segunda-feira, maio 27, 2019

as eleições por cá

1. o desapontamento. Não tinha grandes ilusões sobre as possibilidades de êxito do Livre, embora alimentasse uma esperança mínima. O momento foi há cinco anos; agora será difícil, mas o projecto é interessante. Uma candidatura mobilizadora em Lisboa e noutras cidades grandes talvez possa ainda viabilizá-lo. Também lamento o insucesso do candidato do Aliança, mas só mesmo nestas eleições.

2. a indiferença. A vitória do PS, esperada (ouvir o cabeça de lista a falar na defesa da Natureza, depois de ter dado a cara pelo aeroporto em Alcochete, um atentado ambiental que a ser aprovado terá efeitos irreversíveis, deixou-me de sorriso amargo); a eleição do deputado do PAN: embora o reforço da ecologia seja importante, trata-se de um partido de fanáticos que têm nos despolitizados e nos patetas da humanização dos animais um pasto eleitoral inesgotável; a troca entre BE e CDU: bons candidatos, nada a dizer, o grupo a que pertencem, pela parte portuguesa ficou na mesma.

3. o contentamento. a derrota da falta de vergonha, especialmente do inenarrável cabeça de lista do PSD, péssima escolha do presidente do partido, como se viu pela campanha miserável; a derrota clamorosa do CDS, que chega a ser cómica. Talvez de manhã acorde e fique a saber que o CDS desceu para a casa dos cinco por cento, na companhia do PAN -- e não é essencialmente por culpa do cabeça de lista, já todos o conhecemos, mas antes daquela incrível líder. Nos dois casos, a derrota da política  dos casos e do mero oportunismo. Já agora, é também para rir o espetanço do candidato da cmtv e do inefável causídico de província. O povo foi sábio em ter ido para a praia, em vez de lhes dar o voto.  

4 comentários:

Jaime Santos disse...

O PAN é uma lufada de ar fresco na política portuguesa, onde não existe um partido verdadeiramente ecologista (o PEV é uma apêndice do PCP, para que a candidatura seja da CDU).

Claro, o discurso do partido tem aspetos patéticos, mas o seu sucesso reflete o pensamento de novas gerações para quem a preocupação com o bem-estar animal se sobrepõe por exemplo à defesa das touradas como exceção cultural. E, meu caro, gostemos você e eu ou não, o facto é que o futuro provavelmente lhes pertence, olhando para o que aconteceu na Alemanha, na França e no Reino Unido em que os partidos verdes tiveram uma noite em cheio (estão implantados há muito mais tempo que o PAN).

Suspeito que ainda demorará algum tempo até que o discurso ecologista deixe de ser de nicho, se modere e possa integrar um Governo.

Convenhamos, o discurso ecologista representa o conservadorismo naquilo que ele tem de melhor. Os conservadores à Direita só querem conservar os seus privilégios...

De resto, tem toda a razão, o resultado da Ti Cristas e do Cônego Melo deu-me especial gozo, assim como o daquela figura algo sinistra que dá pelo nome de Paulo Rangel. Sendo uma pessoa inteligente e até capaz de pensar profundamente a Europa, no seu discurso público tem uma postura estalinista que não é de hoje. É bem feito. É mau para Rio, que talvez não merecesse perder por tanto, mas também ninguém o mandou meter-se na alhada da recuperação das carreiras dos Professores...

Mas prazer a sério veio do resultado desastroso do Labour, a provar que Jeremy Corbyn terá, muito provavelmente, o destino de todos os políticos de língua bifurcada. Tivesse ele feito uma campanha decente pela posição oficial do seu Partido, decidida democraticamente e que jurou defender, e o Remain tivesse prevalecido (ou não), não estaria agora metido no sarilho em que está.

Uma posição contra a pertença a UE é por si perfeitamente respeitável (existe um Esquerdismo anti-capitalista que considera que ela não é mais do que uma super-estrutura que constrange a capacidade dos Estados em implementarem políticas sociais), mas se Corbyn não conseguia defender decentemente a pertença à UE, ia-se embora...

Assim, pode pegar no seu estatismo 'and go get stuffed'...

Ricardo António Alves disse...

Não tenho nada contra os verdes em geral, antes pelo contrário; mas o PAN tem uma agenda de costumes, e isso desagrada-me.
Por cá, o ecologismo é velho, vem dos monárquicos de Ribeiro Teles, com uma ideologia subjacente, é verdade; o PEV é o que diz; o Livre tem na ecologia um dos seus principais vectores, e isso parece-me bem.

Tem toda a razão quanto ao Corbyn, foi deplorável; não querer a UE porque está dominada pelo monetarofinancismo é confundir a Estrada da Beira com a beira da estrada.

Jaime Santos disse...

Sim, é triste o que aconteceu ao PPM, que era representante justamente desse conservadorismo ecologista tory (Teles é talvez o último dos fisiocratas e digo-o como elogio :-) ), e que acabou a servir de muleta a André Ventura.

Todos os Partidos ecologistas têm uma agenda de costumes, mais ou menos. Viver de acordo com as possibilidades da Terra é um apelo ao ascetismo e isso estende-se a outros domínios.

O Livre é, ao que sei, um Partido com uma agenda muito mais sólida que o PAN (menos 'single issue'), mas na verdade parece-me que isso atrai menos um certo tipo de eleitorado urbano que se caracteriza por uma atitude algo 'priggish'... Claro, o PAN só crescerá para além dos pouco por cento se for capaz de apelar a outros eleitores que não esses...

Eu não critico tanto Corbyn por ele considerar que a UE não é reformável e por defender o retorno à soberania dos Estados Nacionais, embora discorde da viabilidade de tal posição num mundo globalizado. Só quem não se lembra da estagaflação dos anos 70, ou da poluição das praias, ou das chuvas ácidas, é que quer voltar para esse tempo.

O problema da Esquerda anti-capitalista é o de defender velhas soluções para problemas que não sendo novos, se manifestam de forma diferente. Mais ainda, se o neoliberalismo reina supremo, foi justamente devido ao falhanço passado dessas receitas...

Mas mais do que a crítica dos princípios ideológicos, o que eu lhe aponto é mesmo a duplicidade de posições... E depois, querer agradar a gregos e a troianos, é tarde ou cedo não agradar a ninguém.

Espero que não faça ao Labour o que nem Blair lhe conseguiu fazer... Se os trabalhistas o substituíssem por um socialista mais capaz do que ele, como John McDonnell, eu já me daria por satisfeito, embora a minha preferência vá para o remainer Keir Starmer...

Ricardo António Alves disse...

Pois, meu caro, não sigo com a sua minúcia a actualidade britânica. Os maus resultados do Labour, a subida dos Lib Dem (por acaso não sei qual é a posição dos Verdes em relação ao Brexit), parece indiciar pelo menos um desfasamento entre a liderança e uma parte das bases. Provavelmente o Corbyn terá perdido a sua oportunidade, veremos nas próximas eleições (e será que o partido do Farrage irá concorrer? Se concorrer ganha. E estará ele para a maçada de governar? Se estiver, não acredito que os outros deixem.)