quarta-feira, julho 18, 2018

cacarejos sobre a cimeira Putin-Trump

No meio do cacarejar geral, ainda não li ou ouvi nada a respeito da declaração de Putin e Trump sobre a necessidade da defesa do estado de Israel. Declaração que se conjuga  com a questão da Palestina e, mais premente ainda, o problema do Irão. Putin poderá ser essencial para travar os ímpetos belicistas da administração americana e do seu instável presidente e do governo de Netanyahu, pois é no Médio Oriente que se joga a segurança mundial, muito mais do que nas Coreias. Enfim, coisas de somenos; o que interessa é o folclore do Trump e a nada inocente diabolização do Putin, mais do que suficiente para desviar as atenções do essencial.

24 comentários:

Jaime Santos disse...

O rapprochement não é aparentemente de hoje: https://www.newyorker.com/news/news-desk/israeli-saudi-and-emirati-officials-privately-pushed-for-trump-to-strike-a-grand-bargain-with-putin.

Agora, com os saltos mortais dados por Trump, tudo o que ele possa dizer faz lembrar um pouco aquilo que se diz creio que no Havai, se não gostas do tempo, espera mais 5 minutos...

Ricardo António Alves disse...

Pois, ali é que as coisas são mesmo perigosas e podem descambar: Síria, Iraque, Israel, Líbano (Hezbollah) Irão, Turquia, Arábia Saudita, etc. -- para não falar no Egipto ou na Jordânia, em delicados equilíbrios, que bem dispensam a instabilidade.

Aquela declaração sobre Israel não apareceu ali porque sim. O Putin tem todo o interesse na pacificação da Síria (aquilo deve sair-lhe caro), mas não abre mão da base naval; e não quer deixar cair o Irão, seu vizinho. Ora como o nosso Trump esteve ali enquadrado por dois falcões, Bolton e o 'Mad Dog' Mattis, houve ali planos. Agora está em recuo, mas amanhã é outro dia...

Jaime Santos disse...

Está em recuo porque foi completamente idiota e disse que não acreditava nas suas próprias agências de segurança à frente de toda a gente, para além de ter vindo com aquela menção imbecil ao servidor (!) dos Democratas. Isto depois de ter tratado os aliados a pontapé (e estes riram-se e deixaram).

Não tenho nada contra a ideia de as pessoas falarem umas com as outras, agora para se discutir e negociar com alguém da estirpe de Putin é preciso uma inteligência e um conhecimento dos dossiês que Trump não tem e que ainda por cima despreza.

Era mais do que claro desde o princípio que ele estava completamente impreparado para fazer o que quer que fosse...

Peço desculpa, mas pelo menos com Mattis sabemos ao que vem. E mais, não são necessariamente os militares os primeiros a quererem guerra, existe uma longa tradição na América de prudência no uso da força por políticos que foram militares ou serviram nas fileiras: Eisenhower, George H. Bush, Brent Scrowcroft e o próprio Colin Powell...

Ricardo António Alves disse...

Quanto aos falcões, o meu ponto é precisamente esse, o facto de serem falcões sabem bem com o que estão a lidar, em especial o Mattis, que é militar. Se pensarmos em dois falcões israelitas, Rabin e Sharon, estes conseguiram (ou, no caso de Sharon, iria conseguir) muito mais na direcção da paz do que os nethanyahus. Por isso digo que 'houve ali planos´, certamente visando a obtenção dum status quo, que o Trump e a sua administração terão ou não força para impor internamente. Quanto a isto estou pessimista, mas nunca se sabe.

Quanto à estirpe de Putin, que é sem dúvida uma estirpe coriácea, tenho sempre em mente -- para além da minha russofilia crescente -- que o povo russo nunca foi tão livre nem tão próspero quanto o é hoje. Isto apesar de o Ocidente o caracterizar como tirano, o que provocaria um sorriso, não fosse trazer contigo uma preocupante degradação e manipulação das palavras -- o que, diga-se, também não é novo, e aí está a memória da velha Rússia Soviética, que não podemos esquecer. (O 'tirano' foi vociferado pelo McCain, aquele que escolheu a Sarah Palin para vice, a criatura que faz o Trump parecer um filósofo de Heidelberg.)

Jaime Santos disse...

A minha utilização do termo 'estirpe' não implica qualquer crítica, embora saiba o que penso de Putin (a palavra que encontrou para classificar a dita estirpe, coriácea, é aliás excelente).

Reconheço-lhe a inteligência, mas não me esqueço da Tchechénia, nem do Kursk, nem do que se passa na Síria (a questão do uso ou não de armas químicas é perfeitamente irrelevante), nem dos assassinatos de jornalistas críticos ou opositores (que Putin teria obrigação de proteger).

