Obra criada e coordenada por Raul Proença e, após a sua morte, Sant'Ana Dionísio. Trata-se do mais monumental e brilhante esforço de compilação do património cultural e natural português, para usofruto dos cidadãos e consequente salvaguarda, nele colaborarando os nomes da cultura portuguesa do tempo. Ferreira de Castro, neste terceiro volume, sobre a Beira Litoral (1945), com «De Oliveira de Azeméis a Vale de Cambra», de boa utilidade os castrianos.
Ainda em vida de Proença, falecido em 1940, Castro, foi um dos fiadores literários da obra, com Afonso Lopes Vieira, Aquilino Ribeiro, Câmara Reys, Raul Lino, Reinaldo dos Santos, Samuel Maia e Sant'Ana Dionísio.
[ a desenvolver]
Bib.: Ricardo António Alves, «Raul Proença, Ferreira de Castro e o Guia de Portugal»,Castriana #2, Ossela, 2004.
sábado, março 05, 2016
ui, devo ser mesmo um radical...
Não tenho paciência para falar da Senhora D. Maria Luís Albuquerque, uma nulidade política que não percebe que a honra de ser deputada da nação é incompatível com ser criada duma organização de fundos abutre. Se calhar, sou radical, mas a conta em que tenho estes é exactamente a mesma com que encaro qualquer máfia ou cartel de tráfico de droga, armas ou seres humanos.
Teria imensa pena se algum dos meus quatro filhos ganhasse a vida na especulação financeira. Há muito mais honra e utilidade em ser-se varredor ou empregado de mesa. Já mais de uma vez citei aqui o título de uma fotografia de Alberto García-Alix, que é das frases mais certeiras e lapidares que descrevem, entre outros, estes traficantes de dinheiro: «Um homem de camisa demasiado limpa não é um homem honrado.» E que bem que cheiram, mesmo se ainda estejam a aprender a comer de boca fechada.
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António Botto, mais conhecido como poeta, muitas vezes muito bom, outras poucas nem por isso, também escreveu contos para crianças. Estorinhas edificantes e pueris que resistiram mal à passagem do tempo, quer pelo léxico (é um problema recorrente dos livros para as crianças) quer pelo tom, distante, sério e moralista.
A edição, recente (o depósito legal é de 1996), é muito preguiçosa: não diz de onde foram extraídos os sete textos que compõem o livro, e é omisso quanto à autoria das ilustrações, que pela assinatura, vimos com dificuldade tratar-se de Alfredo Morais, um pintor académico do primeiro quartel do século passado, a condizer com o conjunto que nos é apresentado. A impressão dos desenhos é péssima.
o incipit do primeiro conto, «Os olhos do amor»: «Uma vez, uma cabrinha estava presa num curral, onde estava também um burro.»
ficha:
Autor: António Botto
título: os Olhos do Amor
colecção (dirigida por Salomé Almeida): «Colecção Céu Azul» #9
editora: Editorial Minerva
edição: 3.ª
local: Lisboa
ano: s.d.
págs.: 48
impressão: Editorial Minerva
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quinta-feira, março 03, 2016
uma carta do Infante D. Pedro
Uma carta que reflecte o pensamento do Infante D. Pedro (1392-1449) já como homem do Renascimento, a propósito da sua concepção do lugar central e pinacular do soberano -- neste caso, o irmão, o rei D. Duarte (1391-1438) --, e que nos dez anos de regência, na menoridade do sobrinho (e genro), D. Afonso V, pretendeu exercer, limitando o poder senhorial e reforçando o da corte. Exercício que lhe custou a intriga e a inimizade do círculo real, o desterro e a morte, na batalha de Alfarrobeira, contra o exército desse D. Afonso V, o nosso último rei medieval.
(ler aqui)
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quarta-feira, março 02, 2016
Aborto Ortográfico: aflorações recentes
Lembro-me de ouvir o saudoso Vasco Graça Moura, logo no início da questão, que uma das consequências da aplicação do Acordo Ortográfico seria a da progressiva e inevitável alteração no modo como se passaria a pronunciar certas palavras. Tive essa experiência, há dia, quando a minha filha mais nova estava a fazer os trabalhos de casa e me perguntou o que era um 'vetor', pronunciado com o e fechado. Não um vector, mas um vetor.
