terça-feira, março 28, 2017

da Ponte Salazar ao Aeroporto Cristiano Ronaldo: o país entregue à bicharada

Não que Cristiano Ronaldo não seja credor de enorme admiração, sendo o atleta excepcional que é, um dos maiores futebolistas de todos os tempos. No entanto, nem há distância -- o homem, nos seus trinta e poucos, continua o maior nos relvados -- nem, por muito extraordinário que seja, chegou ainda à categoria de 'mito'.

É verdade que os aeroportos não deixam de ser infraestruturas a que foram dados nomes de políticos que as circunstâncias enobreceram e alçaram acima do nível geral dos congéneres. É o caso notório de Charles de Gaulle, um homem que impôs que o país resistisse à barbárie, ou John Kennedy, cujo assassínio em directo comoveu os seus concidadãos e o mundo, coroando, assim, um carisma que vinha sendo construído, pairando sobre o imaginário utilitarista norte-americano.

Por cá, a atribuição, há dias, do nome de Humberto Delgado ao aeroporto de Lisboa, participa dessa intenção de homenagear alguém que se agigantou e perdurou na memória colectiva, independentemente da pobre condição humana que lhe assistia. Delgado desafiara o todo-poderoso Salazar, galvanizara um povo que há mais de três décadas vivia em ditadura, opressão e pobreza, concorrera a eleições fraudulentas e mesmo assim -- não restam dúvidas -- ganhou-as; foi destituído, perseguido, exilado e, no fim, assassinado pelo mesmo regime que afrontara, e de que ele, militar, fora um dos fundadores, em 1926. Ah, e além disso, dirigiu a criação da TAP. É um nome absolutamente incontroverso.

Podendo haver casos anteriores, dou pela parvoíce logo com a Ponte Salazar. Os untuosos e puxa-sacos (expressão brasileira que adoro) do costume resolveram besuntar o então Presidente do Conselho, em plenas funções, oferecendo o seu nome à espantosa obra de engenharia que ligava as duas margens do Tejo, em Lisboa. E o homem deixou que o besuntassem. Há quase quarenta anos no poder, ele é que era o dono disto tudo, nada no país se fazia contra a sua vontade. Foi uma das fraquezas do Salazar. a humaníssima vaidade.

Depois, o caso caricato do Aeroporto Francisco de Sá-Carneiro, a ponta visível duma epidemia toporreica que atravessou Portugal, não havendo lugarejo que não tivesse a sua Rua Sá Carneiro e, em seguida, o seu beco Adelino Amaro da Costa. Na minha vila de Cascais, uma das praças teve de ser baptizada com o nome do dito, e, para o CDS não ficar atrás, deram ao Amaro da Costa a mais comprida avenida. Não é preciso dizer que o portuense Sá-Carneiro e o alentejano Amaro da Costa nenhuma relação notória tiveram com Cascais, e assim com os trezentos municípios do país que sobram; havia, porém, que marcar pontos políticos e pessoais de vária natureza.


Isto seria só ridículo, se não fosse mais um sinal evidente de como o país está entregue à bicharada, ao descaso, quando não a um rasteirismo sórdido: se há alguém que deveria ter um nome num aeroporto, esse seria Gago Coutinho, para não falar dos restantes pioneiros da aviação. Mas bastaria lembrar os navegadores. Se Portugal tem um lugar de destaque na história universal, este deve-se às navegações dos portugueses e, portanto, não vejo melhor nome para um aeroporto do que os desses homens corajosos e aventureiros que muitas vezes pereceram no mar, como Bartolomeu Dias ou os irmãos Corte Real, entre tantos da mesma estirpe.


Compare-se Aeroporto Gago Coutinho ou Aeroporto Bartolomeu Dias e Aeroporto Cristiano Ronaldo. Não joga, pois não?...


*Já agora, como o velho almirante tinha raízes algarvias, corram a dar-lhe o nome ao aeroporto em Faro, antes que Marcelo se lembre do Cavaco.

4 comentários:

sincera-mente disse...

E, a talhe de foice, porquê atribuir honras de Panteão Nacional ao antigo futebolista Eusébio? Admirou-me a (quase?) unanimidade dos actuais protagonistas da política e da opinião. Eu pensava que tal distinção se reservava a personalidades extraordinárias do país, mas em campos como o da cultura, da ciência, eventualmente da política (desde que consensuais).
Eu gosto muito de futebol, mas o futebol não passa de um jogo tendo por figura central uma esfera de plástico ou couro e uns postes de ferro ou madeira, caramba! Jogo esse que se pratica em locais nem sempre aconselháveis às famílias...
É claro que quem se distingue nessa elementar arte de acertar bem na dita e com ela progredir entre os adversários até a enfiar entre os paus, e com isso leva a paragens remotas o nome do país que o viu nascer, merece aplausos e homenagens. Mas, nomes em aeroportos ou honras de panteão?!
Calma aí!...

Ricardo António Alves disse...

A minha questão não é bem essa, pois também fui a favor da ida do Eusébio para o Panteão, como considero que o CR7 possa vir a merecer as maiores distinções do país, incluindo o seu nome no aeroporto internacional do Funchal.
Creio que o Eusébio transcendeu em muito o futebol, na circunstância temporal em que se afirmou; a sua ida para o Panteão tem que ver com ua identificação da nação, então acabrunhada e pobre com alguém que nos redimia os complexos de inferioridade em relação ao estrangeiro. Depois, o facto de tratar-se de um negro num país que foi colonialista, tem também, quanto a mim, um enorme significado.
Quanto ao CR7, a minha opinião é que um tipo que dobrou os trinta ainda tem muita vida pela frente, e que a iniciativa do gov. regional não passa de um aproveitamento calculista da merecida popularidade que ele tem.

maria franco disse...

Gostei do sentido de humor do último parágrafo.
Bicharada também está bem visto.
Não consigo perceber, porque não o nome da cidade
onde se encontra o aeroporto. Era mais simples penso
eu, na minha modesta opinião.

Ricardo António Alves disse...

:)
Depois da maldade que lhe fizeram com o busto, sou incapaz de dizer mais o que quer que seja sobre o assunto. Ele não merecia...