quinta-feira, julho 26, 2018

o activismo da idiotia, ou a História pensada como 'talkshow'

Chamaram-me a atenção para uma entrevista de Nicholas Mirzoeff, um activista visual. Nem tudo o que o homem diz é estúpido, por certo. Faz-me, no entanto, lembrar a conversa  do Marcelo Caetano, creio, para um aluno que lhe apresentara uma tese, e em relação à qual o professor terá dito: "a sua tese tem coisas boas e originais; as que são originais não são boas e as que são boas não são originais."
Assim a conversa do activista, que, em relação ao que lhe será original, provoca mais do que um simples esgar de enjoo: a evidência da propagação, já não dos "conhecimentos úteis", como queriam as sociedades operárias do século XIX, mas do insidioso e mais do que larvar pensamento totalitário.   

7 comentários:

Nome sem direito disse...

Gostei do mote que esta sua publicação sugere.
Gosto do original, leia-me, visão nova como "provocação" para me fazer a propósito dela, pensar e recombinar o que já antes tinha recombinado.
Quem se recombina novo, se o fizer de mente aberta, não precisa de saber ou validar-se préviamente como estando certo.
Basta que acredite na dúvida da nova conclusão.
Original e certo, no sentido que disse antes, são, coisas diferentes em que o certo não deve castrar o pensado.
O original surge no benchmarking do que constatamos depois, existir.
Certo, fá-lo-emos todos a sabê-lo e a não o ter em conta como validação ou chumbo.
Gosto de quem pense sobre as coisas, por si.
Razão nunca terá, que, pensar e razão são inimigos.
Certo, não interessa que os dias e as gentes, farão como a areia e as marés fazem praias.
Uma boa tarde para si.

Jaime Santos disse...

As propostas do dito ativista fazem-me lembrar o Fahrenheit 451 de Bradbury. Já que os conteúdos da arte ou da literatura são normalmente ofensivos para alguém, tratemos de as banir e de as substituir por talk-shows cheios de platitudes...

A polémica em torno da questão do museu das 'Descobertas', que seria uma excelente ocasião para discutirmos as História da Expansão Marítima e sobre a necessidade de pôr em relevo igualmente os crimes dos Europeus (antes de tudo porque são uma parte central dessa mesma História, não uma nota de rodapé, tratou-se também de um projeto de conquista), ameaça ser reduzida ao ridículo por contribuições como a deste indivíduo...

Ricardo António Alves disse...

Nome sem direito, obrigado pelo comentário, e concordo consigo em que o pensar nunca se contenta.

Jaime, activismos em História só por razões maiores, de resistência, por exemplo; mas já não será História, mas propaganda. Vejo neste activismo excomungatório uma linha recta paralela à que vai do talibã aos budas de Bamyan.

Jaime Santos disse...

Não sei se o que escrevo sobre estas matérias, Ricardo, deve ou não ser considerado ativismo, nem isso me interessa nada, até porque o qualificativo de 'ativista' adquiriu uma conotação algo negativa entre algumas pessoas a quem a defesa de certas causas desagrada.

Estou como o saudoso Nuno Brederode dos Santos. Não sou analista isento, porque não sou nem analista nem isento. Sou um leigo minimamente informado (acho eu), eis tudo.

Reconheço aos profissionais a capacidade de emitirem opiniões qualificadas (algo que eu não posso fazer), mas não acredito em supostas leituras objetivas da História. Se contra factos não há argumentos, os primeiros são legião, pelo que a sua relevância e depois a sua interpretação derivam necessariamente, pois claro, da ideologia de quem faz a sua triagem e posterior interpretação. E isso deve ser reconhecido com toda a transparência.

Não me esqueço que um imenso rol de ideologias, do racismo, ao socialismo marxista, ao neoliberalismo (de lembrar o 'pessoas racionais em posse da mesma informação chegam às mesmas conclusões' do Economista Cavaco Silva, a mostrar em toda a plenitude a sua falta de formação humanista) foram ou ainda são apodadas pelos seus defensores como 'científicas'. E nesse cientismo também se esconde uma intenção totalitária...

