quinta-feira, novembro 02, 2017
quarta-feira, novembro 01, 2017
caderninho
«Para o homem sábio toda a terra é utilizável, porque a pátria da alma excelente é todo o mundo».
Demócrito
segunda-feira, outubro 30, 2017
domingo, outubro 29, 2017
sábado, outubro 28, 2017
o enxovalho
Se Portugal defende o direito à auto-determinação dos povos, princípio basilar do direito democrático e da carta das Nações Unidas, não podia nem devia assobiar para o lado quando esse princípio está posto em causa, e há mil e uma maneira de fazê-lo diplomaticamente. Pelo contrário, a forma como os líderes políticos se têm referido ao assunto, para agradar a Madrid, é indecente e indigna. Indecente, porque dão a imagem de um país de rabo alçado; indigna, porque se fossem políticos com princípios, tinham obrigação de nutrir alguma empatia pela vontade de autodeterminação dos catalães, sabendo-se pôr no seu lugar. Porque, se 1640 tivesse corrido mal, como correu aos catalães, poderíamos estar em situação semelhante: depois de séculos de domínio e repressão, prisão e morte dos líderes independentistas, proibição da língua, teríamos hoje de ouvir um primeiro-ministro a dirigir-se-nos em castelhano, a partir de Madrid, a insultar-nos e ameaçar-nos, e toda uma classe política, dum franquista prático como o líder do Ciudadanos a uma nulidade como o secretário-geral do PSOE, a perorar sobre a nossa aspiração à liberdade. Pior: poderíamos estar agora, na eventualidade de a Catalunha, bem sucedida então na guerra de independência, aparecer com líderes simétricos aos nossos, com comentários acintosos, como os vergonhosos proferidos pelo ministro Santos Silva, pessoa que até agora me merecia respeito intelectual.
Neste momento, já nem é vergonha o que sinto pela atitude do governo e do PR; sinto-me enxovalhado por, em nome de Portugal -- também em meu nome, portanto -- se apressarem a dar a Madrid uma solidariedade de que ela não é credora.
Se a situação vier a evoluir no sentido correcto, o da autodeterminação, graças à coragem e perseverança dos catalães, com eles estará a razão da ética e da História (aliás, estará sempre, mesmo em caso de derrota); e quanto a nós ficará a nódoa, que poderá ser remediada ou esquecida, mas nunca apagada.
Se a situação vier a evoluir no sentido correcto, o da autodeterminação, graças à coragem e perseverança dos catalães, com eles estará a razão da ética e da História (aliás, estará sempre, mesmo em caso de derrota); e quanto a nós ficará a nódoa, que poderá ser remediada ou esquecida, mas nunca apagada.
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Catalunha, 27 de Outubro de 2017
Podem arranjar os argumentos que quiserem: a constituição espanhola, a economia, a União Europeia; podem fazê-lo com a simplicidade de quem está de fora e não saiba avaliar o peso da História; podem fazê-lo com o cinismo e a desonestidade intelectual de quem pensa primeiro na bolsa, e depois na bolsa, e só depois na bolsa. Uma coisa é insofismável: esta é uma data histórica em que um povo, desapossado de um estado desde o século XV, se vê restaurado na sua dignidade -- independentemente do que aconteça amanhã. Os castelhanos podem vir por terra, mar e ar, podem sufocar a libertação pelo sangue (mas só pelo sangue). E mesmo que o absurdo prevaleça, mesmo que seja apenas mais uma etapa, nem assim conseguirão apagar este dia. quinta-feira, outubro 26, 2017
quarta-feira, outubro 25, 2017
terça-feira, outubro 24, 2017
escrever sobre o cromo
Não, não vou gastar o meu latim com o cromo; já lhe caiu o céu em cima da cabeça, merecidamente. Sabe Nosso Senhor quão bem apetrechado doestos é o meu alfobre, e como me apazigua a eles recorrer; mas se passados uns anos aqui vier tropeçar, faço questão de nem saber a quê ou a quem estou agora a referir-me.
segunda-feira, outubro 23, 2017
domingo, outubro 22, 2017
1147 -- A Conquista de Lisboa na Rota da Segunda Cruzada, de Miguel Gomes Martins (Esfera dos Livros)
Até que as Pedras se Tornem Mais Leves que a Água, de António Lobo Antunes (Dom Quixote)
DesAparições, de Alexei Bueno (Exclamação)
A Revolução Russa, de Sheila Fitzpatrick (Tinta-da-China)
A Última Viúva de África, de Carlos Vale Ferraz (Porto Editora)
Até que as Pedras se Tornem Mais Leves que a Água, de António Lobo Antunes (Dom Quixote)
DesAparições, de Alexei Bueno (Exclamação)
A Revolução Russa, de Sheila Fitzpatrick (Tinta-da-China)
A Última Viúva de África, de Carlos Vale Ferraz (Porto Editora)
sábado, outubro 21, 2017
Sócrates: isto está a ficar cómico
Correndo o risco de me chamarem socrático -- para o que, devo dizer em bom português, me estou a cagar --, a trágica semana que passou teve, pelo menos, dois afloramentos sobre Sócrates plantados nos noticiários, particularmente cómicos pelo que parecem revelar duma certa aflição do Ministério Público em fazer prova das acusações em que "acredita" (entre aspas, porque é um termo muito utilizado pelo jornalistas a quem têm sido servidas fatias do processo, ao longo dos último meses):~
a primeira que li por aí é que -- para responder à perplexidade de Sócrates ser acusado de corrupção nos casos Parque Escolar, PT, TGV e Vale do Lobo, enquanto os ministros das respectivas pastas saíram incólumes -- dava-se conhecimento à opinião pública de que os governantes foram manipulados, não tendo consciência do que estavam a despachar. Fui ver a composição dos governos, e verifiquei que nas pastas das Finanças, Ambiente, Economia, Educação e Obras Públicas, Transportes e Comunicações, estiveram: Campos e Cunha (o único que se pôs ao fresco), Teixeira dos Santos, Nunes Correia, Dulce Pássaro, Manuel Pinho, José Vieira da Silva, Maria de Lurdes Rodrigues, Isabel Alçada, Mário Lino e António Mendonça. É capaz de ser gente a mais a revelar-se tão ingénua e/ou impreparada. Enfim, parece-me difícil;
a segunda, típica campanha orquestrada, foi a de ontem: "Sócrates não é engenheiro", titularam todos os media, a partir de um esclarecimento difundido pela respectiva Ordem, vindo, obviamente, confundir a opinião pública (ah, o curso...). Ora acontece que Sócrates é mesmo engenheiro por formação académica, um engenheiro que não exerce, como sucede a tanta gente: Fialho de Almeida era médico, médico era Jaime Cortesão, enquanto que o seu irmão, Armando Cortesão, foi engenheiro agrónomo, ou Jorge de Sena, engenheiro civil. Nada disto é extraordinário, mas percebe-se o objectivo, o que leva-me a perguntar: está o MP assim tão inseguro? E, já agora: giro, giro teria sido a distinta Ordem dos Engenheiros pronunciar-dr quando Sócrates era primeiro-ministro. Agora, presta-se ao pouco dignificante papel de vir ajudar a malhar em quem, com razões ou sem elas, está no chão.
