«Quem sabe, amor, onde o amor se fere?»
Cuidar dos Vivos (1963)
conservador-libertário, uns dias liberal, outros reaccionário. um blogue preguiçoso desde 25 de Março de 2005
«Quem sabe, amor, onde o amor se fere?»
Cuidar dos Vivos (1963)
«Os ventos sibilam roucos / a hora da nossa hora.»
A Vigília e o Sonho (1951) - «Sonetilho velho e actual»
«Naqueles três miúdos que brincam junto a um monte de urze, julgo reconhecer-me a mim e aos meus irmãos. Nas duas sombras que declinam mais à esquerda, parece que distingo o perfil curvado do meu pai e o semblante severo da minha mãe. Na figura debruçada sobre os declives pedregosos da encosta, o recorte de um livro na mão, reconheço Ernest e o seu hábito de venerar a paisagem.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)
«Durante a guerra com o "outro, com o pedreiro-livre" mandava recoveiros a Santo Tirso, a S. Gens, levar ao rei fiambres, caixas de doce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retrós atochadas de peças que ele ensaboava para lhes avivar o couro.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)
«A postura de abatimento que lhe tomara o corpo, o olhar melancólico, fito nas orelhas do macho, a indiferença, a taciturnidade ou o manifesto mau humor, que nem as belezas e acidentes da paisagem natural conseguiam já desvanecer, o obstinado silêncio que apenas de quando em quando interrompia com uma frase curta mas enérgica, com uma pergunta impaciente sobre o termo da jornada, contrastavam com a viveza de gestos e desempenado jogo de membros do pedestre, com a sua torrencial verbosidade, a que não opunha diques e com as joviais cantigas e minuciosas informações a respeito de tudo, por meio das quais se encarregava de entreter e ao mesmo tempo instruir o seu sorumbático companheiro.» Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais (1868)
Sim, atira-se tudo ao Sócrates -- é tão fácil, não é? E ninguém quer passar por parvo. Todos topamos o gajo, manobras dilatórias, etc. Ontem num canal qualquer, um jornalista (!) espumava de raiva por a terceira advogada ter renunciado à defesa do ex-PM. Isto tornou-se uma coisa pessoal, para uns quantos.
E então as burrices, incompetências, manipulações e vigarices da acusação, do espectáculo televisivo inicial até a constituição de megaprocessos de onde não se sairá?
E esta brincadeira de o tribunal dar prazos de meia dúzia de dias para que os advogados de defesa a possam exercer, também não? Para não falar daquele que esteve internado com uma pneumonia, tendo os meretíssimos dado de ombros à convalescença prescrita.
Segundo uns tipos espertíssimos há uma máquina bem oleada que aproveita todas as brechas que as nossa legislação -- normalmente redigidas por tipos que não sabem escrever (ler paleio de advogados & congéneres é de estarrecer). Se calhar até há, tal máquina que leva tudo à frente. E eu pergunto-me, siderado com tanta miséria intelectual: então os advogados não têm um nome na praça a defender? É que se tudo está tudo montado, como espumava o raivoso de ontem, quer dizer que os advogados que aceitam sujeitar-se a tais maquinações têm-se em muito pouca conta e a sua tabuleta não vale um caracol. Mas será mesmo assim?
E quando o Estado tiver de indemnizar Sócrates, sabe-se lá daqui a quantos anos, quem será responsabilizado? Ninguém, é claro; não se pode responsabilizar falecidos nem exonerar ou despedir aposentados.
«O fado é andar doidinha / Perdida plos olhos teus»
Trocando Olhares (póst., 1994)
«Metade da vida, não do meu ser.»
Opus7 / Ofrenda II (1994) - «Soneto dos trinta e cinco anos»
Haverá questões sempre susceptíveis de debate, como "O que é a Ucrânia?"; ou os temas operacionais estratégicos e tácticos: do erro de cálculo e excesso de confiança da Rússia no início da Operação Militar Especial, que rapidamente degenerou em guerra, ao envolvimento no teatro de operações de países terceiros.
