sexta-feira, outubro 21, 2016

Rússia, Síria, Iraque, Ucrânia, UE, Estados Unidos, Estado Islâmico: histórias da carochinha com gente dentro.

Donald Tusk -- um dirigente polaco aceitável, o que não é comum -- diz que A estratégia da Rússia é enfraquecer a UE. Como Tusk não é propriamente um político mentecapto -- embora eles andem aí -- esta declaração de absoluta fraqueza é mais um dos muitos exemplos de como a UE não precisa do contributo de nenhum inimigo externo para se enfraquecer.
Para começar, a UE está moribunda. A política agressiva da Alemanha debilitou-a drasticamente; e o Brexit foi o seu golpe de misericórdia. A partir de agora, ninguém acredita na União Europeia, infelizmente. O seu comportamento miserável em relação à Grécia, a tentativa de tutela sobre Portugal, a estranha tolerância em face do Grupo de Visegrad -- coio de países com governos fascizantes e malsãos --, torna evidente que a União Europeia escusa de procurar as culpas em Putin. A não ser que seja mais um frete à sempre inteligente política externa dos Estados Unidos, a que a Europa -- por vezes justificadamente, em especial no tempo da Guerra Fria -- nunca deixou de se prestar.
Vejamos: a Rússia é um país imperial; os Estados Unidos, idem; a Alemanha pretende voltar a sê-lo, acobertada convenientemente pelos outros países da União Europeia. Papel a que a Inglaterra não se quis prestar -- e bem, infelizmente para nós, países periféricos --; e  que a França pensa que pode driblar, com a manha do manhoso Hollande. É claro que não vai driblar nada, e que mais cedo ou mais tarde, irá bater com a porta: ou porque Hollande achará insustentável para a sua posição política; ou porque Le Pen tratará de fazer os estragos necessários. É uma questão de tempo, e vai acabar mal.
No meio disto tudo, uma propaganda agressiva contra a Rússia (Síria, Ucrânia) manejada pelos americanos e tendo como alvo as massas ignaras do facebook -- propaganda que faz muito lembrar a usada na fragmentação da Iugoslávia, fortemente induzida pelas Alemanha, Áustria e Vaticano.
A pressão sobre a Rússia não tem nada que ver com direitos humanos nem com as crianças de Alepo, para os quais as potências (ao contrários da sua opinião-pública) se estão nas tintas, mas sim -- como é óbvio e qualquer pessoas com um mínimo de conhecimento de geopolítica sabe, com os equilíbrios e áreas de influência.
O hagiógrafo de Salazar, Franco Nogueira, glosando ao invés o seu orago, dizia, e bem, que "em política internacional, o que parece não é". Portanto, bem podem acenar com as vítimas de Alepo, e com os misteriosos capacetes brancos e com todas as tragédias (veremos como será agora em Mossul), que a Rússia não vai largar os seus pontos estratégicos no Médio Oriente, incluindo a única base naval que tem no Mediterrâneo.
O resto, são histórias da carochinha, povoadas por punhados de bandidos e milhares de inocentes de carne e osso, que sofrem os embates da História -- como milhões de seres humanos antes deles.

Em tempo - por entre as cortinas de fumo, é impecável a posição do governo português, expressa por António Costa.

10 comentários:

sincera-mente disse...

Muito lúcido!
A Europa falhou, ao que tudo indica, a sua esforçada tentativa de coesão e, consequentemente, a oportunidade de se tornar o fiel da balança entre os velhos antagonistas. Agora, é como diz. Tudo se resume ao jogo de interesses e estratégias dos dois colossos, para ver quem chega com a manápula mais longe. De somenos o sofrimento dos povos.

Ricardo António Alves disse...

Gostava de estar errado. Principalmente gostava que o 'Projecto Europeu' se salvasse. Cada vez acredito menos nisso.

Abraço

Jaime Santos disse...

