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domingo, novembro 10, 2019

comunismo e nazismo, uma equiparação idiota, ou o Gulag não é Auschwitz

O tema já tem semanas, mas este post de Jorge Carreira Maia, em que faz muito bem o distinguo entre nazismo e comunismo, levou-me a alinhavar o que segue, na esteira do que ali ficou escrito.

Uma cabazada de eurodeputados maioritariamente de países do antigo Pacto de Varsóvia, e que hoje tão válidas lições de democracia e direitos humanos nos dão, esmagadoramente pertencentes aos grupos conservadores, com meia dúzia de liberais e quatro socialistas, entre os quais uma luminária do PS, subscreveram uma moção, aprovada por esmagadora maioria, que o nazismo / fascismo e o comunismo eram equiparáveis. (Está aqui o pastelão, para quem tiver pachorra; eu não tive, fio-me na imprensa.)

Há ali uma compreensível motivação de ajuste de contas com o passado recente e ressentimento por parte dos países que foram ocupados pelos soviéticos, boa parte deles, de resto, aliados da Alemanha nazi, o que não justifica essa ocupação disfarçada, é claro, e muito menos o esmagamento da insurreição húngara de 1956 ou da Primavera de Praga, liderada pelo eslovaco Alexander Dubceck, um dos meus heróis, secretário-geral do PC checoslovaco, e que bem caro pagou a coragem e audácia à mão dos apparatchiks do Partido.

Então, por que razão comparar nazismo e comunismo é duma estupidez crassa? Não matou o comunismo ainda mais gente que o nazismo? Sim, tal não me oferece dúvidas, atendendo ao tempo que se mantiveram no poder, do sátrapa Stálin (nem falo do megalómano Mao, no psicopata do Pol Pot ou na monarquia comunista norte-coreana, pois são realidades um bocado chinesas para nós -- não os percebemos...). Não foram (e são) o comunismo soviético um monstruoso embuste, que caiu de podre como a URSS e satélites? Sim, o comunismo soviético foi uma vergonha e um embaraço para qualquer pessoa intelectualmente honesta.

No entanto, ah, no entanto, aqui vai o diabo do pormenor: as palavras têm peso e correspondem a ideias. Na esteira do que bem escreveu Jorge Carreira Maia, em especial no segundo parágrafo, o factor da irracionalidade do nazismo, faz com que o mal seja assumido sem ambiguidade, na desumanização dos não-(ditos)arianos; enquanto que, o lastro racionalista do marxismo-leninismo, filho do iluminismo, nunca poderá acomodar qualquer espécie de opressão étnica, nem tal pode ser admitido, sob pena de autodesclassificação, mesmo quando episodicamente o tenham feito, no tempo de Stálin, sob pretextos fantasiosos (a chamada "conspiração judaica" e outras paranóias do Zé dos Bigodes).

Que são ambos regimes totalitários, é indesmentível; que um aponta para o Céu e outro para o Inferno (para os sub-homens, não "arianos"), é-o também. Não há que admirar: o marxismo-leninismo, ao tornar os cidadãos funcionários e dependentes do Estado, criou de imediato as condições para que o sistema criasse entropias que estão na base da sua futura desagregação, que só não se deu mais cedo graças à criação dum estado policial e perversamente repressivo -- a negação e repressão da liberdade como instrumento de manutenção do poder. Dessa funcionalização surgiu o que é previsível e surge sempre nestas circunstâncias: os carreiristas, os oportunistas, os desavergonhados e os alienados inofensivos completamente inseridos no sistema, que viviam a sua vida e achavam que era assim e teria de ser assim para todo o sempre. A RDA, no seu desmoronamento de há trinta anos aí está para comprovar isso e o seu contrário: andava o Muro a cair e ainda havia polícias e burocratas a tentar parar o vento com as mãos. No entanto, prometendo sempre o Sol e as bem-aventuranças neste mundo.

(Claro que no comunismo houve e há muita gente de bem; mas a sua adesão a esse ideário é do domínio da, não do racional; mas, que diabo!, não há gente a  acreditar na existência de "Deus", na imortalidade da alma e coisas assim?...)

