«O apeadeiro desapareceu. Um padre pediu à CP que lhe desse as belas pedras de granito das paredes e do cais, levou-as para a vila e fez com elas uma casa para a terceira idade. O local foi arrasado, mas por desleixo ou esquecimento deixaram as placas que avisavam do perigo de atravessar desatento a linha.» J. Rentes de Carvalho, A Amante Holandesa (2003)
«Hoje o tempo não me enganou. Não se conhece uma aragem na tarde. O ar queima, como se fosse um bafo quente de lume, e não ar simples de respirar, como se a tarde não quisesse já morrer e começasse aqui a hora do calor. Não há nuvens, há riscos brancos muito finos, desfiados de nuvens. E o céu, daqui, parece fresco, parece a água limpa de um açude.» José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (2000)
«["] Há passagens do relatório que esclarecem o problema, passagens aparentemente insignificantes, mas que talvez sejam efectivamente outra coisa, como o facto de o pai jogar bowling com garrafas, quando lá no bairro ainda ninguém sequer sabia o que era o bowling, isto depois de beber o conteúdo das garrafas, eram garrafas de vinho, cerveja, aguardente e o mais que viesse, ele ficava bêbado e depois jogava bowling e partia as garrafas com uma grande bola de prata de chocolates, e o rapaz ficou sempre com o som nos ouvidos, o som de garrafas partidas enchendo a noite, um perpétuo estilhaçar de nervos."» Dinis Machado, O que Diz Molero (1977)
.jpg)


































































1 comentário:
«Luís de Camões fidalgo? Escudeiro? Que adianta? É Pedro Mariz quem responde nos 'Diálogos de vária história':
Não querendo as regateiras de Lisboa guardar uma taxa nova, e dizendo-o a el-rei que enquanto as não mandasse açoutar não se emendariam, respondeu ele que filhos de regateiras vinham a ser capitões na Índia, fidalgos de sua casa: e não queria dantemão deshonrá-los, mandando-lhes açoitar as mães.
A certa altura o Catual, hóspede de Paulo da Gama, pergunta que figuras eram aquelas que faziam perpassar diante de seus olhos. Era a galeria dos grandes da Lusitânia, a começar por Egas Moniz, e como tais lhos apresentam. São dezenas e dezenas de barões aparatosos e encartados como as figuras de Plutarco. Dos Camões não se fala. Pois que tudo é imaginação do autor, ressalta claro como a luz que se pusesse ufania em seus antepassados, poderia enunciar-lhes ali o nome. Não o fez e todavia o rosário deles é longo. Serve Monçaide de língua. E remata assim:
Outros muito veríeis...
Mas falta-lhes pincel...
Honra, prémio, favor que as artes criam,
Culpa dos viciosos sucessores
Que degeneram certo e se desviam
Do lustre e do valor dos seus passados
Em gostos e vaidades atolados.»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)
Enviar um comentário