O que a História dirá é que esta é mais uma das várias guerras iniciadas sob falsos pretextos, mas que nunca com até aqui houvera uma avalanche de propaganda e desinformação sobre as opiniões públicas ocidentais, nomeadamente europeias, para convencê-las da necessidade do desvio de recursos para "ajudar a Ucrânia" -- e também de tropas, se preciso for --, numa guerra de desgaste que os Estados Unidos decidiram mover à Rússia, usando a população da Ucrânia, e estribando-se no acirrar do nacionalismo radical e neo-nazi local.
Uma guerra que devastou um país, comprometeu o seu futuro próximo, alegadamente liderado por um humorista judeu de língua russa, que se fez eleger presidente assegurando que iria resolver os diferendos com o país vizinho. Muitos dos que enganou e lhe deram o seu voto, estão agora mortos; outros deixaram de ter a nacionalidade ucraniana: ou são russos, ou estão espalhados pelo resto da Europa. O estado do país é catastrófico, a perda de vidas humanas, a troco de nada, ou pior ainda: a troco de menos, é e será insuportável.
A União Europeia pôs-se ao serviço da anterior administração dos Estados Unidos, herdando agora o problema, depois de a política em Washington mudar. Ainda não se sabe o que irá acontecer à UE. mas a sua fraqueza e desunião nunca foram tão visíveis como hoje. Que UE teremos no fim da década? Ainda haverá UE?
O testemunho da chusma de nulidades jornalísticas e académicos medíocres que cobriram este conflito será utilíssimo, quando alguém no futuro vier a elaborar sobre O que foi e o que não foi a Guerra da Ucrânia.
«A árvore sustém na copa de sombra / os ramos que apenas sabem que vacilam.»
Poesia (1961) - «Crepúsculo»
«No dia, entre todos bendito, em que a "Pérola" apareceu à barra com o Messias, engrinaldou a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D. Miguel, tornado S. Miguel, branco, de auréola e asas de arcanjo, furava de cima do seu corcel de Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia vomitando a Carta.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)
«Mas, com o mar colérico ou tranquilo como agora, ventasse rijo ou corresse, à tona, ligeira brisa, o espectáculo seria sempre de surpreender e extasiar, após a viagem desoladora. / No convés lavado de fresco, Juvenal Gonçalves, o busto flectido sobre a amura, ressuscitava a pretérita visão, com tanta pureza emotiva como se, realmente, fosse a primeira vez que ali aproasse um navio.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)
«Depois, já não é a praia nem o mar, é a serra, com os seus socalcos montanhosos, as escarpas verdes semeadas de xisto e de granito. Esvaíram-se as figuras de Natália, de Carolina, da pequena Laura, mas a montanha enche-se de outros vultos.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)
«O que da espada é brilho em nada nos protege.»
A Paixão das Armas (1983) - «Recado (quase prosaico) ao que chegou de Ceuta a manquejar dum olho»
«"Desse Deus-Homem, alto e infinito, / Os livros, que tu pedes, não trazia, / Que bem posso escusar trazer escrito / Em papel o que na alma andar devia.. ["]»
Os Lusíadas (1572) - I-66
Jorge Amado: «Nasci empelicado, a vida foi pródiga para comigo, deu-me mais do que pedi e mereci. Não quero erguer um monumento nem posar para a História cavalgando a glória. Que glória? Puf! Quero apenas contar algumas coisas, umas divertidas, outras melancólicas, iguais à vida. A vida, ai, quão breve navegação de cabotagem!» Navegação de Cabotagem (1992) § Machado de Assis: «E então teve uma ideia singular: -- rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer cousa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra. / -- Quem sabe? Em 1880 talvez se toque isto, e se conte que um mestre Romão...» Histórias sem Data (1884) - «Cantiga de esponsais» § Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano (1973): .../... «Desde que fui informado da detenção do Prof. Moura, procurei inteirar-me de todos os acontecimentos com ela relacionados. É-me assim possível afirmar ser totalmente infundada qualquer acusação ou suspeita de que o Prof. Moura haja sido