sexta-feira, outubro 20, 2017
quinta-feira, outubro 19, 2017
quarta-feira, outubro 18, 2017
O discurso do PR e outras coisas acessórias
Marcelo Rebelo de Sousa proferiu uma declaração política sem mácula para o momento que se vivia, justificando plenamente as funções que exerce e a existência do próprio cargo na forma como é moldado pela constituição. Talvez tenha de recuar ao mandato de Ramalho Eanes para encontrar momentos tão substantivos da actuação presidencial. Nem Soares nem Sampaio, que me recorde, tiveram um momento com estes contornos, pelo menos em público. (Nem vale apena falar de Cavaco, um indivíduo que nunca teria dimensão para ir além de secretário-de-estado, e cuja investidura como chefe de governo e do estado exibe a indigência das elites políticas.).
O governo de António Costa merece censura? Merece-a toda, neste particular. São dois anos de executivo, é inútil argumentar com a pesada herança de Passos, que, tendo governado contra os portugueses, não se lhe podem ser assacadas responsabilidades pela balbúrdia na Protecção Civil.
Merecendo ser censurado, a reprovação já foi feita pela opinião pública, que felizmente tem cada vez menos pachorra para deixar-se iludir. Daí que seja também com justificado asco que as pessoas olhem para o oportunismo político de uma Assunção Cristas, anterior ministra da Agricultura -- a tal que recorria à 'fé' para enfrentar a seca, fé certamente emponderada (para usar uma palavra horrível) com muitas orações e genuflexões. Portanto, não será por aqui que o governo cairá, só se o PCP e o BE não tiverem também eles pudor.
Finalmente, sem ter pretensões a conselheiros político, será bom que a escolha do próximo MAI recaia em alguém com arcaboiço político suficiente para enfrentar a matilha da direita parlamentar. Esta faz lembrar aqueles documentários do David Attenborough: os chacais rodeando a manada de búfalos, à espera que uma mãe se distraia com a cria ou que um indivíduo velho ou doente fique para trás, esgotando-o pela fadiga. Tentaram-no com os ministros das Finanças, da Economia e da Educação, que chegaram bem para eles, cada um com o seu estilo; estão-no a fazer com o da Defesa, que tem também cabedal, mas que talvez não consiga resistir à enxurrada. Isto não é para ministros sem experiência política (lembremo-nos do desastre da ministra de Passos, que, sabe-se lá porquê, foi buscá-la à Universidade de Coimbra e, apesar da fachada de màzona, saiu trucidada), não é para carne tenra, é para ursos como, por exemplo, Carlos César ou outros do mesmo tipo, com experiência e peso político. Aliás, se há coisa que me dá gosto ver é quando o líder parlamentar do PS, com a brutalidade, sempre necessária mas nunca vulgar, para os que não têm vergonha, deixa knockout a direita parlamentar.
terça-feira, outubro 17, 2017
segunda-feira, outubro 16, 2017
a falência do Estado
Não me apetece nada escrever em cima do acontecimento, mas ver as imagens do centro e norte do país a arder, nas cidades, vilas e aldeias, nas autoestradas e vias férreas provocam uma angústia indizível.
Décadas de abandono do interior, envelhecimento populacional, regime de propriedade obsoleto não alterado por cobardia ou cálculo político, falta de civismo das populações (o analfabetismo e o atraso com que o país foi governado até ao 25 de Abril de 1974 pagam-se caro e reflectem-se na indigência das chamadas elites políticas deste país, de Norte a Sul).
Sim, pois, as alterações climáticas, ah, e os eucaliptos também. Há pouco ouvi o meu conterrâneo Eugénio Sequeira afirmar que temos dez vezes mais ignições do que o resto da Europa, e não será por sermos dez vezes mais estúpidos. Pois não, provavelmente será por sermos dez vezes menos qualificados, por termos uma administração miserável, sempre em reestruturações, com a criação de múltiplos centros de decisão intermédios, cargos de chefia e papelinhos a subir e a descer, em que aos bombeiros se veda a acção antes da decisão dos coordenadores da protecção civil, com as suas parvas boinas militares e as aldrabices nas habilitações de cursos tirados à pala das equivalências, uma das muitas burlas que grassa por este país, a somar à legislação imbecil parida uns tipos quaisquer a partir dos gabinetes para somar à pobreza e à velhice das populações rurais.
