quarta-feira, dezembro 31, 2025

..mas depois apareceu o Jafar Panahi com um dos filmes do ano,



a desmentir, gostaria eu, o que escrevi aqui


3 versos de A. M. Pires Cabral

«Resta um pano da fachada, onde / entre as heras que comem do granito / a pedra-de-armas ainda sobrevive» 

Douro: Pizzicato e Chula (2004) - «Solar em ruínas»

música para salvar o ano #12 (e os outros anos também) «Teresa Torga», do José Afonso (Cristina Branco)

terça-feira, dezembro 30, 2025

zonas de confronto

Hans Christian Andersen: «Vi-os quase diariamente nos quatro anos que viveram aqui, antes de partirem para a Suécia a fim de conhecerem também este país e aprenderem a sua língua. Anos se passaram sem que nos correspondêssemos ou notícias tivéssemos uns dos outros. Sucedeu, porém, que bom tempo depois um compatriota me veio pedir algumas palavras de recomendação para um deles em Lisboa, cidade que supunha já ter eu visitado.» Uma Viagem a Portugal em 1866 (1868) - trad. Sinva Duarte § Ivo Andrić: «Uma destas planuras começa aqui, em Visegrad, no lugar onde o Drina irrompe, numa súbita curva, da profunda e estreita ravina formada pelos rochedos de Butkovo e as montanhas de Uzavnica. A curva que o Drina aqui faz é excepcionalmente cerrada e as montanhas de ambos os lados são tão ingremes e tão próximas que parecem um sólido bloco de pedra de onde o rio jorra, como de uma muralha parda.» A Ponte sobre o Drina (1945) - trad. Lúcia e  Dejan Stanković § Leonid Andreiev: «Pomerantzev não tinha direito à reforma, mas esta foi-lhe concedida em atenção aos seus vinte e cinco anos de exercício irrepreensível no cargo que desempenhava e às necessidades contraídas com a sua doença. Assim ficou a dispor de meios com que pagar a sua clínica até se finar, já que o mal era, no parecer dos médicos, um caso sem esperança de cura.» Os Espectros (1904) - versão de Manuel do Nascimento § Mikhail Bakunin. «Se ela tivesse guardado um pouco dessa vitalidade, um pouco desse fogo sagrado que lhe permitiu conquistar o mundo no passado, ela teria encontrado em si própria a coragem para reconhecer que se encontra hoje numa situação impossível, e que a menos que faça um esforço heróico da sua parte, ela estará para todos os efeitos perdida, desonrada, arruinada e ameaçada de perecer na confrontação.» O Socialismo Libertário, «O movimento internacional dos trabalhadores» (1869) - trad. Nuno Messias § Woody Allen: «Fiquei em casa de Man e Sting Ray, e Salvador Dalí vinha muitas vezes jantar connosco e Dalí decidiu fazer uma exposição individual, o que levou a cabo e foi um enorme sucesso, porque só apareceu uma pessoa e aquele foi um inverno francês, alegre e esplêndido.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos anos vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos

música para salvar o ano #11: «Beautiful Strangers» (Mavis Staples)

3 versos de José Emílio-Nelson

«Pela noitinha deixam-na à esquina para não vaguear. / Se a abordam, baixinho, fala logo do preço / E do que vale.» 

Humoresca (2002)

segunda-feira, dezembro 29, 2025

2 versos de Alberto de Lacerda

«O mergulho abrupto de certas horas / No relógio lento do coração» 

Elegias de Londres (1987)

música para salvar o ano #10 - «Kingdom of Ours» (The Charlatans)

sexta-feira, dezembro 26, 2025

o que está a acontecer

«Stalines a carvão antipatizavam connosco nas esquinas. E o rio desmaiava em Caxias, sufocado pelas asas dos pássaros, com penedos de petroleiros imóveis sob a ponte. / Na segunda quarta-feira de Setembro de mil novecentos e setenta e cinco, o despertador pescou-me às oito horas do meu sono, do mesmo modo que as gruas do cais trazem à superfície os automóveis peludos de limos que não sabem nadar.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

«O povo, porém, depois de fazer reverência a Jesus, voltava-se contra a face esquálida do justiçado e clamava, fremente de rancor: "Estás nas profundas do Inferno, patife!" / E os gaiatos aporfiavam em acertar-lhe com pelouros de lama, lucrando aplausos e gargalhadas do auditório os mais certeiros.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

