domingo, maio 10, 2026

o que está a acontecer

«Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo;» Raduan Nassar, Lavoura Arcaica (1975)

«Por cima da estrada real, nem a sombra de uma nuvem põe um remendo no buraco do céu. O sol abre os grandes olhos de rei, estende os braços fumegantes para os quatro pontos cardeais e arde, enfeitiça o mundo.» Antunes da Silva, Suão (1960)

«Abriu os olhos, estremunhada. A necessidade, feita hábito, de acordar cedo, perdera-a, ela, logo nos primeiros dias de adaptação aos horários e empecilhos daquela casa. Nessa manhã, porém, fazia dezassete anos.» Assis Esperança, Servidão (1946)

1 comentário:

Manuel M Pinto disse...

«De resto, quando poderia Luís de Camões ter composto esta deprecada em verso? Antes da partida para a Índia, provavelmente não. A essa altura os votos dum fragoeiro, espadachim e libertino dissipador como ele era, seriam a pior recomendação para uma causa destas. No seu regresso da Índia? O poeta tinha mais em que pensar, a publicação dos Lusíadas, os cuidados da saúde, as necessidades da vida, do que arvorar-se em D. Quixote de infelizes e caídas à lama da rua. De resto, a estrutura das rimas é tão má que será aleive atribuí-las ao joalheiro destro e consumado do decassílabo, tornamos a dizer.»
 Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)