segunda-feira, julho 25, 2016

em paz, sem deuses

Vives em paz, sem deuses. Em paz? Há muito que te conformaste com o absoluto da razão, dentro, por baixo, ao lado do enigma da existência. És suficientemente sério contigo para condescender com os grandes castelos no ar com que os desgraçados de todas as épocas pretenderam confundir o nada em que esbracejam.

7 comentários:

Paula Lima disse...

Deuses trazem conforto, para quem neles acredita. Paz, se se for inteligente e questionar, não.

Jaime Santos disse...

Já reparou que isto se pode aplicar não apenas às religiões mas também às ideologias? Pouco antes de morrer, Tony Judt dizia que o nosso programa mínimo teria que ser daqui para a frente simplesmente o de evitar mundos piores... Porque tudo é pior que a Democracia Liberal...

Ricardo António Alves disse...

Paula, acredito, em abstracto, que alguém possa ter fé genuína, uma minoria, talvez; creio que, para a maioria, tudo não passa de crendice, pensamento mágico, auto-ilusão, que, naturalmente, pode reconfortar.

Jaime, sim, tudo é pior do que a democracia liberal -- é uma evidência quase científica, quando aplicada às sociedades complexas e aos estados.
Ao contrário das religiões, as ideologias não têm desculpas nem justificações para a imperfeição da sua humanidade.

Jaime Santos disse...

Ricardo, se olharmos para o Marxismo, por exemplo, percebemos que os marxistas acreditam piamente na suprema superioridade moral dos comunistas, só isso justifica que não reconheçam que um sistema centralizado irá dar imediatamente origem ao despotismo. Bakunine dizia com presciência que se colocássemos o revolucionário mais radical no trono de todas as Rússias, num ano ele estaria pior que o Czar. E pior, que justifiquem o terror vermelho com base na pureza dos fins a atingir. Uns acreditam que o Homem foi criado perfeito, e que depois caiu por culpa própria ou por intervenção maléfica, outros acreditam que é possível uma transformação tal da consciência humana, que poderemos prescindir de coisas como a separação de poderes, o governo limitado, o primado da Lei, etc, etc. Francamente, as pessoas religiosas são normalmente bem mais pessimistas e logo menos ingénuas em relação à natureza humana...

Ricardo António Alves disse...

Em relação à natureza humana, é possível, embora o pessimismo não seja atributo de religiosidade.

Jaime Santos disse...

Depende das religiões e das denominações dentro de cada religião. Mas, embora eu seja agnóstico e considere que as religiões todas encerram um gérmen totalitário, tenho tendência a concordar com o pensamento anti-prometaico que é característico dos monoteísmos. Claro, eles consideram tal pensamento como idolatria do progresso, da ciência e do homem, eu acho apenas que nunca nos conseguiremos libertar do programa biológico que leva a que queiramos dominar os outros, por isso olho com desconfiança para todo o tipo de vanguardismos... 'If men were angels, they wouldn't need government...'

Ricardo António Alves disse...

Parece-me uma prudência salutar.