terça-feira, março 07, 2017

não foi para isto que se fez o 25 de Abril, ò palermas

Comecemos pelo que interessa, pelo que é importante: Jaime Nogueira Pinto é um dos mais esclarecidos intelectuais da direita portuguesa. Ouvi-lo, para quem, como eu, está à esquerda, é sempre interessante e desafiador. O gozo está no debate de ideias, em ouvir quem, de boa-fé, não pensa como nós; se é para estar no rebanho, se é para as palavras-de-ordem, vamos ver o Glorioso, vamos a Fátima, às assembleias da iurd ou a uma manif da CGTP-In. O que não pode passar em claro: censurar um intelectual -- não se trata de um palhaço, de um agitador, em relação aos quais não deve haver contemplações --, não é possível num país como o nosso, e portanto a coacção não pode ficar impune, ainda para mais numa universidade.



Quanto ao circo: nunca tinha ouvido falar na 'Nova Portugalidade'; tenho até dúvidas de que sejam fascistas ou colonialistas. Deve tratar-se dum grupo de criaturas que tinham orgasmos a ouvir o Agostinho da Silva (que não era um homem de direita), quando o velho filósofo tripava valentemente à conta do Quinto Império & outros xamanismos. Há sempre sonhadores e poetisos que se embalam nestas lengalengas, e depois surgem com parvoíces como as lusofonias alucinadas. Normalmente seduzem contabilistas e juristas basbaques, que quando alcançam governar engendram coisas como o Aborto Ortográfico. Os portugaliteiros (acabei de criar a palavra), em geral, são inofensivos, embora possam tornar-se nos idiotas úteis de alguma quinta coluna neo-facha. Quanto aos alunos aspirantes a censores, deve a UNL começar por virá-los para a parede, de castigo, com umas orelhas de burro.
Sempre gostaria de ver quanto destes palermas, daqui a vinte anos, estarão à direita, a fuçar em fundos de pensões, assalariados do financismo, consumidores e bonecos do sistema.


Em tempo. A reacção de Vasco Lourenço, oferecendo as instalações da Associação 25 de Abril para a realização da conferência, é de grande alcance cívico e político. Outra coisa não seria de esperar.

2 comentários:

Marina Tadeu disse...

Só por "portugaliteiros" valeu a pena inteirar-me. Muito obrigada, Ricardo. Quanto a comentários, estou de fora, temendo apenas que no seu todo o episódio não seja assim tão irrelevante. Esses miúdos parecem denunciar uma predisposição inata para o fascismo, na sua expressão mais desgastada, que é a intolerância do outro. O que me preocupa é que a Universidade tenha sucumbido à pressão de uma birra. Saúde e muita força.

Ricardo António Alves disse...

Obrigado, Marina!
É o ar do tempo. Há que abrir as janelas e deixar entra o vento e o sol.
Um abraço