quarta-feira, novembro 09, 2016

aliviado, mas apreensivo

(continuação do post anterior)

A derrota de Hillary Clinton, uma falcoa despreparada e simplória (lembrar que apoiou a invasão criminosa do Iraque, ao contrário de Obama), deixa-me aliviado. A perigosíssima derrapagem da política externa americana em relação à Rússia (não sei o que pensar sobre Obama, a este propósito), pode ter sido travada. O resto é escuridão.

12 comentários:

sincera-mente disse...

Entre um e outro, para mim, seria como escolher entre um hamburger e um cachorro...
Eu nunca votaria Trump. Jamais. Mas também não sou dos que se sentem aterrorizados, com medo que ele carregue no botão nuclear... (E o discurso de vitória do tipo? Até parecia um estadista!)
Sem desvalorizar as consequências internacionais ou globais da eleição de Trump, acho que devemos olhar mais é para a nossa velha Europa, que está a ficar sem conserto... E já agora, para o nosso rico País, que está em crise desde o rei D. João III...

Já agora, que me diz da mais recente vitória da ciência "sondagística"? Isto é que é acertar! Há meses, foi o Brexit; agora as eleições americanas.
Mais do que nunca, quem tem razão é o velho JP:
"Prognósticos? Só no fim!"

Ricardo António Alves disse...

Nem eu votaria nele, e nela, com muita dificuldade -- só sendo cidadão americano é que poderia sabe-lo. Possivelmente teria votado na candidata dos Verdes.
Quanto às sondagens, parece-me plausível o que alguns disseram:muitos reservaram a sua intenção de voto, uma vez que era politicamente incorrecto votar no Trump

Jaime Santos disse...

O meu caro parece esquecer-se que Trump é contra o acordo com o Irão, que é o caminho mais rápido para este tentar obter uma arma nuclear antes de ser atacado, seja pelos USA, seja por Israel. Lembre-se igualmente que Bush Jr. rejeitou o 'nation building' na campanha de 2000, e depois foi o que se viu. Quando um Democrata diz mata, o Republicano diz esfola. Ah pois, e os países bálticos devem sentir-se muito seguros com um Presidente que diz que não sabe se apoia a NATO. Parece-me mesmo convidativo para Putin, assim como quem diz, 'invade, invade!' E se os EUA falharem a NATO, sobra para nós... Com Hillary, sabíamos que era mais do mesmo, com Trump tem toda a razão, a escuridão é absoluta... Sabe, não vale olhar só para as intenções dos americanos, quando os russos são feitos mais ou menos da mesma massa e já deram suficientes provas disso...

Ricardo António Alves disse...

Jaime, você devia ser mais céptico em relação ao que é papagueado pela propaganda, neste caso do lado americano, ou da indústria armamentista, ou o que seja. (Ainda hoje, Junker veio lembrar a querida Ucrânia, ao que Teump, espera-se, responderá com um manguito)

O que o Trump diz e o que fará, poderá ou não ser coincidente. Que o Irão possa obter uma arma nuclear, é-me igual ao litro, pois, com a proliferação delas, qualquer dia até o Mónaco terá a sua ogiva. E o principal problema não reside no Irão, mas na Rússia.

Países bálticos: a questão é esta e só esta. Tantas vezes chamam pelo lobo, que um dia, quem sabe... Que interesse (e que proveito) tem a Rússia em ocupar os países do Báltico no actual contexto? Ainda por cima, países realmente membros da Nato. Portanto, Estónia, Letónia e Lituânia ameaçados pela Rússia em 2016, igual a histórias da carochinha, que dão imenso dinheiro a alguns bolsos.

Quanto à forma como eu olho, você já deveria saber que procuro olhar com isenção para ambos os lados, embora possa enganar-me. O que procuro é distinguir a realidade (tanto quanto ela pode ser perceptível) da propaganda e da manipulação da opinião pública. Quer um exemplo actual do lado russo? Dou-lhe o cessar-fogo em Alepo, com a conveniente 'contraofensiva' dos 'rebeldes', também a com a sua quota de massacres de inocentes. Aí está uma situação criada pelos russos com Assad, com a mesma verosimilhança das histórias para embalar meninos.

