quarta-feira, março 15, 2017

a liberdade individual à esquerda

A cacofonia do tempo, o seguidismo bovino, a loquacidade dos corifeus do politicamente correcto  e espessas camadas de ignorância, engendram as confusões a que vimos assistindo sobre o posicionamento esquerda-direita em relação a questões que se prendem com a liberdade individual.

O véu islâmico é uma demonstração pública da subjugação da mulher e nada mais do que isto. Todo o bruaá em torno é um mero aproveitamento da guerra ideológica que os sectores radicais islamitas movem às nossas sociedades liberais, auxiliados pelos idiotas-úteis de alguma esquerda.


É evidente que o assunto é difícil, e que a mulher pode ser duplamente penalizada, com a decisão do Tribunal de Justiça da UE, pois o uso do véu não é da sua escolha, nunca o foi -- a não ser em casos recentes de statement político. O problema é que temos cada vez temos tempo. O enterrar da cabeça na areia, que já leva décadas, é pasto para a extrema-direita. Neo-fascistas e integristas islâmicos alimentam-se mutuamente, como se tem visto. E, portanto, ou pomos racionalidade nisto ou seremos devorados.


Só há uma 'liberdade' com que a esquerda digna desse nome não pode contemporizar: a que esmaga os outros, a do libertinismo financista, a que se arroga o direito de dispor da vida dos outros seres humanos em nome duma ideia depravada de enriquecimento. A esquerda que contemporiza com o autoritarismo, sob pretexto de questões ditas identitárias que colidem com a mais básica noção de autodeterminação individual, não serve.

2 comentários:

Jaime Santos disse...

A Esquerda Democrática bateu-se no passado pela Liberdade de Crença e pelo Estado Laico não em nome de um Estado sem Religião (isso ficou para o 'Socialismo Real'), mas em nome da Liberdade Individual. Afonso Costa era claro entre nós que via a separação do Estado e da Igreja não apenas como uma libertação do primeiro, mas também da segunda (algo hoje reconhecido pela ICAR sem dramas). Não conheço a decisão do STE e tenho a tendência a pensar que uma empresa, tal como os Estados, pode pugnar pela neutralidade religiosa no local de trabalho. No entanto, se como Vital Moreira sugeriu, o regulamento foi feito à medida daquela pessoa, então é inaceitável. Não sei se as mulheres muçulmanas usam o lenço ou o véu por vontade própria ou por imposição externa. Penso que lhes deveremos perguntar. Admito que mesmo aquelas que o fazem por vontade própria o fazem por uma suposta obrigação religiosa que nem sequer encontra qualquer base no Corão, pelos vistos. Mas é uma escolha sua e mesmo o direito à tacanhez encontra-se protegido pela Liberdade de Consciência. Se lhes limitarmos esse direito para além daquilo que é razoável para a própria proteção da sociedade (e aí julgo que os Franceses têm razão quando exigem que a cara deve ser sempre mostrada por razões de segurança), estamos a dizer a todos os muçulmanos conservadores que ou as mulheres ficam fechadas em casa no Ocidente, ou então eles não podem viver entre nós.

Ricardo António Alves disse...

Meu caro,

já tenho ouvido esse argumento contra um estado sem religião, que não passa dum sofisma.
É evidente que estado laico quer dizer estado sem religião. Coisa diferente é um estado que persiga a religião (quando a religião se porta bem, é claro; não chatear quem não quer ser chateado por ela).

A esquerda em Portugal tem uma larga tradição de perseguição à Igreja, e não foi só na I República. Não se esqueça que os liberais extinguiram as ordens religiosas e venderam os seus bens em hasta pública. Aliás, uma das principais artérias de Lisboa leva o nome do Mata-Frades...

Em relação às mulheres muçulmanas, tem dúvidas? E acha que nunca lhes perguntaram? É claro que tenho reservas, pelo risco de juntar mais opressão à opressão, mas não é pela resignação que resolvemos este problema.

Aliás, nem acho que isto seja um assunto religioso; os judeus, cristão, sikhs, etc. dó estão ali para disfarçar. É uma questão civilizacional: o que se quer impedir é este tratamento das mulheres muçulmanas, que é indignificante para nós europeus -- pelo menos os europeus de cabeça limpa. Não tenho certezas de nada, excepto em duas coisas: a mulher muçulmana média é maltratada; não nos devemos resignar, completamente nas tintas para a s especificidades culturais. Segunda certeza: há que começar por algum lado; quanto maior for a inacção, maior será o problema; quanto maior o problema, mais difícil de resolver, quanto mais difícil, melhor para os extremistas dos dois lados.