Outra consequência da bandalheira (expressão bem utilizada por Pacheco Pereira) que os poderes públicos não têm a coragem de defrontar (o único assunto em que António Costa me desapontou até agora; esperemos que a Geringonça, neste caso, continue a funcionar). Esta miséria induz em erro. Todos deveríamos saber que segunda as excepções abortivas do Aborto Ortográfico, caem as consoante mudas, e só essas. Pois acabo de ler esta lindeza no JL: "Aquela região era considerada infeta" A sério, 'infeta'?! Será infêta, ou infecta?...
Outra, fresquinha, lida ontem: abruto... Para não terminar 'abrutamente', nem à bruta, sempre direi que de vez em quando leio umas coisas das luminárias que defendem este chavascal, em que lamentam a forma aguerrida, agressiva, até, com que os opositores ao Aborto Ortográfico se manifestam. Mas como é que alguém pode manter a compostura, quando tropeça nesta ortografia, digamos, 'infeta'?...
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Vinte e três cartas, datadas entre 1922 e 1926 -- exemplarmente anotadas por José Barbosa --, do historiador da náutica dos Descobrimentos Luciano Pereira da Silva, ao historiador da Cultura Portuguesa Joaquim de Carvalho, então a dirigir a Imprensa da universidade de Coimbra.
Trata-se de um epistolário de eruditos, basicamente sobre a publicação de estudos próprios ou de terceiros, mais de metade escrito em períodos de férias, por vezes com um toque pitoresco do sábio dividido entre os deveres do estudo e as delícias do dolce far niente estival.
excerto:
«[...] O tempo está por aqui delicioso. É com mágoa que vejo este mês de setembro precipitar-se na voragem do Passado. As férias já mostram o fim próximo. Qualquer dia regressamos à velha Coimbra. Quando para lá for, lhe peço o favor de m'o dizer.
O que lhe desejo é que tudo lhe corra bem, que faça m.tos achados, e bons, nas sua investigações, muitos Eurekas, qual o amigo Arquimedes e com o mesmo alvoroço de satisfação, mas não no mesmo traje. [...]»
[carta datada de Caminha, em 14 de Novembro de 1925]
ficha:
Autor: Luciano Pereira da Silva
título: Correspondência de Luciano Pereira da Silva para Joaquim de Carvalho
edição: José Barbosa
Separata do Bol. bibl. Univ. Coimbra, vol. 39, págs. 41-90
editor: Universidade de Coimbra
local. Coimbra
ano: 1984
impressão. oficinas de «Coimbra editora»
págs.: 49
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Para um Dicionário de Ferreira de Castro: F de Família
1. família de origem. Primogénito de José Estáquio e Maria Rosa Soares de Castro. Órfão de pai (sobre quem nunca escreveu uma linha que se conheça) aos seis anos. Desse casamento resultaram quatro filhos, sendo o futuro escritor o mais velho. Após a viuvez, a mãe teve mais descendência, não tendo sido, por enquanto, apurada a sua paternidade. «Asfixia» é a palavra que Castro usa para caracterizar a vivência familiar que lhe coube, invocando-a, em consequência dos métodos repressivos da mãe, que o humilhavam, como uma das causas da sua partida para o Brasil. Referências muito breves a uma avó, entre outros. Após o regresso, a relação com a mãe caracteriza-se por uma preocupação com o seu bem-estar, embora com alguma distância.
2. famílias que constituiu. vive, em união de facto, com Diana de Liz, entre 1927 e 1930, data da morte desta, não havendo descendência. Casa--se, em 1938, em Paris, com Elena Muriel, jovem pintora espanhola, mãe da única filha de ambos, Elsa, sem descendência.
3. "família espiritual". O termo é seu, referindo-se à comunidade de escritores, num inquéiro sobre Direito de Autor.
(em tempo)
4. A representação da família na obra ficcional. (a desenvolver)
(em tempo)
4. A representação da família na obra ficcional. (a desenvolver)
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terça-feira, março 01, 2016
uma carta de José Régio
Publicada por João Gaspar Simões no livro autobiográfico José Régio e a História do Movimento da «presença». Tem essencialmente interesse documental, porque trata do início da presença, uma das mais importantes, talvez a mais importante e interessante revista literária portuguesa do século XX, cujo n.º 1 sairia a 10 de Março seguinte.
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segunda-feira, fevereiro 29, 2016
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Uma iniciativa inteligente da Direcção-Geral da Cultura / Norte, por volta de 2003: a edição de uma espécie de roteiros dos grandes escritores da região, a partir dos seus textos em que se abordassem, além das raízes próprias, os patrimónios material e imaterial.