«Era uma ideia vaga; mais desejo que tenção, que eu tinha há muito de ir conhecer as ricas várzeas desse Ribatejo, e saudar em seu alto cume a mais histórica e monumental das nossas vilas. Abalam-me as instâncias de um amigo, decidem-me as tonteiras de um jornal, que por mexeriquice quis encabeçar em desígnio político determinado a minha visita. / Pois, por isso mesmo, vou: -- pronunciei-meAlmeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

serviço público: Pedro Tadeu

 O Natal não pode ser inclusivo? Um bom texto de Pedro Tadeu, pregação inútil, porém, aos idiotas da aldeia; caso contrário aprenderiam com o remate da crónica: "Inclusão é acrescentar, não é subtrair.»

música para salvar o ano #7 «Where Are You?» (The Chameleons)

quarta-feira, dezembro 24, 2025

Feliz Natal!


 

o que está a acontecer

«Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém: e protesto de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

«Defronte daquele altar, na outra esquina da Fancaria, arvoravam o espeque rematado pela cabeça de Domingos Leite,  que parecia olhar para Jesus Cristo com as pálpebras roxas e entreabertas; e a primorosa escultura do Redentor, olhando para o povo, parecia chorar.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

«Apesar dos jipes da polícia patrulhando as ruas, ciganos carregados de tachos e cadeiras assaltavam os apartamentos vagos do centro. Nasciam infantários nos prédios em ruína, com crianças sentadas no soalho a engordarem de sanduíches de caliça.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)  

música para salvar o ano #6 - «Puppet and the Puppet Master» (Jethro Tull)

sábado, dezembro 20, 2025

o que está a acontecer

«Se Castela percebeu estes escabrosos dizeres do colaborador da Monarquia Lusitana tanto como nós, decerto não reconheceu o que o frade lhe inculcava, e sobejamente demonstrou no seu proceder subsequente pouquíssima reverência aos avisos do céu.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

«Eu muitas vezes, nestas sufocadas noites de Estio, viajo até à minha janela para ver uma nesguita de Tejo que está no fim da rua, e me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam sua laboriosa infância nos entulhos do Cais do Sodré. E nunca escrevi estas minhas viagens, nem as suas impressões pois tinha muito que ver!» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846) 

«Desde Abril do ano anterior que a tropa e os comunistas se aproximavam das fachadas dos prédios, erguiam o membro como animais para urinar, e abandonavam nas paredes um mijo de vivas e morras que se contradiziam e anulavam, logo coberto por cartazes de comícios e greves, fotografias de generais, propaganda de conjuntos rock, cruzes suásticas, ordens de boicote ao governo e convites de retrete, dedos de letras entrelaçadas num namoro que o Outono do tempo desbotava.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

música para salvar o ano #2 - «Down To Joy» (Van Morrison)

sexta-feira, dezembro 19, 2025

ucraniana CDVIII - ...ou, como diz o povo, "quem tem activos russos tem medo"

O triste espectáculo da União Europeia. Não fora Orbán, Fico, Babis,  o p-m belga Bart De Wever (que soube defender o seu país, não se comportando como mais um pateta) -- e, ao que parece, Meloni -- e a UE anteciparia a catástrofe de uma iminente guerra aberta com a Rússia. 

Ouvir Costa e Montenegro a falazar sobre o assunto, das profundezas da sua irrelevância, que procuram disfarçar com grandes abraços, vigorosas palmadas nas costas e sorrisos alvares, nauseia até ao vómito.

Entre Von der Leyen, Macron, Starmer e o sinistro Merz -- cães-de-fila abandonados pelo dono, mas cuja natureza não é a outra se não a de filhar -- e os traumas dos (em parte justificadamente) aterrorizados países bálticos, incluindo a Polónia, a Europa deve agradecer àqueles quatro ou cinco o não estar ainda (por quanto tempo?) no limiar da guerra, que, como o Putin avisou, não seria nunca algo parecido com o que se tem passado na Ucrânia (há quanto tempo os russos poderiam ter arrasado os centros do poder em Kiev...), mas um knock out a Paris, Londres e Berlim, pelo menos.

