quinta-feira, agosto 15, 2019

a crise energética, como eu a leio

De férias e sem televisão, e só agora com net no domicílio estival, não tenho visto tudo sobre a greve; mas o que li nos jornais e ouvi na rádio possibilitam-me escrever o seguinte:

1. O que parece incontroverso: o descontentamento elevado dos motoristas de pesados, em especial os das matérias perigosas, daí a forte adesão a esta greve.

2. Ordenados mínimos para estes trabalhadores, com extras pagos por baixo da mesa, de acordo com as notícias; ou seja: em baixa médica ou reforma, o trabalhador vence pelo mínimo. Além disso, fuga aos impostos por parte dos patrões.

3. Ao anunciarem uma greve por tempo ilimitado,  os dois sindicatos estão a dar um passo maior que a perna. Obviamente que o estado não pode ficar de braços cruzados em questões estratégicas. Crítica ainda aos sindicatos, por darem pretexto ao governo por exercer a maior limitação alguma vez vista ao direito à greve.

O que me leva à questão política: o PSD tem razão quando denuncia a dramatização do governo; no entanto essa oportunidade foi concedida de mão beijada a António Costa pelos sindicatos grevistas, não só porque a greve é impopular (a maralha está sempre pronta a reclamar, mas, quando mexem com os seus interesses, endossa sempre a autoridade), como ainda não se apagou da memória a nódoa dos fogos de 2017, de que obviamente não foi o principal 'culpado', mas não se pode eximir à responsabilidade pela actuação da Protecção Civil.

A forma como se procurou matar a greve no ovo foi um golpe de génio, dirão alguns. Sim, temos um primeiro-ministro que é um habilidoso, um verdadeiro artista, como diria o outro; mas estas habilidades são dispensáveis e lesivas de uma vida democrática sã. Não é porém de agora, nem deste governo, mas não deixa de ser nauseante assistir ao cerceamento de um direito fundamental por parte do executivo da Geringonça. Não há-de a direita estar desorientada e em decomposição...

Verifico que é um sindicato da CGTP que esvazia a greve. E talvez com ganhos de causa, o que lhe dará alguma razão. Isso os especialistas dirão. Mas não deixa de ser curioso.

Finalmente, não tenho opinião formada sobre Pedro Pardal Henriques. Está na linha de fogo, inevitàvelmente. Se, como por aí se diz, vier a tornar-se candidato às legislativas por um partindúnculo qualquer, mostrará que não passa de um aventureiro e um espertalhão. No entanto, merece o benefício da dúvida, como qualquer pessoa. A circunstância de ser filho e irmão de motorista, também não é indiferente. Mas, centrar o problema neste indivíduo é querer fazer dos outros parvos, pois a questão essencial, com ou sem Pardal Henriques, está lá em cima, no ponto n.º 1.

P.S. (21-VIII): a candidatura confirma-se, por um partido sem credibilidade. São dois descréditos em um.

6 comentários:

Jaime Santos disse...

Pardal Henriques tem contra si a atitude provocatória e ostentatória (um campeão da classe operária que anda de Maserati alugado) e um curriculum duvidoso, com uma acusação de burla a um empresário francês que está a ser investigada pela PGR e uma condenação passada por insolvência culposa.

Pior, fica a pergunta, porque é que se o Sindicato filiado na CGTP consegue dialogar com a ANTRAM e com ganhos de causa, pelos vistos, o SMMP avança com uma greve por tempo indeterminado (!) na altura em que esta provoca os maiores estragos à Economia do País e quando se tinha comprometido a manter o processo negocial até Dezembro? É capaz de ter alguma coisa a ver com as eleições, como admitiu o próprio Pardal Henriques.

