioteca

«Deus é o único ser que, para reinar, nem sequer precisa de existir.» Charles BaudelaireFogachos (1851) (tradução de João Costa)

«Bem sinto a dor que o teu olhar goteja; / Mas o Princípio, por melhor que seja, / É pai dum monstro, que se chama Fim!» Queirós RibeiroPedras Falsas (1903) / Cabral do NascimentoLíricas Portuguesas - 2.ª Série (s.d.)

«A criação da corrente perdurável -- e inexorável -- das coisas, crê o autor tê-la experimentado ao escrever algumas destas páginas.» AzorínCastela (1912) (tradução minha)

«Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura de uma pedra.» Raul Brandão, Memórias I (1919)

«De resto, neste país não se passa economicamente nada, a não ser miséria.» (24 de Dezembro de 1935) Jaime Brasil, Cartas a Ferreira de Castro, ed. Ricardo António Alves (2006)

«Como não tinha tempo para despedir as chatices pagava aos cigarros para conversarem com elas.» António Alçada BaptistaUma Vida Melhor (1984)





quinta-feira, junho 28, 2018

«Parecia um qualquer homem jovem que regressava a casa depois do trabalho; o sobretudo preto conferia-lhe um aspecto clerical.» Graham Greene, Assassino a Soldo (1936) (trad. Fátima St. Aubyn)

«Um pequeno de onze anos, que assistira solícito ao entrouxar das coisas, juntara-se também ao grupo e, enquanto coçavam o queixo, indecisos, murmurou corando ao som da própria voz:» Thomas Hardy, Judas, o Obscuro (1895) (trad. Maria Franco e Cabral do Nascimento)

«Em princípios do mês de Abril de 1813 houve um domingo cuja manhã prometia um desses belos dias em que os Parisienses vêem pela primeira vez no ano as suas ruas sem lama e o céu da sua cidade sem nuvens.» Honoré de Balzac, A Mulher de Trinta Anos (1829/1942) (trad. Carlos Loures)

terça-feira, junho 19, 2018

«Se a vossa luz me afasta, o vosso abismo atrai-me!» Queirós Ribeiro, Cinzas (1896) / Líricas Portuguesas - 2.ª Série (edição de Cabral do Nascimento)


«Dizem mais que na seda das varetas / Do seu leque ducal de mil matizes... / Satã cantara as suas tranças pretas, / -- E os seus olhos mais fundos que as raízes!» Gomes Leal, «A Duquesa de Brabante», Edoi Lelia Doura -- Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa (edição de Herberto Helder, 1985)


«Quando o descobridor chegou / e saltou da proa do escaler varado na praia / enterrando / o pé direito na areia molhada // e se persignou / receoso ainda e surpreso / pensando n'El-Rei / nessa hora então / nessa hora inicial / começou a cumprir-se / este destino ainda de todos nós.» Jorge Barbosa, Cadernos de um Ilhéu (1956) / No Reino de Caliban I (edição de Manuel Ferreira, 1975)

segunda-feira, julho 31, 2006

Antologia Improvável #151 - António de Sousa

PRETÓRIO

-- O poeta é aqui, neste senhor?

-- Digo sim ou digo não
Quando exibo a minha dor:
Esta ferida de céu
Que me chega ao coração?

E quando o sangue não corre
Nem de cima para baixo,
Nem de baixo para cima?

E quando ponho na mesa
Toda a restante riqueza:
A hora colada à torre;
O fogo preso no facho;
O sonho gasto na rima?

Digo sim ou digo não?

Sete Luas / Líricas Portuguesas - 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

quinta-feira, julho 27, 2006

Antologia Improvável #150 - Florbela Espanca

A UMA RAPARIGA

Abre os olhos e encara a vida! A sina
Tem que cumprir-se! Alarga os horizontes!
Por sobre os lamaçais alteia pontes
Com tuas mãos preciosas de menina.

Nessa estrada da vida que fascina,
Caminha sempre em frente, além dos montes!
Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes!
Beija aqueles que a sorte te destina!

Trata por tu a mais longínqua estrela,
Escava com as mãos a própria cova
E depois, a sorrir, deita-te nela!

Que as mãos da terra façam, com amor,
Da graça do teu corpo, esguia e nova,
Surgir à luz a haste duma flor!...

Charneca em Flor / Líricas Portuguesas, 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

quinta-feira, julho 06, 2006

Antologia Improvável #144 - Alfredo Guisado

O BALOIÇO

Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.

Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.

Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.

E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.

A Lenda do Rei Boneco / Líricas Portuguesas - 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

segunda-feira, julho 03, 2006

Antologia Improvável #143 - Armando Cortes-Rodrigues

(SONETILHO 3.º. DE VIOLANTE DE CISNEIROS)

Quando a paisagem recolhe
Seus olhos, na tarde calma,
É como alguém que se olhe
Com olhos de alma p'ra alma.