O que espero do conselho de ministros especial de sábado é a extinção desta coisa da Protecção Civil e a criação para ontem de um novo organismo, aproveitando o que houver a aproveitar, a partir dos relatório dos peritos; é a eliminação das negociatas com os privados; é a reforma da propriedade rural, o fim do nanofúndio; é o fim da 'época de incêndios' com folha no calendário. E que essa comissão de peritos prossiga o trabalho, cooptando peritos em áreas não representadas, se for caso disso e reforme o Portugal rural. Aliás, o PR, pelo poder de influência política decisivo que possui, pode exercer um papel decisivo, se não se limitar a visitas de condolências, que também são precisas, mas não chegam.
a propósito dos livros de Sócrates
Não li nenhum dos livros de Sócrates porque não fazem parte das minhas prioridades; aliás, nem às minhas prioridades de leitura consigo dar vazão, quanto mais...
A história do ghost writer dos livros de Sócrates é outra das que me parece bastante, digamos, problemática. Sabemos que sujeitou versões dos livros a várias pessoas -- Vital Moreira assumiu ser uma delas --, o que nada tem de extraordinário: duvido que Sócrates tenha um estilo imaculado, pelo que o recurso a alguém que ponha em linguagem uma prosa eventualmente árida, parece-me normal; além disso, tratando-se de obra académica na sua génese, a submissão dos textos a professores universitários das suas relações é algo de trivial. (Por mim, pode até revelar uma excessiva prosternação pela Academia, mas isso será lá com ele). Por outro lado, até os inimigos mais viscerais lhe reconhecem inteligência e capacidade de trabalho, por isso as minhas perplexidades são:
1) precisava Sócrates de alguém que lhe escrevesse as obras? Por muito aldrabão que o homem possa ser, parece-me uma suspeita infantil de quem toma os revisores dos livros -- a título gratuito ou remunerado, é indiferente -- pelos seus autores;
2) o 'suspeito' destes cometimentos é um professor de Direito da Universidade de Lisboa, com um nome a defender, Domingos Farinho. Um ghost writer? Enfim, haverá gente para tudo...
3) leio nos jornais que o apresentador do último livro de Sócrates foi Pedro Bacelar de Vasconcelos, uma das figuras mais respeitáveis e respeitadas da vida pública portuguesa. Como Vasconcelos não é propriamente um boy partidário (e se o fosse, de certeza que não estaria ali, com medo de sair chamuscado), a sua intervenção tem um evidente significado, o primeiro dos quais é a de que tem o hábito de pensar pela sua cabeça, ao contrário, de resto, do jardim zoológico mediático.
Não sei o que move Vasconcelos; talvez seja como eu (embora em muito maior grau, dadas as suas categoria e exposição pública): talvez prefira correr o risco de enganar-se ou ser enganado, a integrar as hordas de linchamento; e também não deve ser um videirinho da política, dos que estão quietos para não se comprometerem.
domingo, outubro 15, 2017
sábado, outubro 14, 2017
Piotr Riabov: historiador anarquista preso na Bielorrússia, em greve de fome
Historiador do movimento anarquista russo, Piotr Riabov, detido na Bielorrússia, entrou em greve de fome. Notícia aqui.
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a entrevista de José Sócrates
Acabei de vê-la há pouco, depois de vir do cinema. Um filme que está aí a passar sobre o Django Reinhardt (um papelaço de Reda Kateb). Recomendo.
E então que vi eu? Um combate desigual, em que o animal feroz desfez o jornalista. Não deve ser fácil entrevistar Sócrates, mas também não estou a ver em televisão um profissional com suficiente arcaboiço para, com firme serenidade e correcção, não se deixar intimidar, nem por Sócrates nem pela opinião pública e pela opinião publicada. O nosso homem, com medo do que viessem a dizer dele cá fora, pôs-se com apartes e observações sonsas, que quase fez lembrar aquele pateta que uma vez o confrontou no Telejornal, no espaço de comentário que o antigo primeiro-ministro tinha, como se estivesse ali a debater de igual para igual. De qualquer modo, a RTP prestou um serviço público, e é para isso que ela serve.
Quanto à substância, dificilmente a entrevista poderia ter corrido melhor a Sócrates. Pelo que vi, e com os dados que tenho, que são os de toda a gente, desmontou praticamente tudo: do andar em Paris à questão do primo, a goldenshare da PT e o conluio com o BES, a história do tgv e a outra de Vale de Lobo. A história do quadro do Júlio Pomar foi cómica.E mesmo a questão mais bizarra dos empréstimos em numerário, desembaraçou-se bem da coisa, trazendo o amigo à liça. Cabe a este confirmar ou infirmar Sócrates. Se confirmar, como possivelmente o fará, depois como é? Ah, e se o melhor que têm é a declaração do gajo que está em Angola e que não podia vir a Portugal para não ser preso e afinal veio para fazer o jeito ao MP, esqueçam -- é a palavra de um contra a de outro. E não me parece que a palavra do tal Bataglia tenha uma cotação particularmente alta. (E por favor: não se diz 'Bataguelia', mas 'Batalhia').
O jornalista estava mal preparado? Não, pelo contrário. Voltou-me a ideia fundamentada de que o trabalho do Ministério Público é uma borrada monumental. E se Sócrates, que não é jurista, conseguiu instalar pelo menos fortes dúvidas sobre o trabalho do MP, o que não farão as raposas velhas da barra dos tribunais?
