sexta-feira, maio 29, 2026

entrar num livro, de pé atrás ou com humildade

1. A História faz-se a partir das fontes, como diria Alexandre Herculano, ainda na primeira metade do Século XIX, e antes dele, entre outros, o Visconde de Santarém -- de mim conhecido há tantas décadas, mas só agora, aos 61, lida a sua extraordinária Memória sobre a Prioridade dos Descobrimentos Portugueses, publicada no exílio de Paris (foi um miguelista), em 1842. Fui colega de turma e amigo de um seu descendente sem saber que o era, o querido José Carvalhosa, já falecido, ele e os irmãos caras chapadas dos ilustres avó, tal aparecem retratados no quadro de Domingos Sequeira...

2. Pobre do historiador, porém, que se limita aos documentos; estes são a base, mas nenhum fará trabalho digno desse nome se não tiver uma cultura vasta, que lhe dará capacidade de interpretação e de relacionar o que vem de trás com o que está ao lado, perceber o presente e, até, preparar o futuro. A História, aquela disciplina que um parco plumitivo das economias & gestões disse em público que não servia para nada. 

3. Entro com toda a humildade, mas alerta, num livro que estou a ler por razões profissionais, Liberdade ou Evasão, de António Lobato (Paderne, Melgaço, 1938-Lisboa, 2024), que tem por subtítulo O mais longo cativeiro da guerra (8.ª ed., Lisboa, Âncora Editora, 2026). Literariamente irrelevante, levou-me, a págs, 70, após o autor relatar a sua captura, a escrever esta nota, pois trata-se de uma fonte primária. É a partir daqui, dos testemunhos dos protagonistas dos dois lados que, juntando-se à documentação e aos os vestígios in situ  e in loco, que a História se escreve.

4. Humildade, porque sinto o maior respeito por todos os combatentes que não tenham praticado crimes de guerra. No caso dos guerrilheiros do MPLA, do PAIGC e da FRELIMO, além do respeito, tenho a admiração por terem pegado em armas para expulsar o ocupante, o estado português que se arrogava o direito de tutela sobre as suas vidas, pelo menos tanta como por aqueles portugueses, aí nascidos ou não, que se juntaram aos locais para acabar com o colonialismo. E lastimo todos os combatentes portugueses que após o fim da guerra foram deixados à sua sorte e varridos para debaixo do tapete. Algo muito miseravelmente português. É por isso que inicio a leitura no estado de alerta -- pois por muito heróico e horrivelmente penoso tenha sido o sofrimento do autor, não estou disponível para ler loas ou justificações a uma guerra criminosa, nem à Descolonização, que, na minha interpretação da dinâmica histórica, dificilmente poderia ter ocorrido de outra maneira. Nessa circunstância, os novos países foram entregues a quem de direito, ou seja, aos movimentos de libertação.

5. Olho mais de uma vez para o retrato de António Lobato na badana da capa. Um homem passado da meia idade, de aspecto sereno e apaziguado, ostentando a cicatriz de uma catanada que lhe atravessa o rosto de cima a baixo. Pelo que li até agora, algo me diz que não encontrarei aquilo que temo.

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