quinta-feira, outubro 09, 2025

1 verso de Antero de Quental

 «O Amor que nome tem? real, jamais o teve...» 

Primaveras Românticas (1872)

cessar-fogo em Gaza, quem diria?...

Sem embandeirar em arco, a emoção é grande com o aproximar do termo desta carnificina.

A pressão sobre as partes foi certamente gigantesca, dos Estados Unidos, que são quem realmente manda em Israel, sobre Netanyahu; do mundo árabe e islâmico, não apenas os mediadores Qatar, Egipto e agora a Turquia (aliada do Hamas), sem falar da posição do Irão de apoio à proposta de acordo, nesta terça-feira. Ou seja: o início do diálogo estava assente -- o que não é pequena coisa.

A Cisjordânia e os colonatos ilegais é o caso mais bicudo -- penso nos judeus extremistas e nas ocorrências do passado; depende também muito da parte sã (laica) de Israel e do continuar da forte pressão sobre o Likud (os partidos religiosos são irrecicláveis e têm de ser controlados, pelo menos).

A situação de Marwan Barghouti, preso há 23 anos e que os radicais israelitas não querem libertar -- e todos sabemos porquê -- também ditará boa parte do caminho que agora poderá começar.

Sim, de facto não havia alternativa. Quem diria?... 

quarta-feira, outubro 08, 2025

Genesis, «Looking For Someone»

2 versos de Fernando Assis Pacheco

«não: era de noite àquela hora a alegria / das casas funde-se com um estalido cruel» 

Siquer Este Refúgio (1976)

terça-feira, outubro 07, 2025

3 versos de José Alberto Oliveira

«como pode alguém tão arrimado ao vulgar / ter o desplante de sugerir emoções / que lhe são desconhecidas?»  

Peças Desirmanadas e Outra Mobília (2000)

segunda-feira, outubro 06, 2025

Cannonball Adderley, «African Waltz»

3 versos de Alberto de Lacerda

«Águas múrmuras: a fina / Repetição infinita / Do mesmo som sempre o mesmo» 

Elegias de Londres (1987)

zonas de confronto

Svetlana Alexievich: «Para nós tudo vinha daquele mundo horrendo e misterioso. Na nossa família, o avô ucraniano, pai da minha mãe, foi morto na frente de combate e sepultado algures em terra húngara, e a avó bielorrussa, mãe do meu pai, morreu de tifo enquanto estava com os partisans, os seus dois filhos estiveram no Exército e desapareceram nos primeiros meses de guerra, dos três só regressou um. O meu pai.» A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985) - trad.Galina Mitrahovich § Woody Allen: «Lembro-me de uma tarde em que estávamos sentados num alegre bar do Sul de França com os pés confortavelmente pousados em tamboretes do Norte de França, quando Gertrude Stein disse: "Estou agoniada." Picasso achou essas palavras divertidas, e Matisse e eu tomámo-las como a deixa para partirmos para África.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura -- «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Mikhail Bakunin: «É preciso ser-se dotado de uma grande dose de estupidez, é preciso ser-se cego e surdo para não reconhecer importância a este movimento. E quem quer que tenha conservado uma réstia de vida e de bom-senso, que não tenha sido corrompido por interesses ou doutrinas, reconhecerá, como nós, que só um movimento se não traduz  por uma agitação ridícula e estéril, e que traz no seu seio o futuro, o movimento internacional dos trabalhadores.» O Socialismo Libertário, «O movimento internacional dos trabalhadores» - trad. Nuno Messias § Félix Cucurull: «Aqui te estou a escrever estas palavras de despedida neste cartão que perdi quando tinha vinte anos e do qual as chuvas apagaram o nome e a morada. Encontra-la-ás no bico de qualquer pardal. Ao leres as minhas palavras pensarás: "Sempre disse que este moço iria muito longe a escrever histórias divertidas." Entretanto, a rapariga que eu beijei quando ainda tinha gengivas e dentes deve ser já avó.» «Carta de despedida», Antologia do Conto Moderno - trad. Manuel de Seabra § Michael Gold: «Ao longe, na cidade, a noite é calma e silenciosa. Nas ruas dormentes homens e mulheres deslizam em idílios. Os agentes balouçam os bastões e bocejam sonolentos. / No sossego de suas casas, depois de um dia enervante nos tribunais, os juízes lêem versos às esposas. / No escuro dos cinemas, há pares de namorados que, em contacto furtivo, vibram de desejo.» Para a Frente, América -- «Cárcere» - trad. Manuel do Nascimento

domingo, outubro 05, 2025

o que está a acontecer

«Entrava em pormenores, Margarida ouvia-o agora vagamente distraída, de cabeça voltada às nuvens, como quem tem uma coisa que incomoda no pescoço, um mau jeito. O cabelo, um pouco solto, ficava com toda a luz da lâmpada defronte, de maneira que a testa reflectia o vaivém da sombra ao vento.» Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal (1944)

«Berenice silenciara-se também, nesse recanto deserto da popa do transatlântico: -- angustiada pela dor da partida: -- da partida do seu amante para um mundo que ela ignorava: -- e que só entrevia através duma neblina colorida, onde os seres e as coisas se revestiam de esplendores estranhos.» Eduardo Frias e Ferreira de Castro, A Boca da Esfinge (1924)