Portanto, esta polémica teve uma utilidade, trazer para a luz do dia um conjunto de factos desagradáveis sobre a Expansão Portuguesa, tão verdadeiros e relevantes (na minha modesta opinião) como a dobragem do Bojador, o desembarque em Calecute ou as obras de Pedro Nunes e que eram perfeitamente conhecidos pelos Historiadores, claro, mas cuja discussão pública provoca sempre urticária e isto não é de hoje (basta lembrar a controvérsia entre Eça e Pinheiro Chagas referida pelo Afonso Ramos no 'Público').

Eu considero que o meu amor-próprio como Português (que é seguramente bem menos importante que a afirmação da verdade histórica) não fica nada afetado pela revelação de tais factos, pelo contrário, porque a sua discussão, mesmo que acalorada, fora dos círculos de especialistas, revela que talvez este País esteja a chegar à idade adulta e a preocupar-se mais com o que é e pode vir a ser do que a tentar definir-se pelos feitos grandiosos (alguns) dos seus vetustos avôs...

Ricardo António Alves disse...

Todo o activismo é não só legítimo, como salutar, desde que não colida com a liberdade individual nem polua o ambiente -- e quando falo de poluição é o da utilização para outros propósitos que não sejam, no caso da História (ou de outro qualquer, creio) o de procurar, tanto quanto for humanamente possível, a uma aproximação do passado.

É positivo a História estar em discussão, mas eu estaria mais de acordo consigo se tudo o que esteve em cima da mesa não tivesse sido mais do que discutido, mastigado e remastigado, mesmo para um público não-especialista (eu cá não sou especialista nenhum em Descobrimentos e Expansão), mas tão-somente interessado.

Como sabe, não sou nada nacionalista, aliás abomino o nacionalismo; no entanto, não defendo que não se deve deixar sem resposta indivíduos, sobretudo se 'activistas', que não percebem um boi do que estão a falar (porque obviamente não estudaram), mas leram e ouviram dizer umas coisas, vêm, e em efeito de manada -- onde imperam, em doses diferentes, sectarismo, cobardia (seguir os mestres), oportunismo (idem).

Portanto, da minha parte, não há aqui nenhum amor-próprio ferido, apenas aversão à intrujice e ao charlatanismo. Nunca tive especial orgulho em ser português, se bem, que, devo confessá-lo, desde há uns anos (talvez coincidindo com a intervenção da troika -- hei-de pensar nisso), tenha começado a achar mais interessante sê-lo. Mas sempre cosmopolita e aberto aos outros. Aliás, uma das coisas que acho mais curiosas na minha genealogia é a mistura étnica (celtas, berberes, escravos africanos, quem sabe pessoal do Lácio, que para aqui veio há muitos séculos...).

Quanto ao seu último parágrafo, para além de ser discutível (e tem interesse ser discutido) saber que tipo de futuro é possível no desconhecimento do passado; você incorre em dois erros, que são mais comuns do que eu esperaria, e talvez expliquem o diálogo de surdos que caracterizou este debate nos media: em primeiro lugar, salvo em meia dúzia de 'activistas'de extrema-direita, a História não se estuda para conhecer os tais feitos grandiosos; esses são quase todos razoavelmente (des)conhecidos por um povo mantido na ignorância; a História estuda-se, quanto a mim, por duas razões: em primeiro lugar, porque sim, está lá, foi de onde viemos; em segundo lugar a História ajuda-nos a perceber o presente e, aos mais avisados ou escrupulosos, tratar do futuro, pois se a História nunca se repete, o ser humano é sempre o mesmo.

