quarta-feira, junho 26, 2019

em bicos de pés

O tipo que passa por alguém e se cruzou com o Kissinger no check in, e vem dizer para a bloga ou para os jornais. «Certa vez, em viagem com Kissinger (...)»; ou quando alguma figura morre, um fartar de intimidades, que provavelmente nunca existiram mas que podem alardear-se à vontade sem haver grandes riscos de desmentidos ou rectificações; ou o indivíduo de antes dos voos charter para os destinos paradisíacos,  que nunca passara de Badajoz mas se referia à passeata como uma ida ao estrangeiro.
Risível, mas verdadeiro, até com gente não desprovida de valor, como o Torga, para quem, no Diário, quase não há confrade que lhe mereça duas linhas, a não ser se for defunto e ícone (trocou duas cartas com o Fernando Pessoa, que o detestou) ou ícone e estrangeiro: quando fala dos seus encontros com a Yourcenar ou o Borges -- que até aí lhe desconheciam a existência, não fora o protocolo de estado querer mostrar que também tínhamos.
Enfim, lembrei-me disto ao passar por um caramelo bem embrulhado. 

3 comentários:

PNLima disse...

A impaciência proporciona bela escrita :-)
Boa tarde

sincera-mente disse...

Já diziam os gregos (queria escrever com os caracteres originais mas parece que não estão disponíveis):

"Vaidade das vaidades, tudo é vaidade"...

Mas, como diria o nosso atormentadíssimo VF, no momento fatal tudo se desfaz em cinza...

Ricardo António Alves disse...

Obrigado, Paula.

É bem verdade, Fernando, mas a malta esquece-se...