Uma subtileza, pois, que não interessa nada, aqui no rectângulo, à direita democrática com reserva mental, saudosa do salazarismo e que à boca pequena execra a abrilada, como carinhosamente chama ao 25 de Abril, nem perdoa a descolonização, além de tudo o que cheira a esquerda (ainda ontem vi um pacóvio a torcer-se todo por causa da libertação do Lula e com vergonha de defender o Bolsonaro, que só sabe contar até 9).

Subtileza que de facto o não é; que entra pelos olhos dentro de qualquer pessoa com informação suficiente e tenha por hábito pensar, a diferença abissal entre comunismo (mesmo que soviético, pois há outros) e nazismo; e que chateia ver o PS embarcar em tão más companhias, por desleixo ou estupidez, não interessa. 

Por muito que lhes custe, e, principalmente, por muito que tenha custado ás vítimas, o Gulag não é Auschwitz; há toda uma diferença de escala na maldade e na perversidade, cuja avaliação nunca poderá ser quantitativa. Qualquer pessoa de boa-fé e com dois dedos de testa percebe isso. Quem não percebeu foram as criaturas que votaram a equiparação da pêra rocha com a pirite alentejana. Um mistela intelectual que me lembra uns turistas chineses no restaurante em que costumo almoçar, que misturam azeitonas na mousse de chocolate.

segunda-feira, outubro 14, 2019

Catalunha, aí vamos nós

A Espanha é governada por uns consabidos merdas. O PSOE obviamente não ousa a acção política, mesmo em defesa da unidade do estado espanhol noutros moldes, mais confederais, pois teme que aquela o afaste por muitos e bons do governo, ao contrário do PODEMOS, parece, se ainda não mudou de posição. Não é de espantar a sentença a pesadas penas de prisão emanadas pelo flato do supremo castelhano. Percebe-se que a vontade  de partir tudo fale mais alto, diante da indignidade, e não serei eu que irei condenar qualquer forma de luta que a sociedade catalã pretenda assumir, incluindo a armada, desde que os alvos sejam legítimos. (Não se pode ser a favor dos curdos e assobiar para o lado quando se trata da Catalunha.) Mas o mais inteligente é mesmo uma resistência firme mas não-violenta, à Gandhi, desde que a sociedade catalã esteja mobilizada para o sacrifício que tal acarreta. Nesta fase, visto de fora e à margem, parece-me ser a maneira mais eficaz de desmascarar a unidade espanhola, imposta pelo sangue. Quanto à UE, não se pode esperar grande coisa; parece que política comum só em relação ao Brexit. Talvez o Tribunal Europeu obrigue Madrid a ter vergonha na cara, o que iria abrir uma crise sem precedentes com a UE, mas a vida é feita de crises. Só espero que nenhum país se manche em relação aos exilados políticos catalães que acolhe. 

terça-feira, janeiro 15, 2019

432-202: Brexit ao fundo!

Grande dia em que se abre a possibilidade de dar ao povo britânico os meios de reverter uma situação a que o conduziram políticos sem escrúpulos e gente manhosíssima. Se isso suceder, será um bom dia para a Europa e para Portugal, pois com ou sem a Inglaterra, a União Europeia é uma coisa completamente diferente. 

segunda-feira, junho 11, 2018

vamos ver quem ensina quem

Depois das italianas, o comissário europeu das finanças, um factotum do financismo, teve a ousadia de dizer que os mercados iriam ensinar os italianos a votarem como devia ser. Até é possível que o serventuário tenha razão, que os italianos venham a arrepender-se do seu voto. Mas suspeito que se e quando tal acontecer a União Europeia já tenha ido para o galheiro. Por culpa dos eleitores italianos? Talvez não; talvez por causa da clique que domina os partidos do mainstream político europeu, com tão bons resultados para a própria ideia de Europa. 
Para já, com a história do barco dos imigrantes, os italianos já estão a responder ao lacaio alemão. 