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quinta-feira, outubro 12, 2017
quarta-feira, outubro 11, 2017
Sócrates acusado
Agora é que se vai ver, aqui ou em instâncias europeias não amancebadas com o tabloidismo.
A ser verdade aquilo a que a defesa de Sócrates já qualificou como romance, há que tirar o chapéu aos tomates dos agentes judiciários, apesar das evidentes práticas pouco católicas na observância da lei (é triste, não é?...). Se for uma obra de ficção, então há que assacar-lhes responsabilidades, porque não chega o depoimento de um qualquer arrependido; a coisa tem de ser mais substancial do que uma regurgitação dum vígaro das offshores. [Sou preconceituoso, e gosto.]
De qualquer modo, Sócrates (e o amigo) têm (terão...) algumas coisas para explicar, sem conversa fiada: as instruções sobre o apartamento de Paris, o alegado papel do primo, etc. Matéria para uns bons anos. No fim, cá estaremos, eventualmente. Até lá, não quero maçar-me mais com o assunto, que só estou interessado na Catalunha, sobre a qual muita tinta ainda correrá.
A ser verdade aquilo a que a defesa de Sócrates já qualificou como romance, há que tirar o chapéu aos tomates dos agentes judiciários, apesar das evidentes práticas pouco católicas na observância da lei (é triste, não é?...). Se for uma obra de ficção, então há que assacar-lhes responsabilidades, porque não chega o depoimento de um qualquer arrependido; a coisa tem de ser mais substancial do que uma regurgitação dum vígaro das offshores. [Sou preconceituoso, e gosto.]
De qualquer modo, Sócrates (e o amigo) têm (terão...) algumas coisas para explicar, sem conversa fiada: as instruções sobre o apartamento de Paris, o alegado papel do primo, etc. Matéria para uns bons anos. No fim, cá estaremos, eventualmente. Até lá, não quero maçar-me mais com o assunto, que só estou interessado na Catalunha, sobre a qual muita tinta ainda correrá.
o terrorismo laboral na PT
Leio a notícia, sem espanto. A astúcia merceeira, a esperteza saloia, a vigarice nos interstícios legais, uma necrofagia repugnante a erradicar das sociedades decentes, uma flora intestinal do financismo (que tão boa imagem tem dado de si na presente crise da Catalunha, mas isso é outra estória). É verdade, estes saprófitos existem e requerem desinfestação.
No entanto, não devemos deixar de fora os que conduziram a PT, dolosamente, até aqui, em especial os magos da gestão. Cadeia com eles, se deus quiser: e, já agora, não esquecer de execrar os palmas-cavalinhos que na imprensa lhes teciam loas, ou talvez mais. Neste particular, os panama-papers terão algo a revelar, informação que tarda, retida... pelos jornais.
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terça-feira, outubro 10, 2017
um estralejar de cometa (Almeida Garrett)
«Qu'il est glorieux d'ouvrir une nouvelle carrière, et de paraître tout-à-coup dans le monde savant un livre de découvertes à la main, comme une comète inattendue étincelle dans l'espace!» O incipit da Viagem à Volta do Meu Quarto (1839), de Xavier de Maistre (1763-1852), servindo como epígrafe às Viagens na Minha Terra (1846). Tom paródico, mas também a noção de uma via que Garrett abre, um arejamento na prosa nacional, brisa que chega a este ano de 2017.
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segunda-feira, outubro 09, 2017
Catalunha: para ler antes de amanhã
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No meio do bruaá mediático, das opiniões apaixonadas de ambos o lados (com vociferações dos miguéis-de-vasconcelos indígenas), vale a pena ler o sereno depoimento de Jordi Savall, músico e historiador (aliás, de há muito anos um dos grandes nomes da cultura europeia), a que junto uma notável entrevista do jornalista José Antich a Nuno Ramos de Almeida, já com uns dias, mas ainda no ponto; e outra de David Fernàndez ao mesmo jornalista, publicada hoje, também. Fernàndez, antigo porta-voz da CUP, um dos tenebrosos das esquerdas radicais, como diria a rã que queria ser boi.
sábado, outubro 07, 2017
sexta-feira, outubro 06, 2017
carnaval de disparates sobre a Catalunha
Os argumentos contra a autodeterminação da Catalunha variam entre os racionais e utilitários (alegadas consequências económicas e/ou geopolíticas) e um cacharolete de disparates, num misto ignorância espessa e despudorada má-fé.
Um dos mais hilariantes, na sua falta de compostura, é a de que a Catalunha nunca foi independente...
Jesus-Maria-José, anjos e santos, serafins e guaxinins, almas do purgatório -- dai-me o elixir da paciência.
Quer o principado da Catalunha, quer o reino de Aragão não foram entidades inventadas pela J. K. Rowling; tiveram existência secular e uma importância no concerto europeu que Portugal, por exemplo, nunca teve no mesmo período em ambos eram reinos independentes, até pela sua situação extremamente periférica.