Vamos ver se estas criaturas percebem que os Estados Unidos só querem que não os estorvem, e que da Europa só verdadeiramente lhes interessa a parte Atlântica (que é onde nos situamos); que estão mais interessados em colaborar com a Rússia e que não lhes interessa a UE para nada, antes pelo contrário -- o que deveria obrigar a mesma UE a ser mais inteligente no modo como se relaciona com os outros blocos e potências em vez de sujeitar-se a ser o peão de brega de terceiros, como sucedeu e agora está a pagar por isso. 


2 versos de Afonso Lopes Vieira

«Sem a sua força, sem a sua dor, / não estava rindo a terra toda em flor!...» 

 Animais Nossos Amigos (1911) - «Os bois»

música para salvar o ano #1 -«Nothing Tastes as Good as it Feels» (Lambrini Girls)

quinta-feira, dezembro 18, 2025

5 versos de Sebastião Alba

«Palavras de ponta e mola / que anavalham / as roçagante capas / de velhos mestres / de grácil esgrima» 

A Noite Dividida (1982) - «Palavras de ponta e mola»

quarta-feira, dezembro 17, 2025

2 versos de José Carlos Ary dos Santos

«Fecham-se os dedos donde corre a esperança, / Toldam-se os olhos donde corre a vida.» 

A Liturgia do Sangue (1963) - «Soneto»

terça-feira, dezembro 16, 2025

3 versos de Rui Knopfli

«Detém-se da alegria o brando rumor; / apaziguados os gestos, serena a erva. / Entre lodo e sol, devagar, cristaliza a luz.» 

O Escriba Acocorado (1978) - «Ao lume da água»

segunda-feira, dezembro 15, 2025

«(Sittin' On) The Dock of the Bay» (Steve Cropper, Tom Jones & Booker T. Jones)

2 versos de Alexandre Nave

«A imagem na almofada dos cadáveres / arredonda as bolsas da terra» 

Columbários & Sangradouros (2013)

coisas boas e coisas más: Bialiatski e Mohammadi

A libertação de um preso de consciência é sempre algo de jubiloso, tal como o encarceramento de um verdadeiro activista pela liberdade provoca invariavelmente um nó na garganta.

O filólogo bielorrusso Ales Bialiatski foi finalmente libertado, após 4 anos 4 de prisão, parece que por intercessão de Trump; a grande Narges Mohammadi -- que estava em liberdade condicional, e eu não sabia -- foi detida mais uma vez, agora por, dizem, gritar palavras de ordem no funeral de um advogado de direitos humanos.

O que se ganha de um lado, perde-se do outro; mas nem na Bielorrússia se ganhou verdadeiramente -- Ales vai para o exílio; nem este há-de ser o fim da luta para Narges, extraordinária luta, bravíssima mulher!  

domingo, dezembro 14, 2025

zonas de confronto

Woody Allen: «Disse-lhe umas piadas acerca da sua nova barba e rimo-nos e bebemos uns goles de conhaque, e depois calçámos umas luvas de boxe e ele partiu-me o nariz. / Naquele ano voltei a Paris pela segunda vez, para falar com um compositor europeu, magro e nervoso, de perfil aquilino e olhos admiravelmente rápidos, que um dia havia de ser Igor Stravinsky e, mais tarde, o seu melhor amigo.» «Memórias dos anos vinte», Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - trad. Jorge Leitão Ramos § Ivo Andrić: «Na maior parte do seu curso, o rio Drina corre através de gargantas apertadas, entre serras abruptas ou profundos desfiladeiros de arribas escarpadas. Apenas de quando em quando as margens do rio se dilatam em vales abertos, formando, de um ou do outro lado, chãs de terra fértil, ora planas, ora onduladas, próprias para cultivo e povoamento.» A Ponte sobre o Drina (1945) - trad. Lúcia e Dejan Stanković § Hans Christian Andersen: «Tinham vindo recomendados pelo nosso Ministro para Espanha e Portugal, dal Borgo, ao Almirante Wulff, em cuja casa ficaram hospedados, frequentando a escola do professor Nielsen. Depressa aprenderam o idioma dinamarquês, tomando amor à nossa terra.» Uma Viagem a Portugal em 1866 (1868) - trad. Silva Duarte § Mikhail Bakunin: «É uma classe condenada pela sua própria história e psicologicamente cilindrada. Marchava dantes na frente, era esse o seu poder; hoje recua, tem medo, condena-se a si própria à destruição.» O Socialismo Libertário - «O movimento internacional dos trabalhadores» (1869) - trad. Nuno Messias § Leonid Andreiev: «Confirmada a demência de Egor Timofeievich Pomerantzev, subchefe da Repartição de Administração local, os amigos promoveram uma subscrição em seu benefício, a qual rendeu o bastante para que ele fosse internado num manicómio particular.» Os Espectros (1904) - versão de Manuel do Nascimento § Michael Gold: «Cerra os dentes, garante que não falará e morde os lábios. / Com a boca sangrenta, jura que jamais soltará uma só palavra. / Com a boca sangrenta, jura que os cinco fortes polícias nunca o obrigarão a falar.» Michael Gold, «Cárcere», Para a Frente América...  - trad. Manuel do Nascimento