quarta-feira, maio 09, 2018

Dia da Europa

O LIVRE elaborou várias bandeiras alusivas ao Dia da Europa ou Dia da União Europeia, e partilhou-as com os seus amigos. Porque a ideia é demasiado boa (a das bandeiras também, mas refiro-me à de união europeia), e porque não podemos permitir-nos deitar fora o bebé com a água do banho, continuo a ser fortemente por uma Europa, dos povos, claro e não das corporações. Várias das bandeiras são particularmente bem esgalhadas, mas como o desafio é para escolher uma, vai a óbvia, que em si acolhe todas as outras.

segunda-feira, março 26, 2018

Presos políticos e exilados na União Europeia

Hoje às 19 horas, junto ao consulado espanhol em Lisboa, concentração convocada pelo Comité de Defesa da República Catalã em Lisboa

Não são só os neo-fascistas húngaros e os xenófobos e ultramontanos polacos que merecem o repúdio das pessoas de bem; igualmente o vetero-franquismo castelhano-espanholista, que se permite perseguir os democratas catalães, encarcerá-los ou forçá-los ao exílio. Por cada hora que a situação se mantenha, perde a face a União Europeia e os estados que a compõem.



sexta-feira, março 23, 2018

Putin e a iguana

Sobre Vladimir Putin pode dizer-se muitas coisas. Coisas que se sabem, coisas que julgamos saber, ou até que não sabemos, embora as vocalizemos e escrevamos, ou, ainda, coisas que outros querem que nós achemos que sabemos.

Podendo ter muitas e variadas opiniões sobre Putin, boa parte das quais, frise-se, sem outra sustentação que não a manipulação massiva, porém simplória, em que os americanos e satélites continuam a ser mais eficazes que os propagandistas do Kremlin: da Crimeia, ao avião abatido no céu da Ucrânia, passando pela guerra química supostamente levada a cabo na Síria, entre outra conversa fiada para impressionar os incautos -- (podendo ter muitas e variadas opiniões) uma coisa é certa: com excepção de alguma elite urbana e académica que não se conforma com a espécie de pai da pátria em que de há muito Putin se tornou, e que compreensivelmente ambiciona que a Rússia possa ser, digamos, uma Suécia em termos políticos, a maioria do eleitorado apoia-o -- 77 dos 63 % que foram às urnas, mais irregularidade, menos irregularidade.

Inibo-me de opinar sobre Putin, creio que precisaria de ser russo -- lá e agora -- para expender algo que na boca dum português não tenha a imediata ressonância da patetice, ou pior.  Por outro lado, nos grandes países europeus, só encontramos respeitabilidade num interlocutor, a chancelerina alemã Merkel (em política internacional, as palavras de Macron pouco mais são do que vagidos, pese a force de frappe, e Donald Tusk é, no fundo, um porta-voz -- embora respeitável) ). Senão vejamos: Sarkozy, Hollande, Cameron, e a inqualificável dupla May+Boris Johnson, a iguana e o palhaço: é difícil descer-se mais baixo e conter o asco.

Esse mesmo asco que provoca a parelha May-Johnson -- dois rostos do desastre do Brexit, e das mentirolas soezes que lhe foram acopladas --, quando, atirando-se convenientemente à Rússia a pretexto do envenenamento dum espião (é sempre bom desviar as atenções quando a frente interna está a aproximar-se de um atoleiro), o torpe Johnson se permite fazer comparações com a Alemanha nazi (um insulto para qualquer russo), enquanto a desavergonhada May invoca os aliados, com base na partilha dos mesmos valores. Ora, os únicos valores que estes mamíferos reconhecem são os dos mercados e o da hasta pública da sua própria insignificância.


quarta-feira, fevereiro 07, 2018

a Comissão Europeia, a Cotec e a Geringonça

A Comissão Europeia foi tomada por criaturas sem estofo e com mentalidade de gestores de fundos de pensões, técnicos de recursos humanos, funcionários de agências de comunicação, public relations, vendedores de automóveis; pequenos mercenários em deslumbre com o próprio desenrascanço, inconscientes da mediocridade dos paizinhos que os pariram ou da bruteza terrunha dos avoengos. Por cá, no governo anterior, havia disso aos molhos. 

