quinta-feira, julho 02, 2026

o que está a acontecer

«É um barco sério e sisudo que não se mete nessas andanças. / Assim vamos de todo o nosso vagar contemplando este majestoso e pitoresco anfiteatro de Lisboa oriental, que é, visto de fora, a mais bela e grandiosa parte da cidade, a mais característica, e onde, aqui e ali, algumas raras feições se percebem, ou mais exactamente se adivinham, da nossa velha e boa Lisboa das crónicas.» Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (1846)

«O povo, esmagado debaixo do peso dos tributos, dilacerados pelas lutas dos bandos civis, prostituído às paixões dos poderosos, esquecera completamente as virtudes guerreiras de seus avós.» Alexandre Herculano, Eurico o Presbítero (1844) 

«Quinta-feira, -- noite de cabriolas com sobrescrito à fina sociedade. Enchente certa no Circo. De cada lado do portal da entrada, um semicírculo compacto de gente se agitava, tendo por centro cada um seu postigo de bilheteiro, e ambos por igual coitados, premidos sofregamente contra a parede verdoenga do barracão, e arredondando pela rua fora, numa irregularidade gritada e confusa, a toda a largura do macadam.»  Abel Botelho, O Barão de Lavos (1891)

1 comentário:

Manuel M Pinto disse...

«Tendo nascido em 1525, dão-no os seus biógrafos-panegiristas como matriculado num dos colégios de Santa Cruz, sem dizer qual, com a idade de doze anos. Já neste cálculo os dados são falseados a favor da demonstração. De modo geral, aprendia-se tarde a ler e a escrever. O ensino do alfabeto à saída da puerícia é prática moderna. As inteligências do tempo caracterizavam-se pelo serôdio com que desabrochavam. Rompia-se a estudar lá para os quinze anos, ao dobrar da meninice para a puberdade, quando a voz começa a engrossar e os pelitos ruços apontam no lábio. Mulheres que soubessem ler e escrever eram raras. E essas seguiam o caminho que desemboca no claustro. A infanta D. Maria, irmã de D. João III, aprendeu gramática em obediência à conjura maquiavélica do monarca que tratou de cultivar na pobre uma virago. Se estudou latim com o Rev. João Soares, foi para melhor poder compenetrar-se da ciência mística dos doutores da Igreja e particularmente das Santas Escrituras. Declara-o com toda a lisura o seu candidíssimo biógrafo.»
 Aquilino Ribeiro, "Luís de Camões - Fabuloso*Verdadeiro". Ensaio (1950)