Mas vamos supor que a Catalunha, com o seu povo, as suas instituições, a sua língua e cultura próprias, nunca houvesse sido uma nação independente, como o foi e com muito maior projecção que muitos povos da Europa que contam com o seu estado. Pergunto: que validade e que valor tem esse argumento, em face do direito de um povo à autodeterminação? Pois não tem nenhum.
em tempo: um editorial destes plumitivos da Economia, um dos campeões da austeridade do recentemente falecido ex-Primeiro: «Se calhar, terá chegado o momento, em Portugal, de levarmos mesmo a sério o que se está a passar em Espanha, uma crise de proporções históricas, a anunciada independência unilateral decretada por um governo sem qualquer legitimidade para o fazer, desde logo pela própria Constituição espanhola.» 'Ai, Jesus!, os bancos?!... Então o caso é mesmo sério!!!' A miragem estreita, ignorante e patet(ic)a do porta-moedas.
em tempo: um editorial destes plumitivos da Economia, um dos campeões da austeridade do recentemente falecido ex-Primeiro: «Se calhar, terá chegado o momento, em Portugal, de levarmos mesmo a sério o que se está a passar em Espanha, uma crise de proporções históricas, a anunciada independência unilateral decretada por um governo sem qualquer legitimidade para o fazer, desde logo pela própria Constituição espanhola.» 'Ai, Jesus!, os bancos?!... Então o caso é mesmo sério!!!' A miragem estreita, ignorante e patet(ic)a do porta-moedas.
quinta-feira, outubro 05, 2017
quarta-feira, outubro 04, 2017
Felipe VI, e talvez o último
O rei de Espanha colou-se ao governo espanhol na sua alocução de ontem. Tinha alternativa? Não sei. O tempo de lidar com a questão que viria, inevitável, foi sempre protelado pelos dois principais partidos espanhóis, PP e PSOE. Quando este último avançou com a hipótese de um estado federado -- única e penúltima possibilidade de preservar uma entidade política artificial que só subsistiu pela força (o referendo de constitucional de 1978, foi um plebiscito à transição democrática) --, já era demasiado tarde para travar os independentistas catalães.
Digo penúltima, porque a única maneira de preservar a Espanha será permitir que as suas nacionalidades referendem a integração, sem truques: isto é: são os catalães que devem decidir do seu destino e não os castelhanos, os bascos ou os galegos. Não sendo constitucionalista, afigura-se-me um processo complexo e moroso, uma vez que teria de apurar-se de que falamos quando falamos em nacionalidades. Catalunha, Galiza e País Basco, claro. E a Comunidade Valenciana? e Navarra? e as Astúrias? A desaceleração do processo implicaria o compromisso solene do poder central, a começar pelo rei, de que respeitariam os resultados dessas consultas populares.
Promessas que já não se me afiguram suficientes nesta fase. Que o processo catalão já não voltará atrás, a não ser que os tanques invadam Barcelona, parece-me evidente. Como os tanques não invadirão Barcelona, suponho (Espanha é um país da União Europeia, apesar de tudo), a desagregação será inevitável. Os bascos, que já punham a cabeça em água aos romanos, esperam.
Felipe VI não parece, portanto, ter saída, mesmo que o quisesse; qualquer rasgo será muito difícil para a sobrevivência do trono. O monarca corre o risco de ser o sétimo Bourbon (Borbón) a abdicar ou deposto ou -- entrando no domínio da fantasia -- a mudar a chapa para Felipe I de Castela.
terça-feira, outubro 03, 2017
segunda-feira, outubro 02, 2017
o franquista Rajoy lembrou-me o salazarista Franco Nogueira
* Franco Nogueira, ministro dos Negócios Estrangeiros e futuro biógrafo de Salazar, era um tipo culto e sagaz, mas, por vezes, dava-lhe para ser chico-esperto. Sei do que falo, pois fui seu aluno, e um dia entalei-o numa aula, quando pretendia aldrabar os alunos a propósito de um artigo da Constituição de 1933, a propósito da eleição do Presidente da República. Dizia o antigo embaixador que o documento fundamental do Estado Novo consagrava a eleição colegial do PR pela Assembleia Nacional, tendo eu de lembrar-lhe, para seu desconforto, que até 1958 (recorde-se ano da fraude que impediu a vitória de Humberto Delgado), a eleição era feita por sufrágio universal. Após o terrorismo de estado exercido pelo poder, que garantiu o roubo eleitoral, o cagaço foi tão grande, que o regime se apressou a fazer uma revisão constitucional para evitar futuras e semelhantes surpresas.
Uma das finuras chicoespertas de Franco Nogueira quando tinha de enfrentar a comunidade internacional na ONU, por causa da vil Guerra Colonial, era uma linha de argumentação que defendia Portugal ser também um país africano (sic), pois até a Constituição consagrava aqueles territórios como "províncias ultramarinas"...
Ao ouvir ontem o franquista Rajoy a encher a boca de "democracia", "lei" e "constituição", que naquela boca e naquelas circunstâncias soam sempre a vitupério, lembrei-me do velho embaixador das causas perdidas.
* Ada Colau, presidente do município de Barcelona, qualificou ontem o primeiro-ministro espanhol como um cobarde. Poucas vezes um tal doesto assentou tão bem a uma criatura política que não hesitou em esconder-se por detrás do álibi constitucional para reprimir ilegitimamente um povo que quer autodeterminar-se. Cobarde e estúpido, como se vê, pela grande incentivo que deu à causa independentista.
Já a comportamento da União Europeia, através do lamentável Junker vinhateiro, foi abaixo de miserável. Salvaram-se o primeiro-ministro belga, Charles Michel, e o esloveno Miro Cerar, ao deplorarem a violência de estado. E vindo de onde veio, Bélgica e Eslovénia, este reparo tem um assinalável significado político, pese a pequena dimensão e peso dos dois países no contexto europeu.
Felizmente, com todos os seus defeitos, a UE serve de escudo para proteger os catalães de acções mais repressivas -- assim o creio e espero, veremos.
* Detestei a nota do governo português. Poderia ter manifestado o desejo de que o estado espanhol resolvesse os seus problemas internos, sem tirar o tapete aos catalães, com a conversa do respeito pela constituição negociada de 1978, objectivamente pondo-se ao lado do governo de Madrid. Vindo de Portugal, é particularmente triste e vergonhoso. Eu tive vergonha.