Haver, por outro lado, presos políticos e exilados catalães na União Europeia, não interessa nada; estar o Assange há cinco anos confinado numa embaixada em Londres, o que é isso?*; o que é mesmo chato é a protecção excessiva dos trabalhadores, como ontem sabiamente alertou a Comissão.

Entretanto, num encontro presidido pelo tipo dos CTT, que tem feito um lindo serviço, a COTEC -- nome de cooperativa de industriais de aviários --, o Presidente da República diz que precisamos de sistemas políticos 4.0 . Não sei é como será o tal sistema 4.0 compatível com a doutrina pregada pelo bom Papa Francisco, que Marcelo Rebelo de Sousa tanto aprecia, e já agora eu também. O que sei é que os gestores de fundos com veleidades políticas, aqui e na Europa, não desarmam.

Também nós por cá não podemos baixar a guarda. A Geringonça serviu para isso, convém que os que lhe deram forma não se esqueçam, porque a selvajaria está à espreita.

Em tempo: O PR também falou em políticas sociais 4.0, seja lá o que isso for, embora de certeza não seja (ou não deva ser) a multiplicação dos bancos alimentares contra a fome.

(*bravo, Snowden; e bravo Snowden)

quinta-feira, dezembro 07, 2017

Cooperação Estruturada Permanente -- pescamos pouco disto, mas não devíamos

A PESCO, ou Cooperação Estruturada Permanente, em burocratês europeu. No descaso geral, e o que parece ser um amadorismo (ou leviandade) preocupante do governo e o voluntarismo do PR em fazer parte do pelotão da frente na constituição de um exército europeu em embrião, levanta as maiores dúvidas e preocupações.
Portugal -- que daqui a onze anos completará nove séculos de existência (Batalha de São Mamede, 1128) -- tem, no que respeita à política externa, três esteios a que não pode e/ou não deve fugir: a Geografia, a História e a Cultura.
Na Geografia, somos um país europeu de fachada atlântica e influência mediterrânica, e o estado no Velho Continente com as fronteiras definidas há mais tempo. As nossas prioridades e os nossos interesses geopolíticos permanentes (e aqui, à Geografia soma-se a História) serão sempre os nossos vizinhos: Espanha e Estados Unidos da América (e, por extensão, a Inglaterra), a Bacia do Mediterrâneo, em particular Marrocos, o Brasil e África de expressão portuguesa. Finalmente, por coerência cultural e opção civilizacional, pertencemos a um vasto complexo político e institucional que dá pelo nome de União Europeia, que tendo as suas implicações, não deve comprometer os vectores de política externa referidos.
Ora para quem como eu, foi e é, um defensor da União Europeia e do seu aprofundamento confederal, já não pode encarar com a mesma inocência de outrora, desde a crise das dívidas soberanas e do comportamento da Alemanha (pela acção) e da França ou da Itália (pela inacção), os riscos de construir mais uma vez pelo telhado um edifício de defesa comum sem garantias institucionais que têm de passar por patamares de poder e decisão de configuração confederal. 
A história recente tem mostrado que na política da UE  tem prevalecido a lei do mais forte, e por isso corremos o risco de sermos arrastados para conflitos em que os interesses não são os nossos, como sucedeu na Ucrânia, uma fraude arranjada pela Alemanha e amigos próximos, e na qual a Rússia mostrou não estar pelos ajustes -- e bem, do seu ponto de vista, e já agora do meu também.
Portugal, país europeu de dimensão média, tem, pois, a espessura de uma longa História e de uma forte identidade, e deve agir de acordo com ela. Que um assunto desta magnitude esteja a ser tratado politicamente em cima do joelho, isso sim, é um erro histórico.   

