sexta-feira, outubro 06, 2017

carnaval de disparates sobre a Catalunha



Os argumentos contra a autodeterminação da Catalunha variam entre os racionais e utilitários (alegadas consequências económicas e/ou geopolíticas) e um cacharolete de disparates, num misto ignorância espessa e despudorada má-fé.
Um dos mais hilariantes, na sua falta de compostura, é a de que a Catalunha nunca foi independente...
Jesus-Maria-José, anjos e santos, serafins e guaxinins, almas do purgatório -- dai-me o elixir da paciência.
Quer o principado da Catalunha, quer o reino de Aragão não foram entidades inventadas pela J. K. Rowling; tiveram existência secular e uma importância no concerto europeu que Portugal, por exemplo, nunca teve no mesmo período em ambos eram reinos independentes, até pela sua situação extremamente periférica.
Mas vamos supor que a Catalunha, com o seu povo, as suas instituições, a sua língua e cultura próprias, nunca houvesse sido uma nação independente, como o foi e com muito maior projecção que muitos povos da Europa que contam com o seu estado. Pergunto: que validade e que valor tem esse argumento, em face do direito de um povo à autodeterminação? Pois não tem nenhum.


em tempo: um editorial destes plumitivos da Economia, um dos campeões da austeridade do recentemente falecido ex-Primeiro: «Se calhar, terá chegado o momento, em Portugal, de levarmos mesmo a sério o que se está a passar em Espanha, uma crise de proporções históricas, a anunciada independência unilateral decretada por um governo sem qualquer legitimidade para o fazer, desde logo pela própria Constituição espanhola.» 'Ai, Jesus!, os bancos?!... Então o caso é mesmo sério!!!' A miragem estreita, ignorante e patet(ic)a  do porta-moedas.


4 comentários:

Jaime Santos disse...

De que fala quando fala em autodeterminação? Fala de consulta, ou fala de uma proclamação de independência baseada num referendo não representativo? De facto, não sabemos de todo quantos catalães se preocupam com as questões económicas porque não sabemos nada relativamente à sua opinião. O meu caro já tomou uma posição. Acha que as instituições catalãs têm legitimidade para declarar a independência e também acha que devem fazê-lo, aproveitando aquilo que considera como uma boa oportunidade.

Quanto à presunção de que o direito à autodeterminação dos povos predomina sobre outras considerações legais, o seu é um argumento moral (e perfeitamente legítimo). Este direito é referido na carta da UN a propósito da relação entre nações signatárias e também na declaração de 1960 sobre o processo de libertação de colónias. Como a Catalunha não é uma colónia, isto juridicamente não pesa nada. E, por muito que lhe custe, é com a configuração existente que os Governos, incluindo o nosso, devem lidar. E portanto, acho que a atitude do Governo Português é absolutamente prudente. Se a situação evoluir de maneira a que seja necessária medição internacional, aí a atitude poderá (ou mesmo deverá) mudar.

Isto vai depender das relações de força, incluindo de considerações de natureza económica. E o que ocorreu na Grécia é mesmo muito relevante porque pode ser bem um blueprint para o que vai acontecer aqui, primeiro no comportamento do Governo Espanhol e depois no comportamento da UE. Foi só isso que eu quis dizer, é evidente que o que estava lá em causa e aqui é bem diferente...

Ricardo António Alves disse...

Tenho falado de autodeterminação, parece-me claro, sob a forma de consulta. O que digo é que aos catalães que querem a independência do seu país não lhes foi dada outra possibilidade. É claro que eu tenho simpatia pela independência da Catalunha, como do País Basco, mas isso é apenas a minha simpatia, não é relevante.

Reafirmo a minha opinião sobre a posição do governo português: não se deve imiscuir nesta fase, e isso significa não tomar partido, como tomou. Se foi a pedido, fez mal; se não foi, foi desnecessária e até um bocado feia.

O Direito, como temos visto, não é para aqui chamado (ou é chamado para lançar uma cortina de fumo). Sob o mesmo ponto de vista, o Curdistão também não é formalmente uma colónia. E então?

Grécia e Catalunha: continua a não me parecer uma comparação pertinente; até porque na Grécia os actores principais eram dois, e aqui são três.

Manuel Nunes disse...

Gostei do vocábulo "cacharolete", o que prova ser o blogger um purista da língua, fugindo aos anglicismos derivados de "cocktail", expressão odiosa, tendo especialmente em conta os direitos dos animais. Escapou-me o sentido profundo da referência aos guaxinins, embora Jesus-Maria-José me inspire o maior respeito. Da Catalunha percebo pouco, sei apenas que foi por causa de uma revolta por lá ocorrida em 1640 que os castelhanos ficaram impossibilitados de vir a Lisboa resolver o caso da defenestração do Miguel de Vasconcelos. Quanto a Aragão, aprecio imenso a prestação em rainhas concedida ao reino de Portugal, entre elas a que foi rainha santa e fez o milagre das rosas, mas também a que casou com o rei eloquente e está de mão dada com ele no túmulo das capelas imperfeitas da Batalha. No que respeita ao franquista Rajoy, acho que o homem não precisa de mandar tropas nem guardia civil, basta-lhe contar com a solidariedade da Europa (ah, o sonho europeu!) e a boa disposição do capital financeiro e industrial para deslocar (ou deslocalizar?) os negócios da região mais rica do estado espanhol. Porém, haja esperança, no meio de tudo isto, pode ser que...

Ricardo António Alves disse...

Sempre agudas as observações, caro Manuel, e bem lembradas as nossas aragonesas.

Quanto à Catalunha, não é necessária especial erudição, que eu também não tenho.

A questão é até bastante simples, na complexidade envolvente dos interesses particulares; trata-se de saber se um povo tem ou não o direito à autodeterminação, seja catalão, basco galego, galês, escocês, curdo, palestino, thetcheno ou russo (ou timorense, etc...). E a partir daí agir e comportar-se em conformidade, nomeadamente aqueles que observam, como é o nosso caso.

O caso da Catalunha não é mais nem menos do que isso. Todos os argumentos, nomeadamente os jurídicos e económicos (já que os históricos são adquiridos) mais não são que uma cortina de fumo que pretende elidir a questão essencial.