O outro erro -- que tem a ver com uma mitografia que vem de trás, da nossa decadência enquanto estado e do aproveitamento político dela -- é a ideia, em particular no que toca à Expansão e aos Descobrimentos, de que se trata da história do Vasco da Gama, do Pedro Álvares Cabral, do Afonso de Albuquerque ou do Fernão de Magalhães. Não, trata-se da história do povo português e de outros povos com que contactou, como todo o seu cortejo de feitos e reveses, e do esforço da nação e dos abusos e desafios que ela sofreu em todo o processo.

Jaime Santos disse...

Está a ler mais do que eu escrevi, parece-me, porque limitei-me a fazer uma constatação da forma como nos comportámos durante séculos em relação à nossa História, não defendi que ela deva servir para glorificar o Passado ou muito menos que deva ser simplesmente ignorada.

O que disse é que talvez estejamos a conseguir ultrapassar a primeira atitude, esperando eu evidentemente que não se caia agora na segunda.

Sei bem que a História também se estuda não para dar conta dos feitos passados, mas para saber de onde viemos e como lição para o Presente e o Futuro, embora a sua principal função seja, como empresa científica que é, pôr simplesmente a descoberto o Passado.

Mas isto sem ilusões sobre a existência de uma versão objetiva dela (passa-se o mesmo em Economia, é também por isso que estas Ciências ocupam m lugar tão central na discussão política).

Sucede que, como você muito bem diz, aquilo que é normalmente do (des)conhecimento geral são apenas os ditos feitos.

O resto, que é a mais das vezes tragédia, como é normalmente toda a empresa humana, não só é desconhecido como quando é revelado e discutido é-o normalmente sob o signo do insulto ou da falácia argumentativa.

E não creio que sejam apenas as pessoas da Extrema-Direita que assim falam, lamentavelmente. Vá ler, por exemplo, a crónica de Sousa Tavares, insuspeito de tais simpatias, esta semana no Expresso, onde ele acusa aqueles que levantam a voz, bem ou mal, contra o proposto museu das Descobertas, de quererem agora proibir o ensino da História.

Parece-me que generalidade das pessoas simplesmente não aguenta a constatação que a mais das vezes somos infelizes e fazemos os outros infelizes. É uma reação natural e mais primária do que qualquer reflexo nacionalista, acho eu... O Progresso Tecnológico e Moral (menos) que apesar de tudo registamos atua como uma espécie de lente cor-de-rosa sobre um caminho pejado de cadáveres...

Mas não ouvi ninguém, salvo talvez pessoas como este senhor que referiu, defender a proibição do ensino da História, meramente que dado que o termo 'Descobrimentos' é ele próprio um termo carregado historicamente, se calhar seria melhor não o utilizar.

Mas se houver suficiente informação sobre questões como a Escravatura, ou sobre a conquista da Índia, ou sobre a destruição das Índias Ocidentais num futuro museu das Descobertas, ou do Mar, ou o que lhe queiram chamar (como deve haver em relação ao resto), eu serei o primeiro a admitir que ele terá utilidade...

O que não sei é se será fácil, pelo exemplos que temos tido, pôr em relevo tais questões...

Ricardo António Alves disse...

Sim, Jaime, sei que não defendeu, mas, como sabe, há quem defenda, e até com boas intenções.

Hei-de ler o MST, logo que o Expresso deixar.

Quanto ao que defende, nem eu nunca -- nem qualquer pessoa séria, nem precisa ser historiador -- defenderá outra coisa.

Eu creio que a haver tal museu -- nunca me pronunciei sobre a pertinência dele, mas acrescento aqui que sou desfavorável à ideia --, ao contrário será até bastante fácil. O chamado grande público não é parvo; do que não gosta é de exageros ou distorções anacrónicas. como é, por exemplo a mistura -- não se se mal intencionada ou simplesmente ignorante -- de misturar os Descobrimentos e a Expansão com o colonialismo -- seria como dizer que o D. Afonso Henriques está na origem, por exemplo, do Salazar, o que não sendo uma falsidade absoluta é abstruso.