quinta-feira, novembro 23, 2017

no LEFFest #12

Pictures Of The East, de Sandro Kanchelo e Gidon Kremer. «Sessões especiais -- Música». Para mim, o momento mais alto do LEFFest, até agora. Um curta-metragem de animação, de 28 minutos (precedida da execução, por Kremer, dos Preludes To A Lost Time, de Mieczyslaw Weinberg) a partir do magnífico trabalho do artista sírio Nizar Ali Badr, cujos esforços de Paul Branco para tê-lo no festival foram gorados pela recusa das autoridades da UE concederem o visto para esse efeito. Nem vou comentar, mas quando me aparecer o vinhático Juncker no ecrã, não vou reprimir dois ou três palavrões.

quarta-feira, outubro 04, 2017

Felipe VI, e talvez o último

O rei de Espanha colou-se ao governo espanhol na sua alocução de ontem. Tinha alternativa? Não sei. O tempo de lidar com a questão que viria, inevitável, foi sempre protelado pelos dois principais partidos espanhóis, PP e PSOE. Quando este último avançou com a hipótese de um estado federado -- única e penúltima possibilidade de preservar uma entidade política artificial que só subsistiu pela força (o referendo de constitucional de 1978, foi um plebiscito à transição democrática)  --, já era demasiado tarde para travar os independentistas catalães.

Digo penúltima, porque a única maneira de preservar a Espanha será permitir que as suas nacionalidades referendem a integração, sem truques: isto é: são os catalães que devem decidir do seu destino e não os castelhanos, os bascos ou os galegos. Não sendo constitucionalista, afigura-se-me um processo complexo e moroso, uma vez que teria de apurar-se de que falamos quando falamos em nacionalidades. Catalunha, Galiza e País Basco, claro. E a Comunidade Valenciana? e Navarra? e as Astúrias? A desaceleração do processo implicaria o compromisso solene do poder central, a começar pelo rei, de que respeitariam os resultados dessas consultas populares.

Promessas que já não se me afiguram suficientes nesta fase. Que o processo catalão já não voltará atrás, a não ser que os tanques invadam Barcelona, parece-me evidente. Como os tanques não invadirão Barcelona, suponho (Espanha é um país da União Europeia, apesar de tudo), a desagregação será inevitável. Os bascos, que já punham a cabeça em água aos romanos, esperam.

Felipe VI não parece, portanto, ter saída, mesmo que o quisesse; qualquer rasgo será muito difícil para a sobrevivência do trono. O monarca corre o risco de ser o sétimo Bourbon (Borbón) a abdicar ou deposto ou -- entrando no domínio da fantasia -- a mudar a chapa para Felipe I de Castela.

segunda-feira, outubro 02, 2017

o franquista Rajoy lembrou-me o salazarista Franco Nogueira

* Franco Nogueira, ministro dos Negócios Estrangeiros e futuro biógrafo de Salazar, era um tipo culto e sagaz, mas, por vezes, dava-lhe para ser chico-esperto. Sei do que falo, pois fui seu aluno, e um dia entalei-o numa aula, quando pretendia aldrabar os alunos a propósito  de um artigo da Constituição de 1933, a propósito da eleição do Presidente da República. Dizia o antigo embaixador que o documento fundamental do Estado Novo consagrava a eleição colegial do PR pela Assembleia Nacional, tendo eu de lembrar-lhe, para seu desconforto, que até 1958 (recorde-se ano da fraude que impediu a vitória de Humberto Delgado), a eleição era feita por sufrágio universal. Após o terrorismo de estado exercido pelo poder, que garantiu o roubo eleitoral, o cagaço foi tão grande, que o regime se apressou a fazer uma revisão constitucional para evitar futuras e semelhantes surpresas.
Uma das finuras chicoespertas de Franco Nogueira quando tinha de enfrentar a comunidade internacional na ONU, por causa da vil Guerra Colonial, era uma linha de argumentação que defendia Portugal ser também um país africano (sic), pois até a Constituição consagrava aqueles territórios como "províncias ultramarinas"...
Ao ouvir ontem o franquista Rajoy a encher a boca de "democracia", "lei" e "constituição", que naquela boca e naquelas circunstâncias soam sempre a vitupério, lembrei-me do velho embaixador das causas perdidas.


