quarta-feira, maio 17, 2017

os censores de Gonçalo da Câmara Pereira

Tenho cá as minhas opiniões sobre Gonçalo da Câmara Pereira e aquilo que representa: basicamente um espécime etnográfico. 
Também vou tendo umas convicções sobre os polícias de costumes, e acho-lhes menos graça. Estão, aliás, a causar-me uma certa urticária. 

16 comentários:

Jaime Santos disse...

Se existe liberdade de expressão da parte de alguém, então tem que existir liberdade de contestação desse discurso. E se a 'qualidade retórica' dessa contestação estiver ao mesmo nível daquilo que foi dito (Câmara Pereira recorre ao discurso marialva de pessoas da sua geração e condição), é pena, mas paciência. A correção política tem exatamente o mesmo direito de cidade dos trogloditas que, quais virgens ofendidas, arrancam a camisa e se queixam de censura, quando na verdade o seu objetivo é fazer com que certo tipo de discurso se torne de novo socialmente aceitável. Como se vê bem com a Extrema-Direita lá por fora, aliás. A má educação e o filistinismo devem ser denunciados enquanto tal. Por isso, não, não acho nada que Câmara Pereira e outros sejam meros 'espécimes etnográficos'... São ressabiados que merecem ser levados a sério e a quem deve ser feita marcação cerrada.

Ricardo António Alves disse...

Você sobrestima os da Câmara Pereira e o seu marialvismo, e subestima os torquemadas e o seu paneleirismo. Comigo, é ao contrário.

Jaime Santos disse...

Não percebo bem essa do paneleirismo (as declarações de Câmara Pereira referiam-se só à condição das mulheres, pelo que li). E depois, esses termos, desculpe que lhe diga, estão ao nível do que diz da Câmara Pereira. Acho que o meu caro se ressente da censura moral que é feita a um certo tipo de linguagem que por vezes também utiliza, com intuitos bem distintos dos de Câmara Pereira, bem entendido (para que fique claro). Mas porque não há de o ser? Tal como no caso da blasfémia, pr exemplo, ela acarreta uma violência verbal contra determinados grupos, sejam eles grupos religiosos ou minorias sexuais. O direito à liberdade de expressão acarreta pelo menos o dever de se ser confrontado com aquilo que se diz. Ou, como diz o povo, quem fala o que quer, ouve o que não quer...

Ricardo António Alves disse...

Repare, pelo que li, não creio que o da Câmara Pereira tenha sido particularmente ofensivo para com alguém. E esse alguém só poderia ser a Cristas, que talvez se reconheça nas ideias do CP. Não tendo sido ofensivo (eu até acho que ele achava estar a soltar o feminista que há dentro de si, ahahah...), o homem tem todo o direito a pensar e a defender o que quiser. Se há gente que defende o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo -- uma aberração, para o meu conservadorismo, como já disse aqui muitas vezes --, também outros têm o direito de expressar os pontos de vista contrários -- lá está, sem ser ofensivo, como me parece que ele não foi, ao contrário, por exemplo, do João Braga, por ocasião dos Oscars (bastava ser preto e gay para ganhá-lo ou coisa parecida).

O paneleirismo dos torquemadas ou os torquemadas paneleiros é uma mera fórmula para uns activistas que, tanto ou mais -- provavelmente mais -- do que a defesa dos homossexuais em relação a discriminações, têm uma agenda sócio-política que desagrada ao, de novo, meu conservadorismo.

No meio disto tudo, aborrece-me o apedrejar da turbamulta. Apetece-me logo dizer o contrário, que é muito saudável e libertador. Daí, muitas vezes as minhas caralhadas, que costumam sair-me sempre bem.

Jaime Santos disse...