Como bem diz, a Rússia é uma potência imperial e os EUA também e decidiram, estupidamente, jogar com ela uma espécie de Grande Jogo na sua (da Rússia) área tradicional de influência, onde ela estava em recuo desde a desintegração da URSS e a expansão da NATO a Leste. Putin aproveitou e bem todas as ocasiões (na Geórgia, na Ucrânia e agora na Síria) para recuperar essa influência perdida. Nestas três situações, o comportamento dos pró-ocidentais caiu que nem sopa em mel na sua estratégia. Até aqui eu concordo. Só não concordo que devamos fechar os olhos às ambições imperiais de Putin, em particular em relação aos Países Bálticos. É que contrariamente ao que disse Costa, as sanções de facto têm um efeito bastante negativo na Economia Russa, só que também prejudicam os interesses ocidentais, com a Alemanha à cabeça. Por isso é que Putin quer realmente enfraquecer a UE e esta ajuda. Qualquer resolução do problema sírio implica a colaboração da Rússia e obrigará a manter o assassino Assad no poder por agora (quero lá saber se ele é secular ou não, importa que tem sangue nas mãos e é muito), mas não me parece que a Rússia colabore a não ser que perceba que tem algo a perder... Por último, quanto às histórias da carochinha, sabe porque me agrada que os Ocidentais tenham que as contar, por contraponto ao absoluto cinismo de Putin? Porque isto quer dizer que eles têm limites à sua liberdade de ação, enquanto que Putin não tem e logo não precisa delas. A hipocrisia é o elogio que o vício faz à virtude mas só quando precisa dela, claro...

Ricardo António Alves disse...

Obrigado pelo comentário.
Duas notas, apenas: está por demonstrar que a Rússia tenha ambições imperiais sobre o Báltico, o que é diferente de querer fazer valer a sua zona de influência.Não fora a política americana de expansão da Nato, e outra seria a atitude russa. Eu até percebo que os estados Bálticos ou a Polónia possam ter uma especial sensibilidade em relação à Rússia; ou, até, a Finlândia, que, depois de uma guerra com a União Soviética, de que saiu vencedora, durante a Guerra Fria teve de sujeitar-se a uma soberania condicionada, com que todos, países da Nato incluídos se conformaram. Portanto, eu não compro essa das ambições imperiais; mas se as relações se deterioram, os russos não andam cá a ver passar os comboios. Já bastou a miséria da Iugoslávia, em que os EUA criasram um país dificilmente viável -- a Bóenia-Herzegovina -- para não falar na anedota do Kosovo.
Em relação a Assad, deixe-me dizer-lhe que, do meu ponto de vista, a sua 'qualidade' mudou. Enquanto a Síria foi um estado, ele era um ditador, que herdou o poder do pai, outro ditador feroz. Com a Síria escavacada pela guerra civil, Assad é apenas o líder de uma facção, e é nesse contexto que tem de ser encarado.

Jaime Santos disse...

Eu até sou capaz de aceitar uma ditadura como um mal menor, mas parece ser claro que Assad se comportou como um tirano brutal quando usou armas químicas ou reprimiu manifestações, por isso não nos espantemos que os sírios sunitas (jihadistas ou não) tenham pegado em armas contra ele (não podemos afirmar que o uso da violência só é legítimo quando a ele recorrem aqueles com quem simpatizamos). A atitude ocidental a posteriori revelou-se pouco inteligente, mas também podemos afirmar o mesmo de Bush pai quando ele permitiu que Saddam Hussein reprimisse a revolta xiita a seguir à segunda guerra do Golfo utilizando a sua força aérea (a primeira guerra foi entre o Iraque e o Irão). Aqui, seremos sempre presos por ter cão ou não ter... Quanto aos Estados Bálticos, a Rússia tem intervido em todos os Países onde existem minorias russófonas quando estas se sentem ameaçadas e no caso da Geórgia a repressão das mesmas seguiu-se a provocações, se bem me recordo (na Ucrânia a culpa ficou toda do lado pró-ocidental que encetou um golpe de Estado contra um governo legítimo, pouco importa se corrupto ou não). Por isso, tenho poucas dúvidas que não será preciso muito para Putin intervir nos países bálticos... Quanto ao Kosovo de acordo, quanto à Bósnia-Herzegóvina a culpa foi essencialmente dos sérvios (os crimes de guerra foram sobretudo cometidos por eles e também pelos croatas) e dos países europeus que não souberam agir a tempo. Estarei de acordo se me disser que o reconhecimento da independência da Eslovénia e da Croácia pelos ocidentais (sobretudo Alemanha e EUA) precipitou as coisas, mas alas, o sangue escorreu foi das mãos dos sérvios. Os EUA impuseram uma solução que apesar de tudo tem garantido a paz, por muito inviável que o País seja, ainda hoje. Por isso, na minha modesta opinião, às vezes os EUA até acertam e têm aquela coisa chamada separação de poderes (que funciona muito mal, já sei), enquanto a Rússia não tem... Aliás, como bem dizia Seixas da Costas, a URSS era mais democrática que a Rússia de hoje, porque o modelo de governo era mais colegial... Putin é um tirano brilhante e muito pouco confiável e eu prefiro alinhar com políticos manhosos mas sujeitos ao mínimo controlo pelo Estado de Direito. Quanto às supostas ambições imperiais da Alemanha, discordo completamente, pelo menos no caso sírio (e também na Líbia) claramente os alemães não alinharam no entusiasmo idiota dos franceses e dos britânicos e mesmo na Ucrânia, os disparates do lado pró-ocidental parecem ter sido mais instigados pelos americanos do que pelos europeus, alemães incluídos...