Jaime Santos disse...

Ora Ricardo, fazer do seu oponente estúpido ou ingénuo não é um argumento. E se diz que se está nas tintas para se o Irão consegue ou não uma arma nuclear, a que naturalmente se seguirá a tentativa dos sauditas para a obter e assim por diante, estamos mesmo conversados (por acaso, o número de estados que tem a arma nuclear neste momento, para além dos cinco do CS, é só de 4, Índia e Paquistão, Coreia do Norte e com certeza Israel). Você certamente consegue melhor do que despachar argumentos com blagues acerca do Mónaco. Eu também procuro olhar para as coisas com isenção, mas conhecendo Putin, a destruição da Tchechénia, as perseguições e o assassínio de jornalistas na Rússia, as suas incursões na Geórgia, ou o seu bullying dos Estados Bálticos (incluindo o rapto de agentes fronteiriços), os problemas com que se debatem as minorias russófonas nesses países (responsabilidade das maiorias não-russas, claro, mas a História pesa bem), mais o problema ucraniano (em larga medida da responsabilidade de 'pró-ocidentais' fachos que depuseram um Presidente eleito democraticamente, mesmo que corrupto, num golpe de Estado, mas em que Putin não tem feito outra coisa senão meter os dedos), e ainda a extrema violência a que recorre na Síria, francamente não sei se consigo... E isto mesmo dando de barato que a escalada militar no Leste europeu, com o aumento de tropas pelo lado ocidental ou a colocação de mísseis Iskander em Kaliningrado pelos russos é tudo menos inteligente... Putin tem que perceber três coisas. Primeiro, que a segurança dos países do Leste é garantida pela NATO e que se comprar uma guerra com um, compra com todos. Depois, que os direitos cívicos dos cidadãos russófonos nos diferentes países do Leste estão garantidos (até porque é assim que deve ser). Finalmente, que a NATO não deverá expandir-se mais a Leste e que não é certamente uma ameaça à Rússia. E relativamente à Síria, parece-me que todos já reconhecem que o futuro passará também por Assad, se se quiser que a Rússia ajude a tratar da saúde ao Daesh... Se Trump for capaz de convencer todas as partes disto tudo, então, nessa medida, até pode ser um bom Presidente... Não a debitar alarvidades sobre perseguição às famílias dos jihadistas... Um buraco negro não é certamente um bom programa de política externa...

Ricardo António Alves disse...

Meu caro, não foi essa a minha intenção, pois prezo bastante as suas observações, excepto quando ela me atribuem, ou parecem atribuir (como o final deste seu comentário) intenções, simpatias ou parcialidades que não tenho.

Sou um democrata e um liberal, e, portanto, rejeito tanto as ditaduras dos chefes como a insidiosa e inescrutável manipulação dos poderes fácticos.

O meu gracejo com o Mónaco deve-se ao facto de a disseminação das armas nucleares tácticas ser um perigo real, não confinado a qualquer fronteira. Tenho menos medo de um Irão nuclear do que a apropriação dessas armas por um qualquer daesh. Aliás, tenho até mais medo dum Paquistão nuclear. Mas não vale a pena estarmos a falar sem sabermos o que vai acontecer.