«I.A Primeira Operação / 1. Um comando não tem fome nem sede... Finalmente veio a ordem desejada, murmurada no passa-palavra, da frente para a retaguarda da companhia de comandos: / -- Parar para almoçar, meia hora, a última equipa monta segurança.» Carlos Vale Ferraz, Nó Cego (1983)

sexta-feira, outubro 03, 2025

agora a sério, o Putin tem um piadão, caraças!... - ahahah

Sem falar no entrevistador -- ainda mais, se pensarmos nos tristes que nos caem no prato com as suas tristes figuras de analfabetos funcionais.... E então se compararmos o Putin com, por exemplo, António Costa & os seus Patetas... (esgar)

2 versos de Fernando Jorge Fabião

«um gesto camponês / lavrando a solidão incendiando a terra» 

Na Orla da Tinta (2001)

era para ter ido ver o último P. T. Anderson, mas saiu-me isto, e foi bom




quinta-feira, outubro 02, 2025

King Oliver, feat. Louis Armstrong, «Mabel's Dream» (1st Take)

ucraniana CDIV - mais 220 000 000 € deitados ao lixo

E lá vamos nós outra vez na manada, dar dinheiro ao Zelensky, balões de oxigénio, bovinos alinhados na estupidez geral de prolongar uma guerra perdida provocada pelos americanos, e que por isso mesmo saltaram fora, Não sem que antes se assegurassem que os parolos da UE e da Nato continuariam a financiar o complexo militar-industrial americano a risco zero.

"A defesa da Ucrânia é a defesa da Europa" e outras frases lindas: mas quão estúpido pode ser-se?

Claro que, a continuarmos com este conjunto de dirigentes europeus, mistura letal de estupidez, oportunismo, inconsciência e ignorância, arriscamo-nos, um dia destes, a um par de galhetas da Rússia, pelo menos, e não é que eles não tenham avisado.

Mais 220 milhões de euros, "pelo menos"... Não me bastava o espertalhaço do Costa, ainda tenho de ouvir as histórias da carochinha do Montenegro.

2 versos de Dora Gago

«Sigo as pegadas da memória / inscritas na areia do tempo» 

«Início», Flores de Cinza (2025)

quarta-feira, outubro 01, 2025

ainda o plano de paz de Trump para Gaza, ou quando a paciência me falece

Como disse Gouveia e Melo na entrevista que deu à cnn-Portugal (só para esclarecer: não tenho o meu voto decidido para as presidenciais, a não ser numa eventual segunda volta: qualquer um que venha a defrontar o taberneiro oportunista), é melhor um mau plano de paz do que não haver plano nenhum.

Não é justo? Não é. E a sua maior falha talvez seja a ausência de um tal cronograma; mas mão diria que o plano é mau. Está aliás sustentadíssimo pela comunidade internacional, e desse ponto de vista não me lembro de uma possibilidade tão forte. E obviamente que as pressões sobre o Hamas devem ser muitas, o mesmo se passará com o degenerado Netanyahu.

Se houvesse justiça e o Direito Internacional fosse letra viva para quem detém a força (se calhar achavam que as violações do dito só ocorreram agora na Ucrânia...), as fronteiras seriam pelo menos as de 1967, e o p-m israelita, entre outros, estaria sentado no banco dos réus como genocida. Mas, como sempre, o que comanda a política internacional são os interesses e a força para os fazer valer. É da natureza humana -- digo eu, que sou um pessimista -- e da natureza dos estados. E pobres daqueles que no meio da voragem parecem não saber o que andam aqui a fazer (v.g. Portugal e a Guerra da Ucrânia).

Voltando a Gaza: o que deve orientar qualquer cúpula política que possa representar e servir um povo, para além do Direito e do Ideal -- e sem deixar de lado a ousadia -- nunca deve abandonar 1) o realismo na análise; 2) o pragmatismo na acção.

Qualquer acto que não imponha o opróbrio da submissão tem de ter em conta a correlação de forças. A força de Israel, suportada pelos americanos, é brutal, impiedosa, cruel -- e a passividade e a impotência da comunidade internacional diante do massacre, da limpeza étnica, do genocídio é inultrapassável. Resta a negociação, o direito, a contenção de danos. 

Resta, acima de tudo, a vida das pessoas, entre os quais a dos inocentes que estão a ser chacinados todos os dias. Por isso é com desprezo que vejo o comentariado crítico que classifica como submissão & etc. a aceitação deste plano, qualificado e muito bem por Leão XIV como "realista". Volto a perguntar: qual é a alternativa? O extermínio que os maluquinhos dos fanáticos religiosos fariam diligentemente entre duas orações?...

É muito fácil a intransigência de princípios com o sangue e a vida dos que estão para lá longe e não nos são nada.

P.S. - Não estou optimista, a começar pelo facto de o dito Bibi estar na equação.

2 versos de Rui Knopfli

«Servidor incorruptível da verdade e da memória / escrevo sentado e obscuro palavras terríveis»

«Proposição», O Escriba Acocorado (1978)

David Benoit, «Frieda»