* Ada Colau, presidente do município de Barcelona, qualificou ontem o primeiro-ministro espanhol como um cobarde. Poucas vezes um tal doesto assentou tão bem a uma criatura política que não hesitou em esconder-se por detrás do álibi constitucional para reprimir ilegitimamente um povo que quer autodeterminar-se. Cobarde e estúpido, como se vê, pela grande incentivo que deu à causa independentista. 
Já a comportamento da União Europeia, através do lamentável Junker vinhateiro, foi abaixo de miserável. Salvaram-se o  primeiro-ministro belga, Charles Michel, e o esloveno Miro Cerar, ao deplorarem a violência de estado. E vindo de onde veio, Bélgica e Eslovénia, este reparo tem um assinalável significado político, pese a pequena dimensão e peso dos dois países no contexto europeu.
Felizmente, com todos os seus defeitos, a UE serve de escudo para proteger os catalães de acções mais repressivas -- assim o creio e espero, veremos.


* Detestei a nota do governo português. Poderia ter manifestado o desejo de que o estado espanhol resolvesse os seus problemas internos, sem tirar o tapete aos catalães, com a conversa do respeito pela constituição negociada de 1978, objectivamente pondo-se ao lado do governo de Madrid. Vindo de Portugal, é particularmente triste e vergonhoso. Eu tive vergonha.


* Uma notícula para alguns comentadores: todos são livres para opinar e defender o que do seu ponto vista parecer mais justo e avisado. Têm até o direito de exibirem publicamente os seus preconceitos ou falta de preparação, não tendo noção do que estão a dizer. Argumentar com aldrabices, como certa indivídua cujo nome omito por pena, mas sem respeito nenhum, que a reivindicação catalã de autodeterminação seria equivalente a uma acção semelhante que, por absurdo, partisse do Porto, é de tal modo um insulto à inteligência, que me pergunto se a criatura, além de tonta, não será mesmo desprovida de um mínimo de cabedal para exercer o comentário. 

quinta-feira, setembro 07, 2017

Portugal e o referendo da Catalunha

Como sabemos, nós portugueses melhor do que ninguém, a "Espanha" não existe como nação; é um estado artificial, constituído por vários povos, originado pela união matrimonial de Isabel de Castela com Fernando de Aragão, os chamados "Reis Católicos", e cuja nova designação, tomada à velha Hispania romana, provocou o protesto de D. João II, que, obviamente, percebeu a intenção...


Enquanto estado de direito democrático, Portugal deverá evitar imiscuir-se numa questão interna de Espanha. Mas deve abster-se enquanto o diferendo se mantiver numa discussão política; se Madrid, numa decisão pouco inteligente e antidemocrática optar pelo bloqueio jurídico e, principalmente, pela repressão militar, aí Portugal tem o dever de, em primeiro lugar, oferecer os seus bons ofícios de mediação e, em última instância, solidarizar-se com o povo catalão, uma vez que está em causa um direito humano fundamental, reconhecido pela Carta das Nações Unidas: o da autodeterminação dos povos, que sobreleva qualquer disposição jurídico-constitucional.


À luz do bom e velho princípio de que "a soberania reside na Nação", Madrid perdeu ontem legitimidade de impedir a realização do referendo. Qualquer contenda que não se restrinja à esfera política e negocial acarretará a Madrid o ónus de potência ocupante.

quinta-feira, maio 04, 2017

o debate Macron-Le Pen, ou o deus-milhão e o campo de concentração

Assisti a quase todo o debate. Excessivamente agressivo de parte a parte, mas já se esperava. Le Pen a encostar Macron a financismo predatório, sem novidade; Macron a mostrar a verdadeira face de Le Pen, a do chauvinismo.


As coisas não são, porém, assim tão simples: reduzir Macron a homem de mão dos potentados financeiros e Le Pen a uma edição actualizada do pai, embora não seja totalmente falso, traduz-se num esquisso caricatural que serve para a indigência dos telejornais e para a fauna peticionária do facebook, mas que resulta num primarismo de análise que a complexidade do(s) problema(s) não sustenta.