Acho que já falei do Putin o suficiente para me repetir.
A repressão da Tchetchénia foi brutal, é um facto. No entanto, ela dá-se após uma primeira derrota dos russos, a que se somam uma vaga de atentados em solo russo. Houve uma ameaça e uma guerra, em que um teria de esmagar o outro. Tão aparentemente simples e tão cruel como isto. Os rebeldes tchetchenos foram esmagados, e com eles inúmeros inocentes. Lamento-os, mas compreendo.
Perseguições a jornalistas: não contesto nem concedo quanto à implicação directa de Putin nisso, é possível, é uma forma de achar. Já agora, ainda ontem o Evgueni Mouravitch, correspondente da RTP em Moscovo lhe chamou populista, comparando-o com Trump, e ainda não foi executado (já nem falo no inefável Milhazes). Bem sei que há diferenças quanto à real influência dos jornalistas; no entanto, querer fazer do Putin um Teodoro Obiang (ou até num Hitler, como no outro dia o impagável Rangel), talvez seja uma simplificação excessiva.
Geórgia, meu caro? Vá rever o filme dos acontecimentos. Aliás, concordo com o insuspeito Nuno Melo, quando encontrou uma palavra para uma das causas do que se tem passado a Leste, e essa palavra é "Kosovo".
Quanto àquilo que o Putin deverá perceber, não me parece que défice de entendimento seja um dos seus defeitos.
Báltico: já lhe falei no caso da Finlândia, por isso, como diz o outro, eu resto o meu caso.
Concluindo: entre a grande probabilidade de uma escalada militar entre Estados Unidos e Rússia, com todos os perigos inerentes e a possibilidade de uma saída, prefiro a segunda. Se os americanos escolheram um alarve para seu presidente (uma espécie de Alberto João continental, é uma maçada, mas é para o lado que eu durmo menos mal.

Jaime Santos disse...

Meu caro, no final do meu comentário eu acusei-o de não olhar para as ações da Rússia usando a mesma lente crítica que utiliza quando fala dos EUA. Tão só e apenas. Não o acusei de simpatias pró-russas, que estou farto de saber que não tem, que isto fique bem claro. Agora, que considero que não toma Putin suficientemente a sério, não toma, e por amor de Deus, porque haverá Putin de se preocupar com o que diz o correspondente da RTP em Português? Espero que possa viver com a minha opinião, tal como eu prezo a sua, mesmo quando discordo dela em larga medida (mas não completamente, vide acima). Já agora, relativamente ao Irão, não é apenas a cooperação no ramo do nuclear que fica posta em causa. É também a relação com a Rússia que tem apoiado Teerão nesta matéria e a discreta (tácita) colaboração entre Washington e Teerão para garantir a estabilidade no Iraque, de maioria xiita, e também na luta contra o Daesh. E depois, quanto menos dependermos do petróleo dos mulahs de Riade, melhor, até porque são eles o principal financiador do sunismo integrista... Espero que Trump perceba isto, ou que haja alguém que lho faça perceber. O acordo com o Irão é talvez a melhor coisa que Obama fez ao nível de política externa, onde fez sobretudo disparates (mas pelo menos não invadiu nenhum País, o que já não é mau)... Finalmente, completamente de acordo relativamente aos mulahs paquistaneses, que foram provavelmente quem forneceu a tecnologia nuclear à Coreia do Norte e à Líbia, mas não me parece boa ideia aumentar as tensões no Médio Oriente... Se o Irão tentar obter uma arma nuclear e Israel o atacar, sabe quem é que se envolve a seguir? A Rússia e os EUA...

Ricardo António Alves disse...

Eu deixei de ter qualquer respeito pelos Estados Unidos com a invasão do Iraque, que significou uma traição a quantos defendem sociedades decentes e livres. É claro que um império é um império, por isso nunca tive, neste particular, grande ilusões em relação a Obama, embora esperasse mais dele na questão israelo-palestina, de facto o seu grande falhanço na política externa, a que se soma esta subida de tensão irrazoável com a Rússia. Esta, com maior ou menor intensidade, é o que sempre foi: um país esmagador, em vários sentidos, que não conheceu um sistema político liberal. No entanto, que diferença, para melhor desde o fim da URSS, no que respeita a liberdades cívicas.