Ricardo António Alves disse...

Vejamos: eu estive completamente contra o Assad, quando houve um levante popular contra o seu regime. O problema é que a revolta degenerou em guerra civil -- muito por culpa do próprio Assad e da sua clique. A partir daí, o Assad é mais um chefe de uma das facções, como é óbvio. A história do "Assad's Regime" é uma conveniência de quem apoia, digamos, o outro lado (de que 'lado' estamos a falar, é uma boa questão).
(Ao lado: o uso de armas químicas por Assad é algo divulgado pela parte que se lhe opõe. Tanto pode ser verdade como mentira que tenha sido o Assad, mas também podem ter sido os próprios que sacrificaram pessoas do seu lado; não seria o primeiro caso, nem será o último. Estamos no domínio da propaganda de guerra e, portanto, nada que me entra em casa pelos telejornais me merece credibilidade).
Quanto à Iugoslávia, eu diria que o grande culpado foi mesmo o Tito. Tudo o que ocorreu posteriormente foi consequência da sua acção nefasta. Não eximo os sérvio de culpa, nem os croatas e, já agora, nem os 'bósnios e herzegovinos', seja lá o que isso queira dizer. Sim, os Americanos não são os principais responsáveis pela questão Bósnia e Herzegovina: atamancaram a coisa o melhor que souberam, que normalmente não é grande coisa).
Eu, francamente, não sei avaliar qual o grau de democracia hoje na Rússia. Não é brilhante. Já o que diz Seixas da Costa, assim fora do contexto, parece-me um formidável disparate, ou uma 'boutade'.
Sobre a Alemanha, acho que não falei de ambições imperiais (teria de reler o post), mas de uma hegemonia dentro da Europa, ocupando o espaços vazios de poder, principalmente agora que a Inglaterra se vai. É um problema, a Alemanha e a sua natureza).

Jaime Santos disse...

Não há de facto provas irrefutáveis que tenha sido Assad a usar as armas químicas, meramente que ele as tinha e que foram empregues (tanto que as entregou a seguir para serem destruídas, sob proposta da Rússia). Mas que a probabilidade maior é que tenha sido o seu regime a fazê-lo, penso que é incontornável. E o meu caro admite que a degenerescência da contestação ao regime em guerra civil foi sobretudo da responsabilidade de Assad. O Ocidente pecou por falta de prudência, como na Líbia aliás, mas perante tal situação pode sempre perguntar-se o que fazer. Os sérvios da Bósnia só fizeram o que fizeram porque o Ocidente manteve um embargo de armas que se sabia às partes em conflito que os sérvios violavam impunemente. Se os muçulmanos tivessem sido armados mais cedo, a história teria sido diferente (até poderia ter sido pior). Podemos lavar as mãos dos conflitos como Pilatos, ou podemos sujá-las e quando se o faz, corre-se sempre um risco. Quem me dera que as Democracias Europeias tivessem ajudado a Espanha Republicana... Relativamente às palavras de Seixas da Costa, penso que ele se referia à URSS da fase final e não obviamente dos tempos de Estaline. Há uma democracia formal na Rússia hoje, mas Putin domina todos os meios de comunicação social e os críticos do regime (incluindo jornalistas) são impunemente assassinados. Os soviéticos limitavam-se a interná-los em clínicas psiquiátricas, se bem me lembro. Basta pensar na chacina da Tchetchénia para percebermos que tipo de tirano Putin é. E ainda há quem na Esquerda Europeia simpatize com ele (puro reflexo anti-americano, penso eu, e note que não falo de si). Finalmente, quanto à Alemanha, disse que eles pretendiam voltar a ser uma potência imperial, o que me parece excessivo, no mínimo. Nem sequer acho que tenham ambições hegemónicas na Europa, muito simplesmente não querem pagar a conta de uma grave crise económica para a qual os seus bancos contribuíram mais do que ninguém. Aliás, se há País hoje que ainda defende o Liberalismo na vertente anglo-saxónica, esse País é a Alemanha, depois do resultado do Brexit, que está a transformar os Tories numa versão (muito) ligeiramente menos grunha do UKIP...

