terça-feira, novembro 22, 2016

Tulsi Gabbard

... e de repente, uma visão. Tulsi Gabbard, congressita democrata, apoiante de Bernie Sanders, veterana da Guerra do Iraque e surfista, encontra-se com Trump. Não por ter passado a achar que este é aproveitável em várias matérias, mas porque numa questão fundamental, ela percebe que 1) o inimigo é o radicalismo islâmico; e 2) que a escalada com a Rússia não traz nada de bom. Vale a pena ler o seu comunicado. 
Oh, les beaux esprits (não ela e o Trump, claro, mas ela e eu)...

12 comentários:

Jaime Santos disse...

Dado o número de baixas que a guerra da Síria está a causar, mesmo a vitória total de um tirano como Assad será melhor que a situação presente: https://www.theguardian.com/world/2016/nov/22/aleppo-syria-siege-is-war-of-extermination-says-injured-doctor. Mas não haverá nenhuma razão para celebrar, a não ser talvez que são eles que morrem e não nós :-( ...

Ricardo António Alves disse...

Não posso estar mais de acordo. Como já lhe disse -- e isto é uma análise minha, que, portanto, não li em nenhum lado -- o arrastamento da guerra e a pulverização da Síria alteraram a 'qualidade' de Assad. Até então, era um lídimo herdeiro do seu pai, um chefe duma facção religiosa e étnica que dominava o país. Havia também aspectos positivos, que me dispenso de enumerar.

Como observador externo e escassamente informado, chamei-lhe nomes quando ele reprimiu as manifestações populares que exigiam abertura. Essa abertura era possível ou abriria a porta ao caos como sucedeu na Líbia (e diga-se que apoiei a queda do Kadafi, e hoje voltaria a apoiar)? Não sei, e acho que ninguém sabe, A verdade é que a Síria escaqueirada é um mosaico com divisões étnicas (árabes/curdos) e religiosas (xiitas/sunitas, para não falar nos cristãos) e um processo complicado, em que a Síria se mantém (como?) ou se fragmenta, com o problema adicional do Líbano, historicamente na esfera da 'Grande Síria'.

Voltando ao seu comentário, e no contexto actual, só vejo a possibilidade de, com uma entente EUA/Rússia, e depois de varridos Daesh, Al-Nusra, etc., Assad seja forçado a partilhar o poder, à imagem do vizinho Líbano e pesando a sua especificidade própria.

Resta o problema curdo. Bom, bom, seria a criação do Curdistão aproveitando a fraqueza da Síria e do Iraque. É claro que a Turquia e o Irão não estariam pelos ajustes, por razões óbvias; mas aí teria de haver a imposição russo-americana, articulada com a ONU e, eventualmente, a organização dum referendo.

Jaime Santos disse...

Aqui concordamos quase inteiramente. Os Curdos, pela coragem demonstrada na luta contra os fundamentalismos, há muito que merecem um Estado independente, mas parece-me demasiado arriscado, e diria que prefiro o status quo, porque isso iria criar mais um precedente perigoso (exatamente a mesma razão pela qual eu não concordo com a anexação da Crimeia pela Rússia). Se a Turquia entrar em convulsão, isso poderia fazer a guerra da Síria parecer uma brincadeira de crianças, o que daria seguramente espaço ao aparecimento de uma nova versão da Daesh (a Al-Qaeda apareceu no Afganistão, e o Daesh na Síria e no Iraque, todos eles Estados Falhados). E eu detesto Erdogan, note-se. Se Trump oferecer a Putin uma distensão das relações no Leste Europeu e o levantamento de sanções e lhe pedir em troca uma mudança de regime na Síria (ou uma partilha de poder por Assad) e o estabelecimento de uma solução de compromisso na Ucrânia, isso poderia resultar (por agora). Claro, o meu comentário também reflete a tristeza de sermos totalmente incapazes de parar com a carnificina da Síria, mas já se fizeram demasiados disparates lá...

Ricardo António Alves disse...

Não só merecem, como houve um compromisso internacional, pós-Grande Guerra para a criação desse estado, que não foi cumprido. Claro que o óptimo é inimigo do bom, pelo que se tornaria impensável, nas actuais circunstâncias, que o as regiões ocupadas por turcos e iranianos fizessem parte desse estado, Já daria demasiado trabalho e confusão garantir as partes iraquianas e sírias. Claro que isso só acontecerá em caso de necessidade fundamental de América e/ou Rússia, e não pela justiça ou merecimento dos curdos, e também pela sua progressão no terreno. Quanto à Crimeia, a situação não me parece comparável; talvez, apesar de tudo, se possa fazer um paralelo com as províncias do norte da Ucrânia. Aliás, o discurso oficial dos russos é completamente diferente num e noutro caso.

Jaime Santos disse...