sábado, dezembro 13, 2025

«Impressioni di Settembre» (PFM - Premiata Forneria Marconi)

zonas de conforto

Vergílio Ferreira: «Vejo as ervas no jardim abandonado, uma cadeira desmantelada no terraço do pavilhão. Ao longe, o mar de um tempo muito antigo. Há só dez anos que ali vou, e todavia tudo recuou já muito. Assim, em momentos bruscos, estampa-se-me a visão flagrante do irremediável.» § Jorge Amado: «Publico esses rascunhos pensando que, talvez, quem sabe, poderão dar idéia do como e do porquê. Trata-se, em verdade, da liquidação a preço reduzido do saldo de miudezas de uma vida bem vivida.» Navegação de Cabotagem (1992) § José Duarte: «Não acham que é muita... / Música... / para tão poucos minutos?» Cinco Minutos de Jazz (2000) § Machado de Assis: «E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo; um acrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o boticário lhe dava no gamão, -- outro que eram amores. Mestre Romão sorria, mas consigo mesmo dizia que era o final. / "Está acabado", pensava ele.» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Manuel Tiago: «Ao Lambaça, que julgava ter de fazer passar a fronteira a algum importante dirigente, André parecia uma criança insignificante e inofensiva, diminuindo, quase ao ridículo, a incumbência. A André, o aspecto e a expressão de Lambaça avivavam desconfiança e prevenções acerca do seu carácter.» Cinco Dias, Cinco Noites (1975) § Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos (1867) .../... «A maior parte dos livros que me propõe em troca, a tenho nas Memórias da Academia. Outros, afora aqueles, já os possuo, e alguns não interessam ao género dos meus estudos.» .../... in António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947)

sexta-feira, dezembro 12, 2025

4 versos de Camões

«Também o Mouro astuto está confuso, / Olhando a cor, o trajo e a forte armada; / E, perguntando tudo, lhes dizia / Se porventura vinham de Turquia.» 

Os Lusíadas (1572) - I-62

o que está a acontecer

«Só a avó, já doente do cancro, navegava ao acaso na poltrona de inválida, de radiozinho de pilhas encostado às farripas da orelha, contemplando a sorrir, sem entender, os democratas que de quando em quando rebolavam aos encontrões no corredor e vasculhavam o resto das pratas com o cano dos revólveres, repetindo os discursos estranhos dos altifalantes dos cegos.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

«Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo -- entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse ao menos ia até o quintal.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

«Dá o cronista-mor do Reino razão plausível do altar provisório nestes tortuosos termos: Foi para que, com a duplicada presença de Cristo sacramentado e crucificado, reconheça Castela que para uma de suas traições se nos duplica Cristo para defensa.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

quinta-feira, dezembro 11, 2025

«Ashes to Ashes» (David Bowie)

3 versos de José Régio

«Que eu vivo à espera dessa noite estranha, / Noite de amor em que me goze e tenha, / ...Lá no fundo do poço em que me espelho!»

Poemas de Deus e do Diabo (1925[26]) - «Narciso»

quarta-feira, dezembro 10, 2025

a vantagem de Gouveia e Melo relativamente aos seus dois concorrentes directos, Marques Mendes e Seguro

Eu vou partir do princípio de que os candidatos são honestos, e também patriotas. Num momento em que a ameaça da guerra espreita, essa honestidade e esse patriotismo importam -- mas também, tanto quanto estas qualidades, a noção da História de Portugal e de como, mercê de muitas contingências, iremos, daqui a uns meros três anos, assinalar os 900 anos de independência, no aniversário da Batalha de São Mamede, na qual D. Afonso Henriques fundou uma dinastia, um país e uma futura nação, a partir de povos de diferentes etnias: celtas, romanos, germânicos, berberes, árabes e por aí fora. Estivemos para soçobrar mais de uma vez, mas persistimos -- pela língua e pela cultura, em primeiro lugar; pela religião, também; e pela Coroa nos primeiros séculos, e o Estado a seguir. 

