quinta-feira, fevereiro 09, 2017

os 'utentes' da língua e o Aborto Ortográfico

Sobre o aborto ortográfico e as suas consequências, está tudo dito. Meia dúzia de técnicos e burocratas da língua, do lado português, ajudaram a pari-lo, e o governo de Cavaco Silva, com Santana Lopes como secretário de estado da Cultura, deram-lhe o seguimento político.
Página negra na história da língua, como qualquer aborto é um nado morto, porque não há nem haverá nenhuma uniformização do português nos cinco cantos do mundo. Mais ano menos ano, este aviltamento da língua será insustentável, e os governos e as academias vão ter de introduzir alterações consequentes.
No entretanto prevalece o descaso dos decisores políticos e dos apparatchiks, o descaso com que tratam o património cultural português, que é coisa que não vivem nem sentem, a não ser que sintam o cheiro a votos pela manhã.
É uma generalização abusiva, dirão. É uma generalização, porventura injusta, porém nada abusiva, como testemunha o património histórico e cultural deste pobre país. Séculos de analfabetismo (meio milhão em 2017) pagam-se caro.
Repito o já escrito, por mais de uma vez: não há um único grande escritor português que não seja contra o aborto ortográfico. São os escritores os criativos da língua, os que quotidianamente a defrontam e desafiam. Desde que o problema se pôs, nem Saramago, Lobo Antunes, Mário de Carvalho, sancionaram este atentado. Vasco Graça Moura foi exemplar no seu combate cívico. O enorme Vitorino Magalhães Godinho, um dos historiadores de que Portugal se deve orgulhar, teve, contra o aborto ortográfico, o último combate da sua longa vida.
Nada que impressione ou incomode os 'utentes' da língua, como Vital Moreira, que escreve tão bem como qualquer notário, mistura alhos com bugalhos, não percebe que, antes de ser política, a questão da língua é um problema de cultura, em sentido amplo. É claro que para quem 'utiliza' a língua com a mesma displicência com que se serve da carreira 727 da Carris, estes assuntos são uma grande maçada. 

8 comentários:

Jaime Santos disse...

Puro argumento de autoridade primeiro (ninguém é dono da língua, nem sequer os nossos escritores), seguido da falácia de matar o mensageiro para rematar (nessa convenhamos que é useiro e vezeiro). O meu caro é capaz de bem melhor. Se discorda de Vital Moreira, que tem tanto direito a ter a opinião como qualquer outra pessoa, desmonte-lhe os argumentos. Mas o que Moreira chama a atenção é que o AO é um tratado internacional e que não pode ser atirado ao vento só porque nos apetece. Moreira até pode escrever como um notário (e aí estamos de acordo), mas o seu raciocínio enquanto jurista é inatacável, por muito que isso o incomode a si.

Ricardo António Alves disse...

Ninguém é dono da língua, mas há quem se comporte como dono dela e de nós todos. O Vital Moreira não é nenhum mensageiro, e mesmo que o fosse, já fora ele próprio homicida, como se vê no link, por isso, não fico incomodado.

O argumento de autoridade vale por si: todos se exprimiram sobre o assunto, e eu não vou fazer um ensaio aqui, nem tenho tempo para andar com links.

Atirá-lo ao vento, é você que o diz; evocar o tratado para não fazer nada e não levantar ondas é o mais prático. Porque só se trata disso: como já perceberam a estupidez em que se meteram, e que não haverá nenhuma nenhuma unificação ortográfica, e mesmo que houvesse, não impediriam a progressiva e natural divergência semântica e, principalmente, sintáctica, os decisores políticos não querem levantar ondas.

A circunstância de o raciocínio dele como jurista ser inatacável, é para o lado que podemos dormir melhor.

Jaime Santos disse...

Moreira, mau grado a arrogância, até sugere um caminho para a ACL seguir, que é propor alterações ao IILP. Para além disso, há mais alguma coisa que se possa fazer, para além da denúncia unilateral?

Ricardo António Alves disse...

Creio que haverá muitas maneiras de agir, salvando a face de todos, se for considerado do interesse nacional a revogação ao AO90.

Jaime Santos disse...

Creio que não será nada provável que o País vá agora investir recursos diplomáticos e políticos nesta fase naquilo que seria a revogação do acordo (obrigaria igualmente a uma Lei da AR para conseguir tal coisa depois de acordo entre as partes), e não somente a sua alteração, como aparentemente sugere a ACL (e se o quiser fazer deve seguir a via sugerida por VM). Os governantes também assobiam para o lado porque têm mais que fazer (segundo julgo saber, Costa considera que o AO não deveria ter sido feito). A possibilidade de denúncia unilateral existe, mas tratando-se de um tratado internacional, não sei se Portugal não poderia ser acionado em instâncias internacionais pelo seu incumprimento.

Ricardo António Alves disse...

Parece que os recursos são menos que poucos. Quanto ao resto, é tudo uma questão de avaliação política, que ou é táctica ou é estratégica. Até agora, a táctica tem sido o deixar andar, em primeiro lugar (o tempo, nada edificante, que o AO demorou a entrar em vigor é o melhor exemplo de como tudo isto tem sido tratado); depois o 'agora tem que ser'. É tudo muito reles.

Jaime Santos disse...

Ora aí está uma coisa que poderia ser objeto de um referendo. Não envolve questões de consciência ou de privacidade. Lembro-me que houve uma iniciativa de recolha de assinaturas recentemente, mas ainda decorre?

Ricardo António Alves disse...

Não me repugna a ideia, mas correr-se-ia o risco de uma participação mínima. Há petições à AR, mas assinaturas para um referendo, não faço ideia.