Dou de barato que a maioria dos habitantes da Crimeia preferem ser russos a ucranianos (convém lembrar que os tártaros originais foram deportados e substituídos por russos). Mas aqui o meu problema é de Direito e não de Justiça. O processo de anexação ocorreu recorrendo a um referendo marcado às três pancadas e realizado sob ocupação militar. E, se critico os fachos ucranianos por terem derrubado um Governo legítimo, mesmo se corrupto, ou por terem querido proibir o uso do russo como língua oficial, também tenho que criticar essa violação. O mesmo se passa relativamente aos restantes territórios em disputa. Concordo com o princípio de que devem ser as populações locais a decidir como querem viver, mas se autorizássemos a aplicação deste princípio sem limite, não sei se a integridade do Estado Português poderia ser garantida... É por isso aliás que olho com desconfiança para os nacionalismos em Espanha (e depois, uma Espanha em convulsão não pode ser boa para Portugal). E relativamente ao Curdistão, acha que um Curdistão independente, mas que não incluísse os curdos na Turquia e no Irão não iria rapidamente gerar ou revoltas nesses países ou uma limpeza étnica de cada um dos lados? Sabe, a mim o nacionalismo é algo que me faz confusão. Eu sou um patriota constitucional. Se um qualquer Governo me garantir os direitos, pode contar com a minha lealdade e que se lixe essa coisa da Mãe-Pátria. Vivesse eu num mundo alternativo em que a Espanha Republicana tivesse ganho a Guerra Civil e estivesse disposta a enfrentar o Fascismo de Salazar, e eu defenderia a União Ibérica... Claro, isso não é certamente o caso dos curdos (no caso dos ucranianos russófonos, estão a saltar da frigideira para o lume da Rússia de Putin, acho eu), mas é certamente o caso dos bascos e dos catalães ou dos escoceses e dos irlandeses do Ulster (mesmo se reconheço a Sturgeon o direito de convocar um novo referendo, porque a situação constitucional da Escócia foi significativamente alterada pelo Brexit)...

Ricardo António Alves disse...

A deportação em massa foi com o Zé Estaline, já os russos (e os ucranianos) e outros andavam por lá há muito. Há um factor de distância temporal que talvez tenha de ser levado em conta, caso contrário os países do Novo Mundo ou a Austrália teriam de ser equacionados a essa luz, o que não me parece de todo exequível. Diferente é algo sucedido há duas gerações. E, em relação ao Direito, onde estava ele quando o politburo soviético decidiu o que decidiu?
Quanto a Portugal, só se forem os Mirandeses a quererem a independência. De resto, não estou a ver onde há outro povo, outra língua, outra religião, etc.
Eu também não sou nacionalista, o que não implica que não me solidarize com aqueles povos que estão sob a pata mais ou menos carinhosa de outro. Até porque essas populações, como os curdos, ou os bascos ou os catalães foram alvos de repressão inqualificável, não há muito tempo. Não sou nada antiespanhol (aliás, não sou anti o que quer que seja, no que respeita a povos), mas o desmembramento da Espanha, país artificial, não me causa nenhuma confusão. E isto aplica-se também ao Reino Unido.

Jaime Santos disse...

Meu caro, o Direito não tem que ser justo, meramente que seguir as leis existentes (na boa tradição da paz de Westefália). Qualquer um reconheceria que Saddam Hussein era um ditador bárbaro que merecia o fim que lhe coube (e ele até foi julgado e morreu dignamente, aparentemente com um sorriso nos lábios, contrariamente a Kaddafi, que morreu como um cão). Mas ainda assim, a invasão de 2003 foi ilegal (e num mundo justo, Bush, Blair e Aznar, mas não o mordomo Barroso, que não conta, deveriam ter acabado os seus dias numa prisão em Haia). Onde a Lei, má ou boa, deixa de existir, passa a valer a lei do mais forte. O Soviete supremo dispunha, creio, da capacidade de transferir a província para a Ucrânia...

Ricardo António Alves disse...

Confesso que escrevo de outiva, quanto à transferência. É provável que houvesse algum formalismo. Mas também as purgas de Moscovo tiveram se alicerçaram no Direito e nas insituições. Portanto, percebendo o seu ponto, e até nem discordando dele em abstracto, creio que há que relativizar. Quanto á Paz de Westefália, assunto que em tempos me interessou bastante, embora pela rama, confesso-me, nesta altura, incapaz de confirmar ou infirmar...

Jaime Santos disse...

Concordo. Como lhe disse, o Direito não tem que ser justo, e por vezes violar uma lei iníqua pode mesmo ser a única forma de fazer Justiça. É esse o começo das revoluções. Mas convenhamos que o resultado das mesmas não é normalmente o melhor. Se admitíssemos que a Lei Moral pode ser sempre invocada para violar uma condição jurídica existente, teríamos que concluir como Hitchens que existiam razões válidas para invadir o Iraque. Ou para derrubar Yanokovitch, por exemplo. Quanto à paz de Westefália, referia-me apenas ao princípio de não violação das fronteiras dos Estados, que creio ter aí as suas origens, mas cuja versão moderna deriva dos julgamentos de Nuremberga, e que deveria levar Bush, Blair e Aznar ao tribunal de Haia. A este respeito, as palavras do Juiz Jackson são eloquentes: 'To initiate a war of aggression, therefore, is not only an international crime; it is the supreme international crime differing only from other war crimes in that it contains within itself the accumulated evil of the whole.'