Se a paisagem esmorece,
Fechando os olhos doridos,
É como alguém que perdesse
A noção dos seus sentidos.

Não vê... não ouve... não fala...
Paisagem de si ausente,
Fico-me ausente de olhá-la.

Caminho! Noite cerrada!
Sou a Paisagem de ausente
Toda em mim transfigurada.

Cantares da Noite / Líricas Portuguesas, 2ª. Série
(edição de Cabral do Nascimento)

sábado, abril 15, 2006

Antologia Improvável #122 - Afonso Duarte (2)

IDEIAS

Honra: Brio: Dignidade:
Onde estais? Quem vos preza?
--Não posso viver pobre. A frialdade
Que me dá toda a pobreza!

Lembram-me bichos, carochas, centopeias,
Musgo, paredes húmidas, bolores,
Ao pensar na pobreza! -- Ideias.
E causam-me suores.

In Líricas Portuguesas, vol. 2
(edição de Cabral do Nascimento)

quarta-feira, março 29, 2006

Antologia Improvável #117 - António Patrício

RELÍQUIA

Era de minha mãe: é um pobre xale
Que tem p'ra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
Da que ele agasalhou em nossa casa.

Na sua trama já puída e lassa
Deixo os meus dedos p'ra senti-la ainda;
E Ela vem, é ela que me abraça,
Fala de coisas que a saudade alinda.

É a minha mãe mais perto, mais pertinho,
Que eu sinto quando toco o velho xale
Que guarda um não sei quê do seu carinho.

E quando a vida mais me dói, no escuro,
Sinto ao tocá-lo como alguém que embale
E beije a minha sede de amor puro.

Poesias / Líricas Portuguesas, 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

sexta-feira, março 10, 2006

Antologia Improvável #110 - Manuel Laranjeira

VENDO A MORTE

Em tudo vejo a morte! E, assim, ao ver
Que a vida já vem morta cruelmente
Logo ao surgir, começo a compreender
Como a vida se vive inutilmente...


Debalde (como um náufrago que sente,
Vendo a morte, mais fúria de viver)
Estendo os olhos mais avidamente
E as mãos p'ra a vida... e ponho-me a morrer.

A morte! sempre a morte! em tudo a vejo,
Tudo ma lembra! E invade-me o desejo
De viver toda a vida que perdi...

E não me assusta a morte! Só me assusta
Ter tido tanta fé na vida injusta
...E não saber sequer p'ra que a vivi!

Comigo / Líricas Portuguesas 2ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

sábado, fevereiro 25, 2006

Antologia Improvável #106 - Júlio Dantas

VILANCETE

Como quereis que me ria,
Corpo de ouro, se vos digo
Que trago a morte comigo?

Vir um dia a apodrecer,
Se é destino de quem vive,
Outro destino não tive
Desde a hora de nascer:
Como não hei-de sofrer,
Corpo de ouro, se vos digo
Que trago a morte comigo?

Na dor de todo o momento
Meus dias tristes se vão,
E só tenho a podridão
Em paga do sofrimento:
Sombra de contentamento,
Como a terei se vos digo
Que trago a morte comigo?

Nada / Líricas Portuguesas, 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Antologia Improvável #103 - Ângelo de Lima

ESTES VERSOS ANTIGOS

Estes versos antigos que eu dizia
Ao compasso que marca o coração
Lembram ainda?... Lembrarão um dia...
--Nas memórias dispersas recolhidas
Sequer, na piedosa devoção
De algum livro de cousas esquecidas?
--Acaso o que ora canta... vive... existe
Nunca mais lembrará -- eternamente?
E, vindo do não ser, vai, finalmente,
Dormir no nada... majestoso e triste?

Líricas Portuguesas - 2ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Antologia Improvável #101 - Luís de Montalvor

DROMEDÁRIO

Sob o crescente de lua,
A alma estagna. O céu consente
(Sem o sonhar ou saber)
Que em minha alma possa haver
Um tão possível oriente.

É-me o sonho o que é negado.
É-me verdade o que crio.
Minha alma é seco areal
E no fundo olhar sorrio
Rumos de febre e coral...

E tu, ó dama da noite
Milenária, que halo te cerca
De enigma a vigília pura?
Dons de unânime ventura:
Morre o sonho quem te perca...

Verdade ou sonho? Que importa
Ao morto olhar o rumo incerto.
Eu sigo o sonho (e cismando!)
Do dromedário pisando
Silêncios do meu deserto...

Líricas Portuguesas - 2ª. Série
(edição de Cabral do Nascimento)