A mim coube-me o Ferreira de Castro, que tive de encaixar, tal como sucedeu com os outros autores, em quatro capítulos: «O Homem, o Escritor», «Espaços de Inspiração», «Topografia Literária» e «Nas Entrelinhas da Escrita». Não fiquei de todo descontente com o resultado final, muito enriquecido pelas fotografias de época e pelo excelente trabalho de António Pinto.
incipit: «Tivesse ou não emigrado para o Brasil, ainda criança e sozinho, Ferreira de Castro seria sempre escritor.»
ficha:
Autor: Ricardo António Alves
título: Viajar com... Ferreira de Castro
colecção: «Viajar com... Os Caminhos da Literatura»
edição: Delegação Regional da Cultura do Norte / Edições Caixotim
local: s.l.
data: s.d. [2004]
impressão: Rocha / Artes Gráficas, Vila Nova de Gaia
fotografias: António Pinto,
págs.: 50
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Para um Dicionário de Ferreira de Castro: E de «Ecos da Semana»
Designação de uma coluna que Ferreira de Castro publicava no suplemento cultura de A Batalha, entre 1924 e 1926, textos que em boa hora foram reunidos em livro pelo Centro de Estudos Libertários, pela mão de Luís Garcia e Silva, em 2004. Castro a comentar o momento. Essencial.
(a desenvolver)
bibliografia: a minha recensão na Castriana #3
(a desenvolver)
bibliografia: a minha recensão na Castriana #3
(também aqui)
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Luís Garcia e Silva
domingo, fevereiro 28, 2016
microleituras
Há quem considere Mário António (Fernandes de Oliveira, 1934-1989) o maior poeta angolano. Amor (1960) abriu a «Colecção de Autores Ultramarinos» da mítica CEI -- Casa dos Estudantes do Império. A simplicidade da edição é quase comovente. Dentro, meia dúzia de poemas que cantam o amor e a saudade dele, por vezes com acentos camonianos.
SONETO
Não invoquei o sonho para amar-te.
Não te mudei o nome nem a face
nem permiti que nada transformasse
minha imagem de ti em forma de arte.
Não te menti em nada. Para dar-te
a imagem do que eras (Um enlace
perfeito e harmonioso é o que dá-se
entre quem és e o esforço de cantar-te)
só deixei que os meus olhos te mostrassem
como o fundo de um poço ou como chama
onde secretas imagens perpassassem
as estrelas e as flores, o fogo e a lama
todo o mudo pudor que nunca há sem
os olhos destruídos de quem ama.
ficha
Autor: Mário António
título: Amor
edição: 2.ª
editor: UCCLA-União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa / Sol
local: Lisboa
ano: 2014
impressão: Fotocompográfica, Almada
capa: Henrique Abranches
págs.: 23
págs.: 23
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Mário António
sexta-feira, fevereiro 26, 2016
microleituras
Um clássico da literatura tradicional trabalhada por vários autores, de Ana de Castro Osório (a única que, até agora, lera) a António Sérgio, passando pela grande escritora brasileira para a infância Lúcia Pimentel Góes. Neste livrinho, é Filomena Marona Beja quem decide recontá-la, retirando-lhe o peso machista da época, que hoje seria inaceitável e acintoso: os misteriosos dez anõezinhos vieram ajudar a dona de casa cujo desmazelo transtornara o marido, e esse auxílio pretado pelas dez criaturinhas acabaram por restabelecer a paz no lar. Donas e donos de casa, nos nossos dias, só por opção ou desemprego. Assim, nova moral da história: «o trabalho de cada um valoriza-se por si e pelo dos outros.»
Trata-se de uma edição artesanal, com imagens produzidas pela oficina de ilustração da Casa da Achada, que publicou a obra.
