segunda-feira, outubro 24, 2016

Anarquia na Covilhã

Há dias, na Covilhã, descendo do Hotel para as magníficas instalações da Biblioteca da Universidade da Beira Interior, servida por uma equipa sensacional, deparo com esta frase, num muro velho: «Anarquia é ordem».
Para além de estar certíssima, a circunstância de eu a ler na Covilhã, o cenário urbano de A Lã e a Neve, uma das obras-primas de Ferreira de Castro, deu-me o necessário embalo para o colóquio desse dia sobre o romance, que, diga-se, foi um excelente colóquio.

4 comentários:

Jaime Santos disse...

A origem etimológica de anarquia vem, creio, de 'anarchos', sem senhores. Nesse sentido, só uma sociedade anárquica pode ser verdadeiramente democrática, e obviamente que, para a sua manutenção, tem que existir uma ordem e uma Lei, e muito provavelmente quem zele pela sua aplicação, sendo os homens o que são... Aliás, existem, julgo eu, elementos claramente anárquicos nas democracias mais avançadas, em que o Governo é colegial e sujeito ao controle de uma Assembleia. O mesmo não se passa a nível económico, em que o Capitalismo funciona na mais perfeita base hierárquica e sobretudo autoritária que se conhece (e gostaria de restaurar um neo-feudalismo em que pudesse utilizar os Estados a seu bel-prazer, o que é a 'filosofia' de Rand se não isso?). A sua substituição por formas de produção mais democráticas (cooperativismo industrial?) deveria ser o objetivo das Esquerdas, em vez de andarem a sonhar com o retorno ao Socialismo Estatista que do Capitalismo conserva só o que este tem de pior, ou seja, o Monopólio...

Ricardo António Alves disse...

E verdade, a anarquia é a aspiração da verdadeira democracia. A incompatibilidade desta com a ideia de Estado, radica na necessidade de este, pela sua extensão, necessitar de um aparelho centralizador, com tudo o que isso acarreta. Também por isso, os doutrinários anarquistas rejeitam a ideia de estado, em benefício da de comunidade,

Jaime Santos disse...

Os marxistas contestavam a posição dos anarquistas porque consideravam que o Estado era o único mecanismo para garantir a sustentabilidade da Revolução. Claro que o socialismo marxista deu no que deu. Bakunine dizia que se pegássemos no revolucionário mais radical e o colocássemos no trono de todas as Rússias, num ano ele tornar-se-ia pior que o Czar. Convenhamos que nem um ano foi preciso. Quanto aos mecanismos de democracia direta, basta ler Xenofonte sobre as derivas demagógicas da democracia ateniense na sua fase final para percebermos que provavelmente tais sistemas nunca funcionarão, estando o homem longe de ser o ser moral e racional em que acreditavam os socialistas de todas as cores. Mas se continuo a acreditar que só uma democracia representativa com uma polícia e um exército pode garantir a sua perpetuação (e os fenómenos populistas mostram-nos como democracias supostamente consolidadas como os EUA e o RU podem ficar sob ameaça), não vejo porque tenhamos que nos ater ao sistema económico vigente. Os homens e as mulheres trabalham melhor quando cooperam e são chamados a participar das decisões, parece-me. Já trabalhei numa empresa capitalista e meu Deus, aquilo era tudo menos eficiente...

Ricardo António Alves disse...

Também tenho a convicção de que estamos no domínio das convicções, para não dizer de uma espécie de 'fé', neste caso, nas virtualidades do ser humano. E, a esse respeito, sou bastante agnóstico. Por isso mesmo, gente como o Proudhon, o Bakunin, o Kropotkin, etc., tudo gente de grande envergadura intelectual, rejeitavam, prudentemente, o estado, preferindo-lhe a associação confederal das diversas comunidades.