organizador ou tenha desempenhado qualquer papel na orientação dos actos levados a cabo na capela do Rato.» .../... Cartas Particulares a Marcello Caetano (ed. José Freire Antunes) § Maria Gabriela Llansol: «________________ a viagem que até hoje me trouxe mais paisagens foi o corpo a escrever. Não só mais. Sobretudo indeléveis. / À partida há a folha branca. Na realidade, quando esta se introduz na viagem, há muito que a viagem começou na percepção. Este o seu princípio de real.» Sintra em Passo de Pensamento (póst., s.d.) § Aquilino Ribeiro: «A gente não era falsa a bródios e funções, não só pelo preito que nos mereciam os santos como porque ninguém seria mais amigo de espairecer e folgar. / Ah, velha Barrelas dum sino! Tomara-me eu outra vez com vinte anos e saber o que hoje sei! Diabos me levem se não fosse rei.» O Malhadinhas (1922) § António Ferro: «A Arte é a mentira da vida. / A Vida é a mentira da Arte. / A mentira é a Arte da Vida.» Teoria da Indiferença (1920)
«Só depois de dobadas várias décadas sobre o dia em que Zarco se apossara da terra ignorada, é que o Atlântico se tornara, para os lusos, ser feminino -- Atlântida legendária e de novo virgem, que eles iam deflorando pouco a pouco, sob o impulso da ambição e da glória.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)
«Enquanto o adorável, desejado infante penou no desterro de Viena, o barrigudo senhor corria, sacudido na sua sege amarela, do botequim do Zé Maria em Belém à botica do Plácido nos Algibebes, a gemer de saudades do anjinho, a tramar o regresso do anjinho.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)
«Do plano desviado donde as observo, nenhuma rivalidade lhes perturba os modos brandos e sabe-me bem que assim seja. Agora, uma menina de cabelos escuros brinca sozinha, correndo descalça pela orla da espuma. Às vezes dobra-se, enterra as mãos na areia molhada, espera que a onda venha tocar-lhe os pés.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)
«As estrelas sorriem de escutar / As baladas atrozes / Dos sapos.»
A Cinza das Horas (1917) - «Paisagem noturna»
«Ah! se Deus a seus filhos dá ventura / Nesta hora santa... e eu só posso ser triste... / Serei filho, mas filho abandonado!»
Sonetos Completos (1886) - «Lamento»
Na última semana, a palavra de ordem da propaganda bélica anti-russa, do major-general Isidro à egéria Clinton, é a de inculcar na opinião pública europeia estas duas verdades insofismáveis: 1) a de que os russos são mesmo maus; 2) além de serem maus, militarmente não valem nada -- dois bons argumentos para começarmos a despejar tropas no cemitério ucraniano.
No outro dia, o Isidro dizia no seu espaço de comentário que os russos estavam a levar tanta porrada, mas tanta porrada, que até ficamos admirados como o Zelensky ainda não tomou Moscovo; depois, o Rutte da Nato -- esse tipo que não se reproduz --, a ridicularizar as capacidades militares do inimigo; Hillary, essa esposa exemplar, ataca Trump por causa da Ucrânia; mas o melhor de tudo foi isto: de acordo com os idóneos ingleses (que têm na chefia do MI6 uma neta de um criminoso de guerra ucraniano nazi; a Ursula parece que é só neta de um nazi normal, que foi juiz), de acordo, pois, com os ingleses $ associados, o neonazi Navalny foi envenenado com uma toxina rã-dardo!...
Eu gabo a paciência dos russos (deve ser por isso que eles são tão incompetentes no campo de batalha): têm o Navalny preso no Árctico, e em vez de o matarem ao frio, deram-se ao trabalho de importar veneno de rã do Hemisfério Sul para matar o liquidar à bizantina.
Os russos têm de aprender com os americanos, que suicidaram o Epstein na prisão, na precisa altura em que o circuito interno de videovigilância inexplicavelmente caiu. O que vale é que partilhamos todos os mesmos valores, aqui no Ocidente.
«Hamnet», de Chloé Zao, é mais um título memorável, shakespearianamente falando, na filmografia do Bardo, embora por pouco não resvalasse para o melodrama. A sua intensidade é tal, que acaba por estar ali em cima do muro, tem-te não caias entre o quase sublime e a quase histeria; no fim, aguenta-se e resulta.