A Rússia é uma potência imperial, como os EUA, aliás, onde ainda por cima não existe qualquer espécie de separação de poderes (os EUA para lá caminham com Trump). Se a maioria dos russos aprecia o estilo autoritário dele (e convenhamos que talvez eles tenham razões para isso depois dos disparates de Yeltsin e da elite liberal que estava à sua volta, muito longe de ser democrática) é lá com eles.

Eu não aprecio. Os políticos com tiques mais autoritários de que dispusemos, Cavaco Silva e José Sócrates, estavam a milhas de Putin e não deixaram quaisquer saudades... A minha preferência vai para democracias parlamentares com o poder bem distribuído dentro do Conselho de Ministros e sob vigilância parlamentar...

Acho muito bem que se dialogue com os russos, mas a um bom braço de distância... Se Mattis é pessoa para isso, espero que ao menos ele permaneça no lugar até ao fim do mandato de Trump, porque Tillerson ou McMaster já eram...

Ricardo António Alves disse...

Sim, claro.

Já falámos sobre isto várias vezes. Eu também não gostaria, como é óbvio, mas sinto-me no dever de dizer o que penso, faço-o sempre com gosto, mesmo correndo o risco de errar, principalmente quando somos bombardeados por desinformação e propaganda.

E também dou a mão à palmatória, sem problema nenhum. Até agora, não vi razões para o fazer. Se em geopolítica, entendo que uma das nossas relações privilegiadas deve ser com os Estados Unidos, de quem somos vizinhos (Atlântico, sempre; Europa, também!), penso igualmente que não devemos deixar-nos embarcar nem manipular, contra os nossos interesses, pelos jogos não apenas das duas superpotências militares, como pelos interesses das potências europeias, que não serão forçosamente coincidentes com os nossos. E aqui, o papel da Alemanha tem sido negativamente determinante, pois na sua diplomacia de pau de dois bicos, quer em relação á Rússia quer aos Estados Unidos, porque tem interesses próprios a defender, arrasta-nos para uma situação que não nos beneficia em nada. Por isso, antes de preocupar-me com a Rússia, receio primeiro a Alemanha, que está mais próxima.

Jaime Santos disse...

Parece-me, apesar de tudo, que a Alemanha teve em relação à Ucrânia uma atitude bem mais prudente que a América de Obama. E não se meteu na Líbia nem na Síria, sendo que aceitou uma boa parte dos refugiados de uma crise que se deveu em grande medida aos disparates de outros, EUA, França e RU (mesmo se a própria Merkel reconheceu que a UE, com a Alemanha à cabeça falhou no apoio à ACNUR, o que deixou os refugiados em solo turco em muito má posição).

As sanções a Putin são perfeitamente adequadas. Como você próprio diz, não são elas que impedem a prosperidade dos russos e são a única maneira de fazer chegar a Putin, por via dos seus oligarcas, a ideia de que existem limites à sua liberdade de ação que não passam por pegar em armas contra a Rússia, algo que ninguém manifestamente quer fazer. Não vão os russos entusiasmarem-se com o poder recentemente readquirido. O imperialismo russo não data, como você bem sabe, do tempo da URSS...

A Alemanha tem que viver na vizinhança da Rússia e tem que ter comércio com ela e ainda bem que assim é (o comércio amolece as relações entre os diferentes povos). Tem também um grande contingente de tropas americano no seu solo e vive rodeada de vizinhos que desconfiam da Rússia (por boas razões) muito mais do que ela. Por isso, não é de admirar a ambiguidade da sua diplomacia. Que quer? Que os alemães vão comprar gás americano, muito mais caro que o russo?

E depois é a única grande nação que tem uma líder em condições à sua frente que defende convictamente o Liberalismo (mesmo se enfraquecida, até pelo seu longo consulado). Claro, existe muita hipocrisia nas suas ações (basta ver o tratamento da Grécia). Mas Theresa May está de coma (e Corbyn é um iliberal) e Macron é ainda uma incógnita (e a França atravessa uma grave crise interna, que ele terá primeiro que resolver, ou não). E Trump é, claro, um reacionário incompetente e sobretudo alguém que é muito melhor a destruir que a construir o que quer que seja.

Por isso, e dadas as credenciais de Putin, está bom de ver, fico com o diabo que conheço (a Alemanha)...

Ricardo António Alves disse...

A Alemanha, apesar de tudo, tem ainda os constrangimentos decorrentes da nódoa do nazismo. Quanto tempo vai demorar? O pós-Merkel está aí à porta.