Incipit: «Eram novos e viviam juntos havia pouco tempo.»
ficha:
Autora: Filomena Marona Beja
título: Os Dez Anõezinhos da Tia Verde-Água
ilustrações: Marta Caldas, Felisbela Fonseca e elementos da oficina de ilustraçao da CA
edição: Casa da Achada - Centro Mário Dionísio
local: Lisboa
ano: 2014
capa: Eduarda Dionísio + oficina de paginação
impressão: Casa da Achada-Centro Mário Dionísio
págs.: 36
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quinta-feira, fevereiro 25, 2016
Para um Dicionário de Ferreira de Castro: D de «O Diabo»
«Semanário de Crítica Literária e Artística», resultado da convergência entre anarquistas e republicanos, publicando-se entre 1934 e 1940, encerrado compulsivamente pelo regime do Estado Novo. Ferreira de Castro é um dos fundadores, colabora logo no 'número espécime' (ou n.º zero), e chega a dirigir o jornal por dois breves meses, em 1935, uma solução de recurso que assegurou a saída do hebdomadário. Descontente com o jornal, José Régio augurava, nas páginas dapresença, uma melhoria com a direcção de Ferreira de Castro, que nele imprimiu nitidamente a sua marca, apesar do tempo curtíssimo como director. A seu convite, substitui-o na direcção o filólogo e professor Rodrigues Lapa, figura insigne da Oposição, com afinidades também à ideologia libertária. O jornal evoluiria para posições mais próximas do PCP, com a colaboração de jovens intelectuais comunistas, entre os quais Álvaro Cunhal. Castro e O Diabo mantiveram boas relações, tendo aquele concedido um extensa e importante entrevista, em 1940, estando à frente da publicação aquele que seria o último director, Manuel Campos Lima.
(a desenvolver)
bib: o meu artigo na Castriana #5, os livros de Clara Rocha, Daniel Pires e Luís Trindade.
(a desenvolver)
bib: o meu artigo na Castriana #5, os livros de Clara Rocha, Daniel Pires e Luís Trindade.
(também aqui)
microleituras
Ponto de situação do património romano no concelho, texto que serviu de base a uma exposição em 1986. O município é sobretudo rico em villae -- explorações agrícolas em torno de residências senhoriais -- "equiparável ao monte alentejano" --, sendo as mais importantes Casais Velhos (Areia-Guincho), Alto do Cidreira (Carrascal de Alvide) e Freiria (S. Domingos de Rana). Delas se extraíram, desde as prospecções pioneiras de Francisco Paula e Oliveira, no último quartel do século XIX, objectos de uso quotidiano e aras votivas do maior interesse.
Naturalmente que nos trinta anos que se seguiram, vários e importantes foram os achados e o estudos, mas isso já não faz parte deste opúsculo.
o incipit: «Este texto foi o catálogo da exposição «Cascais no Tempo dos Romanos» que, em Agosto de 1986, esteve patente ao público no Palácio da Cidadela, em Cascais, organizada sob o patrocínio da Câmara Municipal e do Instituto Português do Património Cultural, montada pela Divisão de Artes Criativas e Montagem da Secretaria de Estado da Cultura.» («Nota prévia»)
ficha
autores: Guilherme Cardoso e José d'Encarnação
título: Cascais no Tempo dos Romanos
editora: Câmara Municipal de Cascais
ano: 1990
impressão: Ramos, Afonso & Moita, Lisboa
págs.: 16
tiragem: 500 ex.
obs.: separata da Revista de Arqueologia #1, Lisboa Assembleia Distrital, 1990.
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Para um Dicionário de Ferreira de Castro: C de «Canções da Córsega»
Conferência proferida na Universidade Popular Portuguesa, em 16 de Dezembro de 1934, a convite de Ema Santos Fonseca da Câmara Reis, e integrada nos ciclos de Divulgação Musical, que organizava.
O texto elabora sobre aspectos do canto popular corso (Ferreira de Castro esteve na Córsega nesse ano) e a idiossincrasia daquele peculiar povo insular -- temas que abordaria em capítulo próprio de Pequenos Mundos e Velhas Civilizações.
(a desenvolver)
Bibliigrafia: 100 Cartas a Ferreira de Castro; Ema Santos Fonseca da Câmara Reys,Divulgação Musical III, Lisboa, 1936.
O texto elabora sobre aspectos do canto popular corso (Ferreira de Castro esteve na Córsega nesse ano) e a idiossincrasia daquele peculiar povo insular -- temas que abordaria em capítulo próprio de Pequenos Mundos e Velhas Civilizações.
(a desenvolver)
Bibliigrafia: 100 Cartas a Ferreira de Castro; Ema Santos Fonseca da Câmara Reys,Divulgação Musical III, Lisboa, 1936.