* Uma notícula para alguns comentadores: todos são livres para opinar e defender o que do seu ponto vista parecer mais justo e avisado. Têm até o direito de exibirem publicamente os seus preconceitos ou falta de preparação, não tendo noção do que estão a dizer. Argumentar com aldrabices, como certa indivídua cujo nome omito por pena, mas sem respeito nenhum, que a reivindicação catalã de autodeterminação seria equivalente a uma acção semelhante que, por absurdo, partisse do Porto, é de tal modo um insulto à inteligência, que me pergunto se a criatura, além de tonta, não será mesmo desprovida de um mínimo de cabedal para exercer o comentário.
* Detestei a nota do governo português. Poderia ter manifestado o desejo de que o estado espanhol resolvesse os seus problemas internos, sem tirar o tapete aos catalães, com a conversa do respeito pela constituição negociada de 1978, objectivamente pondo-se ao lado do governo de Madrid. Vindo de Portugal, é particularmente triste e vergonhoso. Eu tive vergonha.
* Uma notícula para alguns comentadores: todos são livres para opinar e defender o que do seu ponto vista parecer mais justo e avisado. Têm até o direito de exibirem publicamente os seus preconceitos ou falta de preparação, não tendo noção do que estão a dizer. Argumentar com aldrabices, como certa indivídua cujo nome omito por pena, mas sem respeito nenhum, que a reivindicação catalã de autodeterminação seria equivalente a uma acção semelhante que, por absurdo, partisse do Porto, é de tal modo um insulto à inteligência, que me pergunto se a criatura, além de tonta, não será mesmo desprovida de um mínimo de cabedal para exercer o comentário.
domingo, outubro 01, 2017
sexta-feira, setembro 29, 2017
livros que me apetecem
Agosto, de Rubem Fonseca (RTP/Leya)Antologia de Poesia Erótica, de Manuel Maria Barbosa du Bocage (Dom Quixote)
Baixo Contínuo, de Rui Nunes (Relógio d'Água)
Ébano, de Ryszard Kapuscinsky (Sextante)
A Margem de um Livro, de Rui Nunes (Cosmorama)
O Mistério da Rua Saraiva de Carvalho, de Reinaldo Ferreira (Repórter X) (Pim! Edições)
Octaedro, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
O Quarto Azul, de Georges Simenon (Relógio d'Água)
Reflexões Sobre o Nazismo, de Saul Friedlander (Sextante)
As Últimas Testemunhas, de Svetlana Alexievich (Elsinore)
«Os visigodos» (Alexandre Herculano)
«A raça dos visigodos, conquistadora das Espanhas, subjugara toda a Península havia mais de um século.» Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero [1844], (ed. cit,, p. 1).
Capítulo inicial, trata-se de um esquisso de enquadramento histórico (político e mental) da Ibéria, às vésperas da invasão muçulmano, tendo como epígrafe um passagem da Crónica do Monge de Silos, escrita no século XII: «A um tempo toda a raça goda, soltas as rédeas do governo, começou a inclinar o ânimo para a lascívia e soberba.». Pano de fundo sobre o qual se desenrolará acção romanesca, o seu mais curto parágrafo exibe o tom:
«Debalde muitos homens de génio revestidos da autoridade suprema tentaram evitar a ruína que viam no futuro: debalde o clero espanhol, incomparavelmente o mais alumiado da Europa naquelas eras tenebrosas e cuja influência nos negócios públicos era maior que a de todas as outras classes juntas, procurou nas severas leis dos concílios, que eram ao mesmo tempo verdadeiros parlamentos políticos, reter a nação que se despenhava. A podridão tinha chegado ao âmago da árvore, e ela devia secar. O próprio clero se corrompeu por fim. O vício e a degeneração corriam soltamente, rota a última barreira.» (p. 3).
quinta-feira, setembro 28, 2017
História e ficção, mentira e verdade (Alexandre Herculano)
Alexandre Herculano procurou nos romances históricos uma abordagem às mentalidades de época que não lhe dava uma heurística que relutava extravasar o dado documental. Debalde procurou suporte que lhe permitisse suprir essa lacuna na sua fundamental História de Portugal (1846-1853); e mesmo para as obras de ficção, a procura de vozes do passado que lhe transmitissem a dolorosa pena do celibato, cuja desumanidade desde a juventude o perturbava, resultou infrutífera, como assinala no prefácio do Eurico:
«Essa crónica de amarguras procurei-a já pelos mosteiros, quando eles desabavam no meio das nossas transformações políticas. Era um buscar insensato. Nem nos códices iluminados da Idade Média, nem nos pálidos pergaminhos dos arquivos monásticos estava ela. Debaixo das lájeas que cobriam os sepulcros claustrais havia, por certo, muitos que a sabiam; mas as sepulturas dos monges acheia-as vazias.» Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero [1844], (ed. cit,, p.VI).
Fez, assim, apelo à idiossincrasia poética e ao escopo artístico, ciente de que o ficcionista de recursos tem a intuição que faltará ao historiador. A esta, junte-se a ideia supletiva do romancista como alguém que mede a temperatura do tempo, e por isso mais fidedigna a ficção do que obras contemporâneas, propositadamente concebidas para deixar um testemunho à posteridade. Podemos lê-lo num artigo da Panorama, cujo excerto magnífico foi transcrito por Vitorino Nemésio, na apresentação da edição crítica (1944):
«Novela ou História, qual destas duas cousas é a mais verdadeira? Nenhuma, se o afirmarmos absolutamente de qualquer delas. Quando o carácter dos indivíduos ou das nações é suficientemente conhecido, quando os monumentos, as tradições e as crónicas desenharam esse carácter com pincel firme, o noveleiro pode ser mais verídico do que o historiador; porque está mais habituado a recompor o coração do que é morto pelo coração do que vive, o génio do povo que passou pelo do povo que passa. [...] Porque [os historiadores] recolhem e apuram monumentos que foram levantados ou exarados com o intuito de mentir à posteridade, enquanto a história da alma do homem deduzida lògicamente das suas acções incontestáveis não pode falhar, salvo se a natureza pudesse mentir e contradizer-se, como mentem e se contradizem os monumentos.»