Acho que Câmara Pereira teve uma tirada machista e concordo que até pensava que estava a dizer uma coisa muito progressista. Quem anda à chuva, molha-se. Quando vir Torquemadas a defenderem a queima pública de livros (a seguir vêm as pessoas, como dizia Heine), preocupo-me. Quanto ao resto, discordamos e aqui prevalece pelo meu lado o meu liberalismo. Nunca permitiria que ninguém, fosse clérigo, imã, heterossexual ou homossexual, ditasse a forma como me comporto em privado. E como acho que aquilo que vale para mim deve valer para os outros, segue que tenho forçosamente que defender que as pessoas se devem poder casar com quem quiserem. Já não tenho tanta certeza relativamente à questão da adoção, mas aí deve prevalecer a opinião de quem estudou isto e não o meu preconceito...

Ricardo António Alves disse...

E acho que faz muito bem em não admitir que ditem o que faz em privado, mas isso não tem que ver com as nossas opiniões.
Eu acho o casamento gay uma deplorável macacada; já em relação à adopção, sou contra a descriminação. Qualquer pessoa, desde que bem formada, deve poder adoptar uma criança, independentemente da sua orientação sexual.

Jaime Santos disse...

Não acho que é uma deplorável macacada (mau grado o sensacionalismo que carateriza o ativismo gay, comum a todos os ativismos, aliás), até porque tem consequências bem reais na vida das pessoas. Não se trata apenas de uma questão do reconhecimento social (e isso de si já é muito importante, como lembrava Hegel), mas permite a duas pessoas que têm vida em comum ter direito à pensão do outro em caso de morte deste, o direito a benefícios fiscais, etc. E isso não é nada despiciendo. Não vejo nenhuma razão para que haja aqui qualquer descriminação e não alinho na hipocrisia de quem quer estender os direitos do contrato de casamento civil aos homossexuais sem lhe chamar casamento. Quanto à questão da adoção tem de facto razão, ela já era acessível a pessoas solteiras (independentemente da orientação sexual, ou seria inconstitucional) pelo que a sua extensão a casais gay era quase automática. Simplesmente, acho que o Estado deveria providenciar à criança uma família como aquela que ela não teve, e que seria necessariamente uma família heterossexual (ou seja, aqui está em causa o direito de terceiros, ainda por cima menores). Mas dizem os estudos que não há diferença e que as crianças podem ser tão felizes com dois pais ou duas mães (ou só com um) como com um pai e uma mãe desde que as pessoas sejam bem formadas, como refere. E assim sendo, o meu preconceito deve cair, mesmo se não me sinto inteiramente confortável com a solução, mas isso é problema meu...

Ricardo António Alves disse...

Você chama-lhe hipocrisia, eu posso chamar-lhe outras coisas, entre as quais preconceito, que obviamente tenho. Já acho discutível a instituição do casamento, daí que eu fale em macaqueação.

Quanto à adopção, cumpre neste caso ao Estado garantir que qualquer criança que, por infortúnio, tenha sido institucionalizada, seja entregue para adopção a gente à prova de bala, E, uma vez que não são os casais ou indivíduos que têm direito a adoptar, mas as crianças o de serem adoptadas por quem lhes possa dar uma família, os casais que queiram ter esse benefício deveriam sujeitar-se a um crivo apertado, que a sociedade, através do Estado ou outras instituições, numa monitorização efectiva no terreno e com um mínimo de burocracia e automatismos de funcionário.

Jaime Santos disse...

Relativamente à questão da adoção, 100% de acordo. Relativamente ao preconceito, tem toda a legitimidade em tê-lo (eu também tenho alguns, vide acima), acho perfeitamente legítimo que alguém considere que a lei civil deve refletir uma dada moral religiosa, por exemplo, embora isso manifestamente vá contra a ideia de um Estado Laico, desde que essa pessoa defenda esse ponto de vista de forma pacífica (já sei que as suas razões são outras). A instituição do casamento tem obviamente raízes na tradição judaico-cristã, mas também na tradição romana, embora não existisse aí nenhum ato de caráter legal, simplesmente a verificação de que o casal coabitava há mais de um ano, se bem me lembro. A verdade é que ela confere um conjunto de direitos e deveres aos contratantes e essa é a sua principal vantagem, sendo que os seus objetivos não se esgotam na educação de crianças, ou não deixaríamos pessoas fora da idade fértil casar, como bem lembrou a juíza Bader-Ginsburg. O que não me parece correto é que se estenda esse direito aos homossexuais e depois se lhe queira chamar outra coisa.