O Governo pode mostrar algum chico-espertismo, mas compete-lhe defender o interesse colectivo e não o de uma classe em particular, até porque o PS é, como sempre foi, um Partido Interclassista, mau grado o 'Socialista', que há muito não significa nada (o PS nem sequer é hoje Social-Democrata, bem vistas as coisas). Aliás, se fosse um Partido da classe operária, eu não votava nele, porque não sou membro dessa classe...

Dito isto, tem razão relativamente ao problema fundamental, a degradação do sindicalismo e a perda de poder de negociação dos trabalhadores, algo promovido alegremente por todos os Governos desde 1976, com a subsequente perda de direitos. Um dos problemas do nosso tempo e causa parcial do aparecimento de movimentos do tipo 'coletes amarelos', ou do Brexit e da eleição de Trump é precisamente a perda de dignidade pelo trabalho de muitos 'blue-collar workers' (e também white-collar, a 'Gig Economy' é a Economia do Biscate sem Garantias e sem Direitos).

Só que não basta ter razão, é preciso não a perder num minuto. E aí a gestão política da crise pelo Sindicato revelou-se manifestamente desastrosa (até agora).

Ricardo António Alves disse...

E se for candidato por um partido, desmascara-se. Quanto ao Maserati, não tenho nada contra, pelo contrário.

O aproveitamento eleitoral, todos o fazem, a maioria com despudor. A greve por tempo ilimitado, é o tal passo maior que a perna.

O PS é um ketchup party, tendência molho rosa.

Sim, parece ter havido um erro de cálculo, ou a subestimação de Costa, o que vai dar no mesmo. ;as é como diz, pelo meno "até agora".

Jaime Santos disse...

Não sei o que seja um 'ketchup party' :), talvez uma variação do 'catch-all party', coisa que o PS é, sem dúvida, pelo menos desde Guterres...

Aproveitamento político todos fazem, tem toda a razão, aliás fazer bem política implica que se aproveitem as oportunidades.

O problema é o julgamento desse aproveitamento, em especial nesta altura, e ele não tende a ser bom para o SNMMP.

Já sei que se uma greve não provocasse transtorno, não se faria porque não seria eficaz. Mas isso não nos obriga a sermos masoquistas, apenas a respeitar o direito de quem a faz a fazê-lo...

As reivindicações podem ser justas, o método é que foi muito mal escolhido... Em particular, quando outros parecem levar a sua avante negociando...

O meu caro pode gostar de Maseratis (e está no seu direito), a maioria dos Portugueses é que não gosta especialmente de ostentação, em particular daquela que depende de dinheiro emprestado, o que soa a fanfarronada de quem a seguir vai tentar vender banha da cobra (e Pardal Henriques parece ser algo dado à efabulação). Trump em Portugal teria que mudar de estilo.

Os Portugueses são pobres e desconfiados. Salazar sabia-a toda quando cultivava a imagem de um homem poupado e nada dado a luxos (o que parece que era verdade, mas só no caso dele).

Confesso que prefiro a atitude portuguesa (chamem-na miserabilista ou salazarista, que eu não me importo :) ) do que a americana (que redunda no lamber de botas a quem parece ter dinheiro e poder)...

Se Pardal Henriques tivesse militância partidária conhecida, até seria bom que houvesse mais um sindicalista na AR. Há vários, julgo que nenhum do PS, o que é uma vergonha para um Partido que ainda se chama de 'Socialista'... O problema é, como diz, se a sua participação na greve enquanto figura de relevo for percecionada como um aproveitamento pessoal...

Ricardo António Alves disse...

Respondia-lhe ontem, quando a internet cai por entre os montes onde estou...

Para não repetir tudo, direi que o defeito com o Maserati é não ser dele. Quanto ao resto, a luta parece que continua.

Jaime Santos disse...

Pois, parece que continua, agora de gravata e de trotinete, mas sem o Maserati... Henriques aí parece ter aprendido alguma coisa. Quanto à retórica, nem por isso...

Ricardo António Alves disse...

Entretanto, a candidatura confirma-se. Vou fazer um PS...