domingo, fevereiro 01, 2026

o que está a acontecer

«Ràpidamente, atravessei as paralelas sombrias da Baixa, e, mais além, na Avenida da Liberdade, vendo o passeio oriental ainda morno de sol, achei ilógico subir pelo outro lado. Por cima de mim, os cachos de pardais enegreciam os troncos seminus, produzindo uma chilreada compacta. Dir-se-ia emanar das próprias árvores, pensei. Mas logo franzi o nariz. Não. Era outra coisa.» Francisco Costa, A Garça e a Serpente (1944)

«Moram os que enriquecem no fundo das lojas, onde as fazendas petrificaram. Mora aqui o egoísmo que faz da vida um casulo, e a ambição que gasta os dentes por casa, o que enche a existência de rancores e, atrás de ano de chicana, consome outro ano de chicana.» Raul Brandão, Húmus (1917)

«Era vulto apardaçado nos extremos, erguendo, algures para o céu, um mamilo vulcânico e deixando que a sua encosta central se doirasse, suavemente, na luz matutina. Visto de longe, a medrar, a medrar parecia recém-nascido no mistério oceânico, para enlevo de olhos fatigados pela monotonia marítima.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)

1 comentário:

Manuel M Pinto disse...

«Em matéria de amparo, Severim de Faria, depois de desfiar a linha genealógica do poeta desde Vasco Perez de Camões até Simão Vaz, não menciona um só da nobre progénie que alguma vez o tenha assistido, sob este aspecto desfilando todos do berço para a cova na mais suave quietude. Mas Camões considerava-se rebento de tal árvore? Os heraldistas enxertaram-no nela. E aqui caio, além me levanto, lá soldaram bem ou mal os fuzis, como se tal operação fosse essencial para a glória do autor dos Lusíadas.»
Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)