Ricardo António Alves disse...

Creio que ambos os casos, Saddam e Yanukovitch, ou Iraque e Ucrânia, não devem ser vistos à luz de conceitos gerais, mas na especificidade própria do momento em que os factos se desencadeiam e analisar as posições de cada actor nesses conflitos, sob pena de cairmos numa tautologia que não clarifica, ou seja: independentemente dos princípios gerais e abstractos que aceitamos como base civilizacional, creio que não podemos abstrair das situações concretas em que determinadas acções se processam. Saddam e o Iraque devem ser vistos no xadrez daquele momento histórico preciso, o mesmo para a Ucrânia, para depois tentarmos determinar o alcance de cada acção por parte dos diversos intervenientes do processo, para chegar a uma conclusão da justeza ou não do que se passou.
Grandes palavras, as do juiz.

Jaime Santos disse...

A sua argumentação parece-me demasiado dependente do contexto (pode simplesmente precisar de a formular de forma mais clara, mas aqui não é o espaço para isso, o meu caro tem mais que fazer), para ser útil. Somos colocados perante um dilema. Se admitirmos que a ordem jurídica a um dado momento é inviolável, corremos o risco de prolongar indefinidamente uma ordem jurídica injusta. Se, pelo contrário, não usarmos de parcimónia e admitirmos que podemos sempre violá-la quando é injusta, arriscamos a que seja a Lei do Mais Forte que prevalece, com mais ou menos hipocrisia à mistura, porque o que é ou não injusto é uma questão de opinião, pelo menos até certo ponto. Ora, relativamente a isto julgo, na minha modesta compreensão do Direito Internacional, que as intervenções humanitárias e a ingerência nos assuntos internos de outros Estados só são justificadas com uma autorização do Conselho de Segurança, o que manifestamente não ocorreu no Iraque (ou no Kosovo), mas que também não ocorreu quando a Rússia invadiu território georgiano ou ucraniano. Claro, os russos podem bem queixar-se dos precedentes acima, mas uma ação não deixa de ser legal ou ilegal só porque os nossos adversários são hipócritas. E depois, se eu considerei que a invasão do Iraque ou a operação da NATO contra a Sérvia foram ilegais, porque diabo hei agora de encolher os ombros e não deixar de criticar Putin? Num grau diferente está, por exemplo, a Intervenção Ocidental na Líbia, que teve a cobertura da ONU. Critico-a, a posteriori (na altura intui que ia dar para o torto, mas apenas isso), porque não se pensaram as consequências do colapso do Estado Líbio... Ou seja, como disse alguém, pior do que um crime, foi um erro... Pelo contrário, a libertação do Kuwait foi bem pensada e executada dentro dos limites estritos do mandato internacional. Bush Pai depois 'azeitou', porque poderia ter impedido a força aérea iraquiana de esmagar uma rebelião xiita que ocorreu depois da derrota de Saddam e não o fez (e tinha, creio, mandato para tal). Se Saddam tivesse caído nessa altura, não estaríamos neste berbicacho presente, porque Bush filho não teria nenhum estado falhado para invadir depois do Afeganistão...

Ricardo António Alves disse...

Tem toda a razão, o sono pesava.me :|

É verdade o que diz. estamos sempre perante um dilema, mas mantenho que o contexto é fundamental, embora seja um mau princípio rasgar ou fazer vista grossa aos tratados e ao DI.

No caso da Geórgia, o que houve, tanto quanto me recordo, foi uma resposta da Rússia a uma acção militar na Ossétia (creio deu do Norte), parte da Fed. Russa, desferida quando o Putin estava na abertura dos J.O, de Pequim, obrigando-o a regressar de imediato. Sobre a Ucrânia, acho que j+a trocámos impressões. Volto a dizer que o Putin não está à prova de crítica, era o que faltava; outra coisa é sermos -- portugueses e outros europeus -- arrebanhados para um conflito que é orquestrado de fora (EUA e eventuais cúmplices europeus).

O papel destes é clarinho, querem testar a Rússia; e a Rússia não se fica, é óbvio, e vai até onde puder ir. Fazerem de nós patetas, é que não me apetece aceitar.

Kadafi; já disse que voltava a apoiar uma intervenção internacional para apeá-lo. Só que parece que estamos entregues a tontinhos que não medem os efeitos das acções, e crêem que basta atirar umas ameixas e o assunto resolve-se, assim como sucedeu no Iraque: democracy, oh yeah!, down with the evildoers. Patético.

Na I Guerra do Golfo, o grande inimigo era o Irão, daí o Ocidente ter armado fortemente o Saddam. O Schwarzkopf não foi até Bagdade, como podia ter ido, porque os Estados unidos precisavam de alguém com poder q.b. para suster o Irão naquela zona.