Este historiar da alma -- porventura a mais significante das historiografias -- remete-me para a maravilhosa Svetlana Alexievich, que assim mesmo se definiu: «historiadora da alma», aqui já não se socorrendo (exclusivamente) da intuição, mas também do testemunho vívido e vivido.
Este historiar da alma -- porventura a mais significante das historiografias -- remete-me para a maravilhosa Svetlana Alexievich, que assim mesmo se definiu: «historiadora da alma», aqui já não se socorrendo (exclusivamente) da intuição, mas também do testemunho vívido e vivido.
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quarta-feira, setembro 27, 2017
da solidão no meio dos anjos (Alexandre Herculano)
A questão do celibato dos padres interessa o Herculano (1810-1877) romancista pelo drama que a Igreja, especialmente com o Concílio de Trento (1545-1563), impôs aos seus ministros: o sacrifício «da irremediável solidão da alma» -- assim o escreve na apresentação de Eurico, o Presbítero (1944).
No prefácio, o escritor deplora a misoginia subjacente àquele interdito, vendo a mulher como ideal salvífico e angelical de amor e bondade. O passagem seguinte dá bem a medida dessa idealidade romântica, em contraste com uma sordidez máscula que macula muito de "nós" (é seu o recurso à englobante primeira pessoa do plural):
«Dai às paixões todo o ardor que puderdes, aos prazeres mil vezes mais intensidade, aos sentidos a máxima energia e convertei o mundo em paraíso, mas tirai dele a mulher, e o mundo será um ermo melancólico, os deleites serão apenas o prelúdio do tédio. Muitas vezes, na verdade, ela desce, arrastada por nós, ao charco imundo da extrema depravação moral; muitíssimas mais, porém, nos salva de nós mesmos e, pelo afecto e entusiasmo, nos impele a quanto há bom e generoso. Quem, ao menos uma vez, não creu na existência dos anjos revelados nos profundos vestígios dessa existência impressos num coração de mulher? E porque não seria ela na escala da criação um anel da cadeia dos entes, presa, de um lado, à humanidade pela fraqueza e pela morte e, do outro, aos espíritos puros pelo amor e pelo mistério? Porque não seria a mulher o intermédio entre o céu e a terra?»
Alexandre Herculano, Eurico, o Presbítero [1844], 40.ª ed., Lisboa, Livraria Bertrand, s.d., pp. IV-V.
terça-feira, setembro 26, 2017
Parece que o referendo no Curdistão é anticonstitucional,,
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olha que maçada. Agora só espero que o Ocidente não faça o seu tradicional papel de filho-da-puta, e deixe cair aqueles (alguns dos) que estiveram na primeira linha contra o Estado Islâmico. Já não falo de princípios, mas de alguma gratidão.
antes que passe
Sobre a Alemanha, só me apetece reter que, na campanha eleitoral, Angela Merkel disse que não só se não arrependia da posição que tomou em relação aos refugiados (REFUGIADOS) sírios, como voltaria a fazer o mesmo.
domingo, setembro 24, 2017
sexta-feira, setembro 22, 2017
quinta-feira, setembro 21, 2017
sem tirar nem pôr: a CNT e a questão catalã --
Transcrevo daqui o comunicado da CNT sobre a questão catalã, precisamente o que tenho defendido neste blogue, em post e em diálogo, sempre estimulante, com Jaime Santos.
«Ante a escalada repressiva que estamos a sofrer depois da convocatória do referendo de autodeterminação na Catalunha do próximo 1 de Outubro, a Confederação Nacional do Trabalho não quer, nem pode, permanecer calada:
- A CNT sempre se mostrou favorável ao direito à autodeterminação dos povos nos seus acordos tomados em Congresso. Não encontramos razões para repensar a nossa posição no caso do referendo catalão.
- Os cidadãos da Catalunha devem poder expressar-se em liberdade. O direito a decidir sobre todos os aspectos que afectam as nossas vidas é o pilar de base para a construção de uma sociedade livre e igualitária.
- A Constituição imposta pelo regime de 78 não pode servir como desculpa para negar a palavra à sociedade ou para quando as reivindicações sociais não agradam aos partidos no poder. A legitimidade, mais do que questionável de uma Constituição imposta em condições de excepção democrática, não é exigida da mesma maneira quando estes mesmos partidos acabam com a saúde universal, destroçam a educação pública, fazem crescer a desigualdade social com as suas políticas neoliberais ou limitam as nossas liberdades fundamentais.
- A sociedade deve avançar no respeito pelos direitos e liberdade sem ter receio de que a sua luta possa infringir leis injustas. Pelo contrário, historicamente, a desobediência tem sido motor de progresso ao pôr em questão estruturas de poder aparentemente inamovíveis.
- Por isso, a CNT denunciará e combaterá todos os movimentos repressivos do Estado que tentem coagir ou impedir que o povo, neste caso o catalão, expresse a sua vontade em completa liberdade.»