A realização delicada e subtil de Chloé Zao recomenda que o vejamos de novo; os desempenhos dos actores -- por vezes em risco de overacting --, em particular a irlandesa Jessie Buckley, força da natureza, um animal de representação; o crescendo do filme, até às fortíssimas cenas finais em Londres, no Globe Theatre.
Porta-aviões americanos ao fundo, e aiatolas pelos ares, caralho...
Seria bonito, ambas as coisas, o pior é o resto.
Hans Christian Andersen: «Voltei, assim, a ver os meus amigos de juventude, com eles e com os seus vivi por um tempo, vi uma parte do seu belo país, que não conhecia e, como a maior parte dos meus compatriotas, tão pouco sabia dele. Eis as recordações, passadas fugazmente ao papel, dessa viagem realizada no ano de 1866.» Uma Viagem a Portugal em 1866 (1868) - trad. Silva Duarte § Génesis: «No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-Se sobre a superfície das águas. / Deus disse: "Faça-se a luz". E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz e às trevas noite.» Bíblia Sagrada (Missionários Capuchinhos) § Leonid Andreiev: «Logo que o seu transtorno mental o afastou do serviço, a esposa de quem se separara, havia quinze anos, julgou-se com direito à pensão do Estado e para fazer valer tal direito, levou a questão para o tribunal; mas perdeu a causa e o dinheiro reverteu para o enfermo.» Os Espectros (1904) - versão de Manuel do Nascimento § Woody Allen: «Havia algo de verdadeiro nos Fitzgeralds; os seus valores eram básicos. Eram pessoas modestas, e quando Grant Wood, mais tarde, os convenceu a posar para o seu quadro intitulado Gótico Americano, lembro-me como ficaram lisonjeados. Zelda contou-me que durante as sessões Scott esteve sempre a deixar cair a forquilha.» Getting Even / Para Acabar de Vez com a Cultura (1966) - «Memórias dos Anos Vinte» - trad. Jorge Leitão Ramos § Simone de Beauvoir: «"Em França, vocês pensam nos problemas sem os resolverem", dizia-me, um dia, um americano. "Nós não pensamos nos problemas: resolvemo-los." / Resumia assim, nesta tirada agressiva, as críticas que em todos os tempos têm sido dirigidas ao pensamento especulativo: este não ajudaria a viver, e distrairia até da vida. É preciso viver.» O Existencialismo e a Sabedoria das Nações (1948) - trad. Mário Matos § Ivo Andrić: «Da ponte estende-se, como um leque, todo o vale ondulante com a pequena cidade de Visegrad e as suas cercanias, com povoações aninhadas nas abas das colinas, cobertas de searas, prados e ameixoais, riscada por muros e sebes e salpicada de pequenos bosques e raros tufos de verdura.» A Ponte sobre o Drina (1945) - trad. Lúcia e Dejan Stanković
«Também eu queria conhecer essa rapariga / estendida ao sol no relvado de um colégio inglês»
Insolúvel Flautim (2023) - «Ruy Belo: a rapariga de Cambridge»
«O que estava para além, não se sabia; lendas e pensamentos estabeleciam cortina espessa, que vinha das alturas do céu, onde se acendiam as luminárias orientadoras, e, golpeando a enorme massa líquida, descia até profundidades abissais, julgadas sem fim. Proa que aspirasse a rompê-la devia ser de caravela onde apenas gesticulassem heróis ou loucos, votados, por livre desejo, à morte.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)
«Na sala nobre da sua casa (à Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do "seu salvador", enfeitado de palmitos como um retábulo, e por baixo a bengala que as magnânimas mãos reais tinham erguido do lixo.» Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (póst., 1901)
«Eu, que nunca fui poeta, não consigo ignorar o encanto docemente melancólico do crepúsculo, quando a noite desce devagar. Natália avança pela praia, os cabelos em rebuliço, a mão em pala sobre os olhos. Carolina aproxima-se pela outra banda, no seu passo inclinado. Quando as trajectórias de ambas se cruzarem, como dois raios de luz convergentes, as duas mulheres hão-de encarar-se sorridentes, segurando os vestidos que o vento quer levantar.» Isabel Rio Novo, A Febre das Almas Sensíveis (2018)
«Pelo mundo procuro um Deus clemente, / Mas a ara só lhe encontro... nua e velha...»