Macron deixou Le Pen a patinar com a questão da saída da França do euro, neste sentido: numa economia integrada como a da Zona Euro, o abandono de um dos seus membros, neste caso a França, traria uma avalancha de custos que resultaria insustentável para o status quo, não apenas económico mas também político. Macron tem aqui toda a razão, mas  o que nenhum disse é que a saída da França do euro implicaria o fim da moeda única, e, nesse caso, o problema posto por Macron deixaria de existir. Não havendo moeda única, seria o regresso às moedas nacionais, e aí, a França, como uma das grandes economias mundiais, teria argumentos superiores a outros países, como, por exemplo, Portugal. Le Pen poderia ter explorado este caminho, no entanto, é possível que tenha querido evitar abordar (mais) um cenário de débacle, guardando possíveis argumentos para a sua proposta de referendo sobre a permanência da França na União Europeia.


Le Pen tomou a iniciativa e marcou pontos no tema do radicalismo islâmico. Fez orelhas moucas ou esquivou-se como pôde às farpas desferidas por Macron sobre o cadastro da Frente Nacional em matéria de racismo e xenofobia e revolveu, e bem, a chaga do laxismo da república em relação ao fundamentalismo islâmico, ao defender, e de novo bem, a dissolução de todas essas pretensas associações culturais e desportivas espalhadas de norte a sul da França, fachadas legais e veículos do fascismo islâmico, contando com a cumplicidade interesseira dos maires, da direita à esquerda, a troco duns milhares de votos para as respectivas reeleições. E tão bem sucedida foi nessa argumentação que, onde Le Pen dizia mata!, Macron jurava esfola!.


Acredito numa vitória de Macron, por poucos, no que será uma derrota para esta V República, que parece moribunda. Quanto a Le Pen, penso que terá uma grande votação, o que fará sempre dela uma vencedora, e, numa conjuntura semelhante, futura presidente.


Quanto aos democratas e pessoas de esquerda que dizem não votar em Macron, o único qualificativo que lhes assenta é o de tontinhos, pois se estamos em modo de caricatura, a escolha que se lhes apresenta é esta: o 'deus-milhão' ou o campo de concentração. Há dúvidas entre um e outro?...


sábado, março 25, 2017

nos 60 anos da União Europeia

O dia 25 de Março, data da assinatura do Tratado de Roma, deveria ser feriado em todos os países da União Europeia.
Nunca, na história do Ocidente (e digo 'Ocidente' para não ser eurocêntrico), houve uma tamanha aquisição institucional; e será preciso recuar à Revolução Francesa (Liberdade, Igualdade, Fraternidade) para um avanço civilizacional de envergadura semelhante.
É isto que devemos ter em mente quando somos críticos, pelas boas razões, da União Europeia. 
A circunstância de ela estar em recuo, em virtude da falta de orientação política por parte de dirigentes menoríssimos, que a coloca nas mãos do financismo predador internacional, não pode levar os progressistas, os liberais, os democratas -- todos os homens e mulheres de boa-vontade na Europa, em suma -- a perder de vista que a construção europeia é um triunfo do racionalismo ilustrado sobre o atavismo e o primarismo de toda a espécie.
Pelo contrário, a União Europeia precisa de quem lute por ela, precisa de avançar num sentido duma maior integração federal, ao contrário do arremedo actual: moeda única sem orçamento e legislação conformes; parlamento europeu gigante e sem grandes poderes, em vez de uma segunda câmara em que Malta esteja em paridade com a Alemanha, tal como nos Estados Unidos o Havai e a Califórnia estão igualmente representados no Senado).
Os danos causados à ideia europeia na última década foram tremendos; o aprofundamento federalista é hoje cada vez mais difícil, quando vemos que a maioria dos cidadãos de um país fundador como Itália -- a Itália, que é a âncora da civilização europeia, e sem a qual a Europa não existe --, está descontente. 
A luta pela Europa é hoje o mais importante desígnio que se nos põe a todos. De um lado, a União Europeia; do outro, a xenofobia, o nacionalismo, a guerra.