Ricardo António Alves disse...

Que o Assad chefia(va) um regime ditatorial duro, é uma evidência. Quanto à questão das armas químicas, permito-me suspeitar, pois era Assad quem tinha tudo a perder com a sua utilização, e os outros tudo a ganhar.

Sobre a Líbia, devo dizer que fui totalmente favorável à intervenção para depor aquele miserável. Correu mal, pessimamente, mas não havia outra alternativa quando o Nero assomava ao balcão, chamando ratos aos concidadãos. Foi uma coisa altamente higiénica o mundo ter-se visto livre do Kadafi. Claro que ele era um filho-da-puta que trabalhava para nós, fazendo da Líbia um tampão contra as migrações da África Subsaariana. A morte do sátrapa fez-me impressão, mas tratava-se de um dejecto humano que não me mereceu a mínima piedade.

Rússia: é claro que aquilo é uma democracia formal, como em Angola. Não sei se um país que nunca teve democracia, como a Rússia, a pode desencantar numa ou duas décadas. De qualquer modo, o povo russo é altamente preparado, e isso anima-me a pensar que o sistema pode aperfeiçoar-se. Até porque, hoje em dia, é virtualmente impossível -- salvo, talvez, na Coreia do Norte -- controlar todo o fluxo de informação. Aquilo é um grande país, em todos os sentidos, com uma cultura assombrosa, fascinante.

Nas clínicas psiquiátricas, no gulag, entre muitas outras malfeitorias. A URSS de Gorbatchev, a desfazer-se, creio que não pode servir de comparação com nada; tal como a Rússia de Ieltsin, em que vingou o fartar vilanagem, com extensão até aos dias de hoje.
Sim, a Tchtchénia foi brutal. Na altura inspirou-me um poemeto (http://janizaro.blogspot.pt/2012/04/hurrah.html).

Em relação à Alemanha, penso o que lhe disse: a hegemonia económica e financeira, o seu peso populacional, a sua situação geográfica, 'condenam-na' a ser mais do que o desejável. Com isto, não digo que Merkel e outros queiram funda um novo Reich.

Jaime Santos disse...

Nem Mussolini nem Saddam (que não morreu como um cão, apesar de tudo) tiveram o tratamento que um psicopata alucinado como Gaddafi teve. Não excluo o recurso à pena de morte para lidar com assassinos em massa, genocidas e criminosos de guerra, mas a morte de alguém naquelas circunstâncias mostra apenas a barbaridade daqueles que o assassinaram, e o que tem sucedido desde então confirma plenamente isso. O exercício da Justiça (ou mesmo da Vingança) obriga a um mínimo de decoro. Bin Laden teve muito mais sorte do que os muitos milhares que morreram no 11 de Setembro, pois teve direito a uma morte rápida e indolor, sendo que as mulheres e as crianças que com ele estavam foram poupadas (a acreditar nos Americanos). Quanto a Assad, assume que ele atuou sempre de modo racional o que como sabemos não ser sempre a prerrogativa dos homens, sobretudo quando se sentem invencíveis (e onde se incluem os inteligentes, como Assad é, indiscutivelmente). Quanto à Rússia de Putin, lamento, mas considero-o extremamente perigoso, também porque é frio, brilhante e não parece ter quaisquer escrúpulos. Finalmente, relativamente à Alemanha, julgo que o problema é ideológico e não de desejo de dominação. E, se quiser, também é um problema de sovinice...

Ricardo António Alves disse...

O Kadafi foi linchado. A turba nunca se põe a questão dos direitos humanos, justiça,dignidade ou decoro. Não lamento o Kadafi, mas a barbárie da besta humana à solta, de que, aliás, ele era um lustroso representante.

Sobre o Assad, só assumo que não sabemos nada sobre aquele ataque químico, a não ser que houve gente que o sofreu.

Putin, se for isso tudo aquilo que parece e que o Jaime diz ser, então eu também tenho medo; tanto como a da estupidez da política externa americana e da cupidez que procura conduzi-la. É que frieza, brilhantismo e ausência de escrúpulos não explicam as acções dos outros. E talvez devêssemos começar por aí.

Quanto à Alemanha, sejam quais forem as raszões, a verdade é que parece ser um problema, que temo venha a ser 'resolvido' da pior maneira, ou seja, com a deagregação da UE.