segunda-feira, maio 08, 2006

Homem ao mar

No vale onde me encontro
ouço os sinos das igrejas
a darem as horas certas.

O vento é o meu nevoeiro,
o badalar é o mugir do meu farol.

Homem das cidades marítimas,
sinto o cerco dos montes, dos penedos, da floresta.
Sei que há lobos,
javalis escondidos,
cavalos selvagens pastando solitários.

O pio nocturno da coruja
não me deixa esquecer onde estou.

Agosto de 2000
Seis Composições Outonais

domingo, maio 07, 2006

estampa XLII

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Paul Cézanne, Menina ao Piano (Abertura de Tannhäuser)
Museu do Ermitage, São Petersburgo

Antologia Improvável #129 - Ed. Bramão de Almeida

CARNAVAL

Batalhas de «confetti» e serpentinas,
Por vezes, uma flor, avaramente,
Bisnagas a esguichar constantemente,
No ar, o som de quatro mil buzinas.

Zé-Pereiras, palhaços, ovarinas,
Vénus de saia rota e olhar doente,
Cavalos com guizeiras, muita gente,
Garotos, paspalhões pelas esquinas.

À meia-noite, bailes, serenatas,
Visitas às tabernas volta e meia,
Exibições burlescas, bambochatas,

Pós de goma e tremoços à mancheia,
Vinhos, amor, ciúmes, zaragatas,
De madrugada tudo na cadeia.

Sonetos

sábado, maio 06, 2006

Manuel Teixeira-Gomes
















Fonte

Correspondências #44 - M. Teixeira-Gomes a Manuel Mendes

Para Manuel Mendes

Túnis (posta restante) 4-7-1929


Meu caro camarada: Muitas e muitas vezes obrigado pelo postal que acompanhava o número da «Civilização», onde tive o gosto de ler o seu excelente artigo sobre o Columbano, com a lisongeira passagem que me dedica. Mas sou eu que lhe estou em dívida de uma longa carta, que não sei quando terei o vagar de escrever. Agravou-se-me a preguiça com este ardente verão cartaginês, que atirou comigo para uma pequena praia solitária, de impoluta areia verdadeira, fina e doirada, na qual durmo, sonho e passeio, sem outra preocupação além de casar à frescura da aragem salobra o perfume dos cravos malferidos... -- Até breve -- camarada e admirador,
M. Teixeira Gomes
In Urbano Tavares Rodrigues, M. Teixeira-Gomes -- O Discurso do Desejo

Manuel Mendes

Boas maneiras

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Carole King















No blogue do lado fala-se de Emigrantes.

Fonte

sexta-feira, maio 05, 2006

Caracteres móveis #73 - Jorge Semprún

O passado é a infância; o tempo passado é o envelhecimento.

O Adeus de Frederico Sanchez
(tradução de M. Lourdes Castro Figueiredo)

Semprún
















Olivier Roller

quinta-feira, maio 04, 2006

Escrever na areia - A falar fininho

O índio Morales resolveu, como presidente democraticamente eleito da Bolívia, ter uma palavra a dizer sobre a exploração dos recursos naturais do seu país. Os governos dos estados a que pertencem as empresas visadas mostraram uma natural preocupação pelo ditame do Cocalero. Mas, como é óbvio, estão a dialogar, no que são acompanhados -- de acordo com as últimas notícias -- pela Petrobras e pela Repsol, que já fizeram saber da sua aceitação de princípio das reivindicações bolivianas.
Decisão politicamente legítima, embora controversa, foi acolhida entre nós com aquela histeria a que nos habituaram alguns plumitivos esportulados. Cheguei a ler que era uma medida que retirava «credibilidade» ao país, dificultando a atracção do investimento estrangeiro... Ora a Bolívia, que não é propriamente o Canadá, ou sequer a Argentina, nunca até agora foi particularmente conhecida pela credibilidade... Mas para os escreventes amestrados, que não sabem ver para além da sua carteira de títulos, todos os particularismos -- como a circunstância de grande parte daquela população viver em extrema pobreza, independentemente dos governos credíveis e amigos das empresas que tem conhecido ao longo das décadas -- são irrelevantes. Há que debitar pela cartilha, com autoridade e voz grossa.
As multinacionais, como não podem deslocalizar o subsolo boliviano, contemporizam, que remédio!, pelo menos até o índio Morales ser apeado ou comprado. Mas, para já, comove vê-las a falar tão fininho...

estampa XLI

Sarah Affonso, Auto-retrato
Colecção particular

quarta-feira, maio 03, 2006

Antologia Improvável #128 - Martins Fontes

ALVURAS

Ofertou-lhe uma túnica um vizinho,
Ampla, de larga roda e alto capucho.
E ele a vestiu, sem lhe notar o luxo,
Grato a essa utilidade e a esse carinho.

E saiu. Mas, na curva de um caminho,
Topa com um velho anão, tardo e gorducho,
Tipo de serviçal, talvez de bruxo,
Que ia à feira vender um cordeirinho.

Logo o Santo lhe diz que trocaria
Sua túnica pelo companheiro
Anho, que, nos seus braços, não balia.

E, unidos por afecto verdadeiro,
Não mais se separaram, nem um dia,
São Francisco de Assis e o seu cordeiro.

I Fioretti

Martins Fontes

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terça-feira, maio 02, 2006

Figuras de estilo #29 - Jorge de Sena

O não ter-se nada em comum, senão as circunstâncias que nos juntam, é que é a verdadeira sujeição mútua.
Sinais de Fogo

Sena

segunda-feira, maio 01, 2006

estampa XL

August Macke, Chapelaria
Folkwang Museum, Essen

Clarinet a la King

Se há coisa de que gosto no Benny Goodman, o proclamado «Rei do Swing» nas décadas de 1930-40, é -- para além das suas qualidades de clarinetista e chefe de orquestra -- aquele ar sempre happy, de quem se sentia bem na sua pele...

Ir estando

Anuncio-me com outro blogue.
Júlio Pomar, Ferreira de Castro
Museu Ferreira de Castro, Sintra

Boas maneiras