terça-feira, setembro 30, 2025

o plano de Trump para Gaza: o melhor e o menos bom

Lidos os 21 pontos, confesso que estou surpreendido, e muito, e pela positiva. 

Centrando-me nas questões essencialmente políticas: 

a criação futura de um estado palestino resulta inevitável do cumprimento do acordo, mesmo que o criminoso Bibi já esteja a virar o bico ao prego para salvar o coiro da enxovia (os partidos religiosos já lhe tiraram o tapete) -- esta é a principal conclusão a tirar do documento;

os membros do Hamas que o aceitarem serão amnistiados, ou ser-lhes-á facultada a saída do território com garantias de segurança;

as organizações a operar no terreno serão a ONU, a Cruz Vermelha e outras congéneres;

um governo temporário de tecnocratas, constituído por palestinos; 

a criação de um órgão internacional de transição, denominado Conselho da Paz, infelizmente presidida por Tony Blair, outro criminoso de guerra;

a desmilitarização de Gaza e a retirada do exército israelita;

as condições, com as reformas na Autoridade Palestina, para a criação de um caminho para a autodeterminação e criação do estado da Palestina;

o apoio dos países árabes (Egipto, Jordânia, Arábia Saudita e monarquias do Golfo), dos principais países islâmicos (Turquia, Paquistão e Indonésia, com a compreensível excepção do Irão no contexto actual, mas que não ficou esquecido no texto) e o já anunciado apoio da Rússia.

A maior fragilidade é a de não haver um cronograma estabelecido para a criação do estado e a ausência de referência aos colonatos ilegais na Cisjordânia; 

Repito: a maior potência militar do mundo compromete-se com a autodeterminação do povo palestino e força o pm israelita a reconhecer o seu direito a um estado.

Qual é a alternativa?

2 versos de Ana Hatherly

«O corpo fala / na muda voz da ideia cruamente pura» 

Volúpsia (1994)

Gouveia e Melo sobre o que se passa na Europa

A bem dizer, não me espantaram as afirmações por quem é almirante da Marinha, antigo CEFA e candidato à Presidência da República.

A primeira^, é o distanciamento desta retórica belicista, ligeira e estúpida com que se fala no abate de aviões de guerra russos no caso de violação do espaço aéreo, como se não houvesse protocolos e nos céus da Europa se preparassem duelos ao sol, como se de uma grande coboiada se tratasse. Ele é um militar experiente e de topo, e sabe do que está a falar. Prudência na firmeza e sobretudo diplomacia. Já o seu acordo com a possível entrega dos Tomahawk à Ucrânia (operados por quem?), não me parece avisado...

Sábio é o que não disse: parar a guerra, salvando o que pode ser salvo: mas, no fundo, considerando ele que a vitória da Rússia é um problema para a Europa -- deveria ter desenvolvido por que razão a Europa se meteu neste atoleiro --, deve ainda acreditar que há espaço para uma qualquer vitória do Ocidente, Não há nenhuma; e o saltar fora dos Estados Unidos é disso um sinal evidente.

Importante foi o que afirmou sobre a questão atlântica: os nossos interesses vitais estão no Atlântico, Norte e Sul, e não podem ser descurados. Como têm negligentemente sido, acrescento.

segunda-feira, setembro 29, 2025

a flotilha

Só para que fique registado que tenho respeito pela coragem dos que integram a flotilha rumo a Gaza, entre os quais está Mariana Mortágua, que enfrentarão a força de um estado terrorista e genocida -- não me interessa nada que haja intuitos políticos outros. Perante a catástrofe, tal é irrelevante.

Não tenho nenhum respeito pelos defensores das acções do estado israelita, em especial os que querem atirar areia para os olhos, falando no Hamas, e nas imagens filtradas pelo Hamas, e pelos números avançados pelo Hamas e pelo massacre de 7 de Outubro. Zero respeito.

2 versos de António Jacinto

«Fraternidade nas lágrimas / que dos teus olhos mereço» 

«Lutchinha», Sobreviver em Tarrafal de Santiago (1985)

domingo, setembro 28, 2025

Bruce Springsteen, «Point Blank»

o que está a acontecer

«I- Quem o diria, Berenice?... Sim, porque quando tu nasceste eu já não era um adolescente: -- já tinha realizado aspirações, sofrido desilusões... / Mário d'Albuquerque calou-se por momentos: -- como se o sufocassem as recordações da sua mocidade já longínqua: -- dessa mocidade que já se perdia num céu de olvido e tristeza.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)

«Permiti-me observar-lhe que estranhava, porque a arte dos que escrevem em "Orpheu" sói ser para poucos. Ele disse-me que talvez fosse dos poucos. De resto, acrescentou, essa arte não lhe trouxera propriamente novidade: e timidamente observou que, não tendo para onde ir nem que fazer, nem amigos que visitasse, nem interesse em ler livros, soía gastar as suas noites, no seu quarto alugado, escrevendo também.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982) 

« -- Demoro-me pouco... palavra! Cursos de milicianos... Moeda fraca! Para a infantaria, três meses. Se não fecharem os concursos para secretários-gerais, então aproveito. Bem sei que há só três vagas mais de cem bacharéis à boa vida... Mas não tenho medo das provas. Bastam algumas semanas para me preparar a fundo... rever a legislação.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944) 

«Before and After» (Rush)

sábado, setembro 27, 2025

5 versos de A. M. Pires Cabral

«Um rio refém / das memória de outra geração: / quando era um ímpeto de ira / como um punhal tirado da bainha / ou pedra arremessada contra o vidro.»