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quarta-feira, fevereiro 24, 2016
uma carta do Padre António Vieira
Carta publicada por Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal (2.ª ed., 1951), recolhida na edição Sá da Costa da Cartas (1951), por António Sérgio e Hernâni Cidade.
Dirigida a Duarte Ribeiro de Macedo, então enviado em França, excelente sobre o ambiente persecutório e o o poder da Inquisição, cuja chaga purulenta ainda hoje se escarva e se escarra na tristíssima sociedade portuguesa.
O retrato do fascinante Frei António das Chagas é esplêndido, bem como a arguta noção de Vieira dos perigos do prègador iluminado e alucinado -- qual pastor tele-evangelista --, o receio pelo que, às mãos da turba poderiam sofrer os cristãos-novos; evocando o massacre dos judeus ocorrido em Lisboa no reinado de D. Manuel I, cujo memorial há uma década foi erigido nesse Largo de São Domingos de nefanda memória, e que hoje, ironia da História, é local de cruzamento étnico das mais desvairadas religiões e dos que não têm religião nenhuma.
ler aqui
Para um Dicionário de Ferreira de Castro: B de Barros, João de
Poeta, pedagogo, político -- foi ministro dos Negócios Estrangeiros na I República -- João de Barros (Figueira da Foz, 1881 - Lisboa, 1960), é um dos últimos grandes vates pré-modernistas portugueses, autor de uma poética vitalista e inconformada, muito ao arrepio da tradição nacional, fatalista e lamentosa. Como escritor, importa referir também a importante obra cronística e ainda -- muito ligado à sua faceta de pedagogo -- a adaptação de clássicos, «contados às crianças e ao povo», como Os Lusíadas, entre outros. Era pai de Henrique de Barros, agrónomo e professor universitário que presidiu à Assembleia Constituinte (1975-1976) e sogro de Marcelo Caetano.
A estreita amizade com Ferreira de Castro -- foi padrinho da filha deste, Elsa -- remonta à década de 1920. Barros foi dos poucos autores em relação ao qual Castro transigiu, escrevendo um prefácio para a edição reunida de Anteu e Sísifo (1959). Há pelo menos três poemas que lhe são dedicados.
(a desenvolver)
Bibliografia: além da activa de ambos, as 100 Cartas a Ferreira de Castro, o apêndice na Correspondência entre Ferreira de Castro e Roberto Nobre sobre a propositura ao prémio Nobel, em 1951.
(a desenvolver)
Bibliografia: além da activa de ambos, as 100 Cartas a Ferreira de Castro, o apêndice na Correspondência entre Ferreira de Castro e Roberto Nobre sobre a propositura ao prémio Nobel, em 1951.
(também aqui)
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terça-feira, fevereiro 23, 2016
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Um ensaio tão sucinto quanto brilhante, pela fractura que instaurou entre dois modos de considerar a literatura caboverdiana.
Onésimo Silveira -- que viria a doutorar-se em Ciência Política em Uppsala, membro do PAIGC, tendo enveredado pela carreira diplomática (foi embaixador de Cabo Verde em Portugal, entre outros postos) -- fez publicar pela Casa dos Estudantes do Império (CEI), em 1963, este ensaio que significa um separar de águas entre a geração do grupo da Claridade -- provavelmente a mais brilhante de Cabo Verde no século passado -- e os novos escritores que não se reviam no tipo de literatura praticado por aquela, que classificaram como "evasionista".
Silveira, que nessa altura era um jovem de 28 anos, ousava criticar acerbamente as obras dos Claridosos, de cujas fileira faziam parte nomes como Baltazar Lopes, Manuel Lopes, Teixeira de Sousa e Jorge Barbosa, a quem deu o epíteto de «pontífice do evasionismo». O autor arrasa-os de uma perspectiva ideológica e política, acusando-os, por outras palavras (afinal tratava-se de uma edição da CEI!...), de, por elitismo, superficialidade, inautenticidade e, até, complexo de inferioridade, se afastarem da feição africana da cultura de Cabo Verde, em detrimento de uma orientação metropolitana, portuguesa, europeia. O que naquele tempo (estamos no início da luta armada por parte do PAIGC contra o colonialismo português), ia ao arrepio da urgência do tempo, que a arte, segundo o autor, deveria traduzir. E dava exemplos da nova geração, transcrevendo o poema «Anti-Evasão», de Ovídio Martins.