A Líbia, na altura foi a favor da intervenção; hoje voltaria a sê-lo, não nos mesmo moldes.

Sanções à Rússia, nem estou a ver a vantagem nem a justificação. Por causa da Ucrânia? Podiam arranjar melhor desculpa; além disso nem têm autoridade, vide o Kosovo.

Do que eu gostava mesmo era de várias Alemanhas pequeninas; ou p+elo menos duas, com o Mauriac.

De acordo quanto aos líderes, porém porque classifica o Corbyn como iliberal? É contra a liberdade de expressão, associação, imprensa ou até económica (com rédeas, claro)?

Jaime Santos disse...

As sanções de facto existem para castigar a Rússia pela intervenção na Ucrânia. O facto de o Ocidente ter ou não moral para as impor é absolutamente irrelevante. A violação do direito internacional pela Rússia é um facto objetivo e não está dependente da ausência de mácula por parte do Ocidente.

Se só quem não tem mácula é que pode protestar, bom então se calhar hoje a Indonésia continuaria a ocupar Timor, dadas as culpas de Portugal pela colonização. Bem entendido, o que fez realmente andar as coisas foram as pressões americana e australiana (só existe direito se existir força para o impor) e não o protesto português, mas sem esse protesto (bem como o trabalho diplomático de Guterres antes) o processo nunca teria começado...

Aliás, as sanções deram lugar a represálias por parte da Rússia, que se repercutiram, por exemplo, nas exportações portuguesas de carne de porco para a Rússia. Não se pode exatamente dizer que os coitadinhos dos Russos estejam de mãos atadas...

A intervenção inicial na Líbia sob mandato da UN (que a Alemanha apoiou, se bem me lembro) tinha objetivos bem mais modestos que o derrube de Kadhafi...

Quando o pós-Merkel chegar, reavaliaremos a posição da Alemanha face a Portugal e ao resto da Europa. Se mudar, deveremos mudar a nossa política levando em conta, bem entendido, que eles são nossos credores... Não tenho nenhuma bola de cristal para prever o que se vai passar a seguir...

Não está por acaso a sugerir que devemos agora ir aliar-nos à Rússia, pois não (a pergunta é retórica, claro está)?

Quanto aos 2% do PIB de investimento na Defesa ou lá o que é, acho muito bem, não para fazer guerra à Rússia, mas porque o estado lastimoso das nossas forças armadas exige também investimento. Cabe lembrar que a nossa zona económica exclusiva é enorme e a NATO já viu melhores dias...

Corbyn quer renacionalizar grande parte das utilities e nem sequer tem dinheiro para isso. Eu não sou completamente contra a ideia por cá (renacionalizaria a REN e a ANA, p.e.) mas nunca prometeria aquilo que não sou capaz de pagar. Enfim, é uma mistura de iliberalismo económico e pie-in-the-sky ideology... E isto reconhecido pelo Larry Elliot, editor de Economia do Guardian, que o apoiava (chamou-lhe sleight-of-hand).

O meu caro diria que o BE, que é a favor de todas as liberdades que menciona, é liberal? Olhe que lhes são capazes de tomar isso como ofensa se disser que sim...

Ricardo António Alves disse...

Para além de não terem moral,como sabe acho muito bem a anexação da Crimeia. E quanto ao leste da dita, não serei eu quem os vai condenar, como já lhe disse.

Se há coisa que os russos não são, é coitadinhos. Quanto a alianças, depende dos amigos e dos inimigos, como sucede sempre.

Concordo quanto à Marinha, por isso sempre tive cautela na questão dos submarinos (não quanto à corrupção, já se vê) e das fragatas. Mas a questão nem é essa.

O BE é comunista, logo iliberal, em princípio; o Corbyn é trabalhista. Chamar-lhe iliberal por querer nacionalizar serviços que deveriam ser públicos, talvez seja excessivo. O que o Corbyn não parece ser é destes socialistas de pacotilha que por cá privatizaram o que puderam, entretanto enchendo-se, e aos amigos.

Jaime Santos disse...

Não, o programa do BE é social-democrata ou socialista-democrático, à antiga. Querem renacionalizar uma parte da grande indústria e da banca. Não os vejo a defender nem a ditadura do proletariado nem sequer a estatização da Economia.

Pode dizer-se que se calhar defendem a democracia parlamentar com reserva mental, mas acho que isso não é verdade. Não diria isso sequer do PCP, mau grado o marxismo-leninismo e outros esqueletos que ainda têm no armário...