«Rio refém», Douro: Pizzicato e Chula, 2004

sexta-feira, setembro 26, 2025

Bobby Timmons, «Moanin'»

2 versos de Carlos Daniel

«O princípio / Foi uma mancha maravilhosa e branca» 

«O tempo», Os Meus Dias (2018)

quinta-feira, setembro 25, 2025

2 versos de Ruy Belo

«esses americanos gente do dinheiro e do veneno / de um veneno talvez chamado dinheiro» 

«Requiem por Salvador Allende», Toda a Terra (1976)

quarta-feira, setembro 24, 2025

Cannonball Adderley, «Stockholm Sweetnin'»

2 versos de Manuel Bandeira

«Essa dor de sorrir bebendo o ar fino, / A esmorecer e desejando tanto...» 

«A António Nobre», A Cinza das Horas (1917)

terça-feira, setembro 23, 2025

Claudia Cardinale


Pode parecer estranho, mas com a sua morte é um pouco da minha pré-adolescência que desaparece.
 

«West End Blues» (John Faddis)

ucraniana CDIII - angelismo

Não falo em má-fé -- não conheço a pessoa --, mas achar que o alargamento da Nato ocorreu na base dos bonitos princípios ali enunciados, é não ter noção das pulsões imperiais -- que, em abstracto, tanto assistem americanos, russos, chineses e outros.

A partir deste (pseudo)angelismo, constrói-se uma grelha de análise maniqueísta, entre bons  e maus, que os impreparados, os ignorantes e os oportunistas absorvem, servindo-lhes talvez de justificativo para a irracionalidade dos actos dos decisores políticos no sentido de uma escalada insana -- a "fuga para a frente", como bem caracterizou Carlos Branco --, demasiado perigosa se o objectivo for a lavagem ao cérebro das opiniões públicas para que aceitem os gastos previstos com a defesa.

Mas o que ali se lê são as balelas de sempre dos neocons; e o que se defende, sem coragem para o afirmar, é mesmo o confronto directo com a Rússia. Nada disto é novo, andamos há três anos e tal a ouvir as mesmas coisas. No fundo, uma guerra limitada a solo europeu -- santa ingenuidade, ou a desfaçatez dos warmongers -- estrangeirismo que apanhei a Carlos Matos Gomes, cuja cultura e agudeza de análise tanta falta fazem. 

O que também impressiona naquela análise de um português é a ausência de Portugal na equação, dos seus interesses permanentes, que, obviamente como tenho aqui escrito sempre, não podem ser antagonistas do nosso grande vizinho atlântico que são os Estados Unidos e muito menos alienar, prejudicar, secundarizar um dos nossos maiores activos estratégicos, a comunidade dos países de língua portuguesa, que é o que nos dá peso relativo, como se viu na recente viagem de Luís Montenegro à China. Ao contrário, Portugal figura ali como uma espécie de Kosovo -- ou seja, não existe.

2 versos de Sebastião Alba

«E oiça-se a restolhada das palavras / quando caminhamos para o poema» 

«Parêntesis», A Noite Dividida (1982)

o que está a acontecer

«Um dia qualquer, que nos aproximara talvez a circunstância absurda de coincidir virmos ambos jantar às nove e meia, entrámos em uma conversa casual. A certa altura ele perguntou-me se eu escrevia. Respondi que sim. Falei-lhe da revista "Orpheu", que havia pouco aparecera. Ele elogiou-a, elogiou-a bastante, e eu então pasmei deveras.» Fernando Pessoa, Livro do Desassossego por Bernardo Soares (póst., 1982)

«Pegávamos nos cocharros, abaixávamo-nos e, fincadas no desembaraço de gente do Monte, atestávamos as quartas com toda a ligeireza, que a arranchada, impacientada pelas sequidões do amanho do alqueive, não nos consentia molezas -- a tal indolência que os cá de cima, com a língua afiada de desdém, afiançam ser jeiteira da gente lá de baixo.» Silvério Manata, A Bicicleta do Ourives Ambulante (2016) 

«I- A Serpente Cega / -- Mas não voltas tão cedo... / João Garcia garantiu que sim, que voltava. / Os olhos de Margarida tinham um lume evasivo, de esperança que serve a sua hora. Eram fundos e azuis, debaixo de arcadas fortes. Baixou-os um instante e tornou: / -- Quem sabe...?» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

segunda-feira, setembro 22, 2025

serviço público - Carlos Branco

 «Em permanente fuga para a frente»:

"Aliados com os setores norte-americanos mais belicistas, contra o interesse dos povos que representam, os dirigentes europeus caminham como sonâmbulos para o abismo presos à sua autoilusão, incapazes de perceberem o beco sem saída em que se meteram e para onde nos estão a levar com a obsessão ucraniana. A profundidade do seu envolvimento nesta guerra impede-os de dar uma volta de 180 graus e recuar. Para salvarem a face, preferem fazer uma fuga para a frente, mesmo que isso envolva uma guerra em larga escala. A possibilidade de uma confrontação na Europa aumenta diariamente, deixando agora de ser apenas retórica. Entretanto, políticos e comentadores néscios continuam a achar que a Europa vai conseguir vencer militarmente a maior potência nuclear do mundo no seu território. Livrem-nos desta gente, que dos russos livramo-nos nós."

Néscio: ignorante, inepto, estúpido, diz o Priberam. Acrescentem: vigaristas! E depois arranjem todos os sinónimos que puderem, e ainda ficarão longe de fazer justiça a estes palhaços-pulhas.