Sonetos Completos (1886) - «Ignoto Deo»
«Eu vi as amantes ensandecerem / com esse peso de Outono. Perderem as forças / com o Outono masculino e sangrento.»
Cuidar dos Vivos (1963) - «Peso de Outono»
«Dias turvos e inconsequentes sucedem / a dias inconsequentes e turvos.»
Mais Tarde (2003) - «Proposição»
Amanhã exercerei o meu direito e o meu dever de votar por -- que é também um voto contra. António José Seguro não foi o meu candidato na primeira volta, mas é-o agora, pois representa a dignidade e a decência -- palavra muito usada, e apropriadamente.
O meu voto terá, assim, um significado humanista, que não significa outra coisa senão a ideia da dignidade intrínseca de todo e cada ser humano como valor único e irrenunciável.
A única política aceitável e decente é a que acolhe e promove os princípios iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade. A liberdade individual como condição absoluta; a igualdade de partida como condição necessária; a fraternidade humana como ideal a perseguir, sempre. Por isso, irei votar com alegria.
«Moram na viela íngreme e cascosa, que revê humidade em pleno Verão, velhas a quem só restam palavras, presas, alimentadas, encarniçadas, como um doido sobre uma coroa de lata que lhes enche o mundo todo.» Raul Brandão, Húmus (1917)
«Juvenal Gonçalves já o surpreendera, assim, de outras vezes. Mas nunca, como agora, o emocionara tanto, fazendo-o reviver a sensação que deviam ter fruído, outrora, os descobridores, ao ver surgir o arquipélago. Até então, o Atlântico ainda era para os portugueses um elemento masculino, fero e enigmático.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)
«Essa imagem não se ajustava à impressão que eu sentia. Quase no fim da Avenida, tinham os pardais ficado há muito para trás e ainda eu perseguia a ideia rebelde. "Absurda mania", disse comigo, fincando a bengala no passeio. E com imensa surpresa vi-me em frente da casa dos Albalongas.» Francisco Costa, A Garça e a Serpente (1944)
«O desejo o horror o terraço a cratera / E ao fundo no fundo mais lúcido das águas»
Opus 7 / Oferenda II (1994)
«Que, transformando-as enfim, o amor das palavras / não corrompa e destrua o amor da verdade.»
O Corpo de Atena (1984)
ou seja: guitarra, trompa, violino, trombone (de uma entrevista de Pedro Caldeira Cabral ao DN de hoje).
«E lançando de meus braços o desejo / não invejo / admiro / a sufocante beleza deste ocaso»
Rilkeana (1999) - «Wer, wenn ich schriee»
«cada vez mais azul onde o azul clarece em azul»
Turvos Dizeres (1973) / A Pequena Pátria (2002)
«Aves nos pulmões do vento. Vão distantes / da verdade. Acendem, por onde vão, palavras, / cidades.»
Luz Triste (2005)
«Ràpidamente, atravessei as paralelas sombrias da Baixa, e, mais além, na Avenida da Liberdade, vendo o passeio oriental ainda morno de sol, achei ilógico subir pelo outro lado. Por cima de mim, os cachos de pardais enegreciam os troncos seminus, produzindo uma chilreada compacta. Dir-se-ia emanar das próprias árvores, pensei. Mas logo franzi o nariz. Não. Era outra coisa.» Francisco Costa, A Garça e a Serpente (1944)
«Moram os que enriquecem no fundo das lojas, onde as fazendas petrificaram. Mora aqui o egoísmo que faz da vida um casulo, e a ambição que gasta os dentes por casa, o que enche a existência de rancores e, atrás de ano de chicana, consome outro ano de chicana.» Raul Brandão, Húmus (1917)
«Era vulto apardaçado nos extremos, erguendo, algures para o céu, um mamilo vulcânico e deixando que a sua encosta central se doirasse, suavemente, na luz matutina. Visto de longe, a medrar, a medrar parecia recém-nascido no mistério oceânico, para enlevo de olhos fatigados pela monotonia marítima.» Ferreira de Castro, Eternidade (1933)
Segue-se a norma adoptada em Angola e Moçambique, que é a da ortografia decente.