Sou talvez mais tolerante com Rússia e menos com os Estados Unidos precisamente porque exijo mais destes. No entanto, a minha bitola ainda é a Amnistia Internacional e congéneres credíveis. Condenação da Rússia nos ataques aos direitos humanos, sim senhor, desde que não haja selectividade nessas condenações. E nunca por nunca deixar de estar alerta em face das manipulações. É que não me apetece mesmo nada ter um aumento de tensão militar, e muito menos uma guerra (!) por causa duma Ucrânia, metade dela, russa, ainda por cima, em relação à qual o Ocidente se está nas tintas. Mas os russos não estão; defendem os seus e a sua área de influência no que fazem muito bem, do seu ponto de vista imperial.
O Irão: sim, um grande acordo, em relação ao qual estou expectante para ver se o Trump sempre o desfaz ou não. Espero que ele seja imune ao lobby Nethanyau, um bandido. Quanto a ataques, penso ser mais perigosa a inversa, um ataque a Israel, que os EUA não permitirão. Os russos ainda têm estofo para aguentar umas ameixas americanas nuns bunkers iranianos. Mas eu também acho que Israel se sabe defender. Perigoso, perigoso, é uma escalada na Ucrânia -- ou, se os russos forem insensatos no Báltico. (E nem estou a ponderar a situação na Ásia Central).
Penso, portanto, que não se vislumbra para já uma tensão Putin-Trump. O meu receio com Trump é a China, nem que seja por interposta Coreia do Norte, u espantalho que por enquanto dá jeito aos chineses.

Jaime Santos disse...

Sim, esperaríamos mais dos EUA, porque são uma Democracia. Mas internacionalmente são aquilo a que Roosevelt e Roosevelt (o Theodore e sobretudo o FDR) os promoveram, uma república imperial, embora isso tenha um longa história que remonta provavelmente ao Alexander Hamilton, o primeiro grande imperialista e que também era um abolicionista. Nos EUA, o idealismo mistura-se sempre com os negócios... E como notava o saudoso Gore Vidal, o Congresso entregou ao Presidente em tempos a capacidade de conduzir a guerra e nunca a recuperou... Agora, como lhe disse, confio mais nos EUA do que na Rússia pela fragmentação do poder (mas não sei o que Trump fará com ele, se é que tem um plano claro, mas acho que devemos levar a sério muito do que disse na campanha, até porque já estará a pensar no segundo mandato). Quanto à Rússia, é uma pena que um País com que provavelmente só a Alemanha rivalizou em termos da sua produção cultural em todos os campos (tirando a filosofia, mas a literatura russa tem toda a filosofia de que poderemos precisar) tenha que seguir a tradição do homem forte. Chego a pensar que tivesse Alexandre II conseguido levar avante as suas reformas, e a história da Europa teria sido completamente distinta, e a Rússia seria agora uma velha monarquia constitucional liberal ao estilo da Dinamarca... Quanto aos mulahs iranianos, apesar da retórica belicosa que ainda mantém, não me parece de todo que se preparem para atacar Israel. O Irão quer sobretudo assegurar a sua área de influência na região, e causa-me por isso mais receio um possível conflito com a Arábia Saudita (vimos isso no Iémen, onde os sauditas pelos vistos se têm comportado de forma perfeitamente indecente, com o beneplácito dos EUA).

Ricardo António Alves disse...

Concordo com tudo o que escreve meu caro, excepto em relação ao Trump, não por qualquer benevolência em relação a ele, mas pela natureza do indivíduo, desdizer hoje o que disse ontem. Creio que é mesmo uma incógnita, em termos de política externa.
(Tenho, há anos, o «Império» para ler...)

Jaime Santos disse...

Oxalá Trump não cumpra nada do que prometeu, exceto assegurar uma melhor relação com a Rússia (mas não desestabilizando a NATO), não se metendo em aventuras neo-imperiais. Mas como lhe disse, lembre-se de Bush Jr., lembre-se da promessa que Trump fez aos militares de lhes aumentar o financiamento e lembre-se do queixume de Napoleão sobre arranjar guerras com que manter os seus exércitos entretidos. Um dos problemas sistémicos dos EUA é o tamanho das suas forças armadas. A tomada da República Romana por populistas militares deveu-se a isso, algo que era do conhecimento dos Founding Fathers e contra o qual Washington avisou, creio que no seu 'Farewell Address'... E há algumas 'constituencies' em relação às quais Trump terá mesmo que manter as promessas... Ele pode parecer um 'buffon' mentiroso, mas temo que seja bem mais perigoso do que isso...

Ricardo António Alves disse...

Quanto ao temor, acho-o mais que justificado. Com a outra, voltamos ao princípio, era mais do que temor, era uma certeza.