Não sei até que ponto Onésimo Silveira, do alto dos seus oitenta anos, se revê em muitas asserções deste ensaio muito bem feito, muito datado, também, e, por isso mesmo, de grande valor histórico para Cabo Verde, e igualmente para Portugal.
ficha:
Autor: Onésimo Silveira
título: Consciencialização na Literatura Caboverdiana
edição: 2.ª
editora: UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa)
local: Lisboa
ano: 2015
impressão: Printer Portuguesa, Mem Martins,
págs.: 31
tiragem: 45000
(tamb+em aqui)
uma carta de Oliveira Martins
Oliveira Martins (1845-1890), director de O Repórter, agradece, com os maiores encómios, a Luciano Cordeiro (1844-1900), o envio de Sóror Mariana, a Freira Portuguesa (1888). Esta é a primeira de quatro cartas de homens públicos enviadas a Cordeiro, que sustentava tratar-se as Lettres Portugaises do punho de Mariana Alcoforado, o que continua a ser controverso.
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Um manifesto escrito no final do século passado, fruto de vários anos de meditação e maturação pelo seu autor. Cascais, como se sabe é uma vila (teve carta de D.Pedro I em 1364, autonomizando-se de Sintra). Mas é também um contínuo urbano, da Quinta da Marinha a Carcavelos. Quando o texto foi publicado, a situação urbanístca e suburbana (a chamada "Costa da Sombra"...) era ainda muito má, mas começava então a civilizar-se, com equipamentos desportivos e culturais e infraestruturas básicas.
O que a «Cidade Global» de Cascais tem de inovador, ainda hoje, é que não se trata de uma mera elevação administrativa duma povoação de vila a cidade; mas, pelo contrário, a sua compreensão enquanto um todo urbano, com racionalidade de gestão, delimitada pelo Parque Natural de Sintra-Cascais -- cidade que contemplaria no seu seio diversas vilas, a começar pela própria vila de Cascais, mas também a da Parede e outras que fossem ganhando dimensão. A cidadania está na cidade.
o incipit: «Todas as cidades tiveram um princípio, uma evolução e terão um dia certamente um fim.»
o incipit: «Todas as cidades tiveram um princípio, uma evolução e terão um dia certamente um fim.»
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aitor: José Vieira Santos
título: Cascais -- A Cidade Global
subtítulo: 10 Pontos para Reflexão
editora: Fundação D. Luís I
local: Cascais
ano: 1999
capa: foto de Fotografia César, Cascais
impressão: Grafilinha
págs.: 29
tiragem: 2000
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segunda-feira, fevereiro 22, 2016
Para um Dicionário de Ferreira de Castro: A de «Alma Lusitana»
«Phase da Guerra Luso-Alemã em Naulila, Africa -- (1914-15)».
Segundo livro publicado por Ferreira de Castro, ainda em Belém do Pará, em 1916. É também o seu primeiro texto dramático, género que intermitentemente cultivou até meados da década de 1930.
38 págs., sem menção de tipografia.
Bibliografia a ter em conta: Alberto Moreira, Bernard Emery, Clara Campanilho Barradas. (a desenvolver)
Bibliografia a ter em conta: Alberto Moreira, Bernard Emery, Clara Campanilho Barradas. (a desenvolver)
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uma carta de Ramalho Ortigão
Publicado por Beatriz Berrini, em Cartas a Emília (Lisboa, 1993). Não suscita muitos comentários, só o deleite da leitura da escrita cristalina da ramalhal figura (Eça de Queirós) e a mania que ele tinha da saúde, da higiene, do desporto.
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Sidónio Muralha é um dos nomes inaugurais da poesia neo-realista(Beco, 1941), autor do «Novo Cancioneiro» (Passagem de Nível, 1942),celebrado autor de muitos e bons livros para crianças, entre os quais Bichos, Bichinhos e Bicharocos (1950), Todas as Crianças da Terra (1978) e O Rouxinol e a Sua Namorada, 1983 -- maravilhosamente ilustrados por Júlio Pomar, o primeiro, e Fernando Lemos. Na década de 1950 sai do país e vai, na companhia de Alexandre Cabral, o futuro grande camilianista, para o então Congo Belga, emigrando mais tarde para o Brasil, onde virá a falecer, em Curitiba.
Os poemas mais interessantes desta colectânea são os que abordam a mágoa da longa ausência deste poeta lisboeta nascido na Madragoa e que soube ser um autor para todas as crianças da terra, tendo no Brasil um país que enquanto tal também o adoptou.
