terça-feira, março 31, 2015

Falta-me extremamente a paciência para esta conversa do Agualusa

Num blogue duma amiga brasileira, leio um excerto duma crónica de Agualusa no Globo:
"A verdade é que ainda persiste em Portugal uma certa saudade imperial e, sobretudo, uma enorme ignorância no que diz respeito à história do próprio idioma. É sempre bom recordar que antes de Portugal colonizar a África, os africanos colonizaram a Península Ibérica durante oitocentos anos. A língua portuguesa deve muito ao árabe. A partir do século XVI, com a expansão portuguesa, a língua começa a enriquecer-se, incorporando vocábulos bantos e ameríndios, expressões e provérbios dessas línguas, etc.. A minha língua é esta criação coletiva de brasileiros, angolanos, portugueses, moçambicanos, caboverdianos, santomenses, guineenses e timorenses. A minha língua é uma mulata feliz, fértil, generosa, que namorou com o tupi e com o ioruba, e ainda hoje se entrega alegremente ao quimbundo, ao quicongo ou ao ronga, se deixando engravidar por todos esses idiomas.”
Passando ao largo da banalidade do texto (acredito que um leitor médio do Globo tenha uma noção desse percurso histórico da língua) e da literatice delicodoce ("A minha língua é uma mulata feliz", etc.), não só não me reconheci na prosa como me perguntei se seria o mesmo Agualusa que foi jornalista do Público, viveu muito anos em Portugal (onde creio que mantém residência), faz parte dos círculos literários portugueses, vai regularmente às televisões e às rádios -- ou se seria um outro Agualusa que nunca tivesse passado os limites do Huambo.

Fui ler a crónica aqui. Tem que ver com o Acordo Ortográfico, uma controvérsia que parece cansá-lo. Agualusa pega num exemplo de um desqualificado qualquer que há anos, num colóquio, gritou salazarentamente o impropério: "a língua é nossa", e a partir daqui lança-se ao alegado saudosimo colonial que "ainda persiste em Portugal". Um leitor brasileiro que pouco mais saiba de nós do que as anedotas de português e do bigode, estará autorizado a pensar que esse saudosismo identificado por Agualusa é um, digamos, sentimento que em Portugal tem expressão. Ora isso é tão estúpido como eu dizer que em Angola persiste um sentimento de inferioridade  de país colonizado -- é inconcebível.

Agualusa conhece muito bem Portugal para saber destrinçar a vox pop ignara das pessoas que usam, trabalham e estimam a língua. Sabe que a esmagadora maioria dos escritores e dos intelectuais portugueses é contra o "Aborto Ortográfico" não por saudosismo imperial, mas pelos danos que ele provoca à própria língua. José Saramago e Vitorino Magalhães Godinho eram contra o AO por nostalgia imperial? António Lobo Antunes ou José Pacheco Pereira são contra o AO por isso e também por "enorme ignorância no que diz respeito ao idioma? Os editorialistas do Jornal de Angola, lúcidos opositores do AO, fazem-no por mentalidade de colonizados?... 

Apontemos os defeitos todos, antigos colonizadores, ex-colonizados, mesmo com banalidades e kitsch tropical, mas não seria mau fazê-lo de boa-fé e com honestidade intelectual.

8 comentários:

José Pimentel Teixeira disse...

Nem mais

Ricardo António Alves disse...

Teve de ser :|

Maria Eu disse...

Aplaudo!

Boa noite, Ricardo. :)

Ricardo António Alves disse...

Agradecido :|

Miss Smile disse...

Concordo plenamente com o que escreve em relação à falta de rigor de José Eduardo Agualusa que, levianamente, se baseia numa situação individual para qualificar um todo, um país. Tropeça constantemente em lugares-comuns (“A minha língua é uma mulata feliz, fértil e generosa…) e, embalado pela vaidade, não se coíbe de se referenciar como o “escritor da lusofonia” por excelência. Este discurso oco sobre a nostalgia imperialista já não faz eco nos nossos ouvidos e, provavelmente, a maioria de nós já não tem paciência para o ouvir. Quanto ao tema propriamente dito, compreendo e aceito a posição de quem é contra o Novo Acordo. Os que lhe apontam defeitos merecem o meu maior respeito. Eu própria sei que não é absolutamente perfeito. Sei também que a maioria dos escritores e intelectuais é contra o mesmo. Mas isso não me impede de o utilizar. Sei que o Novo Acordo privilegia o critério fonético, em detrimento do critério etimológico, mas sei também que ele afeta um número diminuto de palavras (1,6%). No meu caso, fui aderindo ao Novo Acordo pelo hábito que tenho de ajudar os meus netos nos trabalhos escolares, pois, como sabe, as escolas portuguesas já ensinam conforme o novo acordo ortográfico. Não sei se é por ser bilingue, mas aceitei-o sem protestos ou constrangimentos. Naturalmente. Não acho que quem escreve de acordo com as novas regras, e relembro, apenas uma ínfima percentagem das palavras foi afetada, maltrate o Português. O que tenho vindo a constatar na blogosfera, por exemplo, é que alguns dos opositores mais fervorosos do novo acordo, escrevem e publicam com erros ortográficos, sintáticos e morfológicos, o que, a meu ver, isso sim é maltratar a língua portuguesa.

Ricardo António Alves disse...

Obrigado pelo seu comentário.
O facto de se reger pelo último AO prende-se com a sua liberdade, está no seu pleníssimo direito, além do critério prático de ajudar os netos nos tpc's. Um dos meus blogues preferidos também segue essa ortografia e não é por isso que deixo de o ler. O argumento de autoridade funcionou apenas para rebater o texto lamentável do Agualusa.
Quanto a maltratar a língua, ela sê-lo-á sempre, e cada vez mais, infelizmente, com acordos ou desacordos.