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terça-feira, setembro 19, 2017
domingo, setembro 17, 2017
sábado, setembro 16, 2017
abençoado o turismo, que nos inferniza a vida mas põe o pão na mesa
Sempre vivi com o turismo. Com dias, fui para casa dos meus avós maternos, no centro do Estoril. Há 53 anos no concelho de Cascais, estou habituado e gosto.
Em 1964, o Estoril não tinha nada que ver com o resto do país; era, como escrevera Jaime Cortesão oito anos antes, um mundo fora do mundo num país parado no tempo. No entanto, nada que ver com esta avalancha infernal que muito contribuiu para nos tirar da lixeira da Standard & Poor's, uma das muitas organizações mafiosas da finança que jogam com a vida das pessoas, com a cumplicidade de agentes políticos, a cobardia de outros e uma certa determinação combinada com uma finura cágada, como a do nosso Primeiro.
Bom, mas quanto tempo vai durar esta vida quasi petrolífera? Um ano?, uma década? (sabemos lá o que vai ser do mundo daqui a dez anos); um século? Aguenta-se a civilização mais um século? Aqui ou na Lua?, em Marte?...
É bom, como muitos têm alertado, que saibamos preparar-nos para o pós-turismo de multidões, para depois não ficarmos com cidades-fantasma nos braços nem de mãos nos bolsos, sem saber o que fazer e por onde começar, como quando, no outro dia, acabaram as especiarias do Oriente e o ouro do Brasil, especados a olhar para um país a fazer.
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quinta-feira, setembro 14, 2017
outro parágrafo de Ruben A.
«À noite escravizado pelos relógios deitava-se na horizontalidade tranquila de colchões aquecidos pela dúvida; -- o mundo consciente esvaía-se num caos -- era a dúvida entre a vida e o sonho, era o subconsciente misturado com espíritos vagos de desejo num adormecer sexuado pelo zimbrar da união.»
«Sonho de imaginação», Páginas 1 (1949)
quarta-feira, setembro 13, 2017
terça-feira, setembro 12, 2017
um parágrafo de Ruben A.
«A história que o homem contava nada tinha de comum com a verdade. Era pura invenção de traz-no-bolso, lérias de almanaque recreativo para uso nos comboios do Minho. Dava a impressão de que tudo degenerava; mesmo os turistas já só faziam perguntas à toa, alimentando o orgulho com que o caseiro da Barbela desfiava aquela lengalenga sem reparar no nariz pacóvio dos viajantes.»
Ruben A., A Torre da Barbela (1964)
segunda-feira, setembro 11, 2017
domingo, setembro 10, 2017
sexta-feira, setembro 08, 2017
quinta-feira, setembro 07, 2017
Portugal e o referendo da Catalunha
Como sabemos, nós portugueses melhor do que ninguém, a "Espanha" não existe como nação; é um estado artificial, constituído por vários povos, originado pela união matrimonial de Isabel de Castela com Fernando de Aragão, os chamados "Reis Católicos", e cuja nova designação, tomada à velha Hispania romana, provocou o protesto de D. João II, que, obviamente, percebeu a intenção...
Enquanto estado de direito democrático, Portugal deverá evitar imiscuir-se numa questão interna de Espanha. Mas deve abster-se enquanto o diferendo se mantiver numa discussão política; se Madrid, numa decisão pouco inteligente e antidemocrática optar pelo bloqueio jurídico e, principalmente, pela repressão militar, aí Portugal tem o dever de, em primeiro lugar, oferecer os seus bons ofícios de mediação e, em última instância, solidarizar-se com o povo catalão, uma vez que está em causa um direito humano fundamental, reconhecido pela Carta das Nações Unidas: o da autodeterminação dos povos, que sobreleva qualquer disposição jurídico-constitucional.
À luz do bom e velho princípio de que "a soberania reside na Nação", Madrid perdeu ontem legitimidade de impedir a realização do referendo. Qualquer contenda que não se restrinja à esfera política e negocial acarretará a Madrid o ónus de potência ocupante.
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UE
quarta-feira, setembro 06, 2017
nisto, o Trump de Loures peca por defeito
O candidato do PSD a Loures, cavalga a onda popularucha e merdiática. Agora vem falar na castração química para pedófilos, sem que diabo se perceba o que tem isto que ver com as autárquicas (lá perceber, percebe-se).
Mas já que o assunto veio para os jornais, convém dizer que, neste caso, o homem peca por defeito.
Onde está 'pedófilos' deveria estar qualquer agressor sexual. Um molestador é uma ameaça pública, e como tal tem de ser tratado. Há humanistas de meia tigela que defendem ser a castração química uma punição cruel. Trata-se de um pseudohumanismo aberrante e estúpido, pois não implica amputação física, mas a toma de fármacos que diminuem as pulsões sexuais. Medida, aliás, insuficiente, pois parece haver reincidência, teria de ser acompanhada de monitorização médica obrigatória -- assim como os arguidos com termo de identidade e residência têm de apresentar-se periodicamente numa esquadra -- entre outras eventuais limitações à sua liberdade.
Não é preciso explicar o que é um violador, e menos ainda um molestador de crianças, pois não? A não ser que prefiram o internamento psiquiátrico compulsivo, uma prisão perpétua que creio existir de facto entre nós, embora como tal não seja designada, aplicada a homicidas psicopatas. Talvez seja menos cruel...
terça-feira, setembro 05, 2017
domingo, setembro 03, 2017
sábado, setembro 02, 2017
sexta-feira, setembro 01, 2017
ainda a querela os blocos de actividades da Porto Editora:
Num belíssimo post, Jorge Carreira Maia vai à substância da contenda que está aí no espaço público, e, por isso mesmo, acerta na mouche.
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