Deixo um dos meus preferidos, o primeiro dos «Dois Sonetos do Difícil Retorno»
Se fores a Portugal um dia, se
pisares aquele chão, diz-lhe que aguarde
o difícil retorno deste que
nunca pensou voltar assim tão tarde.
Mas houve temporais e lutas e
se a batalha foi ganha sem alarde,
nunca foi sem alarde a raiva de
um inimigo oculto, hostil, cobarde.
Atravessei os mares e os continentes,
conheci outras línguas, outras gentes,
mas a minha poesia é lá que vive.
É lá que sou poeta e na verdade
a minha volta é só formalidade.
-- Voltar não voltarei. Sempre lá estive.
ficha:
título: 26 Sonetos
autor: Sidónio Muralha
colecção: «Horizonte Poesia» #7
editora: Livros Horizonte
local: Lisboa
ano:1979
texto contracapa: José Manuel Mendes
págs.: 30
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Para um Dicionário de Ferreira de Castro
Já de há muito que acalento a possibilidade de elaborar um Dicionário de Ferreira de Castro. Obviamente que esse seria um trabalho de uma vida, à maneira de Alexandre Cabral (outro castriano, por sinal), e eu já me daria por satisfeito se lograsse uma espécie de abc sobre o escritor. Por isso, defendo-me e tento fintar a sensação de esmagamento diante de tarefa tão extenuante, lançando cá para fora verbetes com texto mínimo, ficando os microensaios para as calendas…. Além do mais, um verdadeiro dicionário de Ferreira de Castro teria de ser um trabalho colectivo e com alguma especialização, havendo, felizmente, para as principais áreas temáticas, gente que poderá falar com conhecimento e acerto. Talvez mais à frente, isso possa ser concretizado. Para já, fiquem-se com estas pedras ao poço.
(também aqui)
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sábado, fevereiro 20, 2016
Umberto Eco
Que dizer, quando morre um tipo destes? Um dos maîtres à penser do mundo ocidental, da Europa culta e cosmopolita, que dissertava sobre a patrística medieval ou uma prancha de Milton Caniff. Aliás, era um bedéfilo requintado: Milton Caniff? É muito bom... E Schulz e o seu Charlie Brown, idem.. Já era um grande nome da Semiótica quando entrou, com estrondo, no romance -- O Nome da Rosa, tenho-o autografado por si, numa sessão na Bertrand do Chiado --, livro com homenagens a Borges e a Connan Doyle, e a Guilherme d'Ockham. Na última fase do Diário de Lisboa, dirigido por Mário Mesquita e Diana Andringa, aí por 1990, acompanhava com gula as crónicas semanais de que o jornal tinha o exclusivo para o nosso país; tenho até alguns recortes.
Não me apetece nada ser apocalíptico, e escrever que Eco morre num tempo crepuscular. Rle não merece.
O último livro que lhe li foi este.
Não me apetece nada ser apocalíptico, e escrever que Eco morre num tempo crepuscular. Rle não merece.
O último livro que lhe li foi este.
quinta-feira, fevereiro 18, 2016
quarta-feira, fevereiro 17, 2016
E que tal o Ministério Público descobrir quem foi o pulha e a Justiça ser implacável?
Como sabe quem me conhece, ou quem por aqui me acompanhe, estou-me nas tintas para o 'caso' Bárbara Guimarães - Manuel Maria Carrilho. Este, como sempre digo, foi o melhor ministro da Cultura do regime democrático -- em tempo de vacas gordas, mas foi-o; ela, não é apenas bela, mas uma profissional competente, embora não lhe consuma o canal, bolas!. Quanto às suas qualidades e entorses pessoais, não sei, não quero saber, e até tenho raiva a quem sabe.
Abomino essas folhas de papel higénico impróprias para consumo que são as revistas de mexericos, e considero quem as consome uns pobres de espírito. Muitas vezes sou obrigado a ver o esterco em estendal, enquanto estou na bicha da bomba de gasolina ou em situação similar, poluição visual da mais grosseira e inadmissível.