Corbyn não é seguramente um socialista de pacotilha à Blair, mas critico-o neste caso pela opção ideológica, não por falta de princípios como Blair. Também critico o irrealismo das propostas. Como não acredito que eles sejam ingénuos (o seu Shadow-Chancellor é uma pessoa sólida), o que resta é eleitoralismo...

Ver: https://www.theguardian.com/politics/2017/may/16/labour-tax-and-spend-public-back-jeremy-corbyn

Claro, o documento é de Maio de 2017, pelo que pode ser que Corbyn tenha entretanto acertado agulhas, não sigo a política britânica assim tão atentamente...

Ricardo António Alves disse...

Sim, haverá vários, diversos (muitos?) que têm essa reserva mental. Isso para mim é claro, e em relação ao PCP nem se fala, senão não seriam o que são.

Não estou habilitado a falar do realismo ou não das propostas de Corbyn; o que sei é que com ele o Labour deixou de ser uma vergonha. Se ele quiser renacionalizar, por exemplo, os caminhos de ferro, que o Bliar privatizou...

Jaime Santos disse...

A política sem princípios, meu caro, não vale a pena. Mas sem realismo redunda, tarde ou cedo, em desastre. Trata-se da arte do possível, como dizia, creio eu, Bismarck.

Aliás, prometer o que não se pode dar ou revela ingenuidade ou má fé, o que não abona muito a favor dos ditos princípios.

Helmut Schmidt, que era um Social-Democrata com princípios, mesmo se com alguma queda para o conservadorismo, dizia que quem tem uma visão deve procurar um médico...

Depois, a atitude de Corbyn tem sido assobiar para o lado e esperar que os Tories se desintegrem com o Brexit. Estamos a falar de alguém que, sendo um eurocético de sempre (nada contra, é uma posição tão honrada como ser pela permanência na UE) e obrigado a fazer campanha pelo Remain por decisão maioritária do seu Partido, participou em 10 (!) ações de campanha. Se quisermos falar de reserva mental, não precisamos de ir muito longe.

Acha que ele dará um bom PM? Deixe-o chegar ao poder (?) e depois conversamos...

Ricardo António Alves disse...

É como lhe digo. Não sei avaliar as propostas do Corbyn, nem sequer estou decentemente informado sobre elas. Quanto ao Brexit, ele foi muito criticado por isso, e provavelmente com razão. E sim, gostaria de vê-lo chegar ao poder, mas mais que isso, gostaria que a Inglaterra não saísse da UE, o que será mau para ela e ainda pior para nós.

Jaime Santos disse...

Será sobretudo mau para os Britânicos do ponto de vista económico (e ainda mais para a Irlanda do Norte e para o Eire, dado que pode bem ser daqui que recomeça a guerra civil).

Mas será pior para nós num certo sentido, é que perderemos a influência moderadora do Liberalismo Inglês na UE, que está de todo o modo em retirada.

Para mim será um desastre, se tornar as deslocações ao RU mais difíceis. Doutorei-me lá e embora já não vá lá desde 2011, adoro aquilo, mesmo o raio do sistema político aristocrático que aquela gente persiste em preservar (por más mas sobretudo por boas razões).

Ricardo António Alves disse...

Sim, concordo. Será muito mau para a UE. Eu bem gostaria que houvesse um novo referendo, mas o mais provável é que tal seja como sonhar acordado. Se vier a suceder, a Inglaterra terá sempre de ser uma prioridade da nossa política externa, como o país atlântico, que seremos sempre enquanto houver país.

Jaime Santos disse...

Sem dúvida, para além de ser o nosso aliado mais antigo...

Ricardo António Alves disse...

e que nem sempre se portou bem connosco, mas enfim...

Jaime Santos disse...

Nao se ter portado bem connosco é um 'understatement', como eles dizem por lá...

Ricardo António Alves disse...

Pois, é a nossa tradicional cordura (que quando atinge o limite se transforma em selvajaria, mas isso são outras histórias). Até modificámos a letra do hino nacional para não os molestar -- não por deferência, claro está, mas por espertice necessidosa do novo regime.

Jaime Santos disse...

Bom, os Portugueses também são conhecidos pela fanfarronada. Mas, de facto, eu prefiro essa prudência que, atingindo o limite, se transfigura em golpes secos e normalmente letais. Para deixar os outros de sobreaviso, a modos que...

Ricardo António Alves disse...

Isso é mais o português marialva e tauromáquico, mas cão que ladra nem sempre morde; os outros são de facto mais perigosos: quando menos se espera, um gajo vê-se com uma sacholada pela cachimónia abaixo.

Jaime Santos disse...

Sacholada é o termo exato :-) ...

Ricardo António Alves disse...

Muito trabalho de campo :|