Ricardo António Alves disse...

Nunca vi esse meu preconceito como relacionado com moral religiosa, antes um puro conservadorismo (digo isto sem carga positiva ou negativa, apenas como constatação), que tem que ver com a minha formação e educação e também, se quiser, por uma questão estética, que não se desliga daquelas. Esse conservadorismo não é meramente de rejeição, mas de afirmação (ou eventualmente de defesa) do que eu considero ser, idealmente, um dos melhores bens sociais, a família. Claro que para aceitar que dois homossexuais idóneos possam adoptar uma criança, esse meu preconceito já está a ceder; porém aqui prevalece o interesse da criança, que está sempre muito melhor num lar onde possa ser cuidada do que numa instituição.

Jaime Santos disse...

Pois está a ceder e graças parece-me, ao seu sentido de Justiça, porque considera que a sua opinião pessoal não se deve sobrepor àquilo que vê como um bem maior. Mas, se admite que dois homossexuais idóneos podem ser guardiões de uma criança, então julgo que admitirá que lhes deveremos estender as proteções concedidas pela instituição do casamento (até para proteção dessa criança). Não me parece que, de facto, a extensão deste tipo de direitos às minorias sexuais seja muito distinta da defesa da liberdade de expressão e de pensamento. Eu sou anti-comunista e olho com algum desprezo para aqueles que se definem ainda como Marxistas-Leninistas (coisa que nenhum dos militantes do PCP que conheço é) mas era só o que faltava que me pusesse a defender a retirada de direitos políticos a quem quer que seja (idem para os fascistas). Não temos que gostar das ideias dos outros ou do seu estilo de vida para defendermos o direito deles de levarem a vida que quiserem. É mais um exemplo da ideia da liberdade segundo Voltaire, simplesmente...

Ricardo António Alves disse...

Repare, eu não me vou suicidar por agora duas pessoas do mesmo sexo poderem casar-se. E sou a favor de que eles gozem de todos os benefícios que, por exemplo, têm os casais em união-de-facto. Prefiro aquilo a que você chama hipocrisia, como, em muitos outros campos prefiro alternativas àquilo que me desagrada, sendo possível. Portanto, quanto a direitos, estou confortável.
Quanto aos fascistas tipo 'aurora dourada' ou outros que há para a Hungria, Ucrânia, etc., defendo a sua ilegalização. Se forem racistas, cadeia com eles. É uma questão de saúde pública.

Jaime Santos disse...

Esses fascistas são normalmente demasiado espertos para cruzarem a linha e serem abertamente racistas. Aqueles que defendem abertamente pontos de vista que podem levar à violência devem de facto ir para a cadeia (idem para os integristas islâmicos que defendem a destruição da civilização ocidental). O que os torna (uns e outros) verdadeiramente perigosos é jogarem com uma espécie de alargamento do universo do discurso, a normalização de certos pontos de vista que seriam antes inaceitáveis. Confesso que relativamente as estes últimos não sei bem o que se poderá propor...

Ricardo António Alves disse...

Refere-se a quê, em concreto?

Jaime Santos disse...

Refiro-me a isto: https://www.theguardian.com/technology/2017/may/23/alt-right-online-humor-as-a-weapon-facism

Ricardo António Alves disse...

Realmente, são insidiosos. Aqui será combatê-los com as mesmas armas. O recurso à ironia costuma causar estragos irreversíveis.