Fui, portanto, obrigado a saber que uma dessas revistas de má fama -- em relação às quais a saudosa Gina era um exemplo de polidez --, que as declarações do filho do casal ao juiz (uma selvajaria com que nenhum pai deveria pactuar, por mais preparado que um magistrado esteja para lidar com uma criança), essas declarações foram reproduzidas pelo lixo das revistas de coscuvilhice. Isso é gravíssimo, para mim pior do que as fugas de informação sobre o processo de qualquer agente político ou financeiro envolvido nalgum caso. É infame. E como diz o arguto Ferreira Fernandes (lido aqui), o problema agora passa a ser nosso.
Toca a trabalhar, Ministério Público, para descobrir quem foi o pulha -- e se não houver enquadramento legal para mandá-lo para a cadeia, há, certamente, para pôr o porcalhão no olho da rua.
terça-feira, fevereiro 16, 2016
latidos aflitos de caniche
«Não sei se lhe parece idiota o que vou dizer mas aos domingos de manhã, quando nós lá íamos com o meu pai, os bichos eram mais bichos, a solidão de esparguete da girafa assemelhava-se à de um Gulliver triste, e das lápides do cemitério dos cães subiam de tempos a tempos latidos aflitos de caniche.»
António Lobo Antunes, Os Cus de Judas (1979)
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António Lobo Antunes
o padre e a beata
Lamentável, no Prós & Contras desta noite, sobre a eutanásia, a desonestidade intelectual manifestada pelo padre de serviço (o homem tinha orgasmos no seu propalado "amor à vida") e uma conhecida beatona de serviço, uma farisaica com o topete de qualificar como cúmplices todos quantos pudessem intervir no suicídio assistido de quem, por sofrimento insuportável, não quer continuar a viver. E intelectualmente desonestos porque nem o padre (este só depois de instado a pronunciar-se enquanto tal) nem a beata tiveram a inteireza de assumir que as suas posições se manifestavam fundamentalmente como crentes religiosos para quem a eutanásia é proibida, por pecado mortal. Refugiavam-se na bonita palavra ética, coisa que ao longo do programa mostraram não lhes assistir. A vergonha do costume. Mas por que diabo teremos nós, crentes ou ateus -- principalmente ateus, para quem a a ideia de Deus é abstrusa, sem sentido, paleolítica (inferior) -- por que diabo temos de continuar a estar reféns destes cromos da hóstia?...
domingo, fevereiro 14, 2016
O triste caso Parmjit Singh
Esta reportagem da RTP mostra o que pode a estupidez e o analfabetismo de burocratas, agentes do SEF ou juízes, com responsabilidade da Interpol.
Parjit Singh é um sikh, comunidade maioritária no estado do Pundjab, que pugna pela secessão da Índia. Essa contestação faz-se por vários métodos, pacíficos ou violentos. Refugiado legalmente em Inglaterra há vários, onde trabalha e constituiu família, depois de haver sido preso e torturado no país de que é cidadão, nessa condição viajava normalmente pelos países da UE com a família, sendo a terceira vez que estava em Portugal.
Há cerca de dois meses, de férias no Algarve, foi detido pelo SEF. Se fosse um detenção para averiguações, uma vez que a Interpol tinha o seu nome como indivíduo procurado -- que entretanto, depois da barraca das autoridades portuguesas, foi eliminado da lista -, eu acharia normal. Mas em face dum passaporte britânico que atestava o seu estatuto de refugiado político, o que faz o SEF? Mantém-no detido. Mais: vai a tribunal, e a prisão é confirmada, inclusive pela relação de Évora.
Salvou a honra do país a ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, que rejeitou o pedido de extradição para a União Indiana, onde poderia ser condenado à morte.
No meio disto uma família aterrorizada, a mulher e os filhos, todos ainda crianças, outras vítimas do analfabetismo do SEF e dos juízes que lidaram com este processo. Chamar-lhes analfabetos, é pouco, pelo sofrimento que infligiram a esta família. É vergonhoso, indigno e revoltante.
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sábado, fevereiro 13, 2016
das liberdades individuais
«Todo progresso foi essencialmente marcado pela extensão das liberdade do indivíduo em detrimento da autoridade exterior tanto no que concerne à sua existência física, quanto política ou econômica.»
Emma Goldman, O Indivíduo, a Sociedade e o Estado (1940)
só uma música
Gravado ao vivo em Itália, com músicos locais, em 1959, Chet Baker canta em algumas faixas, o que fazia como tocava trompete, smoothly, Mas a minha escolha vai para o standard de Gordon Jenkins, «Goodbye», uma peça melancólica a condizer com a fachada do Chet, aqui com um portentoso arranjo orquestral.
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