terça-feira, março 21, 2017

o panasca do Dijsselbloem

Li aqui e depois aqui
Vamos admitir que gastamos o dinheiro em copos e mulheres, nós, o europeus do Sul. Sempre é bem melhor ser putanheiro que punheteiro, que é o que o Jerónimo D. deve ser -- além de vigarista e dirigente de um partido inútil, à beira da extinção com a últimas eleições holandesas.
Este cretino do Jeroen não merece só que se riam dele: o Centeno, o Guindos, mais o grego, o italiano e o francês, já para não falar do cipriota e do maltês, devem dizer: "o pá vai ladrar para a estrada, que não fica bem estarmos numa sala contigo...!

quinta-feira, março 16, 2017

tudo de pernas para o ar

Se, no Verão, vimos feministas defenderem o burkini, em nome não sei bem de que direitos, neste Inverno a FN suspendeu um suave negacionista do Holocausto (diz que tem dúvidas), líder do partido em Nice. Na Europa, a esquerda torce por Merkel e Rutte; em Portugal, o PCP protege o governo -- no que faz muito bem, aliás.

quarta-feira, março 15, 2017

a liberdade individual à esquerda

A cacofonia do tempo, o seguidismo bovino, a loquacidade dos corifeus do politicamente correcto  e espessas camadas de ignorância, engendram as confusões a que vimos assistindo sobre o posicionamento esquerda-direita em relação a questões que se prendem com a liberdade individual.

O véu islâmico é uma demonstração pública da subjugação da mulher e nada mais do que isto. Todo o bruaá em torno é um mero aproveitamento da guerra ideológica que os sectores radicais islamitas movem às nossas sociedades liberais, auxiliados pelos idiotas-úteis de alguma esquerda.


É evidente que o assunto é difícil, e que a mulher pode ser duplamente penalizada, com a decisão do Tribunal de Justiça da UE, pois o uso do véu não é da sua escolha, nunca o foi -- a não ser em casos recentes de statement político. O problema é que temos cada vez temos tempo. O enterrar da cabeça na areia, que já leva décadas, é pasto para a extrema-direita. Neo-fascistas e integristas islâmicos alimentam-se mutuamente, como se tem visto. E, portanto, ou pomos racionalidade nisto ou seremos devorados.


Só há uma 'liberdade' com que a esquerda digna desse nome não pode contemporizar: a que esmaga os outros, a do libertinismo financista, a que se arroga o direito de dispor da vida dos outros seres humanos em nome duma ideia depravada de enriquecimento. A esquerda que contemporiza com o autoritarismo, sob pretexto de questões ditas identitárias que colidem com a mais básica noção de autodeterminação individual, não serve.

sexta-feira, março 03, 2017

o faz-de-conta vai sair-nos caro

daqui
Enquanto arranjam um pretexto para torpedear a Le Pen, deixam que o anormal da foto se babe livremente em enormidades
Mais vale ilegalizar os partidos neo-fascistas, racistas e xenófobos e varrer todo este lixo da vida pública, em vez de andarmos a criar vítimas, que irão capitalizar nos votos.  
Depois, para grandes males, grandes remédios. Isto vai sair-nos caro.

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

O Trump a entrar nos eixos

Enfim, ainda estou para ver, dada a natureza da personagem. No entanto, um avisozinho a Israel, contra a extensão dos colonatos, não para solucionar o problema, mas para dar a ideia de alguma imparcialidade, aliás impossível no actual contexto internacional. Só que aquele problema não é regional, por isso os EUA vão procurando ganhar tempo. Tem sido essa a sua política para a região.
Por outro lado, acabamos de assistir à condenação da política russa na Ucrânia, por parte da embaixadora americana na ONU. Das duas uma: ou Trump já está devidamente enquadrado pelo complexo militar-industrial, que é o que determina em boa parte a geopolítica dos EUA, ou tratou-se de declarações para europeu ouvir e aquietar.