Portugal não resiste sem a língua e sem a cultura, mas precisa, sempre precisou, de uma visão estratégica -- e agora cada vez mais, não apenas por razões militares mas pelo progressivo domínio de um sistema financeiro transnacional que tudo subjuga -- da Economia (das sociedades, portanto) ao indivíduo.

A visão estratégica de Gouveia e Melo é incomparavelmente mais sofisticada e informada que a de Mendes e Seguro -- pelo menos é o que se retira das banalidades que têm dito. A crítica ontem, expendida pelo almirante, à lista de compras do Governo em matéria de defesa não poderia ter sido mais certeira. Onde está o Conceito Estratégico de Defesa Nacional, como já aqui perguntei, a propósito doutras eleições? Está arrumado a um canto; por isso, comprar armamento agora é, como disse o candidato, começar a "construir a casa pelo telhado". 

É isto que o distingue dos outros; o que fará com essa distinção se for eleito, não sei.


1 verso de Pedro Tamen

«Erguer-te perto e longe pela noite» 

Os Quarenta e Dois Sonetos (1973)

terça-feira, dezembro 09, 2025

4 versos de Manuel Bandeira

«Cartas de antes do noivado... / Cartas de amor que começa, / Inquieto, maravilhado, / E sem saber o que peça.» 

A Cinza das Horas (1917) - «Cartas de meu avô»

ser-se selectivo quanto aos Direitos Humanos

No debate com António Filipe, Jorge Pinto, reproduziu (com candura ou sem pudor) o palavreado propagandístico desavergonhado da von der Leyen -- a começar pela inenarrável conversa do "rapto" de crianças supostamente ucranianas pelos russos. (Creio que não se degradou a empregar a infame palavra "deportação", de ressonância nazi, que a UE e a anterior administração americana usaram numa das muitas campanhas de lavagem ao cérebro da opinião pública europeia).

Disse também Jorge Pinto que é pela autodeterminação dos povos. Também eu sou -- mas tanto falo do povo tibetano como dos russos do Donbass, perseguidos na sua integridade, como toda a gente sabe, e que só os ingénuos, os desmemoriados ou os pulhas se esquecem de falar.

segunda-feira, dezembro 08, 2025

3 versos de José Emílio-Nelson

«A cada carro que abranda mandam estacionar. / Agarrados aos ossos sujos, zurzidos, / Baloiçam no alcatrão.»

Humoresca (2002)

o que está a acontecer

«I- De como o autor deste erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas suas viagens. -- Parte para Santarém. -- Chega ao Terreiro do Paço, embarca no vapor de Vila Nova; e o que aí lhe sucede. -- A Dedução Cronológica e a Baixa de Lisboa. - Lord Byron e um bom charuto. - Travam-se de razões os ílhavos e os bordas-d'água -- os da calça larga levam a melhor.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

«Olho-o um instante, olho a casa, circunvago o olhar. Preparar o futuro -- o futuro... E uma súbita ternura não sei porquê. Silêncio. Até ao oculto da tua comoção. Preparar o futuro, preparação para a morte.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«No intuito de expiar o sítio, segundo a pia frase de Fr. Francisco Brandão, ergueu a piedade um altar encostado à seteira por onde o regicida abocara a escopeta, e aí foi arvorada aquela milagrosa imagem do Crucificado, que despregou a mão revolucionária no dia em que o duque bragantino foi aclamado rei.» Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

do burlesco: a Dona Coisinha e o Diácono Remédios

sexta-feira, dezembro 05, 2025

3 versos de Dora Gago

«uma ponte esquecida / feita de tábuas, / de saudade apodrecida» 

Flores de Cinza (2025) - «Outra margem»

quinta-feira, dezembro 04, 2025

ucraniana CDVII - e o que queria a União Europeia?

Quando a Cia orquestrou o golpe de estado na Ucrânia, em 2014, a UE, aprovou. Quando uma prócere americana proferiu Fuck the EU!, a UE gostou. Quando Trump impôs e humilhou, a UE anuiu e continuou a pagar. Agora, quando os dois beligerantes, Rússia e Estados Unidos, se preparam para decidir a situação no terreno, marimbando-se para a Europa, depois da obediência canina, do que estava a UE à espera senão ser desprezada?