Ladyce West disse...

Ricardo, achei a sua reação aos comentários de Agualusa um tanto excessivas. Talvez o assunto do Acordo Ortográfico ainda esteja vivo em Portugal. No Brasil o assunto está morto. Foi adotado. Não há como escapar, mesmo que pessoas como eu sejam completamente contra. E de fato temos tantos, mas tantos problemas no momento, com a corrupção instalada no governo do Partido dos Trabalhadores que se alastrou por todo esse imenso território, que não temos tempo de pensar se é melhor ou não o uso de uma ortografia única. A cultura há tempos foi pro brejo.

Sim, a metáfora do Agualusa, da mulata, foi uma coisa fácil, uma pegada de carta marcada, que em grande parte satisfaz a esquerda brasileira, pós-ditadura. Essa esquerda demagógica de Lula, que acredita enaltecer o povo quando insiste em considerar o Brasil um país mulato. Sim somos miscigenados. Não há dúvida. Mas o ex-presidente Lula enquanto estava no governo, assim como agora, não se cansa de querer dividir o país entre os negros e os brancos, os pobres e os ricos. Ele não gosta dos louros de olhos azuis, (como sua esposa); um assunto que ficou claro através de muitos discursos irresponsáveis em que mencionou-os sempre como membros da classe dominante, cujos desejos seriam desprezíveis, como se, por causa da falta de cor de suas peles, deixassem de ser brasileiros natos. Tudo para ganhar votos. E está na moda essa bênção em reverso por aqui, assim como a mania de esquecermos que a cultura brasileira, ainda que miscigenada está radicalmente enraizada no judaísmo-cristão dos nossos colonizadores. Esses por sinal há muito deixaram de ser de maioria portuguesa, já que entre 20 a 25% da população brasileira é descendente de 2ª a 3ª gerações de italianos. Em números os imigrantes que seguem depois dos italianos, a escala: alemães, japoneses e aí sim, portugueses. Dos portugueses herdamos muito mais do que a língua, mas ela é a evidência mais genérica e concreta. E a influência lusa ainda que seja muito forte na cultura, aparece menos nos estados do sul do país, onde a colonização praticamente só se deu a partir da chegada da família real portuguesa ao Brasil e depois dos imigrantes europeus que vieram substituir os escravos africanos no campo.

O texto em questão vem de um artigo de jornal. Uma coluna semanal em que o escritor angolano comenta sobre os eventos da semana. Não foi um tratado, uma defesa séria de um ponto de vista em um jornal especializado. Acho que houve uma reação desproporcional à importância do publicado.

Cá pelo Brasil, foi muito bem recebido. Talvez seja mais interessante, para compreensão mútua, nos atermos aos porquês dessa diferença, às razões dessas reações tão diferentes entre os leitores brasileiros e os portugueses. Talvez encontremos o que de fato aborrece a uns e a outros.

Como sempre, Ricardo, tenho o maior prazer de manter esse diálogo aberto com você. Acabo sempre tendo que esclarecer para mim mesma muito a respeito do que penso. Um grande e afetuoso abraço do lado de cá do Atlântico.

Ricardo António Alves disse...

Olá Ladyce :)

A minha questão com o texto do Agualusa decorre dos motivos que apontei, a generalização idiota a que procedeu. Ele permite-se falar do "não sei quê" imperial dos portugueses, o que só seria admissível se ele não conhecesse a realidade portuguesa, como sucede com a maioria dos brasileiros. Ora acontece que o Agualusa conhece-a muito bem; aliás, foi cá que ele 'apareceu' como escritor. Logo, da duas, uma: ou o Agualusa foi intelectualmente desonesto ou tem complexo de colonizado. Ambas são coisas feias.

Não considero, por isso, que tenha havido desproporção, uma vez que ele não é qualquer um, pelo contrário é um dos escritores mais lidos da nossa língua, logo com audiência vasta, pelo que essa atitude, no mínimo leviana, é grave.

Eu não sou nacionalista, detesto nacionalismos; nem colonialista. Amílcar Cabral, Eduardo Mondlane e muitos outros contam-se entre os líderes políticos que mais admiro e a quem estou agradecido por terem contribuído para a queda do regime salazarista. Mas o que o Agualusa escreveu é mentira: os ignaros que ele dá como exemplo, estão-se nas tintas para a língua portuguesa; o acordo ortográfico e as posições que suscita não tem nada que ver com essas as balelas. Os nomes que citei, e poderia citar dezenas de outros falam por si, e mostram como o Agualusa quis agradar, sabe-se lá a quem.

Não estou por dentro da política interna brasileira. tenho algumas opiniões, mas não passam de palpites. A miséria da política portuguesa e europeia já é difícil de suportar, portanto não posso nem devo contrapor nada àquilo que escreve.

Acordo Ortográfico é assunto para políticos sem dimensão, pequeninos e analfabetos, que nos conduziram a este caos ortográfico que se instalou entre nós.

Eu, aliás, estou intuitivamente convencido, desde há muito, que o português do Brasil irá autonomizar-se progressivamente. Já hoje há diferenças inultrapassáveis, principalmente a nível sintáctico.
Por isso acho completamente irresponsável, em nome de uma mirífica união ortográfica -- que nunca se realizará, por muitos acordos que se assinem -- (acho irresponsável) que se assassine a ortografia do português europeu, com todas as consequências que isso tem.

As posições dos maiores escritores portugueses, e outros grande autores, só tem que ver com isso, e não com o textinho canhestro e ínvio do escritor angolano. Texto mau, mal intencionado ou desonesto. Podia tê-lo ignorado, mas, francamente, não me apeteceu.

Um forte abraço.