2 versos de José Alberto Oliveira

«Um cansaço agradável / enchia as tardes de tagarelice e jogos de cartas.» 

Peças Desirmanadas e Outra Mobília (2000) - «Camionetas Bedford»

Mostly Autumn, «Evergreen»

quarta-feira, dezembro 03, 2025

2 secos de António Filipe em Gouveia e Melo

A propósito da guerra entre a Rússia e os Estados Unidos que decorre na Ucrânia, e que os segundos querem, desde Trump, acabar, não perdendo tudo, Gouveia e Melo tinha vindo a fazer declarações nuançadas relativamente ao papel de Portugal nesta grave crise.

Era (é, será?) uma posição interessante e prudente, que contrasta com a vacuidade seguidista e a irresponsável da generalidade das lideranças políticas portuguesas.

Ontem, porém, numa estratégia de efeitos eleitorais duvidosos, quis entalar António Filipe com conversa fiada. Recebeu o troco, e ficou colado àquele grupo que demonstra não ter nem pensamento estratégico ou, talvez pior, que se está nas tintas, desde que venha o voto. Ora o almirante conhece muito bem os factos, razão de sobra para não se pôr ao mesmo nível daquele artista que dizia aos portugueses que "é(ra) preciso derrotar a Rússia"...

A outra foi sobre o estúpido pacote laboral, uma indignidade suficiente para qualquer ministro pintar a cara de preto. Podia ter aprendido com o Seguro e chutar para canto, se não quisesse mostrar-se tão equidistante, redondo ou, como disse Filipe,  "neutral": este pacote não constava do programa eleitoral dos partidos que governam, portanto é insusceptível de passar pelo crivo do PR.

6 versos de Fernando Jorge Fabião

«Todo o Verão tem o seu assombro / paisagens altas / onde principio a escrever / (num silêncio de sinos) / vocábulos escassos, dissonâncias / numa saudade de rosas e luz estilhaçada.» 

Na Orla da Tinta (2001)

terça-feira, dezembro 02, 2025

o que está a acontecer

«I. Ainda os membros dispersos do cadáver de Domingos Leite Pereira apodreciam nos postes, quando saiu uma procissão de triunfo a desempestar especialmente as Ruas dos Torneiros e da Fancaria.»  Camilo Castelo Branco, A Filha do Regicida (1875)

«Um silêncio súbito, silêncio da terra. Só vozes ermas dos campos, ouço-as no calor parado da tarde. Reparo agora melhor no pequeno jardim. Uma selva bravia. As plantas selvagens irromperam de todo o lado, aos cantos dos muros à volta, junto à casa. Há algumas armações de madeira ainda, já apodrecidas, suspensas de arames, sem flores.» Vergílio Ferreira, Para Sempre (1983)

«Fez-se um silêncio de expectativa risonha. E o professor, debruçando sobre a secretária os bigodes pendentes e amarelados, perguntou-lhe: -- Quais regras da ciência? -- E ele, entreabrindo os lábios finos que nunca se sabia quando sorriam ou se apertavam de contrariedade, respondeu: -- A observação e a experimentação. -- Ah, muito bem, e como foi que o senhor observou e experimentou a alma dos animais? -- Como, senhor doutor? Pessoalmente --. E foi uma gargalhada geral.» Jorge de Sena, Sinais de Fogo (póst., 1979)

7 versos de José Carlos Ary dos Santos

«Que o sangue que era o seu seja o rictus da tara, / A máscara de sal, / A vingança do pobre. / E que o Exterminador, no seu trono de enxofre, / O faça tilintar os guizos da tortura / Até que o mundo o esqueça / E mais ninguém o chore.» 

A Liturgia do Sangue (1963) - «In memoriam» 

segunda-feira, dezembro 01, 2025

Frank Pé (1956-2025)



 

David Benoit, «Blue Charlie Brown»

2 versos de Fernando Assis Pacheco

«Como são belas de facto as árvores na Place des Vosges! mas nesse dia / eu andava pelo Marais com a mais uma vez morte presa aos cabelos» 

Siquer Este Refúgio (1976) - «Quarto Bairro, Paris»